Clint estava focado em seu celular quando a confusão começou. Primeiro, ele não teve nenhuma reação extrema, apenas levantando o rosto e olhando em volta em seu bunker enquanto a sirene de alerta da base tocava. Algo estava claramente acontecendo e, quando a sirene continuou tocando mesmo dois minutos depois de começar, ele percebeu que não era um treinamento.

Levantou-se de um salto, abaixando-se ao lado da cama e puxando seu arco e aljava debaixo dela. A sirene ainda soava, descontrolada, causando uma espécie de chiado no aparelho que Clint usava na orelha. O som devia ser muito agudo para ter esse tipo de efeito colateral, o Vingador pensou, colocando a mão sobre a orelha por um instante em reflexo, quase tentando abafar o som.

Piorou. O ruído agudo muito rápido se transformou em um apito irritante, e Clint não viu saída a não ser desligar o aparelho. De repente, se viu engolido em silêncio.

Não era novidade para si. Várias vezes tinha trabalhado em silêncio por não poder usar seu aparelho por um motivo ou outro, mas geralmente isso acontecia quando estava acompanhado de Kate, ou Barney, ou Natasha. Pessoas que o conheciam, gente com quem sequer precisava falar ao entrar em ação, pois eles simplesmente saberiam como trabalhar com ele.

Ali… Tinha Bobbi, é claro, com quem poderia se comunicar, mas não sabia se isso ajudaria de muito, até porque, sequer sabia ainda o que estava acontecendo. Ele desdobrou o arco, abrindo a porta do bunker de uma vez e dando de cara com o caos do corredor.

Alguns agentes passaram correndo. Ele ouviu gritos, vozes alteradas e algum tipo de altercação muito séria vinda do final do corredor, à esquerda, onde ficavam os laboratórios. Lá, Clint identificou mesmo muito de longe uma névoa branca esfumaçada se espalhando devagar pelo ar — não tinha recebido a alcunha de “gavião” à toa, conseguia enxergar coisas com uma precisão assustadora e era o que, no fim das contas, o dava tanto talento com a mira —, e não precisou analisar por muito tempo para confirmar o que tinha acontecido.

Ele correu em direção à entrada do laboratório. Bem na porta conseguiu ver um enorme casulo inumano e, embora não pudesse dizer com cem por cento de certeza quem estaria dentro, tinha um forte palpite de se tratar do jornalista, uma vez que era o único novato humano que não estava à sua vista. Agnes estava presa dentro do laboratório, incapaz de sair graças ao casulo bloqueando a porta, e a névoa continuava se espalhando para fora do aposento.

Ele era um inumano, então. E ninguém sabia disso antes de levar uma bomba com terrígeno para dentro da base? Clint quase quis xingar as pessoas naquele momento, mas não tinha tempo para ficar puto com a incompetência alheia quando precisava aproveitar a situação para resolver os próprios problemas. Ele sentiu um bolo de piedade na boca do estômago ao olhar para o casulo, mas não podia fazer nada. Precisava focar em si mesmo agora. Outra chance como essa não cairia do céu.

Do lado de fora, ele encontrou primeiro Mack, falando nos comunicadores com muita firmeza com alguém e, por algum motivo, Clint queria muito saber do que se tratava. Experimentou ligar o aparelho de novo, mas abaixou bastante o volume. Perto de Mack, uma mistura da voz abafada com leitura labial com certeza o daria uma aproximação boa o bastante do conteúdo da conversa.

— Por favor, mais devagar, Erasmus — Mack pediu. — Yo-Yo e Adrian? Por que… Ok, ok, entendi! Não se preocupe, vou cuidar disso. Entre na cela do segundo nível e se tranque lá dentro, elas são preparadas para quarentenas biológicas.

Ele cortou a ligação e Clint aproveitou para desligar o aparelho na mesma hora; o chiado não valia a pena. Seja lá o que estivesse acontecendo com Yo-Yo, Erasmus e Adrian, já estava sendo resolvido. O que ele precisava era saber como ajudar.

