S.H.I.E.L.D.: Guerreiros Secretos (Marvel 717 2)
13 Dona Harpia e Seus Dois (ex) Maridos
Hunter não era a pessoa mais paranoica do mundo. Estava acostumado com coisas dando errado, com correr riscos estúpidos mesmo quando estes podiam ser evitados, e com as possíveis nada agradáveis consequências de suas transgressões. Mas dessa vez, quem diria, não era por sua culpa que estava tudo dando terrivelmente errado.
Em verdade, ele sequer tinha entendido ainda o que tinha acontecido. Estava bebendo champanhe e comendo churrasco no canto da casa, debaixo da janela da sala onde Sirius e Agnes se encontravam, quando, de repente, tragédia. Guardas correndo em direção à sala, gritos, armas sendo apontadas e pessoas cuspindo ordens em seu comunicador.
Ele resmungou. Era para ter dado tudo certo, e era para ele ter podido sair dali de bucho cheio e sem nenhum tipo de cansaço, mas não, algum dos novatos tinha que ter cagado na coisa toda. Ele odiava fazer parte de equipe de extração, principalmente disfarçado, quando mal podia levar suas armas direito, dirá um colete à prova de balas. Saco. Soubesse que daria essa dor de cabeça toda, tinha ficado nas suas bagunças de mercenário mesmo. Mack só lhe arrumava roubada.
— Ok, quem foi o imbecil? — Ele perguntou, tirando a pistola camuflada da pochete e a segurando em posição de mira. Os civis já fugiam desesperados para fora da casa, deixando ao menos o caminho livre para Hunter atirar em qualquer segurança que visse em sua frente.
“E isso importa agora?”, Bobbi respondeu eu seu ouvido. “Vamos chegar na sala, os dois estão ilhados lá dentro. Precisamos pegar eles e a bomba e levar para um lugar seguro.”
Certo. Bomba, novatos, segurança, blá blá blá. Hunter quase bocejou, mas era parte do trabalho, que fazer. Mãos à obra.
Dois guardas mais próximos da entrada da casa o viram chegando, e levantaram as armas em sua direção. Hunter mal teve um átimo de segundo para saltar para o lado, jogando a mesa ao seu lado no chão e se protegendo atrás dela. Belo desperdício da porção de filé que ainda estava sobre ela. Depressa, o mercenário conferiu sua munição, ouvindo os tiros zunirem contra o tampo de granito da mesa: tinha uns cinco tiros no momento.
E era bom não errar. As balas deles eram de verdade, ao contrário das I.C.E.R.s tranquilizantes que a S.H.I.E.L.D. dava para seus agentes. Ele testou o peso da arma mais uma vez, e voltou a atenção para os tiros que estava contando.
Tinha dado uma breve olhada no tipo de arma que os dois levavam. Eram revólveres simples, o que queria dizer seis tiros para cada um, se não tivessem gastado nenhum antes. Hunter continuou contando os tiros mentalmente, tentando identificar pelo som por onde estavam vindo, e qual tiro seria de quem. Naquela situação caótica, com tiros vindo de dentro da casa para todo lado, não era tarefa lá tão fácil de fazer, mas ele chutou em algum momento que o guarda da direita estava sem munição.
Hunter emergiu de uma vez de trás da mesa, já apontando a pistola na direção exata, atirando quase sem pensar e abaixando de volta para trás de sua proteção. Ele soube que acertou ao ouvir o barulho do corpo do homem, agora dormindo como um bebê no meio da tarde, cair ao chão. O outro guarda, do lado esquerdo, pareceu se desesperar, porque começou a atirar mais depressa, gastando, por consequência, o restante de suas balas. Hunter abriu um sorriso pequeno, levantou mais uma vez e atirou naquele guarda também.
Eles estavam visivelmente pouco preparados para a situação, pois não significaram muito desafio, mas Hunter era esperto: sítio evacuado, poucos guardas, carga muito valiosa… Reforços chegariam a qualquer instante. Precisavam tentar sair o quanto antes.
Ele saltou a mesa, correndo pelo aclive gramado em direção ao piso térreo da mansão. Ele viu Bobbi, ainda com sua máscara de alteração facial assim como ele, terminando de acertar um de seus bastões no rosto do último dos três guardas do local, o único ainda de pé. Ele caiu também, e nesse momento, Clint saltou da balaustrada do segundo andar, com o arco em mãos e já sem a máscara de alteração facial no rosto. Hunter suspirou. Ele e Bobbi não podiam ser vistos com a S.H.I.E.L.D. de forma alguma, mas para Clint a máscara tinha sido apenas uma forma de não chamar atenção. Não fazia diferença agora, e portanto, não teria motivo para ele continuar se escondendo.
