Querida Maria, com esta carta nos despedimos.

Ouvi grandes coisas ao seu respeito e a maior parte dela me pareceu uma tragédia. O jeito que sua juventude foi roubada de você e suas escolhas foram reduzidas a pó me assombram em meus pesadelos mais secretos. Não posso fingir que nunca nos conhecemos quando ainda consigo sentir a textura das suas veias idosas do punho cansado e manchado de melasmas quando fecho meus olhos. Suas texturas continuam me acompanhando mesmo após longos 893 dias em que você deixou de existir. Texturas. Isso é importante. Sua pele estava diferente no caixão, quando te velamos. Não haviam veias, nem calor. Obviamente, pra alguns, mas um fato desconfortável de presenciar. De alguma forma continuo sendo arrastada para aquela manhã. Flashes de memórias da nossa última ligação quando você disse que não poderia vir no meu aniversário e morreu no dia seguinte. Isso também parece uma tragédia.

Me pego pensando se há alguma coisa em mim que compartilhamos além das suas coisas que agora são minhas. Os olhos, o cabelo, qualquer coisa. Me pego encarando meu reflexo buscando por traços seus e nunca encontrando nada de semelhante. Tanta coisa que eu não sabia sobre você... Como o seu nome, por exemplo. Quase noventa anos de produção e construção imobiliária sua me pertence mas não sabia seu nome completo. Me parece tão embarrassador confessar após a maioridade que eu precisei de você mais perto do que eu tive pra poder me preparar para saber coisas sobre mim que não foram fáceis de se aceitar, mas não deixa de ser verdade. Eu sigo cobrando um fantasma e me cobrando por um fantasma que não existe mais, esperando que a voz da minha consciência me guie pras escolhas certas enquanto estanco uma ferida que nunca vai sarar.

Em 45 dias se encerra toda a angústia que me arrasta para as memórias de infância, brincando com meus pokemons em cima de uma janela de madeira maciça, comendo chocolates italianos à beira de um escorregador que parecia tão grande mas quando eu fiquei de pé perto dele recentemente, tinha o comprimento das minhas pernas. Eu ainda vejo seu rosto nos bolinhos bebezinhos e nunca vou entender como uma pessoa que te machucou tanto pode ter me amado incondicionalmente como um bom avô. Eu me ressinto por todas às vezes em que me contou sobre vidros quebrados com macarrões pelo chão e paçocas escondidas na calada da noite. Eu sei que você fez o que pôde porquê precisa se ter muita força para continuar trabalhando mesmo após tanto crime e hostilidade e eu espero que você tenha partido sem medo e remorso. Eu espero que todas nós, com seu sangue, tenhamos vidas mais livres e felizes em honra de você.

Carrego um anel de ouro no meu anelar que combina com o anel que a senhora me deu. Como queijo com macarrão do jeito que você me ensinou. Tenho inúmeros blocos de notas espalhados pela minha casa com escritas aleatórias. Eu queria tanto tatuar você fora de mim como você está tatuada dentro. Eu sei que eu me afastei. Eu sei que parte da nossa distância é culpa minha. Eu não liguei nos seus aniversários. Eu não ficava muito tempo ociosa. Eu estava ocupada demais sendo corroída pela puberdade pra perceber que você estava partindo sem voltas. O telefone tinha duas vias mas eu cortei meu cabo de conexão porquê tudo o que envolve o seu filho e meu pai é delicado para mim. Entre milhares de qualidades que eu poderia ter herdado de Francisco de Assis Canedo, colecionei as fragilidades. O suicídio dele rompeu com a minha alma de um jeito que eu sinto que nunca irei me recuperar e sempre me pareceu mais fácil evitar o desconforto à bater de frente com a realidade. Você sabe, pensei em não ir no seu velório. E, lá, quase dei risada muitas vezes porquê estava tão anestesiada que não conseguia sentir o impacto emocional de absolutamente nada, mas, aqui estamos. 800 palavras depois eu ainda discorrendo sobre como a sua figura ainda me assombra e me aquece nos meus dias mais solitários, afinal, apesar de uma grande divina tragédia o fruto nunca cai longe da árvore. E quantos desmembramentos, eu não esperava por nada disso.

Então, adeus, vó. Tenha uma boa passagem. Durma bem, ou apenas não exista mais. Eu não sei. Eu só sei que faltam 45 dias. Eu não consigo dormir enquanto esse inventário não sai logo. Você não é de apostar, mas se fosse, no que apostaria: Eu vou fazer algo decente com esse dinheiro ou vou foder com tudo à minha volta como sempre acabo fazendo todas às vezes em que à vida me pede alguma responsabilidade miserável? Você diria que eu preciso ouvir minha mãe e tudo dará certo. Eu sei.

Eu sei exatamente o que você diria.