Só podia ser Você
12 Aquela da ‘ralé’
Notas iniciais
Capitulo 12
Aquela da ‘ralé’
Meu dia começava às cinco e quarenta da manhã, isso se eu quisesse chegar a tempo no colégio. Vovô para minha sorte acordava as quatro reclamando de dores imaginárias e fazia um café bem forte. Apesar da escuridão das ruas naquela hora, a quantidade absurda de gente já iniciando o trabalho dava um ar mais tranquilo.
Então encontrava com Eri, Ayumi e Yuka no metro e juntas íamos para o colégio. Claro, eu sentia falta e muita da Sango com os deboches e crises de amor não correspondido pelo Miroku. Mas tudo bem, de vez em quando a gente se falava e ela me contava alguma fofoca.
Já faziam dois meses que saí de casa.
Mamãe não concordou muito, antes mesmo de eu me justificar ela já disse que sabia que eu não seria capaz de me passar pela Kikyo e alegou que Kouki também sabia. Me pediu várias vezes para voltar... Mas apesar da saudade eu neguei.
Eu estou onde deveria ficar.
A vida aqui é um pouco complicada, acordar cedo, colégio, depois ir para a lanchonete da senhora Gigi e trabalhar até as dez e por fim voltar para casa. Só que... É mil vezes melhor.
Aqui eu me sinto muito melhor do que se estivesse na casa do senhor Kouki, eu não sinto uma intrusa que vive de favor, eu não tenho que ir ao Shikon no Tama fingir ser um fantasma por que os alunos são esnobes... Não, aqui é como o Inu-boboca disse... Minha ‘gente’.
Por falar nele, eu evito falar dele com Sango, eu não sei por que só de ouvir o nome desse idiota incorrigível sinto como se tivesse perdido algo. Ele deve estar na mesma com a Kikyo e por mim, que se casem e desapareçam.
Até por que, eu não estou tão mal assim...
— Você vai trabalhar hoje Higurashi? — Encarei o Hojo que foi até minha sala com aquele sorriso largo e bobo.
— Vou, segunda a sexta, hoje é quarta. — Disse sorrindo. Ele pegou uma cadeira e sentou perto de mim.
— Vou dar uma passada lá então. — Acenei que sim.
— Faça isso, a senhora Gigi está precisando de clientes, depois que o marido dela fez aquela palhaçada lá as pessoas tem evitado a lanchonete. — Ele franziu o cenho concordando.
— Eu acho perigoso você trabalhar lá até de noite, talvez... Se você não se importar, eu posso te levar para casa. — As bochechas dele ficaram vermelhas e eu quis muito rir. Pigarrei sem jeito afirmando.
— Se você acha. — E lá foi nós dois mais uma vez ficar de risinhos e olhares de adolescentes na puberdade um para o outro.
Hojo é um velho amigo meu, digo, a gente se conhece já tem um tempo e foi com ele que fui num show de rock pela primeira vez. Claro que depois que mudei com minha mãe a gente se distanciou, mas temos uma química.
Ok. Hojo não tem o cabelo longo prateado, não tem olhos de cor de ouro, não tem presas, nem garras ou a voz rouca que me fazia quase ter um troço, mas ele não era lá de todo mau. Cabelos castanhos escuros e um jeitinho de menino virgem querendo perder a virgindade que encantava qualquer garota. Fora que era um cavalheiro e estava sempre me dando alguma coisa saudável para comer.
O que era ótimo, por que eu prefiro comida do que flores.
Minhas amigas eram só apoio, por elas eu já estava casada e com filhos ao lado dele. Porém, eu ainda me sentia um pouco mal e... A droga da minha cabeça ficava pensando se o idiota do Inuyasha ainda estava escrevendo músicas e como deveria ser ele cantando e bom... Essas coisas estupidas que eu não deveria pensar estando com outro garoto.
Até por que eu já dei uma gafe colossal com o Hojo.
Aula de educação física, eu joguei minha flecha na ‘terra do nunca’ e fui lá... Inventar de procurar. Resumo da história, Hojo apareceu com cara de quem queria perder a virgindade daí eu pensei: ‘Ah, tô fazendo nada mesmo!’.
Eaí, no meio dos beijinhos e beijões fiquei lá... E não estava lá, procurei de novo e achei tão estranho, devia estar lá. Foi quando o Hojo se afastou de mim e perguntou por que eu ficava passando a língua nos caninos dele. Sorte que eu não era um avestruz, ou tinha enfiado minha cabeça no buraco.
Enfim, eu gosto do Hojo, mas ainda tenho esses flashs daquele idiota, e eu nem sei por que, eu beijei ele tão poucas vezes.
Então era melhor ir com calma.
[...]
Bocejei pela quinta vez terminando de limpar a última mesa. As meninas do meu lado me imitaram sem conseguir evitar bocejando também. Nós três rimos e demos por encerrado o trabalho.
Meu guarda-costas apontou na porta e já foi motivo para muitos sorrisinhos cruéis.
— Uh eu também quero escolta. — Brincou uma das meninas.
— Volta com o Ikki. — Retruquei me sentando na cadeira e tirando o lenço da cabeça. Ela fez careta.
— Tô fora, antes sozinha do que mal acompanhada. — Revidou. Franzi o cenho.
— Mudando de assunto, eu não vi a senhora Yukino esses dias. — Minha amiga Yuka cruzou os braços confusa.
— Vimos ela ontem Kagome. — Neguei.
— Vimos ela antes de ontem, e ela não é de faltar ao trabalho. — Eri se aproximou concordando.
— Vai ver o filho dela ficou doente. — Nós três encaramos Eri com incredulidade.