Niko também estava presente, analisando o casulo com um olhar atento, e Theo, ao seu lado, recolhia papéis caídos no chão. Clint via Agnes esbravejar e acenar dentro do laboratório, mas não conseguia entender o que ela estava falando. Parte das palavras parecia sequer pertencer ao inglês, a julgar pelos fonemas estranhos sendo formados por sua boca. Então Clint se lembrou de que ela era alemã e, portanto, era bem possível ela estar tendo um ataque de fúria bilíngue.

Hunter e Bobbi foram os últimos a chegarem, vindo de lados opostos do corredor, para alívio de Clint. Não sabia como se sentiria se eles aparecessem chegando juntos de madrugada, principalmente tendo a visão de Bobbi enfiada em uma camisola de seda, segurando os bastões na mão como se pudesse surrar alguém depois de acordar no meio de uma adorável noite de sono.

E podia. Clint sabia que sim.

Os outros inumanos não podiam ser vistos em lugar algum, de forma que Clint assumiu que Mack tinha resolvido isso também através de alguma das falas as quais não conseguiu ouvir, e então todos começaram a falar por cima uns dos outros. Clint se sentiu bastante frustrado por não conseguir acompanhar mais nada.

— Pausa! — Ele anunciou, sentindo a estranha sensação de falar sem poder ouvir a própria voz. — Sua sirene me fez desligar meu aparelho. Alguém pode fazer as honras de me informar o que está acontecendo?

Seu pedido foi, como de comum, seguido de olhares de desconfiança. Clint já não aguentava mais ser sempre olhado como se fosse algo contagioso ou uma praga assassina, e não via a hora de terminar o que tinha ido fazer ali e finalmente poder ir embora do lugar. Essa poderia ser sua chance.

Não que não se importasse com o que tinha acabado de acontecer, mas tinha certeza, o jornalista ia ficar bem, não havia motivo para pânico. Só precisava deixar o resto do time dar conta dele e poderia seguir e, no fim das contas, nem haveria dificuldade nisso; que contribuição tinha ele para dar no meio de explosão de terrígeno?

Mesmo com a desconfiança, porém, Bobbi tomou as dores e decidiu traduzir tudo para ele.

“É Sirius no casulo”, ela informou, usando ASL. “Estamos tentando decidir o que fazer.

Era como tinha imaginado. Baboseiras biológicas, o tipo de coisa na qual não teria utilidade. Ele tentou não demonstrar nenhuma reação em relação a isso, por mais que sentisse um misto de empolgação com ansiedade ao ver a possibilidade que aquele caos o proporcionava.

“Eu posso me fazer útil de alguma forma?”

E, pela primeira vez desde quando chegou, Clint ficou agradecido pela presença de Hunter no local. O mercenário ergueu a cabeça para Clint, irritado, e mandou uma mensagem tão universal que Clint não precisaria estar ouvindo para entender: cai fora.

Não precisava pedir duas vezes. Clint estava mesmo procurando um motivo suficientemente disfarçado para sair dali. Não que não estivesse preocupado com Sirius, mas já tinha visto tragédias o suficiente em sua linha de trabalho para se afastar delas com rapidez caso não pudesse ajudar, deixando-as em mãos mais capazes. Além disso… Tinha um trabalho a fazer.

Para felicidade de Clint, Mack também virou para Hunter discutindo com ele e, apesar de não estar ouvindo nada, ficou muito clara pela expressão facial de Mack e pela reação das pessoas em seguida que a ordem era deixar ali apenas quem pudesse de fato ajudar no problema. Bobbi se virou para Clint uma última vez e fez o resto da tradução.

“Niko, eu e Mack vamos tentar tirar Agnes dali e depois mover Sirius para um lugar seguro. Poderíamos usar mais um par de músculos, Sirius parece muito pesado assim.”

“Seu ex já parece ter se pronunciado”, Clint comentou, indicando Hunter com a cabeça. “Tá tudo bem. Vou me ocupar com outra coisa. E por favor, desliguem essa bendita sirene.”

Bobbi concordou, repassando o que ele tinha falado, e Clint não desperdiçou mais um segundo sequer.

Ele sabia que seu tempo não seria infinito, mas estava contando que fosse o suficiente. Só o suficiente. Não precisava nem mesmo não ser descoberto, contanto que isso acontecesse quando já estivesse longe. Ele correu pelos corredores com o arco nas costas, ligando o aparelho no volume baixo no meio do caminho e constatando, satisfeito, que podia aumentar o volume para níveis normais, pois seu pedido tinha sido atendido e a sirene estava desligada.

