S.H.I.E.L.D.: Guerreiros Secretos (Marvel 717 2)
10 Dores do Crescimento
Notas iniciais
Yo-Yo atravessou as portas do laboratório com um ar curioso, e até um pouco ingênuo. Nunca tinha sido do tipo escolar; ciências, matemática e todas as outras matérias parecidas eram um mistério para si, então sempre achava no mínimo fascinante como Fitz, Jemma e depois Deke tinham conseguido tirá-los de inúmeras roubadas com suas ideias geniais. Agora, nenhum dos três estava ali, mas isso não tornava o local menos incrível. No momento, Bobbi era a única no laboratório, inclinada sobre um microscópio, observando alguma coisa.
A inumana não queria incomodar, mas precisava falar com ela antes de atender às suas duas próximas reuniões, e já estava em cima da hora para elas. Um pouco sem graça, Yo-Yo bateu na porta de vidro, ficando parada de pé na entrada com sua xícara de café em mãos.
Bobbi levantou os olhos do microscópio, vendo a agente e sinalizando para que ela entrasse, o que Yo-Yo fez logo em seguida, decidida a resolver sua parte do assunto rápido e não tomar muito do tempo de ninguém.
— Não precisa se levantar — Yo-Yo disse ao ver Bobbi se colocando de pé para recebê-la.
A agente não precisou ficar de pé por completo para Yo-Yo se sentir muito pequena. Sendo ela mesma uma mulher de estatura mais baixa, e Bobbi sendo muito alta, a diferença chegava a ser cômica em algumas situações. Yo-Yo se sentou na cadeira de frente para a outra, conseguindo ser menor que ela mesmo sentada;deu um gole de seu café e ajeitou os longos cabelos castanhos para trás. Hum, o café estava bem quente e levemente amargo, como gostava. Perfeito.
— Eu te chamo de Yo-Yo mesmo? Ou Elena é melhor? — Bobbi perguntou, terminando algumas anotações e se virando para a outra.
— Yo-Yo. É o que reservo para meus amigos.
Bobbi abriu um sorriso muito leve e genuíno com a resposta, e Yo-Yo não pôde deixar de sorrir também. Conseguia ver por que ela e Mack eram tão amigos. Os dois se completavam muito bem, sendo ele tão calmo e sentimental e ela bem mais direta e pragmática. Devia ser um ótimo balanço em campo. Tinha ouvido tantas histórias interessantes sobre a incrível Harpia em combate que mal via a hora de poder se juntar a ela em um.
Mas, sabia, isso não podia acontecer em uma operação aberta da S.H.I.E.L.D.. Ao menos, não por enquanto.
— Você é do time do café? — Bobbi perguntou, cruzando os braços e passando uma perna por cima da outra em uma postura relaxada. — Queria. Hunter entupia a casa de chá quando éramos casados. E Clint bebe o café dele aguado demais.
— Argh, eca. Café aguado. Imagine conseguir uma safra colombiana dessas e estragar fazendo uma coisa assim…
Yo-Yo bebeu mais um gole do café, quase que para provar seu ponto, e abriu mais um sorriso satisfeito. Chegava a ser um absurdo como os melhores grãos do café colombiano eram mandados para fora e eles ficavam com as safras mais ralés dentro do próprio país — a menos que se quisesse pagar muito caro. Nos EUA, porém, não devia ser tão caro se sempre achava tantos sacos na base. Ou isso, ou Mack estava tentando muito agradá-la de alguma forma velada.
Bem, era igualmente possível. O pensamento a fez sorrir.
— Como posso ajudar? — A agente perguntou.
Yo-Yo estava prestes a responder quando as portas do laboratório se abriram e Niko entrou, olhando as duas por alguns instantes antes de caminhar até elas. A garota parecia curiosa com a presença da inumana, e também pudera. Não era de pisar no laboratório a menos que fosse necessário, sendo um lugar tão afastado de suas habilidades gerais.
— Ah, bom que esteja aqui também, Niko — ela comentou, deixando o café sobre a mesa para conversarem. — Eu tenho reuniões com Erasmus e Adrian em alguns minutos. Gostaria de saber o que andaram descobrindo sobre eles.
