SAGA PAVANELLI LIVRO 2: O REENCONTRO
2 Faíscas no Reencontro
A música eletrônica misturava-se ao som das risadas e ao barulho da água na piscina da casa de Enzo. Embora a atmosfera fosse de festa, a tensão entre Elise e Lucian parecia criar um campo de força invisível no pátio.
Determinada a não se deixar abater pela frieza do olhar dele, Elise voltou sua atenção para os amigos, respirando fundo para controlar o tremor nas mãos.
— Mas me conta, Clark... — Enzo aproximou-se, entregando-lhe um copo de ponche de frutas e gesticulando com um espetinho de churrasco na outra mão. — É verdade que na Europa o pessoal só come batata com capa de chuva e toma chá conversando com a Rainha? Quer dizer, com o Rei agora?
Elise soltou uma gargalhada genuína, a primeira da noite.
— Não, Enzo! Isso é puro estereótipo. A comida lá é ótima, embora o tempero brasileiro faça uma falta absurda. E o clima... bom, o clima realmente é cinzento. Sentia falta desse calor.
— Eu notei pelo seu bronzeado fantasmagórico — Murilo interveio, ajeitando os óculos com o dedo indicador e exibindo um meio sorriso analítico. — De zero a dez, sua pele está entregando que você passou os últimos cinco anos trancada dentro de um teatro sem ver a luz do dia.
— Olha só quem fala! — Elise rebateu, brincalhona, empurrando de leve o ombro de Murilo. — Você continua com essa mesma cara de quem passa a noite inteira decifrando códigos de computador no escuro.
— Toquei no ponto fraco da nossa estrela internacional — Murilo ironizou, bebendo um gole de sua cerveja. — Mas falando sério, é bom ter você de volta, Elise. A turnê é uma desculpa justa.
— Valeu, Murilo. É muito bom ver vocês também — ela sorriu, com os olhos brilhando.
Nesse momento, uma batida de funk antigo e envolvente começou a tocar nas caixas de som, animando o pessoal. Enzo deixou o espetinho de lado, limpou as mãos em um guardanapo e estendeu a mão para Elise com uma reverência exagerada.
— Chega de conversa fiada. Vamos ver se as piruetas de Londres servem para o ritmo carioca. Me dá a honra, primeira bailarina?
— Ah, Enzo, eu não sei se... — ela tentou recusar, mas Larissa já a empurrava pelas costas.
— Vai lá, Elise! Mostra para eles que bailarina também tem molejo!
Elise cedeu, rindo. Ela entrou na pista improvisada perto da área da churrasqueira. Embora sua formação fosse o balé clássico e contemporâneo, o corpo de Elise lembrava-se perfeitamente de como dançar livremente. Ela começou a se mover com uma fluidez impressionante, os quadris seguindo a batida perfeitamente, o vestido leve acompanhando cada movimento ágil. Enzo tentava acompanhar fazendo passos desajeitados e engraçados, fazendo o grupo inteiro explodir em gargalhadas.
A poucos metros dali, encostado em uma pilastra de mármore e segurando um copo de uísque com gelo que já havia derretido, Lucian observava tudo.
Seu coração martelava contra as costelas a cada jogada de cabelo ruivo que ela dava. Os músculos de seus braços tensos contra a camisa polo denunciavam o esforço monumental que ele fazia para permanecer parado. Ver Elise ali, tão madura, tão mulher, e ainda assim com o mesmo sorriso brilhante que um dia fora dele, causava-lhe um misto de dor e desejo avassalador. A cada olhada que ela direcionava para os amigos, a cada movimento fluido daquela silhueta perfeita, o peito de Lucian apertava um pouco mais. Ele queria odiá-la por ter ido embora. Queria conseguir dar as costas e ir embora, mas seus pés pareciam colados ao chão, enfeitiçados por ela.
Mais tarde, cansada do barulho e sentindo o peso dos olhares silenciosos de Lucian, Elise subiu as escadas externas da casa de Enzo, procurando um pouco de ar. Ela chegou à varanda do segundo andar, um espaço amplo e reservado com vista para o jardim iluminado e para a piscina lá embaixo.
Elise apoiou as duas mãos no parapeito de metal, respirando o ar fresco da noite. Ela estava perdida em pensamentos, dividida entre a alegria de rever os amigos e o impacto de ter reencontrado aquele homem tão mudado.
O som de passos firmes atrás dela a fez ficar em alerta. Pelo perfume amadeirado e marcante, ela nem precisou se virar para saber quem era.
Lucian parou a um metro de distância. Ele enfiou as mãos nos bolsos da bermuda jeans, observando o perfil dela iluminado pela luz da lua.
— Você continua fugindo dos lugares quando as coisas ficam cheias demais — ele começou. A voz, agora mais grave e encorpada pelos anos, cortou o silêncio como uma lâmina.