Clint ajustou o volume bem no instante em que abriu a porta da sala do mainframe da base, esgueirando-se rapidamente para a porta e a fechando atrás de si. Não tinha sido visto até agora, mas era melhor ficar esperto com qualquer som que viesse de trás. Poderia significar problemas.

Ele enfiou a mão no bolso e tirou de lá o pendrive que vinha carregando consigo desde quando tinha desembarcado naquela bendita nave, enfiando-o na primeira porta USB que encontrou desocupada, e esperou. Sim, era tudo o que podia fazer agora. Esperar. Ele se esgueirou para atrás da última estante de servidores da sala, tirando uma flecha da aljava em silêncio e a armando por precaução. Havia um smartwatch em seu pulso, sincronizado com o pendrive e mostrando o progresso do hack em tempo real. Dez arquivos. Vinte. Quarenta… Não tinha como garantir que estava clonando exatamente o que precisava, mesmo que o vírus estivesse programado para procurar por palavras-chave como “terrígeno”. Era um tiro no escuro? Sim. Mas era o melhor tiro no escuro que podia dar, pelo tempo que pudesse dar.

O tempo foi longo. Felizmente Clint era muito bem treinado nesse tipo de tocaia, ou já estaria sentindo as pernas doloridas. A situação com Sirius deveria estar tomando muito tempo ou ninguém se importava com para onde ele tinha ido, pois continuou ali por minutos e minutos e minutos, talvez uma hora inteira, vendo a contagem de arquivos clonados subindo em seu smartwatch. Então, enfim, a porta se abriu.

Ele não conseguiu ver quem tinha entrado. De onde estava, só identificou a abertura da porta graças à luz entrando na sala. Se desse sorte, a pessoa não perceberia seu pendrive, mas se fosse alguém que estivesse procurando algo, sabia, sua sorte não seria nem um pouco similar a isso.

Era melhor se precaver. Ele caminhou devagar, arco em mãos, dando a volta na estante pela parede da frente. Ouviu um resmungo e reconheceu a voz de Agnes, provavelmente enviada para verificar algum problema, o que queria dizer que Mack já estava ciente do que Clint estava fazendo.

Infernos. Precisava se apressar.

Ele avançou para a frente de uma vez, levantando-se com o arco armado e uma flecha apontada para Agnes. No instante em que fez isso, ela gritou, soltando o tablet que carregava e levantando as mãos em gesto defensivo. O pendrive ainda estava localizado na porta USB do servidor.

— Barton, o que está fazendo?

— Se afaste — ele ordenou, andando para a frente muito devagar. Agnes não pareceu querer discutir, o que era muito esperto da parte dela.

É claro, a mulher não precisava saber que aquela flecha era só uma EMP de emergência. Ele avançou lentamente, vendo Agnes caminhar para trás ainda em posição de rendição. Então, ela pareceu achar uma ótima ideia dar a volta na sala para fugir pela porta aberta, e Clint não se importou; afinal, sem ela lá dentro, ele podia abaixar o arco, pegar o pendrive e sair correndo pela porta da frente.

Alguma coisa no estômago de Clint se contorceu naquele instante, algo que ele reconheceu como sua intuição tentando dá-lo um recado. Mas ele não ouviu ou se importou com o que quer que fosse, pois sabia, precisava dar atenção imediata a outra prioridade: fugir.

[...]

A discussão sobre como lidar com a situação de Sirius foi longa. Bobbi ficou primeiro muito chocada com o ocorrido: se lembrava de ter visto análises biológicas de todos os membros da equipe ao chegar na base, e ninguém que já não fosse inumano tinha apresentado genes com propensão a passar pela terrigênese. Obviamente, a análise de Sirius tinha sido equivocada, e isso era algo com o qual teriam de lidar depois. Agora, precisava manter a cabeça fria. Resolver o problema.

A primeira coisa que tentaram foi espremer Agnes entre a porta e o casulo para tirá-la de lá, mas simplesmente não havia espaço e ela teria de esperar pacientemente enquanto decidiam como mover Sirius. Em algum momento, Yo-Yo se comunicou com Mack, dizendo que ela, Adrian e Erasmus estavam em uma cela e que queria saber o porquê.

