S.H.I.E.L.D.: Guerreiros Secretos (Marvel 717 2)
26 Ondas de Fúria
Estava escuro. Às vezes, Theo conseguia discernir sons ao seu redor. Vozes. Reconheceu Bobbi e Yo-Yo, e entendia o que elas estavam falando até certo nível — dois tiros, muito sangue, faça pressão, Piper está bem? —, mas não conseguia responder. A energia necessária para formar qualquer frase em sua mente e depois externá-la não existia. Depois de um tempo, a semiconsciência de Theo terminou de se esvair e ele apagou de vez.
Havia silêncio quando se deu por si de novo, mas não era absoluto. Apenas um apito sequenciado o fazia companhia agora, onde quer que estivesse: pi, pi, pi, pi… Ele franziu a testa, ainda sem abrir os olhos, enquanto aos poucos detectava onde estava e o que estava acontecendo. Aquele apito consistente era um monitor cardíaco. Estava deitado, conseguia sentir, e aos poucos se deu conta também de algo enfiado em seu pulso e outra coisa debaixo de seu nariz.
Estava internado. Tentou se lembrar do que teria acontecido; gemeu baixinho, sentindo um desconforto absurdo na altura do abdômen, e devagar, suas memórias foram voltando. Armazém. Agentes. Computadores. Agnes.
Agnes. O coração de Theo acelerou, e os apitos no monitor cardíaco se intensificaram. O garoto viu em sua frente o sorriso sádico no rosto dela enquanto atirava nele, sem nenhum nível de pena ou humanidade. Poderia ter morrido. Devia ter morrido. Suas mãos começaram a tremer e ele lutou para abrir os olhos, seu corpo se agitando em um estado de fuga e resposta.
— N-não… Por favor… — ele murmurou, lutando para abrir os olhos, mas ainda encontrando muita resistência de seu próprio corpo para tal.
De repente, sentiu mãos tocarem seu braço. Ele tentou puxar o braço para longe, mas seu corpo ainda não o reconhecia muito bem, então acabou não se mexendo muito antes de ouvir uma voz amigável e familiar o chamando: Niko.
— Theo? Theo, é a Niko, consegue me ouvir? Está acordado?
Conseguia? Sim. Ele gemeu outra vez, assentindo com a cabeça e virando a mão, procurando o braço ou a mão de Niko para segurá-la na sua. A garota devia ter entendido seu pedido mudo, pois segurou a mão dele logo em seguida.
— Você está bem — ela disse. — Está seguro, no Farol. Estou aqui com você. Respire fundo…
Niko. Farol. Segurança. Ele começou a respirar fundo, acompanhando uma contagem feita pela amiga e agradecendo o tubinho de oxigênio passando debaixo do seu nariz e servindo de ajuda. Gradativamente, os apitos do monitor cardíaco foram se acalmando, e ele conseguiu, enfim, abrir os olhos.
Levou alguns segundos para reconhecer onde estava. Era a cama de uma das cabines médicas da base, e como tinha deduzido, estava conectado a um monitor, um tubo de soro e a um balão de oxigênio. Ele girou a cabeça, olhando em volta devagar e reconhecendo aos poucos a parede, o símbolo da S.H.I.E.L.D. pintado em uma das portas de vidro, e Niko, sentada ao seu lado com um lenço azul claro na cabeça e coberta de joias douradas. Foi como olhar para um anjo da guarda. Ou uma deusa.
— Niko… — ele chamou, tossindo em seguida. Queria perguntar muitas coisas, mas sentia a garganta e a boca secas, o pescoço dolorido e o corpo lento. Talvez estivesse dopado com algum medicamento. Explicaria muita coisa.
A garota se levantou, pegando um copo de água com canudinho em uma mesinha ao lado da cama e o segurando para ele beber. Theo agradeceu os goles, sentindo a boca e a garganta se revigorarem ao menos o suficiente para poder falar. A sensação de ressecamento não era nada agradável.
— O que aconteceu? — Perguntou, a voz saindo ainda rouca e frágil. Não se sentia tão bem para falar muito, mas poderia ouvir.
— Agnes atirou em você. Se lembra disso?
Sim. Lembrava muito bem. Muito vívido. Até demais. Ele afirmou com um gesto de cabeça, e Niko continuou.