Elise deu um meio sorriso triste, continuando a olhar para o horizonte.
— Eu não estou fugindo, Lucian. Só queria um pouco de ar. O Rio de Janeiro continua lindo, mas o calor depois de tanto tempo na Europa assusta um pouco.
Lucian deu um passo à frente, aproximando-se do parapeito. O cavanhaque e o bigode sexy davam a ele uma expressão madura, mas o brilho ranzinza nos olhos azuis continuava exatamente o mesmo de cinco anos atrás.
— É... Londres deve ser muito mais confortável. Afinal, lá você tem os seus palcos grandiosos, sua mãe médica e toda a futilidade que você sempre quis, não é? — ele disparou, o tom de voz carregado de uma amargura ácida.
Elise virou o rosto devagar, encarando-o. O coração dela acelerou com a proximidade física, mas ela não recuou. A menina insegura do orfanato não existia mais; ali estava uma mulher madura.
— Você continua o mesmo ranzinza de sempre, Lucian — ela respondeu, a voz mansa, mas firme, com a resposta na ponta da língua. — Engraçado como você foca na palavra 'futilidade' para mascarar o fato de que o seu orgulho ainda está ferido. Eu fui embora para curar o meu passado, para descobrir quem eu era. Eu conversei com a Letícia todas as semanas durante esses cinco anos. A única pessoa que cortou os laços por puro capricho e egoísmo foi você.
Lucian travou o maxilar, os músculos da mandíbula sob o cavanhaque desenhando-se nitidamente. Ele deu mais um passo, encurtando a distância, o hálito quente batendo no rosto dela.
— Capricho? Você me deixou destruído naquela noite, Elise! — ele sussurrou com uma intensidade sentimental que tentava esconder atrás da carranca de professor durão. — Você escolheu o Reino Unido. Escolheu ir embora com aquela mulher e me deixou para trás como se a nossa noite de amor, como se tudo o que a gente viveu na praia não passasse de um ensaio de dança descartável. Quer que eu agisse como se nada tivesse acontecido? Que batesse palmas para a sua carreira?
Elise sentiu os olhos marejarem com o peso das palavras dele, mas manteve a postura ereta de uma primeira bailarina. Ela olhou bem no fundo dos olhos dele.
— Eu não te descartei, Lucian. Eu pedi para a sua mãe te dar um adeus porque você me mandou me foder e disse que não precisava de mim. Você me empurrou para fora daquela porta. E agora, ver você aqui, cinco anos depois, musculoso, barbudo, com cara de homem feito, mas agindo como o mesmo adolescente mimado que se recusa a entender o lado dos outros... é decepcionante.
Lucian abriu a boca para rebater, a surpresa com a firmeza dela estampada no rosto, mas Elise não deu espaço.
— Eu mudei, Lucian. Eu cresci. E vim para o Brasil para dançar a minha verdade no Teatro Municipal. O seu convite está entregue. Se o seu orgulho for maior do que o que você um dia sentiu por mim, fique em casa.
Sem dar tempo para ele responder, Elise virou as costas com elegância, o vestido girando no ar. Ela passou por ele como uma tempestade silenciosa, deixando-o sozinho na varanda, estático e de boca aberta, processando o impacto da rejeição.
Elise desceu as escadas em passos rápidos, despediu-se de Enzo e Larissa com um aceno rápido, inventando uma desculpa sobre o cansaço do fuso horário, e saiu da propriedade.
Ela entrou no carro alugado que estava estacionado na rua, bateu a porta e segurou o volante com força, deixando as lágrimas de raiva e frustração finalmente caírem. Ela pisou no acelerador, dirigindo pelas avenidas do Rio até chegar ao Copacabana Palace.
Ao entrar em sua suíte, Elise jogou a bolsa em uma poltrona e caminhou direto até a grande janela de vidro que dava para a praia de Copacabana. O mar escuro refletia as luzes da orla, e a espuma branca das ondas quebrava na areia.
— Idiota... ranzinza orgulhoso — ela murmurou para o vidro, o peito subindo e descendo com uma raiva ardente por ele ter estragado o reencontro com aquela ignorância defensiva.
Ela cruzou os braços, tentando focar no ensaio do dia seguinte, mas o esforço foi em vão. Ao fechar os olhos por um segundo, a imagem que surgiu em sua mente não foi a do rapaz irritado da varanda, mas sim a do homem lindo, de ombros largos, barba sexy e olhos azuis penetrantes que a faziam queimar por dentro.
Por mais que estivesse com raiva, Elise pressionou a pulseira de bailarina contra o pulso. Ela sabia, no fundo de sua alma, que aquele homem grosseiro continuava sendo o único dono do seu ritmo. O amor da sua vida.
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