Síndrome de Gaea.
1 Profissionalismo.
Quando eu abro minha boca, eu os sinto torcer o nariz. Estão fartos de mim, sei disso. Falo demais e minha voz é muito delicada pra estar afirmando algo, que, de novo, eu sei. Estudei pra isso, repertório intelectual nunca é o problema. Mas também sou desatenta e brinco demais e eles não me acham boa o suficiente pra estar dando comando a eles, geralmente pela crença de que seios fartos jamais compreenderiam a complexidade e importância que tem um imunoensaio. Sinto suas vozes sobrepondo-se a minha ainda que eu esteja falando o mais alto que minha capacidade pulmonar permite, ainda que, eu esteja no comando, em tese.
As suas desculpas variam: Eu sou jovem demais, 21 anos. Eu sou pequena demais, a bancada é maior do que eu. Eu faço muitas piadas, é pouco profissional. Eu sou muito compreensiva, isso não é atitude para pessoas em cargo de liderança, como eu poderia almejar tanto, sendo tão jovem, boba e pequena de tudo?. Eu sou muito bonita, eles desconcentram ao olhar pra mim, eu deveria postar menos coisas, eles acham minhas redes sociais. E eu não sei mais o que fazer, já que, obviamente: Eu nunca sou boa o suficiente e, sinceramente, os únicos momentos de silêncio que dividimos são quando eu os vejo expressar curiosidade sobre quem eu escolhi para deitar-se comigo, ou se essa vaga está disponível no momento. Durante todos os outros momentos sinto que existe um monólogo em que estou constantemente sendo obrigada a presenciar. O monólogo é sobre mim, meu comportamento, minhas crenças, meu corpo, minha feminilidade. Geralmente eu diria o quanto nada disso é de fato relevante mas creio que apenas estou vencida pelo cansaço. A luta incessante para ser ouvida é exaustiva.
Eu os vejo me soterrar com perguntas quanto a quem dominou meu coração e o quanto meu rosto jovem é belo, mas nunca demora para que eu venha sentir o amargo gosto do cuspe em meu rosto, sempre dizendo sobre o quanto sou jovem demais para ser tão ambiciosa, o quanto eu deveria ser menos impositiva, quais roupas são ideais para mulheres como eu e o quanto meu comportamento e persona são inadequadas. Eles me admiram pela aparência mas me desprezam pela audácia: Tentar tomar o que eles acreditam ser deles por nascença.
Durante anos sufoquei toda a minha personalidade na intensa missão de ser levada à sério. Procurando de forma obsessiva a vestimenta mais decente, o tom correto, a opinião correta, afogando-me em livros, exigindo a excelência não importa o preço: Minha juventude, minha saúde, minha felicidade. Completamente sem sucesso, sendo constantemente alertada a cada passo errado, cada tom mais atravessado. Eu fiz listas de prós e contras, usei tanto o Excel que consigo manuseá-lo de olhos fechados, fiz tantos simulados que não lembro de um Sábado que tivesse sido vago na adolescência e nada disso foi o suficiente para nos equiparar. Eu posso ter sido a melhor da turma anos seguidos mas isso não é o suficiente para nos igualar. Sinto minha mente rodar como um furacão, buscando a fórmula perfeita para traçar a rota até o meu destino mas dentre todo esse processo notei que nada disso importa de verdade se no meio do trajeto eu esqueço quem eu sou.
E se eu não me arrepender de todas vezes em que tomei uma atitude desmedida pensando em onde quero chegar? Se cada vez em que o processo romper minha alma, eu cair, minha vitória será menos valorosa simplesmente por ter agido como um ser humano normal, deixando-me abater? E se cada vez em que eu decidir partir eu não olhar para trás isso me fará um ser humano pior? E se eu for, de fato mais inteligente do que você e ainda assim conseguir me identificar com filmes de patricinhas dos anos 2000? E se em vez de qualquer música de Rock eu escolher, de novo, escutar Taylor Swift? Qual é o preço pelo qual eu devo vender minha personalidade pra que vocês aceitem que eu devo estar no mais alto topo? O quão exausta eu devo estar para ser considerada digna como um homem?
Mas se eu colocar uma blusa gola alta, falar baixo e me afogar em livros trancando todos os cadeados, arrumar um namorado que não seja nada parecido comigo e provavelmente não me conheça, para passar os anos tomando chá na casa dos meus pais, me contentando com pouco destaque profissional e apoio aos sonhos dos outros, nunca os meus, e isso não for eu, e me destruir, isso me fará uma pessoa melhor? E se esse não for o meu sonho, isso me torna uma pessoa pior pra vocês?
E se eu quiser mais com o passar dos anos, enquanto meu cérebro se torna tudo o que eu tenho, meu corpo envelhece e minha pele começa a enrugar, ainda serei o assunto favorito, não pelo que visto, mas pelo que sou, pelo que sei, pelo o que posso ensinar? E se eu não souber o que fazer às vezes mas ainda assim sorrir, qual é o problema de ser uma garota brincalhona? Isso me torna uma pessoa ruim? Uma pessoa indigna? Não é assim que alguém inteligente age, por acaso? E se eu não for uma pessoa inteligente E diferente? Qual o problema nisso?
No fim, sou eu. Sou tudo o que tenho e tudo o que deposito fé. Mesmo que acreditem que eu sonho alto demais e deveria gastar minha juventude de outras formas, mesmo que eu seja constantemente tratada como uma loira burra com o cartão do papai eu sei que quando o sol da meia idade raiar sob minha consciência ficarei orgulhosa de ter sido tão corajosa e esforçada todo esse tempo. E é nisso em que eu me agarro todos os dias, no imenso e infinito potencial que minha personalidade cheia de furos possuí, ainda que, eu não seja quem todos desejam ver sob os holofotes.
Mas eu vou estar lá quando vocês olharem pra cima.
O que não me mata, me torna mais forte.
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