Jonathan gesticulou para que os guardas a soltassem e ela de imediato puxou os braços, rosnando para um dos guardas que pareceu suspirar de irritação. Alexa voltou seu olhar novamente para o príncipe, ele indicou a poltrona a sua frente para que ela sentasse, mas a loira não se moveu, seus olhos foram para Julian e para o local em seu peito onde o tinha ferido. Ela pareceu aliviada quando seus olhos cruzaram os do garoto e ele devolveu o alívio visível nas expressões da loira com um sorriso simples, um sorriso que dizia que também estava feliz em estar vivo.

— Senta – Jonathan disse entre os dentes.

— Eu estou bem assim – ela respondeu no mesmo tom.

— Quer mesmo fazer isso da pior forma possível? – A garota manteve o olhar fixo no dele, era uma ameaça, uma ameaça de que sentaria ali por vontade própria ou arrastada. Ela olhou para os guardas que só aguardavam a ordem. Com os punhos cerrados ela caminhou até Jonathan e se sentou na poltrona em frente a dele.

— O que você quer? – ela perguntou ainda sem quebrar o contado visual.

— Respostas. – Jonathan disse calmo. Quando ela não respondeu o príncipe prosseguiu – Portanto, princesa – ele frisou a palavra – sugiro que comece a explicar o que estava fazendo em nossas terras.

— Estava indo para Grouse – o silêncio incomodou tanto que ela se obrigou a continuar – com uma das minhas damas.

— Numa aventura? – Jonathan debochou.

Ela ficou em silêncio, não poderia contar a verdade, poderiam ajuda–la a se livrar de seu problema, mas também poderiam manda–la de volta para ele. Mas mesmo que não falasse, só o facto de estar ali, depois de seu tio ter torturado e matado tantas pessoas de Hanks, já garantia que sua estadia não seria uma boa experiência. O ódio visível a quilómetros de distância dentro daqueles olhos verdes a deixavam bem consciente disso.

— Nós ouvimos histórias de um casamento real entre os Miller e os O'Brian – o corpo dela gelou, mesmo com esforço não conseguiu esconder a surpresa – a notícia correu os reinos como pólvora, a possibilidade de um O'Brian um dia se sentar naquele trono deixou as pessoas enjoadas. – Alexa o encarava séria. – Mas Charles O'Brian era casado com uma das herdeiras de Lírian – Jonathan continuou. – Não daria a ele o direito que eu suponho que lhe interessava – o príncipe ficou em silêncio a encarando como se pudesse ficar ali o dia inteiro, esperando, até que ela dissesse algo. Alexa se obrigou a falar quando se tornou demasiado desconfortável.

– Ele a matou – os olhos da garota eram frios como gelo, uma barreira, para que aquela frase não levasse nada do que sentia sobre o assunto. Uma risada sarcástica saiu dos lábios do príncipe atraindo o olhar da garota.

— Tinha esquecido o quão práticos vocês são em resolver os problemas daquele lado. – O comentário encheu Alexa de raiva o que a ajudou a se agarrar em alguma coisa que não fosse aquela angústia sufocante – o que ia fazer em Grover? – ele perguntou como se nada daquilo fizesse sentido. Alexa não respondeu.

Jonathan se levantou e se aproximou, seu olhar a constrangia de uma forma horrível.

— Você sabe porque ele queria essa aliança?

— Não, – ela disse sincera. – mas nada com um objetivo defensivo, – Jonathan a observou em silêncio – ele já tinha um acordo com os O’Brian, um acordo que garantia apoio se estivéssemos sob ataque. O que quer que fosse era algo a mais, algo que valia o mesmo preço que ter um herdeiro com direito ao trono valia para Charles.

— Por isso estava fugindo para Grover? Para se livrar de um casamento arranjado? – O tom pejorativo a deixou mais irritada, mas ela se esforçou para não transparecer.

— O que quer que Charles planejasse fazer com um herdeiro, certamente incluiria meu irmão morto – a garota sentiu sua respiração descompassada – o mau que o rei tem, não é nada comparado aos O'Brian. – Alexa sentia as mãos tremerem, mesmo as empurrando contra os joelhos era difícil disfarçar – Nada. – Ela sussurrou. Com as lembranças sufocantes a guiando pela conversa ela continuou – Eu compreendo que manter uma princesa de um reino inimigo em seu castelo poderia gerar muitos problemas, mas – ela olhou diretamente nos olhos verdes – eu te peço, não como príncipe, mas como ser humano, que se precisar me mandar de volta pra lá, mande apenas a minha cabeça. – O silêncio ensurdecedor se instalou na sala.

Jonathan desviou dos olhos azuis para encarar os garotos ao seu lado. Julian, Kevin e Carter, seus guardas pessoais e amigos, pareciam tão perplexos quanto ele. Seus olhos se fixaram em Julian, toda a culpa de ter ido atrás da garota se dissipou, ela precisava estar ali, longe daquele ninho de serpentes, longe dos planos do rei de Viryan e de Charles O’Brian.

Ele voltou a olhar para aqueles olhos, parecia fácil interpreta–los. A beleza exótica fazia com que se tornasse mais difícil de odia–la, como se não combinasse com quem ela era. Facilmente confundida com uma donzela frágil e desprotegida, quando na realidade ela poderia facilmente matar todos dentro daquela sala se baixassem a guarda. Traços únicos, fios loiros que lembravam uma cascata, olhos azuis como a água do Vale do Sobral, seu lugar preferido. Um rio com um azul cristal invejável e ao mesmo tempo transparente, de uma forma que se viam os peixes coloridos no fundo. Mas nos dela não havia nada de colorido, só uma escuridão infinita e sufocante.