— Depois disso, Bobbi e Yo-Yo prestaram os primeiros socorros no local. Hunter e Yo-Yo venceram a batalha no local e depois te levaram para a base mais próxima, em Lyon, para poder te dar os cuidados necessários. Isso faz três dias. Você se machucou bastante, Theo… É uma sorte estar vivo… Eu pensei que… Pensei…
Niko parou, engolindo em seco e levando as mãos aos olhos para enxugá-los em um gesto rápido e discreto. Theo sentiu um embrulho no estômago. Tinha chegado tão perto assim de morrer? De repente, ele pensou em todos os assuntos pendentes na Escócia, em seu relacionamento não resolvido com Damon, em sua relação afastada com sua família extendida… Seu coração saltou mais uma vez, agora breve o bastante para o monitor não pegar.
— Depois da cirurgia — Niko continuou — te mantiveram lá por dois dias antes de acharem seguro te mandar pra cá. E então estivemos esperando você acordar.
Theo abaixou o rosto, olhando para o próprio abdômen onde agora havia um curativo, pouco acima do umbigo. Dois tiros. E estava vivo. Como? Tinham precisado de um mutante para curar Damon em uma situação parecida… Mas Damon tinha tido sua cura atrasada pelo terrígeno, não? Talvez não pudesse comparar as coisas.
— Eu estou bem? — Ele perguntou, enquanto seu cérebro ainda fazia um esforço para entender tudo o que tinha acontecido e supor qual seria a sua situação atual. Estava vivo. Estava seguro. Mas algo ainda parecia errado, e não sabia dizer exatamente o quê, sua mente flutuando de leve enquanto tentava buscar um foco e respostas específicas.
— Você está vivo — Niko respondeu, e Theo virou o rosto a tempo de vê-la morder o lábio por um breve instante. Conhecia aquela expressão.
— Mas… — respondeu, sabendo que o “mas” existia. E não estava gostando nada da expressão no rosto de Niko.
Ela pegou um tablet em cima da mesa de canto e mexeu um pouco, procurando por algo.
— Não houve nada que a gente pudesse fazer na hora… — Ela disse, abrindo uma imagem e virando o tablet para Theo. — Eu faria se houvesse. Eu juro. Mas...
Niko parou de falar e Theo pegou o tablet das mãos dela, olhando para a imagem aberta na tela. Era uma radiografia, e ele encarou a imagem por alguns instantes tentando interpretar o que estava olhando. Nunca tinha sido o melhor aluno em biologia, mas mesmo ele sabia apontar para as costelas ou a coluna e saber do que se tratava, motivo pelo qual achou tão estranho o espaço vazio entre duas vértebras.
Então ele entendeu o que estava vendo. Ele abaixou o tablet, olhando para o curativo acima de seu abdômen, e depois para suas pernas. Theo passou por alguns segundos de letargia nos quais seu cérebro pensava “levante-se, é só levantar”, mas foi assim que percebeu como apesar de estar, sim, um pouco dopado de anestésicos, isso nada tinha a ver com a sensação estranha — ou a falta dela — da cintura para baixo. Não conseguia mexer as pernas.
— Niko — ele falou, a voz soando clara e direta, afinal, era óbvio, havia algum tipo de engano. — Não consigo mexer as pernas.
Niko respirou fundo, fungando, e Theo percebeu que ela estava tentando se impedir de chorar.
— Olha pra mim — ela pediu, erguendo o queixo e levando a mão ao rosto de Theo, virando-o para si. — Nós vamos dar um jeito, ok? Nós vivemos num mundo onde pessoas voltam da morte. Isso não é nada. É só uma questão de descobrir como corrigir. Prótese tecnológica, amigo mutante do Damon, Kamar Taj… Não importa. É igual um braço quebrado. Você não pode usar até a gente arrumar, mas vamos arrumar, ok? Eu prometo. Eu prometo com tudo que eu tenho de sagrado nessa vida.
Ele abaixou os olhos para as próprias pernas de novo, e então de volta para a radiografia. Como um braço quebrado? Não era o que parecia. Entendia o que Niko queria dizer, e por mais sentido lógico que fizesse, sua cabeça dava voltas, uma atrás da outra, e de repente quis vomitar. Não sabia se tinha a ver com seu emocional ou com o soro ligado no pulso, mas era o que queria fazer.
