Notas iniciais
Boa leitura. Espero que goste.

Os anjos, quando são invocados no corpo de alguém, sentem tudo que o dono original sentiria, mas por serem seres diferentes, a fome e o sono aparecem apenas quando o corpo físico sofre ferimentos graves, mas caso o celeste tenha um alto poder de aura, ele pode usá-la para curar o corpo físico em pouquíssimo tempo. Iris ao cair sentiu a dor subir de seus pés até a cabeça, imediatamente começou a concentrar sua energia neles para que estancassem a hemorragia e começassem a fechar o ferimento. Ruman e Hemiel não possuíam o mesmo nível de habilidade, ao caírem não conseguiram se levantar por alguns instantes devido à dor, só conseguiram fazê-lo quando a tenente os ajudou.

Olhando ao redor, Iris estava em uma espécie de calabouço, e as poucas tochas que estavam acessas não iluminavam muito bem o lugar escuro e úmido.

— Conseguem caminhar, rapazes? Temos que voltar e ajudar Ouriel.

Hemiel e Ruman se mantinham de pé com dificuldade, suas feridas iriam demorar muito mais para fechar do que as de Iris. Ela estava se aproximando para ajudar os dois a continuar, quando uma das tochas ao fundo se apagou e caiu ao chão, Iris sentiu o movimento, mas só teve tempo de ver uma sombra correndo entre as pilastras do lugar.

— O que foi isso? – Perguntou Ruman.

— Não consegui ver muito bem, apenas vi a sombra de alguma coisa. Parecia ter quatro patas. – O som de algo entre um choro e um rugido tomou conta do lugar.

— Esse som, isso não é bom. Temos que sair daqui agora.

— O que foi isso, Iris? – Ruman perguntava novamente.

Mais sons parecidos agora ecoavam de diversos cantos da cripta.

— Carniçais. Já tive o azar de encontrar com essas criaturas uma vez. Demônios que se alimentam de restos de carne, seja humana, angelical, ou até de outros demônios. São demônios de nível baixo, mas sempre atacam em bando.

Uma segunda tocha se apagou ao cair à esquerda dos Querubins.

— E pelo jeito caímos bem no meio do ninho deles, temos que sair daqui. Agora. – Finalizou Iris, pegando a tocha mais próxima para buscar pela saída.

Ruman focou toda sua energia em seus pés para cicatrizar logo a sua ferida. Quando o fez uma criatura esquelética de dentes afiados, cega e sem pelo algum no corpo saltou para cima dele tentando mordê-lo. Iris interrompeu a criatura acertando um soco em sua mandíbula, fazendo-a correr pelas pilastras.

— Droga, eles nos sentiram. – Iris avisou o amigo dando apoio para que ele se levantasse. – Não entendo como eles foram capazes de trazer tantos desses seres para o mundo humano, como não passam de bestas, eles não possuem pupilos para atravessá-los do véu.

— A camada nesta cidade já é mais fina que nas outras, e aqui embaixo, no escuro, ela deve ser ainda mais. Por se tratarem de demônios mais fracos eles não devem ter tido problema em trazer várias dessas criaturas. – Hemiel respondeu, enquanto apoiava-se nos próprios joelhos para manter-se de pé.

— Eles já esperavam por nós e criaram essa armadilha. – Iris concluiu.

Tentava acumular energia para materializar sua arma, mas antes disso foi novamente atacada e forçada a se defender, dando um chute na criatura.

— Droga, de alguma forma eu acho que eles conseguem sentir nossa emanação de energia. – Iris afirmou. – Não entendo tanto de selos e magia como vocês, rapazes, mas por hora é melhor buscarmos a saída sem expandir nossa aura.

Hemiel e Ruman andavam um do lado do outro com dificuldade, enquanto Iris os guiava procurando por uma saída. A alta concentração de energia que ela fez, atiçou o bando, que agora corria de um lado para o outro, Iris por diversas vezes espantava alguns deles com a tocha e os mais ousados tomavam socos e chutes que os incapacitavam no chão. Eles continuavam correndo e apagando as tochas espalhadas, até que a única iluminação do lugar vinha da que estava na mão de Iris, que continuava atacando os carniçais e defendendo seus companheiros. Após algum tempo andando de um lado para o outro, eles finalmente encontram uma escada presa à parede, mas antes de correr em direção a ela, uma garra passa rente ao rosto de Iris, quase partindo-o em dois, com um salto ela consegue desviar do ataque, mas o corte acerta sua mão, fazendo-a derrubar a tocha e assim quase a apagando.

— Porcaria! – Berrou de raiva para a criatura. – É... Você é diferente dos demais. – Falou ao olhar aquele carniçal, ele era completamente musculoso, suas patas dianteiras foram substituídas por laminas longas e curvadas que não permitiam que a criatura se movesse adequadamente, forçando-a a ficar de pé sobre as patas traseiras, ficando com quase dois metros altura.

— Iris – gritou Hemiel quando uma das criaturas saltava sobre a tocha ao chão para apagá-la. Iris foi interrompida de saltar para proteger a única fonte de luz quando o monstro de garras desferiu mais um golpe em sua direção, ela se abaixou para desviar do golpe e ver Ruman saltar para chutar com os dois pés o outro carniçal para longe da tocha.

— Muito bem, Ruman. Não deixe que essas bestas apaguem o fogo. – Disse Iris para o companheiro que agora já conseguia andar com mais facilidade.

— Mais fácil falar do que fazer, Iris.