Yo-Yo viu Bobbi e Niko se entreolharem. Oh, aquilo nunca era coisa boa. A mulher se recostou na cadeira, simbolizando que não sairia dali até ter respostas, e Bobbi suspirou. Aquele suspiro deveria ter significado algo para Niko, pois a jovem agente não teve problema nenhum com passar as informações depois.
— Aconselhamos Erasmus a nadar. Ele fez isso e falou um pouco comigo a respeito, mas é algo que talvez você possa querer perguntar a fundo.
Aquilo não podia ser o motivo da leve tensão no laboratório. Yo-Yo não tinha tempo nem paciência para enrolações, e começando a se sentir em uma, decidiu incentivar o andar da carruagem.
— Certo. O que mais? A parte que vocês estão decidindo se vão me contar ou não, o que é?
— Bem... Bobbi acha que não é nada demais…
— Não exatamente — a bióloga cortou. — Pode ser, pode não ser, mas ainda é cedo. É apenas uma hipótese, estamos testando.
Informação imprecisa. Esse era o motivo da leve rixa. Yo-Yo não se importava com esse tipo de informação, não sabendo o quão a sério deveria levá-la. Era só uma questão de, quem sabe, sondar o assunto nas entrevistas. Talvez algum dos dois acabasse falando algo, mas antes precisava saber do que se tratava.
— Que hipótese? — Perguntou de novo, já começando a parecer um pouco enfezada. Bem, que fazer. Não era feita de pura paciência.
— Eles têm o DNA diferente — Niko respondeu, enfim. — Tipo, muito diferente. Diferente em lugares que deveria ser igual porque eles são da mesma espécie.
DNA diferente? Espécies diferentes? Ótimo. O que deveria fazer com essa informação?
— Mas — Bobbi continuou. — Ainda estamos sequenciando, então é apenas uma hipótese. Pode haver algo a mais no passado genético de um ou dos dois deles que nós não sabemos o que é. Quando terminarmos o sequenciamento e pudermos fazer algumas comparações, vamos usar o DNA de inumanos híbridos que já temos no banco, como o seu e o da Daisy, para ver se descobrimos do que se trata. Até lá…
— Não dá pra saber — Yo-Yo respondeu, levantando-se e pegando seu café. — Entendi. Não acredito que algum dos dois saiba sobre isso, mal sabiam que eram inumanos antes dos ataques terroristas, mas vou tentar dar uma sondada leve neles e na situação. Obrigada, já ajuda bastante.
Yo-Yo se levantou, pegando seu café e liberando a cadeira de Niko para ela se sentar, acenando para as duas na saída. Tinha lido várias vezes os relatórios preliminares do que elas descobriram sobre os dois, então possuía as informações científicas, mas isso era só a parte que ia pro relatório. Informações externas, como conselhos dados, como elas terem dito a Erasmus para nadar, ou informações extraoficiais, como possíveis desalinhamentos genéticos, só podiam ser passadas no boca-a-boca, por ordens de Mack. Ele não queria informação sensível nos computadores da base. Não era difícil saber porquê.
Assim, a inumana seguiu até a sala que tinha separado para falar com os dois. Adrian e Erasmus já esperavam do lado de fora, e a mulher acenou para Erasmus entrar primeiro. Ela foi seguida por ele para dentro da sala, um escritório informal com poltronas confortáveis e luzes mornas, e se sentou em uma das poltronas.
Erasmus ocupou a outra, e parecia um pouco nervoso. Yo-Yo não sabia dizer se era puramente por estar falando com ela, ou se algo teria acontecido no passeio a Nova York a respeito de seus poderes. Com certeza, era por aí que devia começar.
— Fiquei sabendo que foi dar um passeio em Nova York — ela comentou, cruzando as mãos sobre o colo. — E que talvez tenha passado em uma praia da cidade.