— Eu também não sei — ele respondeu, algo que Bobbi ouviu enquanto analisava o casulo com Niko. — Mas Erasmus parecia muito desesperado. Acho que ele está escondendo algo de nós, Yo-Yo. Por enquanto, se certifique de dançarem conforme a música dele, vou me preocupar com isso depois. Tenho um problema maior agora.

Devia ter sido o bastante para a mulher, pois a chamada foi desligada em seguida. Enquanto isso, Bobbi ainda pensava no que fazer. Não era a primeira vez que via um casulo, inclusive já tinha visto muitos serem movidos, mas nunca tinha feito isso ela mesma.

— O que acha, Iniko? — A mulher perguntou, fazendo anotações no tablet enquanto pensava. Gostava de estimular a menina a pensar em como resolver as coisas e, tinha de admitir, a garota aparecia com algumas ideias muito espertas às vezes. É claro, tudo baseado no tanto de conhecimento que ela possuía, mas já era alguma coisa.

— Ele não deve ter derretido pro chão, não é? — Ela comentou. — Podemos tentar passar algo firme embaixo dos pés dele, igual a gente faz quando tá tentando tirar um inseto de algum lugar com uma folha de papel, e depois levar embora em um dos carrinhos de transportar caixas.

Sim, soltar o casulo do chão era o mesmo que Bobbi estava pensando em fazer, e a solução de Niko de usar algo como uma folha de papel em maiores proporções não era nada ruim, além de ter a menor chance de ferir Sirius de alguma forma.

— Eu não entendo — Bobbi comentou, ainda analisando o casulo e mexendo em seu tablet. Finalmente decidiu que o desespero tinha baixado o suficiente para poder expressar sua confusão em voz alta. — Nenhum membro humano dessa equipe tinha apresentado propensão genética à terrigênese.

Mack, ainda parado a postos para ajudar, suspirou, sentindo-se um tanto cansado e frustrado com a situação.

— Sirius deveria ter sido testado no Brasil, antes de vir para cá. Pode ter havido alguma falha da parte deles.

Talvez. Talvez tivessem entregado a documentação errada. Talvez tivesse sido uma mentira proposital, sabendo que se não mentissem no relatório Sirius, a transferência não seria completada. O que quer que fosse, não adiantava debater agora. O que tinha acontecido, tinha acontecido. Um problema de cada vez.

— Ok, precisamos de uma chapa fina de metal — Bobbi anunciou. — Vamos tentar a ideia de Niko. Tragam também um carrinho de caixas.

Mack e Hunter concordaram, e os dois saíram para buscar o que era necessário. Nesse momento, Niko pediu a Theo, quem estava parado ali desde o começo folheando os papéis caídos no chão ao lado de Sirius para esperar em outro lugar, e o garoto saiu também. Hunter e Mack deveriam ser o suficiente para mover o casulo.

Mack e Hunter voltaram com o que deviam trazer, e o grupo se abaixou para passar a chapa entre o chão e os pés de Sirius. Foi necessária ajuda com umas das facas de combate de Hunter e Niko, mas quem diria, depois de um esforço muito demorado, de muito tempo e bastante minúcia, funcionou. O casulo se soltou do chão e começou a instantaneamente pender para trás, sendo amparado por Hunter e Mack. Os dois o colocaram no carrinho e Hunter se dispôs a empurrá-lo.

— Vamos levar para onde, exatamente? — Perguntou, olhando para o casulo com uma expressão curiosa e um pouco impessoal demais para quem estava carregando uma pessoa em um carrinho.

— Vamos pro salão dois, deve estar registrado aí no mapa como o local onde prendemos a fenda interdimensional um tempo atrás.

Bobbi franziu a testa ao ouvir Mack falar em "fenda interdimensional”. Não devia surpreendê-la, mas algumas coisas, talvez, nunca calejassem o suficiente o cérebro para deixarem de ser uma surpresa ao ouvir.

— Ok, chefe — Hunter comentou, irônico, começando a levar o carrinho com a ajuda de Mack.