Maldito, até nisso ele tinha que sair por cima.
— Temos que andar rápido, sinto que há reforços a caminho — o Periquito Arqueiro comentou, e Hunter se perguntou se ele inflava o peito de propósito para falar ou se ele só parecia um pavão sob circunstâncias naturais mesmo.
— Não me diga — Hunter resmungou de volta. Ele se virou para a porta do escritório e a esmurrou sem muita paciência. — Saiam logo daí, não temos o dia todo.
Precisaram esperar um pouco. Hunter não sabia o que eles tinham feito para se protegerem lá dentro, mas devia ter sido esperto, porque levou alguns segundos para se desfazer. Logo, porém, a porta se abriu, e primeiro saiu Agnes, com o taser-desodorante em uma mão e um revólver na outra. Sirius veio atrás, abraçado à maleta como se sua vida dependesse disso.
— Precisamos nos separar — Bobbi disse. — Vai ser mais fácil sairmos daqui em duplas, dividindo os reforços deles entre alvos múltiplos.
— De acordo — Clint respondeu quase no mesmo instante, e Hunter teria ficado enojado com a babação de ovo se não soubesse que o Vingador de fato tinha motivo para querer esse tipo de separação. — Me dê a maleta, Sirius. Você pode ir com Hunter e Agnes com Bobbi.
O comunicador chiou no ouvido dos cinco, e quem respondeu a fala de Clint foi Mack, em um tom bastante autoritário que Hunter não ouvia sempre, mas sempre que ouvia, apreciava o amigo um pouco mais.
“Negativo. Hunter leva a maleta, Gavião leva Sirius.”
Clint pareceu ofendido. Excelente. Hunter abriu um sorriso largo, pegando a maleta das mãos de Sirius, e pronto para sair dali na mesma hora, mas logo ficou claro que Clint não estava interessado em deixar a troca passar com tanta facilidade.
— Com todo respeito, diretor, seu melhor soldado deveria levar a carga mais valiosa.
Melhor soldado? A ousadia do filho da puta! Hunter ia responder, mas Mack foi mais rápido e, mais uma vez, firme como era quando precisava ser.
“Não está em discussão. Saiam daí, reforços estão entrando no perímetro do sítio.”
Oh, inferno. Clint praguejou, mas acabou pegando Sirius pelo braço e o guiando para a saída dos fundos. Bobbi se dirigiu para a saída da frente e, para Hunter, o único caminho óbvio era a janela lateral.
Ele atravessou a sala, pronto para passar pela janela ao lado, quando ouviu um tiro soando perto demais de seu ouvido para seu gosto.
Hunter se abaixou. Infernos, tinham demorado demais. Uma onda de soldados invadiu a sala, e alguns começaram a se espalhar pelos fundos e pelo jardim da frente da casa. Se o objetivo deles era separar os guardas, tinham conseguido, mas ainda havia sobrado uma quantidade muito expressiva deles na sala para Hunter lidar.
Ele ergueu o olhar para a janela, a qual tinha tentado fugir segundos antes. Conseguia ver pelo reflexo que havia no mínimo uns cinco caras armados ali dentro, todos apontando as armas em sua direção, e eles não se impediriam de atirar. Não havia chance de conseguir lutar contra os cinco sozinho sem precisar largar a maleta. Precisava tomar uma decisão. Podia ser uma atitude burra ou uma atitude inteligente, mas tinha que fazer algo, e rápido. Agora. Já.
Hunter não era mesmo o mais inteligente dos três.
Ele atirou a maleta pela janela, pegou a arma em uma mão e a faca em outra, e saltou por cima do sofá.
Os tiros começaram. Hunter rolou pelo chão, virando a mesa de centro e se escondendo atrás dela. Quem precisava do escudo do Capitão América quando se tinha mesas? Ele apertou o comunicador no ouvido, recarregou a pistola e se jogou no chão para a direita, atirando no tornozelo de um dos caras e o jogando ao chão, em seguida se voltando para sua barricada improvisada.
— Galera, deu ruim — ele comunicou. — A maioria dos caras ficou aqui.
“Não sei se é maioria”, ele ouviu Bobbi responder, enquanto claramente lutava contra alguém. “Mas entendo o que quer dizer.”