Erasmus a encarou, surpreso por um instante, mas logo a surpresa desapareceu. Yo-Yo se perguntou se o garoto teria imaginado que esse tipo de conversa com as cientistas não chegaria a Yo-Yo, e se ele se sentia traído de alguma forma. Ou se, talvez, ele só não soubesse se ou como abordar o assunto do que tinha acontecido na praia. Fosse o que fosse, ele coçou a nuca, distraído, e mediu um pouco as palavras antes de começar a falar.
— Sim… Niko e a agente Morse acharam que seria uma boa ideia eu entrar no mar um pouco para ver como a minha mutação se comportaria debaixo d’água.
Yo-Yo concordou em um aceno de cabeça, esperando Erasmus continuar. O garoto parecia cauteloso, e isso fez a inumana questionar se algo teria dado errado. Ela deu um gole em seu café, aguardando, mas Erasmus não continuou no mesmo instante. Ela precisou incentivar.
— E você entrou?
— Ah! Sim, entrei. Bem, eu queria surfar, na verdade, mas… acabou não dando muito certo.
Havia uma nota clara de decepção na voz de Erasmus, mas ela sumiu rápido e em seu lugar o garoto abriu um sorriso largo. Interessante. Yo-Yo tinha esperado que Erasmus teria uma notável dificuldade em lidar com a própria mutação, pelas mudanças físicas no garoto, mas se havia um fio de felicidade e empolgação nele pertinente a esse assunto, precisava explorá-lo.
— O que aconteceu? — Perguntou, vendo o sorriso no rosto de Erasmus se alargar da forma que era normal para ele, e o garoto deu de ombros.
— Foi uma loucura. Eu afundei na água, consegui ver tudo lá embaixo, com os olhos bem abertos, sem arder nem nada. Deu pra respirar debaixo d’água também. E depois, quando eu fui nadar, as garotas tinham razão, foi muito rápido, eu até fiz um salto de golfinho sem querer.
Bem, ele parecia feliz sobre isso tudo. De onde, então, vinha a decepção? O trabalho de Yo-Yo era garantir que os inumanos estivessem bem com suas próprias mutações, ou indicá-los a um terapeuta se fosse necessário, mas Erasmus estava se mostrando um tanto difícil de ler.
— Você parece ter gostado disso. Mas tem alguma coisa, não tem?
O sorriso de Erasmus murchou um pouco. Sim, é claro que tinha alguma coisa.
— É que… É todo o resto. Tudo bem, nadar foi muito divertido, mas… Eu tinha que ter saído desse jeito? — Ele perguntou, apontando para o próprio corpo. — E enxergando tudo em preto e branco, com esses dentes todos, e...
Erasmus suspirou. Ele pareceu se retrair nos próprios sentimentos em seguida, mas o que quer que fosse falar, ficou preso em sua garganta. Yo-Yo não queria forçar muita coisa de uma vez, não parecia certo, então decidiu deixar essa parte da conversa terminar por aí, ao menos por ora.
— Como você tem se sentido sobre a sua mutação?
Talvez, ela percebeu, essa pergunta acabasse sendo exatamente a que Erasmus estava evitando responder. Ele abaixou o rosto, cutucando o braço da poltrona devagar e pensativo, em silêncio por um bom tempo. Quando respondeu, foi sem olhar para Yo-Yo nos olhos.
— Eu deveria ser grato. Eu consegui algo que muita gente não tem. Mas às vezes, eu só queria que tudo voltasse a ser como era antes.
Culpa, então. Mas pelo quê? Yo-Yo franziu a testa. Talvez devesse passar esse pequeno detalhe a Mack e ao laboratório depois. Eles sabiam que nem todo mundo seria inteiramente aberto com seu passado ao chegar na base, e Mack queria dar um voto de confiança para as pessoas antes de dar uma de Nick Fury e sair fuçando os detalhes da vida de todo mundo. Mas toda regra, invariavelmente, apresentava sua exceção.
