S o l

1 Nós colidimos, e criamos o Universo.


Notas iniciais
....oi?
SIM, EU POSTEI ONTEM DO NADA E T?” POSTANDO HOJE DE NOVO. NÃO GOSTOU reclama nos comentários pfvr comenta ia
um presente aleatório pra a Shianny, de novo.
um dos personagens é dela, what a shocker!

parabéns pela coleção de grau!
te amo
continue sendo maravilhosa

Quando eu era criança, minha mãe dizia que eu era feito de sol.

Aquilo me fazia rir toda vez, e a gente gargalhava junto enquanto ela me enchia de beijos e cheiros, e me fazia esquecer de o que quer que fosse que me incomodava. Ela sempre teve mãos macias, e eu me derretia quando ela acariciava meu rosto, com seu cheirinho de pão e bolo, sempre que voltava do trabalho na padaria. No fundo, não fazia muito sentido pra mim, mas achava engraçado ser o sol.

Quando eu cresci, tive a oportunidade de estudar numa escola que — provavelmente — não tinha recebido muitos filhos de padeiras. Então, em pouco tempo, eu esqueci que era feito de sol e passei ouvir outros tipos de apelidos. Assim, eu passei de astro-rei para uma estrela pequenina, um pontinho solto no espaço.

Quer dizer, quem já viu o sol negro? Essa porra é eclipse, agora?

Aí eu esqueci o que é ser feito de sol, e apaguei.

Na época que eu e Murilo nos conhecemos, talvez fossemos as pessoa mais deslocadas da sala. Acho que a maior diferença é que ele nunca levou desaforo pra casa — ah, como eu achava curioso como um garoto franzino (como eu!) conseguia socar igual uma máquina! Eu ficava impressionado com o jeito como ele não se abalava com apelidinho nenhum, e acabamos sendo isolados da sala, só que juntos.

O clique foi rápido. Ele gostava de videogame, super-heróis e desenho animado, e não me olhava como se eu fosse um alienígena, então rapidinhos formamos um clube de dois pra brincar e jogar depois das aulas.

(Quando levei meu primeiro amigo pra casa, minha mãe ficou tão feliz que fez a assada de biscoitos mais cheia de gotas de chocolate que eu já tinha visto).

Nas vezes que ele não estava batendo na cara de alguém que chamou ele de bicha, Murilo era um amor de pessoa. Nosso senso de humor era parecido, e criamos carinho um pelo outro em poucas semanas. Ele era meu único e melhor amigo, e eu me acostumei ao sorriso dele, e às sardas que ele tinha espalhadas.

Eu as contava enquanto ele estava distraído.

As do nariz, bochechas e ombros eram as mais bonitinhas.

Foi quando eu concluí — ele é feito de estrelas!

E o sol dentro de mim se aqueceu um pouco mais.

Nós crescemos, eventualmente.

A puberdade me socou na cara diversas vezes, do mesmo jeito que Murilo precisou parar de fazer com os caras antes que fosse suspenso de novo. Ela atropelou a gente com hormônios, estresse, espinhas, mudanças de voz irritantes e um pulo de uma altura pra outra, quase do dia pra noite.

Dia após dia, raspar a cabeça pra me sentir normal me fazia sentir pior. Que tipo de sol se poda? Não fazia sentido. Eu não queria aquilo, mas sabia que minha mãe não fazia por mal. Ela não sabia lidar, e eu também não.

Então, eu aprendi sozinho, e meu cabelo (crespo, crespo, crespo!) floresceu igual ao halo solar, e me senti um pouco mais aquecido por dentro, como costumava ser anos atrás.

A puberdade também mudou o Murilo — acho que deu mais confiança pra ele.

Quando tinhamos catorze ou quinze anos, numa das nossas partidas de Mortal Kombat (as quais Murilo ganhou tantas vezes que ganhou o direito de ser Player 1 na minha casa), entre um round e outro, ele pausou e me olhou nos olhos.

João, preciso te contar uma coisa.”, ele disse, com a voz baixa e hesitante, e eu senti que ele estava nervoso à respeito. Ele não ficava nervoso assim por nada.