— Tem um balde aí do lado? — Ele perguntou, sentindo os olhos lacrimejarem enquanto sua cabeça tentava ignorar o que estava acontecendo. Não conseguia e não queria processar.
Nico tirou uma lata de lixo de baixo da cama, entregando-a para Theo. Ele segurou a lata, mas não conseguiu vomitar de verdade. Talvez não tivesse nada no estômago.
Agnes. Agnes tinha feito isso. Tinha tentado matá-lo. Era um milagre estar vivo, não é? Estava vivo. Tinha de focar nisso. Não pensar em outra coisa, não pensar na consequência. A consequência corrigível, importante ressaltar, pois sim, era um mundo cheio de mistérios. É claro que podiam consertar. Seria um porre, mas podiam, não é? Não podiam? É claro que podiam. Tinham de poder. Agnes não ia sair vencedora. Não podia deixar aquela vagabunda lazarenta escapar. Theo sentiu o sangue começar a ferver, e uma onda de fúria a qual não sentia desde seu tempo nos Purificadores começou a engolir seu sangue.
Ia matá-la. Caso se curasse… Não. Quando. Quando se curasse, se a visse em sua frente, ia matá-la. Suas mãos tremiam segurando a lixeira e ele já não sabia mais se queria chorar, xingar, se ficava triste, enfurecido ou as duas coisas. Ela tinha tentado matá-lo por causa de uma bosta de um pendrive que muito provavelmente só teria um monte de baboseira encriptada. Não era como se ela não tivesse cuidado de proteger…
Proteger…
Theo devolveu a lixeira para Niko às pressas, percebendo estar de camisola de hospital na cama. Suas roupas não estavam por ali em nenhum lugar.
— Niko, cadê minhas botas?
— Suas botas? Acho que no seu bunker, Bobbi as tirou para te socorrer no avião.
— Preciso delas. Agora, por favor!
Não sabia se Niko entendia o tamanho de seu nervosismo, mas talvez ela não quisesse discutir com um garoto enfermo numa cama de hospital. A garota saiu do quarto, e Theo precisou esperar alguns minutos antes que ela voltasse com todo o equipamento dele, jaqueta, roupas e… botas.
Theo as pegou das mãos de Niko, apressado, enfiando a mão dentro do pé direito e começando a tatear o fundo do sapato, procurando, esperançoso, e sentindo um alívio do tamanho de um hipopótamo quando seus dedos se fecharam ao redor de um pequeno objeto de metal. Ele sorriu, puxando a mão de dentro da bota e a abrindo para mostrar o item para Niko.
— Não acredito! — Ela exclamou, pegando o pendrive das mãos de Theo. — Isso é…
— Sim. Tudo que conseguimos extrair dos computadores da base de Agnes. É provável que tenha sido destruído por vírus, ou esteja muito encriptado… Eu não sei qual código entre o da Daisy e o da Agnes que ganhou a rinha pra extrair as coisas. Mas…
Nesse instante, ouviu batidas na porta de vidro de seu quartinho, e encontrou Mack parado na porta, com uma caixa de tamanho considerável em mãos, embrulhada em papel de presente.
— Vi pelas câmeras que você acordou — o homem anunciou, entrando devagar. — Como está?
Como, de fato? Theo abaixou o rosto para as próprias pernas, a euforia de ter encontrado o pendrive já começando a se esvair em seguida. Ele deu de ombros.
— Não sei.
Mack se aproximou, colocando a caixa na mesa de cabeceira ao lado da cama e se sentando em um banco ao lado dele. Theo não tinha tido tanto contato direto com o diretor como gostaria, mas mesmo sem conhecê-lo muito pôde identificar com facilidade a expressão de culpa em seu rosto.
— Eu quero que saiba que já começamos a estudar as conexões nervosas dos braços de Yo-Yo para tentar replicar em uma vértebra prostética pra você. É um começo.
Então eles tinham uma ideia do que fazer. Mas nada bom vinha de graça desse jeito, Theo tinha certeza. Não era assim que funcionava.
— Mas…? — Ele respondeu, com uma expressão conformada no rosto.