— Eu costumo chamar a terrigênese de regalo de Diós. Um presente de Deus. Muitas vezes o que é colocado em nosso caminho não é claro a princípio, Erasmus, mas se der uma chance a si mesmo, pode chegar a ser. Você gostou de nadar, quando estava no mar? — Ele concordou com um meneio afirmativo e um sorriso largo e genuíno no rosto. — Então tente se focar nisso. Estamos acima de um lago aqui na nossa base. Pode ser uma boa ideia você passar um tempo lá quando estiver pensativo demais, se não se importar com a temperatura da água.
Ele concordou, e o breve instante de silêncio sinalizou para os dois que a conversa tinha terminado. Erasmus se levantou, um pouco sem graça, e acenou para Yo-Yo em despedida.
— Digo ao Adrian para entrar?
— Ah, si. Por favor.
— Ok. Obrigado Yo-Yo, até mais.
O garoto deixou a sala, segurando a porta aberta para que Adrian entrasse em seguida.
Ao contrário de Erasmus, que tinha soado nervoso durante a conversa, Adrian parecia agitado de uma forma mais próxima da irritabilidade. Ele ajeitou a gravata e as mangas do terno ao se sentar e apoiou os braços sobre os joelhos. Uma postura que era para ser casual, mas que na verdade revelava um incômodo palpável.
Boa tentativa, Adrian. Mas Yo-Yo era agente há mais de quatro anos.
— O que está incomodando você?
Adrian era um homem adulto. Yo-Yo sabia que também precisava ser um tanto cuidadosa com ele, mas com certeza não tão cuidadosa quanto com Erasmus. Adrian suspirou, jogando-se para trás na cadeira, soltando um pouco a gravata e colocando a mão no ouvido. Ele tirou os tampões eletrônicos da orelha e jogou sobre a mesinha de centro, os apontando com alguma frustração.
— Vocês tinham razão. Não é bom usar demais, está me matando de dor de cabeça. É difícil manter o bom humor tendo de escolher entre dor de cabeça pelos sons ou dor de cabeça pelo silêncio.
— Sua ecolocalização tem piorado?
Adrian soltou uma risadinha um pouco incrédula.
— Ecolocalização? Mais para “ecoirritação”, isso sim. Só me enche o saco e não serve de nada.
— Não seja tão impaciente. Eu sei o quão difícil é, mas o seu corpo está mudando. Tem de se dar tempo para isso.
— Meu Deus, é horrível. É como passar pela puberdade depois dos trinta — ele resmungou, abaixando a cabeça sobre as mãos, e Yo-Yo fez seu melhor para não rir.
A comparação dele não deixava de ser precisa. Ela se lembrava de quando tinha ganhado suas habilidades, e não conseguia controlar quando as usava e quando não. Pensava em correr até a cozinha, e pronto, já tinha ido e voltado antes de terminar de pensar. Era um saco, mas havia melhorado. Talvez ele só precisasse de algum incentivo assim.
— Você já ouviu falar da Tremor?
— É claro. Peguei muitos casos de defesa na época que ela estava roubando bancos por aí.
Ok. Informação errada. Yo-Yo conteve o nervosismo interno, pensando em como divergir a conversa para se focar na informação correta.
— Daisy é minha amiga — ela disseu. — Eu não estava aqui quando ela ganhou os poderes dela, mas sei o tipo de prejuízo que usar as habilidades ao bel prazer traz pra ela. Ossos quebrados, por exemplo. Mas, sabendo como usar, ela consegue fazer coisas incríveis.
— Então o quê? Isso é alguma conversa de incentivo para eu focar em como ecolocalização pode ser interessante pra minha vida?
— Talvez — Yo-Yo respondeu com um sorriso suave.
Isso não amoleceu Adrian. Fosse o estresse da dor de cabeça, fosse outra coisa, algo estava o estressando. Bastante.
— Algo que queira me falar?
— Não, foi só isso mesmo — respondeu, enfim, pegando os tampões da mesa e os enfiando nas orelhas a contragosto.
Adrian se levantou, alinhando o terno e lançando um olhar cansado para Yo-Yo. Os pormenores de sua habilidade estavam mesmo o consumindo vivo. Dava para ver.
— Obrigado. Eu lhe informo se surgir mais alguma coisa.
Yo-Yo agradeceu com um aceno, e Adrian deixou o escritório.