— Eu joguei a bomba para o lado norte da casa. Por favor, consigam chegar até lá. Mack, envie Yo-Yo…
“Negativo. Gavião, Harpia, o lado norte da casa está deserto, é seguro se dirigir até lá. Qualquer um que tiver essa possibilidade primeiro, por favor, movam-se. Yo-Yo vai continuar aqui caso algum de vocês precise de socorro emergencial.”
Hunter resmungou, irritado. Yo-Yo deveria receber o pacote se algo desse errado. Pronto, tinha dado errado, caramba! O comunicador chiou mais uma vez, e agora foi a voz de Theodore que empesteou os ouvidos de Hunter.
“Eu posso dar cobertura nos fundos da casa, mas não tenho visão para Harpia ou Hunter. Consigo ver a maleta, porém. Devo cobrir Gavião ou garantir que ninguém tire o pacote de onde está?”
“Cubra o pacote”, Mack respondeu. “Gavião pode se virar.”
E Hunter? Podia Hunter se virar? Obrigado por perguntarem, ele pensou, no instante em que viu o cano da arma apontado para sua cabeça, do alto. Ele não teve tempo para pensar mais. Hunter rolou para o lado, estendendo a mão para cima e agarrando o cano da arma, empurrando-a para longe e fazendo o homem errar o tiro. Contudo, agora estava de pé, contra três seguranças armados.
Não devia ser difícil. Eram só três, já tinha enfrentado disparidades piores. Mas, geralmente, tinha um colete à prova de balas com ele, e um pouco mais que uma pistola I.C.E.R.. Para piorar, havia percebido um nível de habilidade curioso nesses seguranças. Eles não eram só seguranças comuns, dava para ver no modo como seguravam as armas, como atiravam e como lutavam. Tinham treinamento pesado. Hunter percebeu estar contra uma milícia paramilitar, o que para seu desespero, significava três pessoas tão habilidosas quanto ele. Armadas. E de colete.
— Ok, ok, caras, tudo certo — ele disse, torcendo para algum dos três saber inglês. Levantou as mãos, rendendo-se, e ouviu um dos sujeitos falar algo que, mesmo não tendo entendido, a linguagem corporal fora suficientemente universal.
Hunter se abaixou devagar, colocando a arma no chão. Talvez pudesse pegar um deles desprevenido agora, e se pudesse usar um dos três de escudo humano, tinha chance de sair dali. Ele ouviu o grupo falar “bomba” repetidas vezes e até pensou em se fazer de desentendido, mas não ia adiantar. E, vendo uma faísca que reconhecia nos olhos daqueles homens, percebeu que iriam matá-lo. Com resposta, sem resposta, estava morto.
Se quisesse fazer algo estúpido, era sua chance de fazer.
Ainda no chão, Hunter agarrou sua pistola de repente, rolando para o lado e atirando no meio do movimento. Conseguiu pegar o mercenário do meio, e o microssegundo de choque paralisou os outros dois. Não tinha muito tempo antes que reagissem; precisava responder rápido. Ele levantou a arma para o mercenário da direita, acertando seu ombro por pouco e também o jogando no chão, e virou a arma para o último deles.
Dois tiros ecoaram. O barulho suave da I.C.E.R. indicou que o milico fora atingido, mas o barulho forte da arma do próprio homem indicou que ele não tinha sido o único. O milico caiu no chão, atordoado pelo efeito da I.C.E.R., e Hunter olhou para baixo, sentindo um misto de dor e queimação violenta no lado esquerdo do abdômen.
Ô, porra. E isso porque sua camisa polo era branca.
[...]
E Bobbi tinha pensado que a viagem seria uma ocasião feliz. Por que não, não é? Brasil, já tinha visitado o país umas tantas vezes. Clima bem mais quente do que o do Canadá, com certeza, o tipo de lugar que ela, acostumada com praias californianas, bem queria pisar um pouco para se distrair.
Bela distração.
Ela saiu correndo da casa com Agnes bem a tempo de ver seis seguranças vindo de trás e do portão principal do sítio. Sem ter muito tempo para pensar, Bobbi empurrou Agnes com força em direção à piscina à sua frente, pensando que a mulher poderia até ficar puta depois se quisesse, mas o estava fazendo para salvar sua vida.
— Mergulhe sempre que puder! — Bobbi aconselhou, ignorando o palavrão soltado pela alemã em resposta e tirando seus bastões de dentro das botas de cano alto onde os tinha escondido. Ela estralou o pescoço, e sem mais delongas, decidiu começar.