Precisava ir com eles, mas Agnes precisava de uma análise urgente depois de ficar presa esse tempo todo no laboratório junto ao terrígeno. Ela se virou para Niko, que estava anotando coisas em seu caderninho. Teria de dar certo assim.

— Vá com eles, veja se consegue montar ou começar a montar uma estação de monitoramento — Bobbi pediu, entrando de volta no laboratório. — Eu vou analisar Agnes e me junto a vocês assim que puder.

— Entendido — Niko confirmou com um aceno de cabeça. — Vou procurar Piper também.

Excelente ideia; a mulher com certeza poderia ajudar. Bobbi deixou o grupo sair e entrou no laboratório, agora com menos névoa que antes, já que a toxina estava se espalhando para fora do local. Agnes estava escorada contra a mesa, exausta e parecendo muito frustrada.

Ótimo. Não era só Agnes que precisava analisar. Precisava também entender o que tinha acontecido.

— Sente-se aqui — Bobbi pediu, acomodando-se de frente para sua mesa e chamando Agnes com a mão para se sentar em sua frente. — Está sentindo algo?

— Ódio serve? — A mulher questionou, sentando-se ali muito irritada.

Bobbi tentou não levar o comentário a sério. Ela pegou uma lanterninha na mesa e a acendeu, começando a passar sobre os olhos de Agnes para analisá-la.

— O que aconteceu? — Perguntou, enfim, decidindo que não havia motivo para rodear a pergunta. Já tinha percebido que Agnes era uma mulher direta, e assim era melhor para as duas.

— Eu não sei — ela respondeu, dando de ombros. — Estava trabalhando na bomba e Sirius apareceu pra me perguntar um monte de baboseira sem nexo. E aí, de repente, puff. Ligou. Sozinha. Como se tivesse recebido um sinal remoto daqueles que eu expliquei.

Bobbi franziu a testa, pegando um medidor de pressão na gaveta.

— E você deixou o chip de contato remoto ligado?

— Não né, eu tinha desconectado ele. Precisei ligar de novo porque Mack pediu preu tentar identificar o fabricante das bombas, então eu pensei em rastrear o sinal de volta pra fonte. Claramente não funcionou como eu esperava.

Bobbi queria poder argumentar sobre, mas seu conhecimento tecnológico se equiparava ao de um especialista fora do campo de biologia. Podia até fazer um hack simples se quisesse, e se tivesse ajuda para tanto, mas o nível de Agnes no assunto escapava o seu conhecimento.

Foi mais ou menos nesse instante que o comunicador de Agnes apitou. Ela atendeu enquanto Bobbi aferia sua pressão, e acabou se levantando logo em seguida, quando o telefone desligou.

— Ei! Eu não acabei…

— É o diretor. Ele deixou Sirius na sala com Hunter e Niko, e voltou pra sala dele. Disse que está com um alerta de violação de segurança no servidor dele e que eu preciso ir conferir e…

— Agnes, em inglês!

— Mas eu estou falando em inglês.

Bobbi se limitou a arquear as sobrancelhas.

— Alguém está hackeando a base — ela explicou, revirando os olhos.

Bobbi não soube reagir. Soltou o medidor de pressão do braço de Agnes e a mulher saiu correndo do laboratório às pressas, deixando Bobbi sozinha.

Primeiro Bobbi pensou em ir checar a situação com Sirius, mas havia algum instinto a cutucando atrás da orelha, um bichinho sussurrando que aquela bagunça poderia não ter acabado ainda. É claro, se estavam considerando um hack na base, poderia ser algo que acabasse muito mal, como por exemplo, uma tentativa de descobrir a localização deles. Talvez reconectar o dispositivo remoto na bomba tivesse causado isso. Talvez estivessem prestes a ser invadidos.

Bobbi não gostou nada dessa possibilidade, mas, bem, era uma possibilidade. Ela relutou com seus pensamentos por um instante, mas acabou cedendo a seus receios. A mulher pegou seus bastões debaixo da mesa e saiu do laboratório, correndo em direção ao hangar. Era a única forma de entrar na base, até onde sabia. Se alguém chegasse, teria de ser por lá.

