SEMPRE FOI VOCÊ (Lorcan Scamander/Roxanne Weasley)
1 Capítulo 1 - O Peso do Silêncio
A neve caía em flocos delicados sobre Hogwarts, como se o próprio céu estivesse gentilmente cobrindo as torres altivas e os pátios vastos com um manto prateado, que capturava a luz tímida do sol de inverno e a devolvia em reflexos suaves e encantadores. Era um daqueles fins de semana mágicos, tão raros e preciosos, em que os alunos recebiam permissão para deixar os muros do castelo e seguir até Hogsmeade, suas vozes ecoando pelo ar gelado, cheias de expectativa e riso.
James Sirius Potter, com aquele brilho travesso nos olhos que lembrava tanto o avô de quem herdara o nome, puxava Lorcan Scamander pelo braço com uma urgência quase cômica. O garoto tinha a impaciência dos Potter correndo nas veias, misturada com um toque da audácia que os Weasley pareciam transmitir de geração em geração.
— Anda logo, Lorc! — exclamou James, a voz cortando o ar enquanto seus passos rápidos faziam a neve estalar sob seus sapatos — Se a gente bobear, o Fred vai vender todas as novidades para os Corvinos!
Fred Weasley, agora um ex-aluno de Hogwarts, estava sempre por lá, ajudando os pais na loja Gemialidades Weasley no Beco Diagonal, e James sabia, com a certeza instintiva de quem conhece bem a família, que o primo não resistiria à tentação de negociar os itens mais curiosos e cobiçados com os primeiros que aparecessem.
Lorcan soltou uma risadinha, mas logo sua atenção foi desviada por um grupo de alunas que desciam a escadaria de pedra. Roxanne Weasley estava no meio delas, caminhando com Dominique e Rose. O sorriso que iluminava o rosto de Roxanne fez com que Lorcan perdesse o fôlego por um instante. Havia algo naquela expressão, algo no jeito dela, que sempre o deixava sem palavras.
— Tá distraído com o quê? — James perguntou, dando um empurrãozinho no amigo. Seu sorriso era travesso, como sempre. — Ah, já sei...
Lorcan desviou o olhar rapidamente demais, mas não o suficiente para esconder o que acabara de acontecer.
— Não sei do que você está falando — disse ele, tentando disfarçar.
— Sabe sim. Você está olhando pra minha prima... — James riu, adorando provocar o amigo. — De novo.
Lorcan abriu a boca para protestar, mas logo a fechou. Era inútil. James sabia. Todo mundo sabia.
Bom, todo mundo, menos Roxanne, aparentemente.
Roxanne sentia o olhar de Lorcan antes mesmo de precisar confirmá-lo. Era algo sutil, mas ela já conhecia bem. E, se fosse honesta consigo mesma, ela até gostava. Gostava da maneira como ele parecia sempre perceber quando ela entrava na sala, como se seu rosto se suavizasse, seus olhos brilhavam com uma atenção especial quando ela se aproximava. Mas o que ela não gostava era do fato de que ele nunca tomava uma atitude, nunca dava um passo a mais.
— Você podia pelo menos falar com ele, sabe? — Dominique comentou, puxando o casaco de lã para perto do corpo enquanto caminhavam pelas ruas de Hogsmeade, as mãos enfiadas nos bolsos. O frio cortava o ar, mas o calor da conversa parecia ainda mais intenso.
— Falar sobre o quê? — Roxanne perguntou, franzindo a testa.
— Sobre o fato de que vocês dois estão há anos dançando em círculos — Dominique respondeu, com um sorriso maroto, como se estivesse prestes a dar um empurrãozinho na amiga.
Rose, a mais prática do grupo, sorriu com um toque de ironia.
— Se nenhum de vocês tomar uma atitude, alguém vai acabar tomando por vocês — ela disse, quase como uma ameaça, mas com a leveza de quem sabia do que estava falando.
Roxanne rolou os olhos, mas, por dentro, seu coração acelerou um pouco. Aquelas palavras tinham algo de verdade, algo que ela não podia mais ignorar. Mas ainda assim, ela continuou a andar, o peso do silêncio entre ela e Lorcan, que parecia nunca se decidir, pairando sobre seus passos.