Já havia um segurança próximo dela, o que foi ótimo. Ela acertou o rosto dele com o bastão, o atordoando antes que pudesse sacar a arma, e o puxou pelo ombro contra si, colocando o corpo do homem à sua frente e o usando de escudo humano. Bobbi guardou um dos bastões, tirando a arma do coldre de seu novo escudo, e começando a apontar e atirar na direção dos outros cinco soldados. Não precisava acertar, necessariamente. Só precisava que eles gastassem as balas. No corpo-a-corpo se garantia com certeza.
O chiado do comunicador soou mais uma vez naquela tarde, e dessa vez, foi a voz de Hunter do outro lado.
“Gente… Fui atingido…”
A voz dele falhou. Bobbi reconheceu a respiração cortada, um sinal claro de dificuldade para respirar. Não tinha sido um tiro qualquer. Ela sentiu o coração acelerar, imaginando, de repente, a possibilidade de Hunter morrer. Seu coração apertou, e ela se lembrou de alguns anos atrás, quando Ward tinha montado aquela armadilha grotesca, e ela imaginou estar fadada a ver Hunter abrir uma porta para salvá-la e levar um tiro no rosto. Tinha conseguido salvá-lo daquela vez. E agora? O que poderia fazer?
— Hunter, fique onde está — ela mandou, desesperada, disparando um tiro que enfim acertou um dos inimigos no ombro. Dois derrotados, quatro para terminar. — Eu vou te buscar, eu vou…
“Eu não sou de vidro, Bobbi, foi só um raspão. Só preciso de uns segundinhos pra pegar um ar.”
Bobbi grunhiu, apertando o gatilho e percebendo que suas balas se foram todas. Ela atirou o revólver ao chão, irritada, e soltou seu escudo humano. Ao menos, as balas dos inimigos também tinham chegado ao fim, e ela estava puta como ficava poucas vezes na vida. Bobbi tirou o bastão da bota novamente, marchando em direção ao primeiro inimigo, e os atirou.
Os bastões da agente voaram pelo ar, o primeiro errando o alvo mas o segundo o atingindo na cara. Depois do impacto, ela sentiu um formigamento leve nos braceletes camuflados em seus pulsos, e eles ativaram o efeito ultra magnético dos bastões, chamando-os de volta para suas mãos.
Bobbi apertou as armas, agora a meio caminho do primeiro soldado que tinha atingido. Ele esfregava o rosto, meio zonzo, mas era tarde para ele. Bobbi acertou sua cabeça com o bastão, mais ou menos no momento em que outro segurança se aproximou. Ela levantou o pé, chutando o peito dele e o empurrando para longe. Com estes dois atordoados, os outros dois chegaram por trás, e ela girou com os bastões em mãos, acertando-os um após o outro, em sequência.
Zonzos não era o suficiente. Precisava deles no chão. Bobbi girou a ponta dos bastões, ativando o taser deles, e avançou nos dois seguranças em sua frente.
Eles gritaram ao serem atingidos pela eletricidade, dando vários passos para trás e caindo no chão, desacordados. Bobbi sentiu um golpe forte nas costas nesse momento, e tropeçou vários passos até se recuperar e se virar para ver o que a tinha atingido. Tinha sido um chute, apenas, mas dos fortes. Ela bufou e avançou em direção ao atacante, tentando acertá-lo com o bastão.
O filho da puta desviou.
A essa altura, Bobbi enxergava vermelho. Ela tentou outro golpe com os bastões, da direita pra esquerda, da esquerda para a direita, mas o maldito milico estava espertinho agora. Ele desviava, tentando acertá-la de volta com chutes e outros golpes, dos quais Bobbi se esforçava para desviar também.
Inferno. Não podia ficar ali, Hunter precisava de ajuda. E a maleta, claro, ainda tinha mais essa. Bobbi apertou o comunicador; precisavam elaborar um plano.
— Gavião, você escuta?
A resposta dele veio em um sussurro, deixando claro muito rápido que ele estava em alguma situação delicada.
“Sim.”
— Hunter levou um tiro.
“Pelo amor, Bobbi”, Hunter interrompeu, resmungando zangado. “Já disse que estou bem, já tô quase me levantando de novo.”
Clint riu baixinho, e Bobbi fez seu maior esforço para não retrucar nada. Precisavam de foco.
— Onde você está?
“Nos fundos, vigiando a caixa da morte que seu ex-marido criou jogando a maleta pela janela.”