— Exige um bom período de adaptação. Sua recuperação vai ser longa, Theo. Eu sinto muito, você não devia ter estado lá sozinho dessa forma.
Talvez. Mas se não tivesse estado naquele lugar daquela forma, não teria conseguido o pendrive, e sabia o quão essencial o item seria para eles. Se ia se recuperar e ainda tinha conseguido informações, era nisso que precisava focar, certo? Ele engoliu em seco, sentindo a garganta apertar. Ainda não queria pensar sobre o assunto. Queria continuar no adorável estado de negação em que se encontrava, ao menos até poder colocar Mack e Niko para fora do quarto.
— Eu consegui as informações, então não foi por nada — Theo comentou, o que fez Niko se lembrar do pendrive e entregá-lo para Mack.
O diretor pareceu bastante surpreso. Ele recebeu o objeto, encarando-o quase como se olhasse uma espécie rara de planta, e depois olhando para Theo mais surpreso ainda.
— Você se colocou em perigo extra para conseguir isso?
E como Theo sabia que ao abrir a boca estaria encrencado se admitisse que sim, ele decidiu mentir. Não precisava de mais gente triste ou irritada agora.
— Agnes já sabia que estávamos lá. Eu só tentei aproveitar o tempo que consegui.
Se Mack não acreditou, ele não disse nada, aceitando a resposta como verdadeira. O homem guardou o pendrive no bolso do casaco e apertou o ombro de Theo de leve, mas ainda com o toque firme e forte.
— Bom trabalho, agente Wayland. Não faça de novo, entendido?
Não faria mesmo, até porque, sequer poderia se levantar para ir em alguma missão, não é? Ele sentiu o bolo na garganta piorar. Não sabia se conseguiria manter a pose por muito mais tempo. Queria dispensar os dois logo para poder chorar e descansar em paz.
— E isso, o que é? — Perguntou, apontando para a caixa em sua mesa de cabeceira.
— Ah. Hunter mandou pra você — Mack explicou. — Ele e Bobbi não puderam voltar para a base. Tem algumas questões políticas pendentes na situação dos dois.
Sequer tinham podido se despedir, e Theo estava atordoado o bastante para nem mesmo conseguir se importar com isso. Ele pegou a caixa, rasgando o papel e revelando um fardo de Irn-Bru, o refrigerante escocês que vinha bebendo. Já tinha acabado com o estoque do tal agente Fitz há algum tempo, e poder reabastecer graças a Hunter deixou Theo ainda mais emocionado.
— Eles foram embora? — Ele perguntou, deixando a caixa na mesa de cabeceira. Pediria a Niko para gelar para ele depois.
— Clint também — Niko respondeu. — Um pouco antes de vocês chegarem. Eu precisei soltar ele, é uma outra história, e então quando ele soube que vocês estavam voltando sem a Bobbi, ele pegou as coisas dele e partiu.
Em outra ocasião, teria pedido por mais informações. Agora, estava triste e cansado demais para isso. Ele se virou e apoiou as mãos na cama, empurrando o corpo para frente para poder se deitar.
— Me avise quando eu puder receber a prótese — pediu, virando de costas para os dois.
A deixa bastou. Ele ouviu passos, os dois deixaram a sala e fecharam a porta. Foi tudo o que Theo precisava para finalmente começar a chorar.
[...]
Niko seguiu Mack até fora por algum tempo. Tinha ensaiado por dias como ia contar para Theo sobre a lesão, insistindo que seria melhor se viesse dela, mas agora já não tinha tanta certeza disso. Era péssimo de qualquer maneira. Conhecia Theo o bastante para saber o quão mal ele deveria estar se sentindo, e que ele esperaria até estar sozinho para ter a crise emocional a qual estava muito próximo de ter. Conversaria com ele depois. Agora, sabia, ele precisava de um tempo para si.
— Diretor Mack? — Ela chamou, com o tablet em mãos e decidindo se focar em coisas as quais pudesse resolver de imediato. — Aquela situação com o Adrian… Eu consegui terminar de analisar.
O homem parou de andar, virando-se para a garota com uma expressão inquisitiva e encorajadora no rosto. Ela entregou o tablet para ele, esperando Mack ler suas anotações e decidir o que deveria ser feito. A resposta final não foi tão diferente da que tinha imaginado.