Na Gemialidades Weasley, o som do sino da porta anunciou a chegada de James e Lorcan, e Fred os recebeu com aquele sorriso largo e irreverente que costumava marcar sua presença. Uma explosão de faíscas coloridas saltou do balcão, fazendo com que um arco-íris de luz brilhasse no ar, enquanto ele estendia os braços para cumprimentá-los.
— Finalmente resolveram aparecer! — exclamou, bagunçando o cabelo de James com um gesto de irmão mais velho e dando alguns tapinhas no ombro de Lorcan, como se já estivesse confortável com os dois, como sempre. — Se querem Bombas de Bosta, comprem agora. O pessoal da Lufa-Lufa já limpou metade do estoque.
— E você quer que a gente limpe a outra metade, né? — James retrucou, já puxando uma moeda do bolso com o sorriso travesso que não podia faltar.
Lorcan, no entanto, estava quieto. Seu olhar estava fixo na porta da loja, onde Roxanne acabara de entrar. A visão dela atravessou a loja como uma brisa suave, e o tempo, por um momento, pareceu desacelerar. Ela estava ali. E, mesmo com o barulho ao seu redor, ele não conseguia tirar os olhos dela.
Fred, percebendo a direção do olhar de Lorcan, seguiu a linha de visão do amigo. Sua expressão mudou, quase imperceptivelmente — um leve franzir de testa, um sorriso que se desfez por um segundo. Mas Lorcan viu, e soubera exatamente o que aquilo significava. Era um olhar de irmão mais velho, de quem sentia a necessidade de proteger. E, naquele momento, o peso dessa familiaridade caiu no peito de Lorcan como uma rocha, apertando seu coração.
Porque, por mais que ele desejasse Roxanne, por mais que seu coração se rebocasse para fazer algo, Lorcan sabia uma coisa com toda certeza: Fred Weasley não era apenas um amigo. Era como um irmão. Eles cresceram juntos, passaram por todas as fases da vida lado a lado, e, para Lorcan, isso significava que um irmão nunca deveria trair a confiança do outro. E, no fundo, ele sabia que não seria capaz de fazer isso.
— Rox! — Fred exclamou, com os braços abertos para a irmã, acolhedor e cheio de entusiasmo. — Você veio ver seu irmão favorito?
— Meu único irmão — ela retrucou, o sorriso iluminando o rosto com uma expressão que só ela tinha.
Por um breve segundo, o olhar de Roxanne cruzou com o de Lorcan. Não houve palavras, como sempre. O que ambos sabiam, o que ambos sentiam, permanecia não dito. Eles nunca diziam nada, não importava o quanto os olhares falassem por si mesmos.
De volta a Hogwarts, a Sala Comunal da Grifinória estava silenciosa, exceto pelo suave crepitar da lareira que iluminava o ambiente com uma luz quente e trêmula. Lorcan estava sentado de frente para o fogo, a varinha girando entre os dedos com um movimento automático, os olhos fixos no vazio, perdido em pensamentos. Ele não conseguia entender por que, depois de tanto tempo, ainda não conseguia dizer a Roxanne o que sentia. Talvez fosse o medo de perder a amizade, ou quem sabe, o receio de que ela não sentisse o mesmo. O medo de que, ao falar a verdade, ele pudesse arriscar tudo e acabar sozinho.
A voz dela o fez voltar à realidade.
— Você fica pensativo demais para alguém que deveria estar dormindo — Roxanne disse, sua voz suave, mas direta, vindo de algum lugar atrás dele.
Lorcan virou a cabeça e encontrou Roxanne parada ali, os braços cruzados sobre o peito, o olhar curioso e atento. Ele sentiu um calor repentino no rosto e uma sensação de desconforto que ele não soubera como lidar.
— Não conseguia dormir — foi o que ele conseguiu responder, sua voz um pouco mais grave do que pretendia.
Ela hesitou um momento, talvez avaliando se deveria continuar a conversa, mas então se sentou ao lado dele, sem dizer nada. O movimento dela foi tão natural, como se ambos já tivessem se entendido sem palavras.