Ótimo. Não podiam tirar Clint de lá e ele ia precisar de ajuda. E agora? Bobbi plantou os pés no chão, respirando fundo. Precisava acabar logo com isso. O homem direcionou um chute em sua direção e Bobbi abaixou de uma vez, girando a ponta dos bastões e fazendo um golpe para cima, atingindo o queixo do homem com a arma eletrificada.
Ele caiu, e então ela ouviu outro ruído de estática atrás de si, e se virou a tempo de ver o último dos seis soldados daquela porção da casa cair ao chão. E, atrás dele, Agnes, encharcada, enfurecida, e segurando seu taser—desodorante ainda chiando pelo golpe dado.
— Nunca mais — a mulher disse, desligando a arma e colocando a tampa. — Nunca mais me jogue numa piscina desse jeito, fui clara?
Bobbi, ainda respirando exausta e olhando incrédula para o guarda apagado no chão, não se deu ao trabalho de responder. Ela apertou seu comunicador, respirando fundo e tentando acalmar a adrenalina, enquanto entrava em contato com Mack.
— Mack — chamou, ainda ofegante. — Estou com Agnes e o caminho está limpo. Eu posso deixar ela e Sirius com Hunter e enviar os três pro avião. Acho que Gavião pode precisar de ajuda.
“Eu estou bem aqui sozinho” Clint respondeu, mas não adiantou de muita coisa. Mack decidiu que a ideia de Bobbi era melhor.
“Afirmativo. Encontre Hunter na casa, busque Sirius e envie os três. Mandarei Yo-Yo como apoio para encontrá-los no meio do caminho.”
— Certo. Entro em contato assim que encontrar o Gavião — Bobbi respondeu, vendo Agnes pegar uma faca de um dos guardas no chão.
Ela desligou a comunicação. Agnes, quem tinha ouvido toda a discussão, não se preocupou em fazer perguntas. Bobbi começou a correr de volta em direção à casa, passando por uma considerável pilha de guardas derrubados por ela enquanto do lado de fora, e por Hunter, do lado de dentro. A sala estava completamente virada de cabeça para baixo: alguns vasos quebrados no chão, uma mesa tombada e bastante destruída e, escorado na parede do fundo na frente de uma enorme televisão de tela plana, Hunter, bebendo de uma garrafa de uísque claramente tirada da mesa de canto, e sem a camisa polo branca, agora pressionada contra um ferimento na lateral do tronco.
O filho da puta continuava gostoso até baleado. Bobbi suspirou, abrindo uma bolsinha presa à coxa e tirando uma sutura de dentro. Hunter abriu um sorriso bastante cafajeste ao ver Bobbi se aproximando, e ela quase guardou a sutura de volta para socá-lo na cara. Mas tudo bem. Ia ajudar.
Agnes se sentou no sofá da sala, cruzando as pernas distraída e apreciando a destruição no local enquanto Bobbi foi se ocupar dos primeiros socorros.
Bobbi olhou desconfiada para a blusa, antes branca, amassada contra o ferimento de Hunter, e para a paz dele enquanto bebia o uísque. Levantou uma sobrancelha bem devagar.
— Você não jogou isso aí na ferida, jogou? — Ela perguntou, tirando a mão e a blusa dele do caminho.
— Claro que não. Joguei vodka.
Senhor… Ela respirou fundo, decidindo que não discutiria, e começou a analisar o ferimento. Hunter tinha razão, era mesmo superficial. Ela começou a sutura, apertando o comunicador.
— Gavião, estou com Hunter. Você tem Sirius aí?
Hunter gemeu de dor, xingando um palavrão forte pela sutura sem anestesia. Tanto melhor, que xingasse. Ninguém mandou ter a brilhante ideia de desinfetar o tiro com bebida.
“Afirmativo. Posso enviá-lo de volta pra casa?”
— Espere um instante, eu vou descer para buscá-lo. O deixo com Hunter e quando eles e Agnes partirem pro avião, me junto a você.
“Não preciso de ajuda.”
— Não perguntei se precisa.
Ela desligou o ponto, terminando de costurar o ferimento de Hunter com um puxão um pouquinho abrupto demais. O mercenário reclamou, virando mais um gole da garrafa de uísque e a encarando com a cara fechada.
— Não vou ser babá de novato.
— Vai sim, ninguém mandou tomar tiro. Você precisa desinfetar isso aí direito, não com vodka. Niko é treinada pra cuidar de coisas simples assim.
Ele fechou a cara, mas não disse mais nada.
[...]