Hemiel, também melhorado dos pés, estava dando assistência para Ruman. Iris atacava com o máximo de força que tinha o seu inimigo, mas ele era muito pesado e resistente para ela naquele momento, e sempre a contra-atacava. Com a duração da batalha os celestes começaram a se cansar e usar cada vez mais energia para continuar, por consequência, mais carniçais começavam a aparecer por todos os lados. Iris, ao se defender dos ataques dos menores, acabou levando alguns cortes de raspão do maior. Hemiel e Ruman já enfrentavam mais de vinte das criaturas, e os movimentos seguidos faziam com que a tocha oscilasse cada vez mais.

— Não me lembro desses malditos serem tão fortes da última vez que os enfrentei. – Falava Iris, enquanto desviava dos ataques. – Se ao menos eu pudesse materializar minha arma.

— Como eu disse, Iris, quanto maior o anjo mais dificuldade ele vai ter com o tecido. Sua pupila é forte o suficiente para aguentar seu poder e criar o portal que fez com que você atravessasse para ela, mas o tecido ainda não vai deixar você usar sua real força.

— Eu já entendi, Ruman. – Iris gritou. – Por que você e Hemiel não sacam suas armas então? Pelo visto já conseguiram tratar de seus ferimentos.

— Se pudéssemos lhe garanto que já o teríamos feito, tenente. – Respondeu Ruman. — Hemiel, é agora ou nunca, faça-o. – Ruman gritou, socando um mostro para cima de outro que Hemiel enfrentava, as criaturas se chocaram e se atrapalharam para se levantarem, tempo mais que suficiente para Hemiel correr em direção de Iris e chutar o joelho do carnical musculoso que ela enfrentava, fazendo a besta tombar de cara no chão.

— O que estão fazendo? Hemiel, Ruman não vai aguentar sozinho contra tantos.

Sem esperar resposta, Hemiel pegou no braço da tenente, que pela diferença de tamanho dos dois não foi difícil arremessá-la para a escada.

— Suba, Iris. Nós nos encontramos depois. — Falou Ruman, dando mais alguns socos. Iris olhou quando um carniçal saltou sobre suas costas que agora não contavam com a proteção do amigo Hemiel, esse que agora se esforçava ao máximo para desviar dos ataques da besta. Não havia escolha, voltar não seria uma opção. Iris escalou às pressas pela escada.

— Não ousem morrer. Ouviram? É uma ordem.

Devido aos selos ela não conseguia sentir a energia dos companheiros, mas conseguiu captar pelo canto de sua visão quando a luz da tocha se apagou.

A subida estava longa e difícil, não fisicamente, todos os cortes foram superficiais e ela já começava a se curar, era difícil, porém, por uma estranha sensação sempre tomava conta dela quando se despedia de seus amigos, como se algo apertasse sua garganta, deixando-a com um gosto esquisito na boca. Subindo no escuro, Iris encontrou um alçapão, que ao abri-lo sentiu caixas de madeira caírem e viu que estava de volta ao início. Os símbolos e o outro alçapão que descia pelo corredor até o lugar da emboscada, os símbolos que estavam na parede realmente eram esquisitos. Como os celestes perdiam o senso para detectar energias ao seu redor, mas os demônios continuavam os pressentindo?Caso não, como as feras podiam sentir que eles se aproximavam? A angústia por ter deixado seus amigos para trás não a deixava pensar direito. Queria voltar e ajudá-los, queria expandir sua aura ao limite para destruir todo o lugar, mas nada disso era possível, ela teria que honrá-los em seus sacrifícios e continuar com a missão. Novamente descendo o primeiro alçapão, Iris chegou ao salão em um salto, pronta para ajudar Ouriel em sua batalha, a raiva a ajudou a liberar um pouco mais de sua energia, fazendo com que suas asas surgissem de suas costas. O cântico continuava, o que parecia ser a sacerdotisa agora estava de fora do selo do altar, e as diversas figuras agora caminhavam em volta do círculo, segurando velas que queimavam intensamente, pingando a cera líquida nas mãos de quem a segurava, mas eles sequer tremiam com o ardor, apenas continuavam andando em círculos e repetiam todas as palavras que a mulher falava. Iris procurava por Ouriel, mas não via sequer sinal da parceira, mas acabou enxergando outra figura conhecida, sentada aos fundos, assistindo calmamente ao ritual.

— Ora, ora, não esperava que um de vocês voltasse. – Disse o mesmo homem que a jogara na armadilha, o culpado de tudo aquilo.– Mas isso não tem mais diferença, o ritual já está para terminar.

— Tenho algumas perguntas a fazer a você, demônio. Mas primeiro vamos ver se você vai manter essa postura depois que minha mão amassar a sua cara. – Iris bateu uma mão contra a outra avançando contra seu inimigo, este que apenas levantando as mãos criou um círculo mágico que não somente barrou a tenente como a fez deslizar para trás.

— Realmente é muito fácil lidar com os anjos, a maioria deles só tem força e não tem cérebro.

Aturdida com a magia, mais perguntas se fizeram em sua mente: Como aquele demônio conseguia usar tal magia dentro do véu? Será que Ouriel havia perdido para essa magia? Todas essas perguntas se calaram em sua mente quando uma forte rajada de vento veio de lugar nenhum daquela sala, as luzes das lâmpadas se apagaram e as tochas nas paredes se acenderam sozinhas. As velas queimaram em labaredas, derretendo-se em segundos nas mãos daqueles que andavam em círculos no ritual. O selo pintado de vermelho sobre o altar se incendiou criando uma fogueira que subia até o teto do lugar. Iris não podia sentir o poder de quem estava por vir daquele portal, mas um calafrio lhe subiu pela espinha quando o fogo se intensificou. E uma dor aguda lhe passou pelas costas quando sentiu uma lamina cortas suas asas, fazendo-a cair de joelhos no chão.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.