— Shippo é hanyou, hanyous não ficam doentes assim. — Ayumi tomou a frente.
— Eu moro perto da casa dela, vou dar uma passada lá pela manhã. — Acenei que sim junto com as meninas que logo acenaram para o rapaz na porta.
— Assanhadas... — Disse. Elas riram me empurrando. — Até amanhã! — Deu um aceno a elas que foi devolvido.
Era quase onze da noite. Mas diferente do bairro da casa do senhor Kouki, aqui, o comercio continua. Aqui as pessoas precisam de trabalhar duro e até altas horas se for preciso. Segurei no braço do Hojo olhando ao redor e feliz. Como me fazia bem ficar no nesse meio sem me sentir um peixe fora d’água.
— Vou te irritar. — Afirmou ele quebrando o silêncio. Sorri estranhando.
— É mesmo? Tente! — Devolveu o sorriso largo.
— Pela milésima vez, você veio para valer? — Milésima vez mesmo, ele me perguntou isso um monte de vezes. Dei uma risada mexendo os ombros.
— Pela milésima vez, eu não sei, eu quero ficar aqui, mas você conhece minha mãe Hojo, ela é ótima para fazer drama e me convencer. — Ele fez um biquinho pensativo.
— Mas prefere viver aqui do que lá?
—Ihh mil vezes, lá as pessoas são difíceis Hojo, existe toda uma burocracia para falar com elas e quando se fala com elas são coisas inúteis! Eles nem fazem ideia dos problemas do mundo, vivem numa bolha e sem contar que são egoístas... Não tem ideia do alivio que sinto sempre que chego no colégio e não tenho que me preocupar de alguém encher meu saco por causa de moda. — Contei a ele que riu.
— Meu primo arrumou trabalho num restaurante chique no centro... Recebe bem, mas diz que eles se empombam com cada coisa. — Acenei que sim. — Então, você não se importaria de viver aqui para sempre?
— Claro que não, eu sou a mesma Kagome Hojo, a diferença é que conheci o outro lado e não gostei nenhum pouco. — Ganhei um beijo na testa.
— É isso que eu mais gosto em você Kagome, você foi, é, e sempre será a nossa Kagome-não-mate-o-gato! — Gargalhei alto sem acreditar que ele lembrava disso.
— Foi um acidente! Eu não joguei ele de proposito no poço! — Dei uma gargalhada junto comigo.
— Claro, todos nós sabemos que você só queria mostrar o fundo do poço para ele depois dele te morder. — Gargalhei ainda mais dando um empurrão nele.
— Como você é malvado. — Ele sorriu negando.
— Eu não tentei matar meu gato.
E seguimos caminho até o templo rindo e lembrando de coisas vergonhosas do passado. No final, ele ficou ali esperando algo mais além de um ‘tchau’. Eu dei um beijo suave nele, mas não devia ter dado, pois mais uma vez aquela imagem maldita daquele hanyou insuportável apareceu.
Ahh saquei! É assim que vou pagar meus pecados, com lembranças do estupido sem poder namorar alguém descente! Poxa, valeu!
Subi os dois milhões de degraus – ok, não era isso tudo, mas eu estava cansada e pareceu isso.
Quando cheguei lá em cima eu só queria tomar um banho e dormir.
— Cheguei vovô! O senhor comeu direito? Não vem com aquela história de novo que é alérgico a algo! — Entrei no meu quarto. Tirei os sapatos e soltei o cabelo dando um longo suspiro.
— Estou na sala! Venha aqui! — Me gritou. Dei uma longa espreguiçada indo até.
— A Eri me disse que amanhã vai ter promoção na frutaria, se eu não chegar a tempo o senhor podia ir lá. — Assim que entrei na sala dei um passo para trás.
Franzi o cenho. Apertei os olhos e ainda parecia uma miragem. Olhei em volta e por fim na mulher bem arrumada sentada na cadeira tomando um chá junto com meu avô. Cadê os guardas? Cadê a limusine? Cadê o mordomo e o chofer? Engoli em seco e dei um leve aceno para ela.
— Boa noite, senhora Taisho. — Ela sorriu levemente.
— Boa noite, Kagome Higurashi. — Suspirei encarando meu avô, ela disse meu nome com tanta ênfase que fiquei sem graça.
— Ela é... — Acenou que sim.
— Já ouvi toda a história, ou todas as versões da história... Enfim, ela está a um tempão te esperando, parece muito importante, então... — Se levantou da cadeira acenando para mim. — ...Vou deixar vocês a sós, vou preparar um chá. —E saiu indo para a cozinha. Engoli em seco de novo e apertei uma mão na outra não esperava ver ela nunca mais. Ainda assim, estava ali, bonita e de queixo erguido.
— É um templo agradável. — Balancei positivamente a cabeça.
— É sim, embora as pessoas não busquem mais tanto eles nos dias de hoje. — Repliquei suspirando. — Está tarde, era a última pessoa que esperava ver por essas bandas, ainda mais por essas horas. — Comentei o que a fez rir.
— Não sou tão esnobe quanto pareço. — Neguei e ela continuou. — Mas você esteve muito ocupada por esses dias de modo que não houve nenhum momento melhor, me informaram que a melhor hora seria depois do seu trabalho ou antes da sua escola, de modo que não queria que perdesse aula. — Explicou.
— Aqui sempre tem o que fazer. — Engoli em seco pela terceira vez criando coragem para perguntar. — O que de tão importante te arrastou até aqui às onze da noite para tratar comigo? — Bem séria ela me encarou.
— Kagome, eu vim pedir para que se passe pela Kikyo novamente.
Como é que é? Será que ou ouvi direito ou o sono me fez delirar?
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