Por um adorável instante de inocência, Clint pensou que tinham dado sorte. Ele viu que Sirius não parecia muito feliz ao seu lado, mas não tinha nada que pudesse fazer a respeito. Não sabia julgar se o desconforto e desespero dele eram resultado de estar sendo escoltado por alguém que claramente preferia outra designação, ou se eram resultado do pânico geral sofrido naquele dia. De qualquer forma, Clint, quem não queria ter ficado com função de escolta, agora também precisava recuperar a maleta que Hunter tinha sido incapaz de proteger.
Quase chegava a ser irônico, se não fosse ridículo. Não tivesse o cara tomado um tiro no meio da confusão, chegaria a fazer piada, mas não era tão escroto a esse ponto. Ou ao menos, achava que não. De qualquer forma, uma coisa tinha de concordar, atirar a maleta pela janela tinha sido uma ideia moderadamente esperta. Se tivesse ficado com ela, o pacote teria voltado para as mãos dos vendedores originais, e era o que estavam tentando evitar agora.
— Senhor Barton — Sirius chamou, pigarreando atrás de si. — Senhor Barton, não podemos só voltar para o avião? Por favor?
E mais essa. Ele se impediu de suspirar, tirando o arco das costas e se abaixando atrás de uma árvore frutífera qualquer plantada na propriedade. Conseguia ver a maleta, mas se caminhasse até lá, seria o único andando em um campo aberto em direção a uma isca. Ele observou o campo, vendo dois corpos caídos ao lado da maleta, dois soldados que tinham tentado recuperá-la e tinham sido derrubados por Theo. Se havia dois no chão, cinco com Hunter e seis com Bobbi, pelo cálculo solto de Clint ainda havia uns bons dez a doze soldados com os quais se preocupar. Ele se permitiu suspirar.
— Não podemos sair sem o pacote — ele respondeu, escorando-se contra o tronco e esperando. — Hunter e Bobbi vão estar aqui a qualquer instante. Hunter vai manter você e Agnes a salvo até chegarem no avião, e Bobbi e eu vamos recuperar o pacote.
— Boa sorte pra vocês dois. Eu que não queria essa dor de cabeça.
Clint levantou uma sobrancelha. Bela atitude de fuga que ele estava tendo. Não o culpava, não era um especialista, coitado. Era jornalista. Devia estar sendo um pouco apavorante estar ali.
— Não acha que põe pouca fé em si mesmo? — Clint perguntou, mais por educação e aconselhamento que por, de fato, acreditar no que tinha falado. Sirius era bem realista, no fim das contas.
— Não me leve a mal! Não é que eu esteja te abandonando ou coisa assim, mas sejamos sinceros, eu não vou te ajudar com nada aqui. E ainda posso acabar atrapalhando. Se você precisa cuidar de mim e pegar a maleta, a coisa toda vai ficar meio complicada, não vai?
Clint sorriu. Ótima análise de prioridades. Sirius estava seguindo um caminho muito firme para se tornar um excelente agente.
— Entre em contato com a equipe — Clint pediu, querendo dar alguma função simples e realizadora para Sirius. — Informe a situação.
Sirius concordou com a cabeça, apertando o comunicador. Clint tensionou uma flecha no arco, mirando em direção à maleta e esperando os soldados aparecerem. Estava demorando demais. Conseguia imaginar muito bem o porquê. Ele esperou enquanto Sirius falava, e ainda nem sinal de ninguém. Estava começando a ficar impaciente, e precisou respirar fundo algumas vezes. Era isso que queriam, torrar a paciência dele. Precisava ter calma.
— Ok, consegui — Sirius respondeu. — Bobbi está vindo pra cá, ela acabou de costurar o Hunter agora.
— Ela vai vir por dentro da casa, não é? — Clint respondeu, ainda com os olhos fixos na maleta caída no meio do campo.
— É. Como adivinhou?
Então Bobbi tinha percebido a mesma coisa que ele. Clint engoliu em seco, estreitando os olhos e tentando identificar um vulto que fosse no meio das árvores, muretas e outras possíveis construções que poderiam servir de cobertura na região.
— Senhor Barton — Sirius chamou, e Clint não pôde deixar de sentir uma empatia com a curiosidade dele. Já tinha sido novato também. — A maleta está lá. Por que a gente não pega e vai embora?
Sim. Era uma boa pergunta, levando tudo em conta. Ao menos podia usar esse tempo para transmitir uma lição.