Ela esperou, bastões em mãos, o frio nas pernas se agravando enquanto ela xingava a camisola de seda que ainda estava vestindo. O tempo passou aos poucos e ela se inquietava, nervosa, esperando o inegável problema que ia acontecer. Em algum momento, ela viu as portas do hangar se abrirem e Hunter passou, confuso, parecendo um tanto irritadiço.

— O que está fazendo aqui? — Ele perguntou, cruzando os braços com aquele ar arrogante que só ele tinha. — Estou te esperando lá no casulo com Niko esse tempo todo e nada de você! Fui checar nas câmeras da sala de comando e te vejo parada no meio do hangar. Pirou?

Ela poderia ter respondido, e poderia tê-lo feito com muita maestria, tinha certeza disso, mas não precisou. Nesse instante, as portas do hangar se abriram mais uma vez revelando Clint, o rosto vermelho um sinal claro de que estava correndo, trazendo o arco em mãos numa posição de defesa. Bobbi o conhecia muito bem. O suficiente para reconhecer quando ele estava se comportando em modo de fuga.

Podia não saber o que estava acontecendo. Podia não saber porque Clint estava fugindo, ou porque parecia tão nervoso e alarmado. Mas ela tinha instintos e, naquele momento, eles gritavam algo em bom som, do fundo do seu estômago: não importa o que tiver de fazer, não deixe Clint sair do hangar.

[...]

Tudo bem, não era segredo que Hunter e Clint não se gostavam. Não era nem uma questão de não se gostarem exatamente. Não gostar de alguém implicava conhecer a pessoa o suficiente para tomar antipatia de algo em particular sobre o outro. Na verdade, Clint tinha lá seus momentos e Hunter até desconfiava de que, se não fosse por toda a situação com Bobbi, teriam se dado bem um dia.

Mas isso era um mundo de faz de contas. No mundo real, a situação com Bobbi existia, e o que existia também era Clint prestes a sair correndo com uma clara expressão corporal de quem tinha sido pego fazendo coisa errada.

Ninguém disse nada. Não foi necessário falar. Clint tirou uma flecha da aljava às pressas e a atirou aos pés dos dois, explodindo uma bomba de gás.

Hunter tossiu. O desgraçado maldito, sinceramente… Gás era sacanagem. Desonesto. Não que Hunter fosse honesto de alguma forma, nunca tinha sido e jamais alegou ser, mas porra, o sujeito era um Vingador; o emprego não vinha com uma bússola moral junto ou qualquer coisa parecida?

O mercenário grunhiu, tropeçando para fora da nuvem de fumaça e correndo em direção às caixas de suprimentos no canto do hangar. Piscava os olhos ardidos, xingando palavrões e ouvindo sons e gritos ao seu redor que indicavam que Bobbi já tinha entrado em luta com ele.

E não era que não acreditasse nas habilidades de Bobbi, jamais cometeria o erro de subestimá-la desse jeito, mas a luta dela contra Clint era demasiado equilibrada para o gosto de Hunter, que não queria vê-la passando perigo apesar de ainda estar com ódio da mulher por ter estragado a lua-de-mel dos dois tantos anos atrás.

Ele enfim encontrou o que procurava nas caixas — um óculos de visão de calor — e o colocou depressa, tirando a faca de combate do cinto. Acabou localizando Bobbi e Clint lutando corpo a corpo um tanto perto do quinjet central, ela usando os bastões como armas e ele se dividindo entre chutes e o próprio arco como arma de contusão.

Tudo bem, Clint era bom, mas não era dois. Hora de desnivelar o campo.

Hunter correu até os dois, chegando a Clint pelo outro lado e segurando a faca com a lâmina para trás da mão. Ele deu um golpe aberto para a direita, rapidamente aparado pelo arco de Clint, mas isso deu abertura para Bobbi acertar as costas dele como bastão.

O homem tropeçou por um instante, mas rolou pelo chão entre eles, levantando-se atrás dos dois e voltando a correr em direção ao quinjet.

Bobbi lançou um de seus bastões, do qual Clint desviou com um giro para a lateral. Hunter não esperava o giro, mas conseguiu ter tempo de reação o bastante para avançar com um carrinho por trás em direção ao Vingador, que saltou para desviar.

Saltou direto para os bastões de Bobbi, pronta para recebê-lo. Ela voltou a atacar e Clint a se defender, e foi tudo que Hunter precisou ver.