— Nem eu — ela respondeu, e os dois caíram em um silêncio que parecia denso, pesado. Um silêncio carregado de coisas não ditas, de sentimentos não expressos, como uma brisa congelada que pairava entre eles.
Lorcan queria falar. Ele queria finalmente dizer a verdade, dizer a ela tudo o que se passava em sua mente. Mas, como sempre, a imagem de Fred veio à sua mente. O olhar protetor, o sorriso confiante de quem sempre cuidou de sua irmã... E, como sempre, o peso dessa lealdade inquebrantável o fez hesitar. Por que ele não conseguia ter coragem para enfrentar isso? Ele foi selecionado para a Grifinória, deveria ser corajoso. Mas a coragem parecia se dissipar diante daquilo. Ele permaneceu quieto, os olhos fixos no fogo, como se as chamas pudessem queimar suas dúvidas e deixá-lo mais leve.
A lareira continuava a crepitar suavemente, projetando sombras que dançavam nas paredes de pedra da Sala Comunal da Grifinória. Roxanne estava ao seu lado, os joelhos dobrados contra o peito, com o olhar fixo nas chamas. O silêncio entre eles era confortável, mas também tenso.
— Você tem estado estranho ultimamente — ela disse, de forma direta, sem rodeios, sua voz carregada de uma curiosidade que sempre a tornava impossível de ignorar.
Lorcan engoliu em seco. Claro que ela havia notado. Roxanne sempre percebia tudo, sempre via o que os outros tentavam esconder.
— Estranho como? — ele perguntou, tentando manter a calma, mas a preocupação começou a crescer dentro dele.
Ela inclinou a cabeça para o lado, estudando-o com o olhar atento de quem conhece cada nuance sua.
— Distraído. Distante. Parece que sempre quer dizer algo, mas nunca diz — respondeu, a franqueza dela fazendo o peito de Lorcan apertar. Se ela soubesse o quanto ele queria falar... Mas, de novo, ele engoliu as palavras.
Ele desviou o olhar para o fogo, tentando esconder o tumulto interno, fingindo uma calma que não existia.
— Acho que você tá imaginando coisas, Rox — disse ele, a voz tentando parecer mais casual do que realmente se sentia.
Ela franziu os lábios, claramente insatisfeita com a resposta. Seu olhar desafiador atravessou Lorcan, e ele sabia que não podia enganá-la.
— Certo. Se você diz. — Ela respondeu, mas o tom dela era claro: não acredito em você.
O coração de Lorcan pulou no peito. Ele queria ser honesto, queria finalmente abrir o coração para ela, mas a verdade parecia um peso insuportável demais para ser colocado entre eles. E, ainda assim, ele sabia que um dia não teria mais como esconder.
— Você tá um saco ultimamente, sabia? — James Sirius largou a batata frita no prato com um estalo, cruzando os braços e encarando Lorcan com um olhar afiado, que não deixava espaço para distrações. O Salão Principal estava agitado, com risadas e conversas misturadas ao som de talheres e pratos sendo trocados, mas para Lorcan, tudo aquilo parecia distante. Ele sabia que essa conversa estava prestes a acontecer.
— Como assim? — Lorcan perguntou, tentanto desviar a atenção para o prato, mas sabia que não podia escapar daquela discussão.
James revirou os olhos dramaticamente, como se a resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Como assim? — repetiu, com um tom sarcástico. — Você mal fala com a Roxanne. E, quando fala, age como se estivesse andando por um campo minado. E, na boa, eu não sei quem é mais teimoso: você ou ela.
Lorcan suspirou e passou as mãos pelo rosto, tentando afastar a frustração que parecia se acumular. Não era simples. Ele sabia que James estava certo, mas as palavras pareciam pesadas demais para sair.
— Não é tão simples, James — murmurou, o peso da situação pesando em seus ombros.
James parecia não querer ouvir desculpas. Ele encarou Lorcan com firmeza, desafiando-o.
— Claro que é simples, sim. Você gosta dela. Ela gosta de você. O que tá te segurando?
Lorcan mordeu o lábio inferior, sentindo o estômago apertar. Não queria falar sobre isso. Mas, no fim, não havia outra opção.