— Aquilo ali é o que a gente chama de isca. E todo esse espaço deserto ao redor da maleta é o que a gente chama de “caixa da morte”. Há muitos lugares ao redor da região onde alguém pode se esconder, como eu e você estamos escondidos agora. O que acontece com a primeira pessoa que correr para pegar aquela maleta, é que ela vai ser dizimada.
Sirius continuou em silêncio. Ainda com o arco apontado para a frente, Clint continuou esperando. Até o momento, nem sinal de Bobbi e nem de nenhum dos seus inimigos. A maleta continuava largada.
— Mas… Eles são cinco. Eles têm mais chance, não? Por que não fizeram nada? Assim, não querendo que façam, mas…
— Por que eles não sabem que eu sou um só, e prestes a ser dois, quando Bobbi chegar. E, mais ainda — Clint apontou para os dois corpos no chão. — Não sabem onde nosso sniper está.
Talvez a explicação tivesse sido suficiente para Sirius, porque ele se calou depois dela. Clint teria de fazer um movimento parcialmente suicida para recuperar aquele pacote sozinho, em particular considerando o plano que tinha conseguido divisar em sua cabeça para tanto. E, como a coisa toda ficaria muito perigosa e escalaria bem rápido depois de começar, tinha de esperar Bobbi tirar Sirius dali antes.
E ele esperou. Muita gente achava que ser um assassino treinado como ele significava ser capaz de matar várias pessoas de uma vez só, o que até não era uma noção errada, mas negligenciava todo o trabalho de paciência que a situação envolvia também. Ele checou o relógio rapidamente, constatando estarem naquela situação apenas há dois minutos, embora parecesse uma eternidade em meio ao silêncio e ao peso do ar. Mais ou menos nesse instante, ele viu Sirius o cutucar de leve e se virou pra trás.
Bobbi estava uns vários metros para trás, descendo o morro e parando atrás dos dois. Ela caminhou até eles, colocando a mão sobre o ombro de Sirius brevemente.
— Hunter e Agnes estão esperando lá em cima. Pode ir, Hunter vai cuidar de vocês.
Sirius lançou um último olhar preocupado para os dois, mas não discutiu nem disse mais nada. Ele deu as costas e foi correndo de volta para dentro da casa, onde felizmente, estaria seguro.
E agora, Clint e Bobbi podiam cuidar da maleta. De frente para a caixa da morte, ele sabia que Bobbi conhecia seus métodos muito bem, mas não faria mal se certificar de alguns detalhes.
— Como está sua visão em névoa? — Ele perguntou, conferindo se tinha uma flecha de fumaça leve na aljava.
A resposta de Bobbi foi tirar a máscara de Harpia do bolso e colocá-la. Clint conseguia ver muito bem através da névoa, tendo se acostumado com ela ao longo de anos, e se Bobbi estava com a máscara dela, ele sabia ter uma função de visão de calor. Tinham a vantagem, enfim.
Clint apertou o comunicador e trocou a flecha do arco, pronto para iniciar seu plano.
— Mack — chamou em um sussurro. — Bobbi e eu vamos engajar. Wayland vai perder a visão do campo.
“Afirmativo. Tomem cuidado. Não quero agentes caídos hoje.”
— Eu sei. Foi por isso que deixou Hamed comigo e a maleta com Hunter, não foi?
O silêncio de Mack foi resposta o suficiente. Para Clint, a situação havia se simplificado muito. Sirius precisava voltar para a base para a missão seguir em frente. E a missão de Mack precisava seguir em frente se Clint quisesse que a sua também seguisse.
Hora de fazer algo estúpido.
“Boa sorte.”
Clint sorriu em agradecimento, desligando o comunicador. Ele tensionou a flecha no arco e caminhou em direção à maleta, vendo pelo canto do olho Bobbi segui-lo em silêncio, com os bastões em mãos. Não demoraram muitos segundos, e ele viu os vultos vindo em sua direção, ouvindo também os tiros. Clint mirou o arco em direção ao primeiro milico armado que encontrou, soltando a flecha. A arma atingiu o homem no peito, jogando-o no chão, apitando duas vezes e explodindo em seguida.
A flecha-bomba-de-fumaça espalhou uma névoa densa e pesada sobre toda a região, mas ele e Bobbi estavam preparados. Ele enfiou a mão no cinto, tirando um cilindro de madeira e apertando um botão. Uma lâmina de katana retrátil se projetou, e ele se posicionou com a lâmina para cima.
— Pegue a direita — ele orientou, virando-se para a esquerda e dando as costas para Bobbi, sabendo que ela se viraria muito bem.