Aquela não tinha sido a melhor conversa de todas. Adrian estava claramente muito irritado com sua mutação para se abrir a qualquer tipo de perspectiva. Precisavam resolver rápido o problema de ecolocalização dele, ou o psicológico do homem tomaria um golpe muito forte.
Yo-Yo pegou seu café e decidiu voltar ao laboratório. Tinha algumas orientações a dar.
[...]
Alguns dias haviam se passado. Mack não queria ser o tipo de chefe a pressionar os funcionários por resultados, principalmente sendo um deles muito novato em toda a situação, mas começava a questionar se seu excesso de bondade não viria com um preço. Ele estava encarando a tela holográfica projetada da caixa preta de Fury em sua frente, vendo o e-mail de cobrança enviado pelo diretor para si. Não era do tipo de ligar para essas coisas, Fury que ficasse irritado se quisesse, não tinha medo do homem. O que o frustrava era saber que ele tinha razão. A situação era urgente.
Portanto ficou aliviado ao receber a mensagem de Sirius naquele fim de tarde. Aparentemente, ele e Agnes tinham conseguido alguma coisa, e ainda bem, pois o diretor não sabia quanto tempo mais poderia continuar fingindo que os e-mails de Fury estavam indo para a caixa do spam. Ele deixou o escritório quase que correndo, indo até a sala de comando da base e encontrando os dois agentes conversando em um tom baixo e urgente antes de chegar.
— O que tem pra mim? — Mack perguntou, parando na frente dos dois com os braços cruzados, gesto que costumava adotar quando queria esconder a ansiedade.
Quem respondeu foi Sirius. Ele apertou um botão no computador, exibindo na tela um histórico de conversa com um tal “Zezinho Trezoitão”, ou foi o que Mack entendeu do que estava escrito ali. O homem não falava português, então abaixou os olhos para Sirius, pedindo uma explicação.
— Ele disse que conhece um cara que conhece um cara que tem uma bomba pra vender. Gente de escalão alto do país. Gente que tem acordo com Brasília, com milícia, com o tráfico… Basicamente, gente perigosa. Mas que, sim, pode tentar arranjar uma venda pra mim.
— Ok, parece excelente — Mack respondeu, sabendo que estava bom demais para ser verdade mas querendo escapar do “porém” por alguns segundos extras.
— Porém… — Agnes fez o favor.
É, foram segundos agradáveis.
— Porém, ele só vai fechar a venda pra mim em pessoa — Sirius respondeu. — Acontece que eu sou repórter investigativo e pode ser que conheçam minha cara. Pode ser. Eu não sou famoso nem nada, mas também não sou um zé ruela qualquer, desmanchei um esquema ou outro. E, vale ressaltar, a venda não pode se fechar por completo. Não podemos entregar quinhentos mil dólares na mão do tráfico e da milícia, vai foder meu país mais do que já tá fodido. Então, basicamente, a gente precisa de um jeito de enganar eles a venderem a bomba pra mim a troco de dinheiro falso sem saber pra quem eles estão vendendo.
Era um senhor porém. Só de começar a pensar sobre, sentiu a cabeça explodir e dar umas belas voltas. Tudo bem, tinham passado por situações apertadas como essa, não seria a primeira vez. Mas com Sirius sendo tão inexperiente, preocupava-se com possíveis perigos ou ramificações de uma missão desse tipo.
— Acerte a compra — Mack disse, sabendo que a oportunidade não era dispensável. — Consiga o máximo de detalhes que puder. Agnes, ajude ele a fazer as perguntas certas. Local, horário, se ele pode levar segurança, o normal desse tipo de transação.
— Pode deixar — ela respondeu, girando a cadeira na direção de Sirius.
— Ótimo. Mas podem fazer isso depois, não quero que você pareça desesperado demais. Todo mundo está indo pra cozinha agora, se quiserem vir.