— Entendo… Vamos fazer como conversamos. Vou buscar Yo-Yo. Me encontre na cela de Adrian em alguns minutos.
Niko consentiu, pegando o tablet de volta e se adiantando até a cela.
Adrian estava ali dentro há dias. Em algum momento, ele acordou e parecia bastante confuso com o que teria acontecido. Até então, não tinham dado nenhuma explicação detalhada a ele, preferindo não falar nada a dizer algo sem ter certeza, e apenas pediram a ele para esperar. Agora, porém, a história era outra. Niko não queria ter de dar duas notícias ruins no mesmo dia, mas o universo tinha decidido assim ao retornar o resultado dos testes de Adrian no mesmo dia em que Theo tinha acordado, e bem, era algo que precisava ser feito.
Ela respirou fundo. Adiar não mudaria a realidade. Era melhor resolver logo.
A garota esperou alguns minutos na porta até Yo-Yo e Mack aparecerem. Ela estava usando um modelo mais antigo de próteses nos braços, tendo perdido o modelo anterior no evento da base e ainda precisando se recuperar para voltar a uma versão tão intensa, mas apesar disso, parecia bem. Mack digitou a senha para abrir a porta, e os três entraram.
Adrian ainda parecia péssimo. Sem ter certeza absoluta de qual era a situação do homem, e sem querer assustá-lo oferecendo uma bolsa de sangue de repente para ele beber, acharam melhor esperar um pouco antes de fazer alguma coisa. Ele estava muito magro, com olheiras debaixo dos olhos e um tornozelo algemado a um canto da sala. Tinha obviamente feito muitas perguntas sobre a corrente ao acordar, mas era um cara prático. Quando disseram a ele que teria suas respostas depois, mas precisava esperar, ele fez exatamente isso. Esperou. E agora, ali estavam.
Niko se sentou na cadeira do outro lado da mesa de onde Adrian tinha se acomodado. Yo-Yo e Mack estavam de pé atrás dela, ele com a escopeta casualmente posicionada nas costas, e Yo-Yo pronta para pegar Niko e sair correndo se fosse necessário. Mas Niko não achava que seria. Ver sangue tinha sido o que tinha disparado a sede dele anteriormente. Agora o ambiente estava controlado, ou ao menos, era o que queria pensar.
— Está com as minhas respostas? — Ele perguntou, com as mãos cruzadas sobre o tampo da mesa.
— Estou — ela respondeu, entregando o tablet para ele. Felizmente, Adrian parecia muito prático e direto. Fácil de conversar. — A sua terrigênese disparou a produção de uma enzima em seu corpo em taxas muito, muito lentas a princípio, mas que acabou aumentando com o tempo.
— Que tipo de enzima?
— Hm… Enzima de vampiro.
Adrian levantou o rosto do tablet, com uma sobrancelha erguida. É claro que ele não ia acreditar nisso de cara, e no mínimo acharia ridículo. Mas era a verdade, fazer o quê. Niko esperou enquanto ele a encarava por alguns segundos, depois descia os olhos para o tablet, lendo as anotações e passando as páginas.
— Eu sou um…
— Dampiro — ela completou, batendo os dedos na mesa devido ao nervosismo, sabendo como a coisa toda ficava mais ridícula a cada palavra. — O segundo caso que temos notícia. O primeiro foi de um bebê chamado Eric Brooks cuja mãe foi mordida durante o trabalho de parto. As enzimas caíram no sangue dele, mas ele mesmo nunca foi mordido. Você deve ter ouvido falar nele como Blade.
Adrian arregalou os olhos, levantando o rosto para os três, visivelmente chocado. Sim, tinha ouvido falar de Blade.
— Blade, o caçador de vampiros?
Niko respondeu com um aceno de cabeça, e Adrian voltou o olhar para o tablet, lendo o restante das informações. Tinha tentado reunir tudo do jeito mais direto e autoexplicativo possível: Adrian iria ganhar superforça, supervelocidade, sentidos aguçados e uma alta necessidade alimentícia que poderia ser suprida com sangue ou com soros especiais produzidos artificialmente, como os que Blade tomava. Tudo isso sem os ônus de não poder andar na luz do Sol ou se expor a imagens religiosas. A coisa toda poderia ser muito pior. Era um ótimo pacote de superpoderes, e Adrian não seria perigoso se tomasse seu soro com frequência.
