Só mais uma história de amor
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Notas iniciais
Depois que a minha mãe saiu, um homem de aparentemente quarenta anos, barba espessa e cabelos grisalhos surgiu no quarto, com um sorriso simpático no rosto. Depois de idenficar-se como o cirurgião que cuidara da minha perna – Dr. Felipe –, fez basicamente as mesmas perguntas que Kim em relação ao meu estado, além de dizer que conversara com a minha mãe. Repetiu o que a enfermeira dissera, sobre eu precisar ficar, por pelo menos quinze dias internada, e então avisou à enfermeira algo que eu não pude ouvir.
Quando saiu, Kim se pôs a checar a bolsa de soro que se ligava ao meu braço.
– Eu realmente vou ter que ficar aqui por quinze dias? – Perguntei com um suspiro, fazendo-a rir.
– Sim, Mariana. É o tempo mínimo para a sua recuperação.
Revirei os olhos, me afundando nos travesseiros.
– Isso não é nada animador.
Kim riu novamente.
– Isso pode ser um pouco tedioso, mas é necessário.
– Um pouco? Meu Deus, ficar quinze dias presa numa cama, sem sair, sem ver gente, sem... – Me interrompi, revirando os olhos outra vez.
Ela sorriu.
– A sua mãe já disse que lhe traria os livros que pediu. E, a partir de amanhã, você já pode começar a receber outras visitas.
Mordi o lábio por reflexo, soltando um suspiro longo. A menção de Kim a visitas me lembrara do que a minha mãe dissera: Júlia sabia do acidente. E, por alguns momentos, eu senti um fio de esperança de que ela viesse me ver. Soltando outro suspiro, balancei a cabeça para afastar esses pensamentos.
– Kim? – Chamei, lembrando-me subitamente de outra coisa.
– Sim?
– Eu tinha esquecido de perguntar mas… Como eu farei para tomar banho aqui?
Kim deu uma risada.
– Você não pode ficar de pé, Mariana. Nem forçar muito a sua perna. Resumindo… Você vai precisar de ajuda para tomar o seu banho.
Ergui as sobrancelhas, surpresa. Obviamente, aquilo havia passado pela minha cabeça, mas não deixava de ser um tanto estranho.
– E… Eu posso tomar um banho hoje?
Kim balançou a cabeça.
– Não. – Deu uma risadinha. – Por causa da cirurgia, vai ter que esperar pelo menos até amanhã para tomar seu banho.
Ergui as sobrancelhas, suspirando.
– Que emoção.
Kim riu outra vez e foi fazer outra coisa. E eu, vencida pelo tédio, acabei dormindo pouco tempo depois.
. . .
No dia seguinte, minha mãe trouxe-me meus livros antes do café da manhã, e saiu para o trabalho logo depois. Meu tédio só foi amainado de tarde, quando Ana e Pedro apareceram ali.
Logo que Kim deixou-nos a sós, meu amigo moreno se manifestou.
– Caramba, Mari! Que sorte maldita você tem. Sofre um acidente, fica no hospital e ganha uma enfermeira dessas?
Com isso, tive que rir.
– Que isso, Pedro? Está mudando de time?
Ele riu.
– Claro que não. Lado arco-íris da força sempre. Mas eu não tenho como negar, ela é linda!
Ana sorriu.
– Eu preciso concordar. Que mel é esse, mulher? Só arruma mulher bonita, e parece que todas elas te querem.
Revirei os olhos, rindo tanto que acabei movendo a perna e, com isso, soltando um gemido de dor.
– Claro que não, Ana!
– Claro que sim, Mari! Todas elas te desejam.
– Vocês são loucos.
Ana riu.
– Certo, mas mudando de assunto, que droga aconteceu, Mari? Você foi buscar cerveja e aí a gente só soube que você estava aqui, quebrada.
Dei um sorriso pequeno, dando de ombros, e contei de modo sucinto o que ocorrera, desde Nina até o acidente. Apenas omiti a parte sobre Júlia, preferindo dizer que eu passara mal.
– Mariana decidiu dirigir depois de beber. Por que eu não estou surpresa?
Dei uma risada baixa, dando de ombros novamente.
– Acho que já ouvi isso demais em apenas dois dias.
