Síndrome de Gaea.
4 K.
Eu me lembro de brincar de Naruto com você nos fundos da casa da minha avó. Você ainda não havia sido quebrada pelo mundo, pelo que eu me lembro. Mas é claro que talvez eu só não tivesse reparado. Éramos tão pequenas que a mesa em que eu sento para comer junto à minha família atualmente era maior do que nós. Você gostava de cantar e eu fingia que agenciava você. Você tinha emoções muito complexas pra uma criança. E eu nunca fui criança.
Eu sei tantas coisas sobre você de cor que não consigo entender a complexidade que todo esse sentimento ainda tem. Sei quais são seus filmes favoritos, e o que você teria a dizer sobre cada coisa no mundo. Sei o timbre da sua voz, em que ponto sua risada viraria um ronco, sei até mesmo o que te magoaria. — Tudo. — E eu sei o quão vingativa você consegue ser. Sei que viver com você era como jogar Xadrez constantemente. Sei o quanto você se sentia insegura e desprotegida do mundo. E que você não consegue ser a primeira a tomar alguma atitude. Então, eu assumia as rédeas e todas as atitudes eram tomadas por mim. Eu também ficava sob o teto das consequências. E elas eram tão amargas.
Às vezes acontecem coisas que eu sei que somente você entenderia. E eu sei que do outro lado você sente o mesmo. E eu sei que você sabe que existem rachaduras por toda a estrutura dessa amizade tão sólida que construímos em 21 anos, que agora é um terreno infértil que assola nossos corações, mas se eu pensar em amizade, ainda lembro de quando dizíamos algo em alguma roda e nossos olhares se cruzavam. Sabíamos.
E está tudo bem agora. Eu estou pra concluir a minha tão irritante e apaixonante faculdade, fiz as pazes com meus pais, minha família finalmente dorme tranquila depois de toda aquela confusão que eu causei tentando ser uma jovem livre quando sabemos, eu sou a garotinha da mamãe. Acho que finalmente consegui admitir isso, levaram tantos anos, você riria ao saber que eu finalmente engoli a verdade que estava clara como o Sol do meio-dia. Eu namorei outras vezes, mas não foi como aquela. No bom e no mal sentido. Defini que isso é muito mais complicado do que eu sou emocionalmente preparada pra entender. Eu consegui trabalhar com o que eu estudei e isso me deixou tão realizada, mas você sabe. Eu te falava disso todos os dias. E eu aprendi, juro, que se não sangrarmos nós não crescemos, e eu estou feliz em te contar que sangrei como nunca quando te disse adeus. Foi como enterrar alguém. E o meu coração se partiu em milhares de pedaços, mas agora, algo novo vem surgindo com o decorrer do tempo, e sou eu.
Uma versão minha que acorda sozinha todos os dias. Uma versão minha que você nunca vai conhecer, pois, sabemos, longe é melhor. Uma versão minha que torce todos os dias pra que você esteja bem, saudável e independente. Uma versão minha que ora todos dias pra que você consiga recuperar sua autoestima e sua vida, e veja que você é a única que conseguiria te salvar, desculpa.
Éramos algo especial sim, e você ainda é especial pra mim. Como uma memória de algo que está se decompondo no meu coração. Mas não posso fingir que tudo foi bom, visto que você me traiu mais vezes do que eu consigo contar, e, arrastei meus limites até à fronteira mais distante da América Latina simplesmente por sentir o quanto éramos especiais. Você foi como uma irmã que eu nunca tive e ainda assim, sendo parte da minha família, você me apunhalou pelas costas, e, saiba, eu já te perdoei. Eu te perdoei no momento em que te disse adeus, mas isso não significa que voltaria ao seu lado.
Nunca mais.
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