Mack tinha certeza que promover um ambiente amigável com a equipe era igualmente importante, em particular com pessoas tão diferentes convivendo umas com as outras. Ele chegou na cozinha percebendo que estavam todos presentes, faltando apenas ele, Agnes e Sirius. As crianças jogavam video-game, Bobbi, Hunter, Clint, Adrian e Yo-Yo conversavam em um canto. Parecia uma conversa decente e nada exaltada, o que de certo era um verdadeiro milagre, envolvendo Bobbi e seus dois ex-maridos no mesmo lugar. Mack decidiu que estava interessado naquilo e foi se juntar ao grupo, puxando uma cadeira para si.
— Ah, olá Mack — Hunter cumprimentou, pegando uma cerveja de um balde gelado ao seu lado e passando ao amigo.
— O que está acontecendo aí?
— Clint estava contando pra gente da vez que jogou a honra no lixo pra ganhar uma luta contra o Homem de Ferro — Hunter provocou com um sorriso canalha no rosto.
— Ah, claro, porque você é todo feito de honra, não é? — Mack respondeu, vendo um sorriso pequeno se abrir no rosto de Clint.
Não tinha falado aquilo para agradar o Vingador, era simplesmente divertido provocar Hunter. Mas, bem, aí estava sua recompensa.
— Pelo menos eu não finjo ter uma — Hunter deu de ombros, bebendo um gole da cerveja.
— Alguma notícia de Comunicações? — Yo-Yo perguntou, vendo Bobbi começar a discutir com Hunter. Mack decidiu que não queria prestar atenção no drama também, então talvez fosse uma boa passar um tempinho com Yo-Yo.
— Quer tomar um ar lá em cima?
A mulher sorriu e se levantou sem precisar ser convidada duas vezes. Mack deu um aceno de despedida pra os demais, ouvindo uma piada bem chula de Hunter sobre estar saindo da cozinha com a namorada. Em um piscar de olhos, Yo-Yo sumiu de seu lado, e no piscar seguinte estava ali de novo, agora com a garrafa de cerveja de Hunter em mãos.
— Vou ficar com isso como imposto pela sua babaquice — ela comentou, bebendo um gole.
Mack tentou não rir. Falhou miseravelmente.
— Quer saber, não gosto da sua namorada nova — Hunter provocou, abaixando-se para o balde e percebendo, frustrado, que estava vazio. — Oh, porra…
— Eu gosto — Bobbi respondeu. — Melhor namorada. Não poderia ter escolhido melhor.
Mack sabia que Yo-Yo jamais levaria aquele comentário de Hunter a sério. Não dava para levar Hunter a sério na maioria das vezes, para nada. Ele entrelaçou os dedos na mão da mulher, seguindo com ela para fora da cozinha e em direção ao elevador.
Yo-Yo era a única que sabia do gosto de Mack pelo topo do farol, e nem sempre aparecia por lá, respeitando o espaço de Mack quando ele queria ficar sozinho. Era uma das muitas coisas que o fazia admirar a namorada: a forma como os dois sempre tinham sabido se dar seus espaços e seus momentos tão bem. Ele seguiu com ela até a parte aberta do farol, parando em frente à cerca e respirando fundo o ar frio da noite. Dali, conseguia ver a Lua e as estrelas refletindo na superfície do lago, e não havia resquícios de cidade grande. Era uma vista muito pacífica. Sempre o ajudava a se acalmar.
— O que está se passando na sua cabeça? — A mulher perguntou, parando ao lado dele e fazendo um carinho no ombro do namorado.
Mack tinha prometido não esconder mais seus problemas de sua namorada. E nem sabia se tinha um problema ou não para esconder. A situação toda com Sirius podia acabar se resolvendo de maneira exemplar sem passarem por nenhum problema.
Ou não. Ou haveria problemas. Era sempre uma possibilidade.
— Sirius conseguiu a compra para nós, mas querem que ele vá em pessoa. Isso parece muito perigoso. Ele não tem experiência...
Mack viu Yo-Yo franzir a testa e se apoiar na cerca ao lado dele. Mesmo com os dois apoiados em uma cerca de mesma altura, ela parecia consideravelmente menor. O homem virou o rosto para encarar a namorada, e ela por sua vez estava com os olhos presos na superfície do lago. Pensando.
