Só dói quando eu respiro
3 Todos os Dias
Notas iniciais
Ela era inegavelmente forte — e não mais do que isso.
Era persistente por lutar todos os dias e, como se tudo fosse feito de obstáculos, ela tolerava a vida.
Até descobrir que, de alguma forma, o mundo não deveria ser tão cruel. O que passara meses acreditando fazer sentido, não deveria doer tanto. Portanto, quando a pior parte passou (fosse a pior parte o término, as férias ou a cirurgia de sua mãe) ela finalmente pode respirar, aliviada.
E junto do alívio, veio seu choro mais limpo.
Não sabia o motivo ao certo. Chorou, chorou e chorou, até que com sua última gota viesse uma sensação confortável que nunca antes sentira em toda sua vida. Só descobriria o melhor jeito de descrever aquela calmaria toda em seu peito um par de dias depois, no supermercado.
Lá, viu aquele casal tão característico de idosos; mãos dadas, cabelos brancos, roupas de jeitos antigos. E de mãos dadas, viu o senhor cair junto da sua pressão, esbarrando nos carrinhos cheios. Flácido. Vivo, no meio dos gritos preocupados da sua companhia de vida inteira.
Ela nada conseguiu fazer com tantas coisas em sua mão, mas não saiu do corredor enquanto não tivesse certeza de que tudo estivesse bem. Parada entre as inúmeras opções de biscoitos recheados, ela ponderou sobre a velhice pela primeira vez na vida.
Nunca havia pensado, até então, que os problemas mudam conforme mudam os anos. Que ali, naquele supermercado, o casal de idosos que tanto tinha amado as roupas estava passando por algo que ela sequer conseguiria imaginar a grandiosidade. Concluiu, sozinha e com muito orgulho de si mesma por isso, que um dia todas aquelas dores que acabara de viver iriam parar no tempo, até se tornarem grandes quadros em alguma parede torta.
Um dia, a mágoa de hoje seria como as mágoas antigas, da sua época de colégio: só uma coisa que fazia muito sentido e, graças aos deuses, ficou no pretérito.
Depois disso, soube então que aquela estranha sensação era apenas como seu coração se comportava diante da certeza de que tudo passa.
Se tudo eventualmente ficaria bem, acabou por perceber simultaneamente que não havia motivos para se odiar tanto quanto costumava fazer.
Riu de si mesma por um tempo.
Quanta bobagem se desgostar só porque alguém a fizera acreditar que não era o suficiente! Não deveriam existir dúvidas de que era. Ela era muito boa e poderia se tornar melhor a cada instante.
Seria extremamente difícil e tinha total consciência disso, mas nada a faria voltar atrás na sua decisão. Aprenderia, com toda dedicação e força de vontade, a arte do amor próprio. E não importava quanto tempo demoraria a se tornar completa de si; apenas a sensação gostosa de sentir-se bem já lhe fazia alegre feito boba.
Ninguém mais a faria borrar seu batom vermelho cereja.
E mesmo que fosse torta, fosse bamba ou fosse afônica, a partir de então nunca mais se deixaria vazia.
Talvez existissem, sim, outras maneiras de se interpretar o mundo.
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