Ele se aproximou de Clint por trás, dando um mata leão repentino no homem e chutando seu joelho para fazê-lo cair no chão. Clint gritou, irritado, e resmungou algo que Hunter não pôde identificar do que se tratava e também não ligava de não saber. Ainda estava se debatendo e Hunter sabia que o homem era perigoso o bastante para sair da situação não importando o quão ganha parecesse, então decidiu fazer algo bem errado e irresponsável, mas que não ligava nem um pouco para as consequências: tirou uma flecha da aljava de Clint, uma com o símbolo da S.H.I.E.L.D. e pontinhas azul celeste que eram o código da própria equipe para armas I.C.E.R., e a fincou com tudo na cintura do homem.

Aos poucos, Clint parou de se debater. A flecha I.C.E.R. despejou a dendrotoxina na corrente sanguínea do Vingador, disparando uma fumacinha azul no ar depois, e no instante seguinte Clint estava no chão.

Hunter o soltou de uma vez, quase como se o homem fosse infeccioso, mas a falta de cuidado o castigou quando Bobbi se inclinou para impedir o homem de cair no chão de repente, amparando a queda dele. O destino escolheu esse momento para abrir as portas do hangar, agora trazendo Mack e Agnes para o local e, embora Hunter estivesse grato por não estar mais sozinho com os dois, não estava exatamente ansioso para que outras pessoas presenciassem o que tinha acabado de ver.

— O que aconteceu? — Bobbi perguntou, alarmada, ao ver os dois entrarem no hangar. Bem, isso era uma pergunta para a qual Hunter também queria resposta, nem que apenas para saciar sua curiosidade.

— Agnes pegou ele entrando nos servidores da base — Mack comentou, ajudando Bobbi a colocar o homem de pé. — Sinto muito, Bobbi.

Metade de Hunter quis muito seguir os três para ver o que aconteceria em seguida, mas a outra metade ainda se sentia muito alienígena na situação toda. Querendo saber o que ia acontecer, mas não querendo ir atrás do grupo, ele correu até a sala de comando, onde poderia ver tudo através das câmeras.

Não devia ter ficado surpreso quando viu Clint ser levado para uma das celas da base, mas ficou ainda assim. Mack e Bobbi o deitaram na cama da cela e revistaram o homem, recuperando o pendrive do bolso dele. Os dois saíram da cela, deixando-o ali e pronto. Hunter viu Mack entregar o pendrive a Agnes, provavelmente querendo que ela descobrisse o que pudesse sobre aquilo, e foi o fim de toda a situação.

Hunter continuou parado, observando a imagem das câmeras. Estava no único lugar da base vazio no momento, onde podia ficar vendo o que acontecia sem precisar dividir espaço com alguém. Ele viu Bobbi se dirigir para a sala onde o casulo de Sirius estava e começar a conversar com Niko e foi isso. Pouco a pouco, à medida que foi possível, as pessoas foram retomando alguma rotina como a que tinham antes.

O homem continuou ali por toda a manhã. No meio da tarde sentiu sono, tendo acordado na madrugada, e foi dormir em seu bunker, acordando só quando já estava de noite. Ele decidiu voltar para a sala do comando mais uma vez, mas agora, Bobbi estava ali. Sozinha.

Ele se perguntou se devia entrar no local ou não, mas até decidir Bobbi percebeu sua presença e acabou o convidando para o centro com um olhar. Hunter seguiu, devagar, sentando-se na cadeira ao lado dela.

— O que faz aqui? — Ele perguntou, pegando um lápis na mesa e começando a brincar com ele.

Reconheceu o olhar pesado e triste de Bobbi. Era raro vê-la assim, mas Hunter sabia o que queria dizer. Ela tinha chorado.

— Mack me pediu para conferir os papéis do Sirius. No fim das contas, houve uma confusão no Brasil e alguns exames foram trocados, o dele incluso. Descobriram um dia atrás e ainda estavam conferindo quem precisava ser avisado. Erro humano. Simples assim, e agora ele está pagando por isso.