Eu, Ana e Pedro conversamos sobre mais coisas aleatórias, como sobre o conforto daquele hospital e as aulas da faculdade, até que, repentinamente, Ana pediu que Pedro lhe trouxesse água. Quando ele deixou o quarto, ela voltou-se para mim.
– Tudo bem, Mari. Despachei o Pedro. Agora você pode falar.
Abri um sorriso, balançando ligeiramente a cabeça.
– Tudo bem. Não vou perguntar como você descobriu.
Ela riu.
– Eu sempre sei. Agora, fala.
Mordi o lábio.
– Você… Hum… Sabe… – Suspirei, olhando para baixo.
Ana deu um sorriso complacente.
– Sim, Mari. Ela soube sim.
– É. Minha mãe falou. E… O que ela… Como…
Suspirei. Mesmo com Ana, era difícil superar meu orgulho e lhe perguntar aquilo.
– Bom, a verdade é que ela está preocupada, Mari. Muito. Na verdade, ela quase chorou quando nós contamos. E quer te ver, mas…
Mordi o lábio.
– Mas…?
– Mas acha que você não quer vê-la. Você sabe. Por causa do…
– Sim, eu sei.
Ana sorriu e, antes de poder falar mais alguma coisa, a porta se abriu, revelando Pedro e, junto dele, Gabriel.
O segundo entrou hesitante, mas, quando eu sorri, ele fez o mesmo.
– Hey, Gabriel!
– Meu deus, Mari! Você se machucou!
Sorri, expondo o óbvio.
– Pois é.
Ana olhou o celular.
– Droga, eu tenho que ir. Vamos, Pedro?
Meu amigo concordou, e, depois de despedirem-se de nós com recomendações de melhoras, os dois foram embora.
– E aí, Mari? Como vai a vida? – Gabriel perguntou, sentando-se ao meu lado.
Suspirei, dando um sorriso.
– Indo, né. Agora de muletas.
Ele riu, e então começamos a conversar sobre aleatoriedades. Gabriel contou-me sobre Bruna, e sobre o que ela dissera do Café. Contou que ela, Esther e Juliana planejavam me visitar assim que possível. Depois, conversamos sobre a minha moto e eu acabei contando a ele o que havia acontecido, omitindo, também, a parte sobre Júlia.
Continuamos conversando sobre coisas aleatórias até que, quando o assunto acabou, Gabriel se voltou para mim.
– Mas e aí, Mari? Não vai usar meus serviços de terapeuta hoje?
Comecei a rir.
– Não é possível que eu seja tão transparente assim.
– Normalmente não, mas agora dá para ver pela sua cara que não está tudo certo.
Sem escolha, baguncei o cabelo e dei um sorriso cansado, relatando o que Ana me contara.
Ao final, meu amigo ergueu as sobrancelhas.
– E você com isso? Ainda não se sente pronta para falar com ela?
Esfreguei o rosto com as mãos.
– Isso é tão complicado!
Gabriel sorriu.
– Mas não deveria ser. Você gosta dela, ela gosta de você. Toca o foda-se e fica com ela!
Comecei a rir.
– Mas…
– Mas ela ficou com a outra. Certo. Ficou porque estava em dúvida. E chorou quando vocês terminaram e está louca para te ver. Não acha que isso é prova suficiente de que é você quem ela ama? Mari, vamos lá. Posso não conhecer vocês desde o início, mas um amor desses não pode morrer assim.
Gabriel sorria, me lançando um olhar encorajador.
Abri um sorriso em resposta. E então comecei a rir.
– Droga, Gabriel. Que dom é esse de falar a coisa certa na hora certa sempre?
Ele riu.
– Deixa de bobeira, Mari. É sério.
– Com licença. – Uma voz feminina nos interrompeu. Era Kim quem entrava. – Me desculpem a interrupção, mas nossa paciente precisa descansar. Lhe trouxe seu remédio e o jantar, Mariana.
Agradeci com um aceno de cabeça.
– Então eu vou indo. Bom descanso, Mari. E melhoras. Pensa no que eu te disse.
Assenti com a cabeça e sorri, despedindo-me de Gabriel antes que ele deixasse o quarto.
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