Não teria como impedi-los depois disso. Tiros começaram a voar em todas as direções, motivo pelo qual Clint tinha esperado Sirius sair para começar o ataque. O homem poderia facilmente ser atingido por uma bala perdida, mas ele e Bobbi não seriam alvejados com tanta facilidade.
Com a visão privilegiada, os dois conseguiram se mover como sombras pelas costas dos inimigos. Os tiros não os acertavam assim, e curiosamente, daquele campo de visão, Clint pôde ver Bobbi acertar a parte de trás do joelho do primeiro inimigo de seu lado, atirando o bastão em direção ao segundo e o recebendo quando ele voltou à sua mão.
Clint sorriu, satisfeito, correndo em direção ao primeiro guarda do seu lado, brandindo a espada em um movimento só e o cortando na altura do estômago. Não estava cortando fundo, não queria matar ninguém, mas era o bastante para jogar os inimigos no chão. Quando atiraram naquela direção para tentar acertá-lo, Clint estava no segundo sujeito, cortando-o do ombro esquerdo ao quadril direito em um movimento fluido e firme.
Decidiu deixarem vê-lo. Esperou um segundo a mais antes de correr na direção do terceiro, e sequer precisou atacar, pois os tiros dos próprios inimigos acabaram acertando o homem no ombro. Virando-se de costas, ele viu Bobbi derrubar um dos inimigos com uma chave de perna, eletrificando-o na altura do pescoço com seus bastões.
Do lado de Clint, só faltavam dois.
Clint enfiou a mão no cinto, tirando duas facas de arremesso. Ele as segurou com a mão, lançando-as firmemente em direção a um dos guardas, e com isso só tinha sobrado um. Clint respirou fundo, ergueu a Katana e o cortou nas costas.
O homem caiu. Aos poucos, a névoa começou a dissipar, e do outro lado Clint viu Bobbi derrubar o último guarda de seu lado, puxando-o pelo braço por cima de seu ombro e o jogando no chão. Ele lançou um sorriso para ela, sentindo um saudosismo muito poderoso em fazer esse tipo de trabalho conjunto com a ex-mulher.
Podia estar nostálgico, mas não adiantaria nada alimentar esse sentimento agora.
— Bom trabalho — ele elogiou, vendo Bobbi voltar até ele enquanto ajeitava o cabelo para longe do rosto.
— Você também. Não sabia que ainda carregava suas coisas de Ronin.
— Não uso sempre, mas habilidade é habilidade, né. Às vezes pode ser útil. Vamos sair logo daqui, não quero dar chance para mais ninguém chegar.
Ele pegou a maleta no chão, limpou sua katana, guardando-a, e caminhou com Bobbi para fora da caixa da morte.
[...]
18:05
Localização: RESTRITA
As portas da sala se escancararam de uma vez. O homem não costumava tolerar nada nem remotamente próximo a esse tipo de intrusão, mas tinha deixado um alerta em específico para seus subordinados, um detalhe que deveria sobrepassar quaisquer protocolos comuns. Um estado de emergência. E pela expressão da soldado entrando em sua sala, era exatamente esse o caso.
— Senhor! — A mulher exclamou, batendo uma continência às pressas. — Uma bomba foi capturada!
— Quem? — Ele perguntou, cruzando as mãos na frente do rosto.
— O Gavião Arqueiro, senhor. Trabalhando com a S.H.I.E.L.D.. E… Também…
O homem sorriu, levantando a mão e impedindo a soldado de continuar. Sim, conseguia imaginar todo o resto. Sabia o que tinha acontecido, e não pôde evitar de sorrir.
— Obrigado pelo aviso, soldado — ele comentou, levantando-se da mesa com as mãos nas costas. — Tudo está indo de acordo com o planejado, não se preocupe.
Ela pareceu surpresa. É claro que sim. Ele era o único a conseguir ver a imagem inteira. O absoluto único.
— Oh. Ok.
— Mais alguma coisa?
— Ah, sim, senhor. A cobaia está pronta, só precisamos do cientista especializado.
Certo. O especialista. Já estava trabalhando nisso.
— O cientista estará aqui quando for a hora de estar aqui — ele disse. — Por agora, se certifique de que o Dr. Tarleton está sendo devidamente preparado para o procedimento.
— Sim, senhor.
A mulher bateu mais uma continência e deixou a sala. De volta à sua mesa, o homem abriu um sorriso tão largo quanto poderia abrir.
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