Céus, era mesmo uma dose de azar. Hunter suspirou, recostando na cadeira e abaixando o olhar para o teclado. Poucas coisas o deixavam tão mal quanto ver Bobbi daquela forma, e a vontade de Hunter era entrar naquela cela e bater no engomadinho do Clint até ele ficar roxo da cor da roupa dele no chão. Vingadorzinho metido à besta…

— Eu vou matar ele — Hunter disse, levantando-se de uma vez, mas Bobbi segurou o pulso dele, impedindo sua saída.

— Senta. Eu preciso te contar uma coisa.

Oh, infernos. Oh, não, que esse não fosse o terrível momento no qual ela ia dizer que vinha se deitando com ele sem Hunter saber. Não achava que seu nível de raiva fosse aguentar uma revelação dessas.

— Quando me casei com Clint... — ela começou com a voz mais baixa e tímida que de costume. — Casamentos, sabe. Os primeiros anos são incríveis. Depois a coisa vai mudando. Mas se o casal sabe se ajustar, eles continuam juntos.

Ajustar. Claro. O que ele e Bobbi nunca tinham sido capazes de fazer. Hunter engoliu em seco, olhando para a mesa e sabendo que, o que quer que ela fosse falar, seria muito semelhante a um término. E tudo bem. Não era a primeira vez entre eles, embora ele tivesse a sensação estranha de que aquela seria a última. E podia sequer ser um término se não havia nada acontecendo entre eles agora?

— Eu fiquei grávida — ela continuou, e Hunter abriu a boca em surpresa. Grávida? Nunca tinha mencionado uma gravidez a ele! E, ao menos até onde Hunter sabia, ela não era mãe, então… Então…

— Bob…

— E então… Clint disse, ele disse tantas vezes… — Os olhos dela se encheram de lágrimas, e Hunter quis abraçá-la, mas não sabia como o gesto seria recebido. Estava travado. Não sabia o que fazer. — Ele me disse para não ir naquela maldita missão, mas eu não ouvi, e então… Eu perdi nosso filho. Eu sequer sei se teria feito a mesma coisa de novo… Eu salvei pessoas naquele dia, mas perdi meu filho. E então meu casamento. Eu decidi me enfiar em trabalho e, pouco tempo depois, eu conheci você.

Ela não precisou dizer mais nada, o resto estava muito claro. Tinha conhecido Bobbi vulnerável e magoada. Isso não queria dizer que os sentimentos deles não tivessem sido verdadeiros, Hunter acreditava profundamente que foram, mas conseguia ver no desespero dela como o passado a feria e como ela ainda parecia magoada pela traição que Clint tinha acabado de tentar causar no time. Conseguia ver que, não importava o quanto eles se amassem, Clint sempre teria um lugar especial para ela. Um que ele jamais poderia tomar.

Hunter sentiu a garganta apertar. Queria chorar, mas não choraria na frente dela. Não podia chorar. Não era justo, não quando ela estava visivelmente muito mais magoada. Mas se ficasse ali, era o que acabaria acontecendo.

— Eu sinto muito, Bobbi. Eu…

Também não sabia o que dizer. Ele decidiu que não ajudaria em nada ficar ao lado dela agora, e certamente não ajudaria a si mesmo. Hunter deixou a sala de comando, decidindo procurar por Mack e dizer a ele que Bobbi precisava urgente de sua companhia.

Notas finais
Link pro grupo de whatsapp: https://chat.whatsapp.com/DrHNqXKPp8cBfLb7UGgbAL Considere favoritar essa fic e Homem de Gelo também. Vai deixar meu coração bem quentinho ♥ Além dessa, tenho vagas também para uma interativa original sobre revoltas civis. Acesse aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-rosa-do-tempo--interativa-19350882/ Considere também dar uma olhada nas minhas outras histórias? :D Eu tenho coisas para vários gostos ^^ Leia a duologia Hunters! Comece aqui: https://fanfiction.com.br/historia/771022/Hunters_Hunters_1/ Leia minha original de fantasia urbana, Carmim! https://fanfiction.com.br/historia/787245/Carmim/ Leia minha fanfic de Harry Potter! https://fanfiction.com.br/historia/781763/Marcas_de_Guerra_Historias_de_Bruxos_1/ Fanfic 2 atualizando atualmente: https://fanfiction.com.br/historia/799894/Amargos_Recomecos_Historias_de_Bruxos_2/