— Eu sou perigoso pro meu filho? — Ele perguntou, pousando o tablet sobre a mesa. Não parecia ter tido dificuldades para absorver o grosso das informações, e não era surpresa para Niko essa ser a única preocupação dele depois de ler tudo aquilo.
— Se não ficar com fome, não é perigoso para absolutamente ninguém. E agora que sabemos o que fazer para te manter saudável, não acho que fome é uma possibilidade no seu futuro. Basta tomar seu soro todos os dias. Nós vamos produzir pra você.
Adrian se levantou, balançando a cabeça em afirmação.
— Eu quero ir para casa. Quero ficar com Trevor. Meu trabalho é advogar, não posso fazer isso da minha casa?
Niko não sabia dizer. Ela olhou para os agentes atrás de si, mas a resposta final seria de Mack, com certeza. O homem pareceu pensar por um instante, mas enfim, cedeu, afirmando com a cabeça.
— Pode. Na verdade, podemos fazer melhor que isso. Posso arranjar uma transferência sua para uma equipe com sede em Nova York. Isso ajuda?
Adrian deixou o queixo cair, piscando os olhos algumas vezes, embasbacado. Niko se sentiu surpresa. Não tinha achado que ele ficaria tão feliz com a perspectiva.
— Isso é sério?
— Muito sério. Precisávamos de você aqui pelo sigilo da investigação, mas depois de toda a situação com M.O.D.O.K., já tivemos de reportar tudo em Lyon ao deixar Theo lá pra receber o tratamento. Então… É, é bem possível. Podemos lidar com alguns memorandos interdepartamentais.
Adrian abriu um sorriso, largo e um pouco assustador uma vez que estava começando a despontar presas nos caninos, mas tão iluminado e feliz que não podia deixar de aquecer seu coração em vê-lo no rosto dele.
— Eu nem sei como agradecer… — Ele murmurou, começando a tatear os bolsos. Encontrou o celular na parte de trás da calça e discou um número às pressas, e Niko não precisou pensar muito para perceber se tratar de uma chamada com o filho dele.
O garoto atendeu. Não ouviram o que ele disse, mas as palavras de Adrian foram muito claras.
— Ei filhão, tudo bom? Sim, sim, eu tenho uma coisa pra te falar. O papai vai voltar pra casa!
Adrian começou a rir, seus olhos brilhavam, e de repente a situação toda pareceu muito intimista para continuar ali a presenciando. Niko se levantou, pegando o tablet de volta, e deixou o local seguida de Mack e Yo-Yo.
— Ele parece muito bem pra quem acabou de descobrir que é metade monstro — Yo-Yo comentou, assistindo pelo vidro o homem conversando com o filho.
— Ele vai pra casa ficar com o filho dele — Mack disse, abrindo um sorriso pequeno. — É claro que está feliz.
O trio observou o vidro da cela por um tempo, vendo Adrian conversando no telefone como se falasse com alguém que tinha acabado de lhe dar um prêmio de um milhão de dólares. Então, Mack seguiu pelo corredor, com as duas agentes vindo atrás de si.
O pendrive de Theo poderia lhes dar muitas respostas, mas mesmo antes disso, havia muito o que precisavam resolver. A começar por agora.
— Agente Ngozi — Mack chamou, parando no corredor à frente de sua sala. — O que você vai fazer? Adrian comentou que terminou os seus documentos.
A garota abaixou a cabeça, pensativa. Ela demorou um pouco para falar alguma coisa, mas mesmo antes de responder, Mack já sabia o que ela iria dizer. E estava certo.
— Não posso deixar Theo desse jeito. Eu quero continuar com os processos legais, ainda preciso processar a papelada de Adrian com as evidências pra tudo voltar legalmente pro meu nome, mas ao menos por enquanto, quero ficar aqui.
Mack confirmou, abrindo a porta de sua sala.
— Faça companhia a ele. Eu vou continuar trabalhando na prótese.
— Ela vai funcionar?