— Temos que mandar reforços. Podemos enviar os especialistas disfarçados.
— Parece ser o tipo de lugar muito guardado e perigoso. Não sei o quão famoso Clint é por lá, e Hunter sozinho é a mãe das ideias ruins.
— Mande os três — Yo-Yo respondeu, dando de ombros. — Bobbi já se deu bem trabalhando disfarçada na Hydra, tenho certeza de que conseguimos escondê-la em um país diferente.
Péssima ideia. Péssima. Mas ainda assim, poderia ser a melhor de todas, e a possibilidade não era nada animadora. Mack suspirou, passando as mãos pela cabeça e tentando respirar fundo, tentando pensar. Talvez tivesse de fazer o que Yo-Yo tinha sugerido. Talvez tivesse que mandar Bobbi. E então? Como garantir, ainda assim, que fosse tudo dar certo? Não sabia como Sirius ou Agnes se comportariam em campo, não sabia o que seu time sabia fazer, afundo. Não conhecia aquelas pessoas. Era fácil ser diretor quando tinha certeza que podia soltar Daisy e May na frente de um pequeno exército e elas dariam conta de tudo, ou quando sabia que se deixasse um problema na mesa de Fitz e Jemma eles com certeza apresentariam uma solução. Agora… Era tudo diferente demais.
— Eu só quero que dê tudo certo — ele disse, virando-se de costas para seescorar na cerca. — Fury vai cancelar nosso time se isso não funcionar, e essa equipe é tudo o que sobrou de tudo. Não pode dar errado.
— Não vai dar — Yo-Yo reafirmou, segurando uma mão de Mack entre as suas.
Ele apreciou aquele gesto mais do que teria esperado. Tudo seria bem mais difícil do que era se não tivesse Yo-Yo, estava convicto disso. Sabia que vinha se agarrando ao passado. Não tinha sido apenas necessidade que o tinha feito procurar por Bobbi e Hunter, tinha sido também seu desejo de recuperar um pouco que fosse da nostalgia daquela equipe. Um conforto ou um apoio depois de todos os seus amigos terem se separado. Mas isso poderia ir embora também. Um passo em falso, uma falha, e já era. Perderia tudo.
O telefone de Mack tocou nesse instante. Ele pegou, sentindo um tipo de aperto no estômago, e viu que era seu irmão Ruben. Não conversava com ele há muito tempo.
— Vou atender, é o Ruben — anunciou, mostrando o telefone para Yo-Yo.
— Mande um abraço a ele pra mim. Te espero lá embaixo.
A mulher deixou o farol, e Mack atendeu a chamada, sentindo então um misto de ansiedade e desconforto ao fazê-lo. Ruben era o único da família que sabia de seu verdadeiro trabalho, e a última coisa que precisava era logo seu irmão percebendo como tudo vinha dando errado ultimamente. Era melhor atender o telefone bem feliz.
— E aí, caçula? Como vão as coisas?
— Aaaah, Alphie, tudo em cima? Tudo bem por aqui. Papai e mamãe queriam que eu te ligasse pra mandarem um oi. Como vão as coisas aí no seu… Hum… Trabalho?
Ótimo jeito de começar a conversa, Ruben.
— Do jeito que dá. Mais problemas que soluções, mas estou trabalhando nelas. Passe o telefone pro pai, depois eu falo com você.
— Ah, claro, você tem favoritos. Sempre deixando seu irmão por último, tô te sacando, Alphie. Espera até você voltar pra casa pro Natal, vou ter uma moto tão irada pra te mostrar que vai fazer a sua parecer antiguidade.
Mack riu. No fim das contas, estava devendo mais uma tarde trabalhando em motos e falando sobre motores com ele. Fazer o quê, o hobby estava na família.
— A menos que a sua solte lasers, acho difícil.
— Espera, o quê? Isso é sério?
Só pela diversão, Mack decidiu não responder e deixar seu irmão achando que era. Desfaria a pegadinha depois.
