Síndrome de Gaea.
12 Borderline.
Borderline. Entre as linhas. Preciso dizer que o diagnóstico foi um verdadeiro alívio pra mim, visto que passei anos cambaleando entre os lados tendenciosos da vida, sentindo tudo à flor da pele sem um respiro sequer, torcendo, rezando, implorando aos céus para que ninguém notasse que embaixo de pele, músculos e ossos, eu era diferente dos demais. Minha peculiaridade parecia uma sentença. Todas as minhas emoções se misturam e eu não consigo sair do estado primitivo que eu tanto detesto entrar. E de repente, eu não quero mais estar aqui neste plano. Eu não quero mais ser eu. Quero ser outra. Quero ser melhor, mais focada, menos emocional. Eu quero ter o privilégio de me diferenciar dos demais pelo que visto ou aparento, não pelo que sou e por tudo o que compõe a minha existência metamorfoga. Eu quero não me sentir como um monstro recém saído do esgoto a cada volta a sanidade, quando eu já estraguei tudo. Eu queria evitar a confusão, mas ela está dentro de mim, inerente a quem eu sou.
E de repente, eu e ela, somos iguais.
Eu quero não viver de excessos e exageros tanto quanto eu gostaria de não penar na falta e escassez. E toda vez ter que aprender a duras penas, ser a pessoa mais ingênua e maldosa que eu conheço me prendendo no paradoxo sem vim que é ser quem eu sou me enjoa tanto quanto estar rodopiando de braços atados, olhos vidrados em um ambiente escuro com uma espiral infinita. É que eu não me perdoo por nada, então, como eu perdoaria a você? É que eu amo tudo, como não amaria a dor? É que eu fodo tudo, logo, não é irracional assumir que eu não perderia a chance de foder com a minha própria vida enquanto gentilmente me coloco em um pedestal.
Me amo tanto ao ponto de me odiar. Até mesmo objetos de obsessão podem ser menosprezados se houver intensidade o suficiente. Me respeito tanto e me degrado mais ainda, afinal, eu nunca soube o que era viver de modo diferente. Sei que tenho todos os mecanismos necessários para alcançar o sucesso mas não posso evitar de destruir tudo o que eu toco pela minha incapacidade de existir sem estar em chamas. É inevitável pensar que outros no meu lugar aproveitariam minhas chances com muito mais gana. É inevitável não sufocar. É inevitável não amar. É inevitável não querer abandonar.
À Vida.
Fale com o autor