— Fred — disse ele, em um tom quase inaudível, como se a palavra fosse um peso gigantesco.
James piscou, confuso, quase sem entender.
— Fred?! O que tem ele?
Lorcan olhou para o amigo, o olhar sério. Ele sabia que James não entenderia de imediato.
— Ele é meu melhor amigo, James. Vocês são como meus irmãos. Como você acha que ele vai reagir se eu chegar e disser que gosto da irmã dele? — Lorcan falou, a preocupação clara em sua voz.
James fez uma careta, como se estivesse se perguntando por que isso seria um problema.
— Cara, você sabe que Fred não é um ogro, né? Ele não vai te amaldiçoar por isso.
Lorcan suspirou, mais uma vez frustrado.
— Não sei, James. Eu só... não quero estragar as coisas — admitiu, a voz baixa, como se estivesse revelando uma fraqueza.
James ficou em silêncio por um momento, ele pensou em como se sentiria caso algum de seus amigos falasse que estava gostando de sua irmã Lily, a ideia de fato não era das mais agradáveis, mas não era como se ele pudesse impedir sua irmã de fazer o que queria. Então, sem mais nem menos, ele soltou uma risada curta e irônica.
— Eu odeio ser a pessoa sensata, mas, se continuar desse jeito, vai acabar estragando as coisas sozinho. Talvez você precise conversar com o Fred, primeiro. — O que James disse parecia tão simples e direto, mas aquilo fez Lorcan parar para pensar. Ele não tinha coragem de falar com Roxanne sobre o que sentia; como poderia conseguir falar com Fred também?
O peso daquela ideia o atingiu em cheio, e ele se sentiu paralisado, mais uma vez preso entre o que sabia ser certo e o que temia fazer.
Naquela tarde, Roxanne estava na biblioteca com Dominique e Rose, mas, ao invés de se concentrar nas palavras no livro à sua frente, sua mente estava distante. As páginas passavam em suas mãos sem que ela realmente lesse uma única palavra.
— Você já leu essa página três vezes — Rose comentou sem tirar os olhos do próprio livro, notando a distração da amiga.
Dominique, que estava mais à vontade com a situação, apoiou o queixo nas mãos e observou Roxanne com um sorriso divertido no rosto.
— Aposto dez galeões que ela tá pensando no Lorcan.
Roxanne fechou o livro com mais força do que o necessário, sentindo a irritação crescer.
— Eu não tô pensando no Lorcan — respondeu, tentando parecer indiferente, mas sabia que sua amiga a conhecia bem demais para acreditar nisso.
Rose e Dominique trocaram um olhar cúmplice antes de se voltar para ela.
— Você tá, sim — Dominique insistiu, o sorriso ficando ainda mais largo. — E eu aposto vinte galeões que ele tá pensando em você agora.
— Aposto trinta que ele tá se torturando por causa disso — Rose acrescentou, com uma expressão de quem já tinha certeza do que estava acontecendo.
Roxanne bufou, tentando disfarçar a tensão crescente em seu peito.
— Ele tá estranho, eu admito. Mas se ele não quer me contar o que tá acontecendo, eu não posso obrigá-lo — disse ela, tentando parecer compreensiva, mas as palavras saíram mais duras do que esperava.
Dominique arqueou uma sobrancelha, seu olhar ficando mais atento e perspicaz.
— Ora, por que não?
— O quê? — Roxanne perguntou, confusa.
Dominique sorriu de maneira travessa.
— Coloque ele contra a parede! — respondeu, com uma expressão que Roxanne não sabia bem como interpretar. — Às vezes, as pessoas precisam de um empurrão. E eu acho que Roxanne Weasley é muito boa em empurrões.
Roxanne ficou em silêncio por um momento, as palavras de Dominique ecoando em sua mente. Então, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, uma ideia maluca tomando forma.
Talvez Dominique estivesse certa. Talvez fosse hora de forçar Lorcan a finalmente falar. Se ele não conseguia se abrir, talvez ela tivesse que ser a primeira a dar o passo. Afinal, o que era o pior que poderia acontecer?
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