— Aaaah, fala sério, Alphie! Como que eu vou competir com o tipo de parafernalha que você tem aí no seu trabalho? Isso não é justo, pode arrancar essa firulagem da sua moto, senão a aposta tá cancelada.
— Vou pensar no seu caso. Passe logo o telefone pro papai, anda.
Resmungando, Ruben obedeceu. A conversa com os pais não foi longa, só queriam saber como estavam as coisas. Ainda era muito chocante para Mack conversar com os pais no telefone daquela forma, depois de ter visto versões robóticas falsas deles morrendo em sua frente. Ouvir a voz dos dois era ao mesmo tempo horrível, por lembrá-lo daquela cena, e maravilhoso, por lembrá-lo de que eles estavam bem. Ao menos, em sua linha do tempo, estavam.
Céus, como Mack odiava robôs.
Ele fez o caminho de volta para a cozinha enquanto terminava de falar com sua mãe, e chegando lá, presenciou com um misto de alegria e nostalgia no peito os agentes todos se reunindo ao redor da mesa do jantar para a refeição. Estavam discutindo alguma coisa, ele pôde perceber. Os ânimos estavam exaltados.
Mack se aproximou, vendo que o fruto da discussão era um bando de… Hum… cachorros-quentes? O que era aquilo na mesa na frente dele? Ele franziu a testa, olhando confuso de um agente para o outro tentando entender que bagunça de sanduíche era aquela.
— Quem vai me inteirar no assunto? O quê que é isso? — Perguntou, pegando um dos cachorros-quentes na mão.
Tinha pão e salsicha, até aí tudo bem. Mas também tinha milho, vinagrete, batata-palha e, para choque de Mack, purê de batatas. E a salsicha parecia cozida em vez de grelhada. E ainda tinha ketchup, maionese e mostarda na mesa, como se desse para colocar mais ingredientes em cima daquele monstro.
Como a única pessoa na mesa que parecia estar comendo um sanduíche desses sem causar uma bagunça enorme ou achar a comida esquisita era Sirius, não foi difícil para Mack deduzir de onde tinha saído.
— É cachorro-quente de verdade — o brasileiro respondeu, depois de engolir a mordida dele. — Não essa falta de graça de pão com salsicha que vocês vendem aqui.
Nesse minuto, Agnes pigarreou.
— Salsicha, vírgula. Pra esse tubo de porcaria processada de vocês virar uma salsicha de qualidade, ela tem que melhorar muito. Se eu volto pra Alemanha chamando isso de salsicha é capaz de eu ser extraditada.
— Mas daí nada de novo sob o sol — Theo completou. — Vocês daqui são todos esquisitos e dirigem do lado errado da rua.
Hunter riu ao ouvir o comentário, e trocou um toque de mãos com Theo. Mack abriu um sorriso involuntário. Era bom ver Niko e Theo se dando bem com Bobbi e Hunter. Eles pareciam precisar de um modelo adulto, e embora Hunter fosse um modelo de integridade questionável, ao menos ele não era uma pessoa ruim.
Mack desceu o olhar para o sanduíche monstro em suas mãos e deu de ombros. Bem, já estava ali mesmo, e Sirius estava comendo com uma vontade danada, então…
Ele mordeu o lanche, precisando abrir um tanto a boca, e isso porque ele tinha a boca grande. No começo foi a coisa mais confusa que havia comido, cheia de sabores esquisitos e conflitantes e umas texturas bizarras, mas… Ei, até que era gostoso. Certamente vencia pão com salsicha grelhada, isso não tinha dúvidas.
— Ok, gostei — ele disse. — Sinta-se livre pra usar a cozinha mais vezes, Sirius.
E assim que falou, a mesa explodiu em conversas de pessoas falando umas por cima das outras, todas comentando o fato do chefe ter gostado do lanche esquisito dele. Comendo em silêncio e assistindo toda a interação, Mack não pôde deixar de sorrir. Aquele não era o mesmo time o qual tinha se acostumado por tanto tempo, mas era feito de pessoas incríveis, e de uma energia contagiante. Pela primeira vez em algum tempo, ele se deu conta do quanto estava feliz por estar ali.
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