Fala.”, descansei o controle nas pernas, sentado que nem índio.

Eu… Gosto de meninos…”, ele me disse, e a voz sumiu.

Processei devagar. Não estava surpreso, não parecia ser novidade nenhuma pra mim. Ele era diferente dos outros meninos, ou algo assim. Me senti mal por ele parecer tão inquieto em me contar — a família dele, nossos colegas de classe… Acho que ninguém nunca fez ele pensar que estivesse tudo bem.

Ok. Não vai continuar o jogo?”, respondi, apontando pra a televisão de tubo com a cabeça. Ele me olhou, e eu vi a confusão em seu rosto sumir num sorriso tímido, com aquela covinha fofa no canto dos lábios e as sardas espalhadas, como estrelas no céu escuro. Sorri de volta, acanhado com o calor que vinha dele, e voltei minha atenção à televisão para escolher o Scorpion.

Não lembro quando comecei a beber e pensar como seria beijar o Murilo. Não era algo… Espantoso. Não era repulsivo, muito menos repentino. Ele sempre foi tão bom pra mim, e tão próximo, que foi quase orgânico. Eu deitava no tapete peludo da sala, com a garrafa de cerveja na mão, e pensava se era diferente das meninas que eu beijei.

Ele não tinha curvas, eu sabia. Nem lábios carnudos. Os ombros eram meio ossudos, os cabelos curtos, as mãos magrinhas. Não tinha voz fina, não tinha seios (o que sempre pareceu relevante pra mim, qualquer tamanho), não tinha…

Meu rosto esquentava, e eu me revirava os pelinhos do tapete macio.

Isso era tão pouco. Parecia pouco! Ele tinha muito mais. Depois da minha mãe, era a pessoa mais importante pra mim. O sorriso dele me derretia, as sardas estreladas, os cabelos brilhosos (ele era um pouco vaidoso, eu acho), as mãos macias, a risada gostosa, o senso de humor… E o quanto ele se importava comigo e cuidava de mim.

Que bronca ele me daria por estar acordado até aquela hora, entre cervejas e apostilas de vestibular? Sentia a risada vir, imaginando o sermão.

Quando nos beijamos pela primeira vez, eu também estava bêbado, me fingindo de sonso e perguntando se era diferente de beijar uma garota. Se era diferente fazer amor. Ele me disse que não sabia, mas eu queria descobrir. Ele parecia hesitante, tímido. “Me peça quando estiver sóbrio”, sua respiração quente acariciou meu rosto. “Nem um beijinho?

Foi diferente.

Talvez eu tivesse me sentido sol de novo, ali. Foi simples, singelo. Tímido. Não sabia se era por pena, ou se ele queria aquilo tanto quanto eu. Talvez eu tivesse entendido os sinais de forma errada esse tempo todo. Os toques inocentes, os dedos que se encostavam em cima da mesa, os sorriso e olhares…

Eu não tinha ideia, mas foi especial, e amei sentir os lábios dele nos meus.

Nos beijamos mais vezes. Sóbrios.

Nos tocamos, e nos acariciamos, e eu contei mais sardas em seu corpo do que já tinha visto em toda minha vida. Nos ombros, descendo pelas costas, até a base da coluna e na lombar, descendo pela curva dos quadris e as coxas. Fui beijando as que encontrei, e me senti mais perto da infinitude do espaço lá fora.

Ele sorria pra mim, e parecia tão constrangido quanto quente. Quente, quente, e me beijava como se fosse sua única oportunidade. Suas unhas arranhavam meu couro cabeludo, minhas costas, meus ombros, e ele suspirava profundamente.

Eu nunca me senti arder tanto — ele acendeu o Sol dentro de mim.

Nós colidimos, e criamos o Universo.

Na nébula dos lençóis, dormimos abraçados até o amanhecer.

O dourado da aurora brilhava sob minha pele, e eu era feito de sol outra vez.

Notas finais
encontre alguém que te faz arder como o sol
(e te fode como se vocês fossem criar o universo, se é disso que você gosta, i dunno)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!