O homem não respondeu de primeira. Uma prótese dentro da coluna de Theo não era a mesma coisa que os braços de Yo-Yo. Eles podiam ser carregados e trocados de bateria externamente. Uma prótese dentro da coluna dele não poderia passar por isso. A energia era um problema nessa situação, e Mack ainda não sabia como resolver.
— Vamos ver. Eu vou tentar.
— Certo. Obrigada, Mack.
E com um aceno, Niko deixou a sala, e restaram apenas ele e Yo-Yo ali. Como no começo. Ele caminhou até sua mesa, pegando a caixinha preta de Fury em sua mão e a girando devagar entre os dedos. Ainda havia mais uma coisa. Por ora, só mais uma.
Clint tinha perambulado na base sozinho por um bom tempo antes de enfim decidir partir por conta própria. Niko não sabia dizer se ele tinha roubado algo, e com a garota preocupada em ajudá-los enquanto se recuperava do choque de ter sido atacada por Adrian, Mack jamais exigiria dela uma resposta para essa pergunta.
O único jeito de ter uma resposta para esse dilema era procurando diretamente na fonte do problema, ou ao menos no que ele acreditava ser a fonte. Ele tocou o topo da caixa preta, abrindo o menu holográfico, e passou por entre as telas até encontrar a tela de chamada. Tocou a linha direta com Fury e esperou.
Já tinha enfrentado alienígenas, robôs, fantasmas e zumbis em sua vida, algumas vezes uma combinação das anteriores, então com certeza não seria Fury a assustá-lo. Também sabia fazer cara feia, e ainda guardava rancor de terem sido mantidos no escuro por tanto tempo. Tinha perdido amigos. Tinha passado aperto com eles. E só porque Fury queria um Black Ops secreto. Sabia que o homem poderia acabar com sua equipe a qualquer instante, mas estava disposto a no mínimo lutar por respostas antes disso acontecer.
Ele não demorou a atender, seu rosto aparecendo na tela holográfica com a expressão fechada e o tapa-olho cobrindo o olho esquerdo. Mack cruzou os braços, sentando-se sobre a mesa e levantando uma sobrancelha com um ar irritado e firme no rosto.
— Você colocou um espião na minha base — acusou, sem rodeios. Não gostava de floreios quando o assunto era sério e, sabia, Fury também não.
— Coloquei, sim. Precisava atestar a competência do seu time. Atestada. Prender o Barton não é para qualquer um.
Mack achou melhor não mencionar que os agentes responsáveis por isso tinham ido embora. Não era relevante e não era no que estava interessado.
— Não sei o que queria que ele roubasse de nós, mas seja lá o que for, não escondo as coisas sem necessidade, Fury. Não tem nada aqui pra você.
Nesse momento, Fury franziu a testa muito de leve, quase de forma imperceptível. Mas Mack percebeu.
— Eu não disse a ele para roubar nada. Se ele te passou a perna, é problema seu. Agora com licença, eu tenho coisa importante pra fazer.
E a tela sumiu.
Mack franziu a testa. Clint tinha jurado pelo próprio filho que o pendrive era para si mesmo, mas de certa forma, o agente ainda esperava alguma pegadinha. Era para ele, mas. Era ele quem queria, mas. Não. Não havia "mas", esse era mesmo o caso. E agora, Mack estava sem respostas.
Suspirou. Sentiu a mão de Yo-Yo fazendo um carinho em suas costas, mas sequer conseguiu reagir. Estava cansado demais.
— Talvez Bobbi possa ajudar — a mulher sugeriu.
Talvez. Mack pegou um bloquinho de papel e fez uma anotação para se lembrar de ligar para ela depois.
— Nós vencemos, Yo-Yo? — O homem perguntou, virando-se para a namorada, abraçando a cintura dela e a puxando para se sentar em seu colo.
Tinham perdido muito para talvez ganhar um pouco de informação, se o pendrive de Theo funcionasse. Não parecia uma vitória. Parecia um massacre.
A mulher tocou o rosto de Mack, puxando o queixo dele um pouco para cima para olhá-lo nos olhos.
— Estamos aqui — ela respondeu com um carinho no rosto dele. — E a guerra ainda não terminou. Vamos dar tempo, ok?
Antes que Mack pudesse responder, ela o beijou. Ele decidiu que não precisava dizer mais nada. Isso bastava.
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