Não importava o quão preocupante aquele pedido fosse, ela ainda era uma Miller, e não poderia se esquecer disso.

– Você disse que O'Brien assassinou a esposa – a garota pareceu ficar tensa, algo gelou dentro dos olhos azuis e o contato pareceu estremecer, apesar dela não ter desviado do verde intenso dos olhos de Jonathan. – Como?

— Como o que? – ela sussurrou em resposta.

— Como ele assassinou a mulher? – Jonathan se sentou novamente na poltrona – Detalhes.

— Ele matou ela, o que importa como?

— Princesa, – ele disse ríspido e fez uma pausa, Alexa queria gritar para que ele não a chamasse assim, não era uma princesa ali, naquele reino ela não era ninguém – é para isto ser uma conversa simples e rápida. Eu não sou adepto a arrancar informações a força, embora farei isso se for necessário – Ela desviou o olhar pela primeira vez, as unhas se afundaram na palma da mão com força.

— Eu não quero falar sobre isso – a voz saiu falha, vulnerável, diferente de todos os tons já usados pela garota quando se dirigia a ele.

— Eu preciso saber como aconteceu – a voz de Jonathan se suavizou, o príncipe inclinou o corpo em direção a ela apoiando as mãos nos joelhos – eu te deixo em paz depois que me contar, mas preciso dos detalhes.

— Porque? – ela voltou a olhar pra ele, seu rosto era um misto de desespero e raiva. O príncipe pareceu considerar a pergunta por alguns segundos.

— Preciso confirmar se a fonte de informação que tenho é valida – ela pensou por um segundo antes de responder.

— O que você sabe? – Ele sorriu com a pergunta – Eu digo se é verdade ou não.

— Não é assim que funciona, princesa.

— Não me chama assim – Alexa vociferou, raiva borbulhando em cada palavra.

— Como aconteceu? – Jonathan perguntou novamente começando a ficar impaciente.

— Você me deixa em paz se contar?

— Não testa minha paciência – ele encostou novamente as costas na cadeira – eu te tiro das masmorras, você pode ficar num dos quartos.

Alexa fixou os olhos na chama da vela em cima da mesa, ela dançava suavemente. Dane–se o quarto, ela só queria sair dali.

— Alexa – ela olhou para o príncipe como se despertasse de algum desvaneio, seus olhos refletiam sua angústia. Ele encarou as mãos da garota como um aviso, só quando seguiu o olhar do príncipe percebeu que as unhas já perfuravam a carne deixando pequenas marcas na palma das mãos. A loira abriu totalmente as mãos contraindo o rosto ao se dar conta da dor ao esticar os músculos. Ela esfregou a palma das mãos nos joelhos com seus olhos focados na chama novamente, algumas faixas de sangue marcaram o couro da calça que usava desde que chegará ali. Precisava de um banho e de tirar aquela roupa, ela pensou tentando sufocar aquele sentimento. – Uma palavra – o príncipe voltou a se inclinar para perto dela – escolhe uma palavra para descrever.

— Ele os fechou no canil – a voz continuou baixa, Jonathan encarou Kevin sentado ao seu lado.

— Os? Quem estava com ela? – Desta vez foi Kevin quem perguntou.

— Ela estava grávida – A voz de Alexa estava tão baixa que era difícil de se entender. Carter xingou do lugar onde estava.

— Você assistiu – Kevin disse, perante o tom de voz Alexa levantou os olhos para ele, o desespero e tristeza se transformando em raiva tão rápido quanto um flash de luz.

— Você acha que assisti por diversão?

— Foi só uma pergunta – O garoto revidou com as sobrancelhas erguidas enquanto a avaliava. Alexa sentiu o ódio correr pelas veias.

— Não foi só uma pergunta – Kevin deu de ombros sem tirar os olhos da garota – eu assisti – Ela ficou em silêncio novamente.

— Daquilo que ouvimos, pra vocês essas coisas não passam de um espetáculo – Kevin tentou novamente e ela se levantou. Imediatamente os guardas a seguraram e Kevin levou a mão ao cabo da espada que repousava ao seu lado, os outros não se moveram.

— Quando um pai pode deixar seu filho ser estraçalhado sem um pingo de remorso, você sabe que uma princesa não precisa dos olhos para gerar filhos, então você só obedece – ela cuspiu as palavras, o reflexo do fogo brilhava nos olhos azuis. – Eu sabia durante todos os gritos que aquilo aconteceu por minha culpa, porque eu disse que ele era casado e ninguém aceitaria uma união nestas condições – os olhos da garota se encheram de lágrimas – eu sabia que fui eu que fiz aquilo, e sabia que era um recado – as lágrimas desceram pelas bochechas da garota caindo em seu colo – aquele lugar era onde eu estaria depois de ter a criança que ele queria se não obedecesse. Não foi um espetáculo, foi um aviso, então acredita, não foi divertido – Nenhum deles respondeu por alguns segundos, Jonathan passou a mão nas têmporas visivelmente nervoso e acenou para que os guardas a soltassem. Apesar de receosos eles obedeceram, mas não se afastaram da garota. Ela não avançou, apenas limpou bruscamente as lagrimas do rosto com as costas das mãos e permaneceu em silencio.

A expressão no rosto de Kevin dizia que tinha conseguido exatamente o que queria, mas os sentimentos de Alexa a consumiam de tal forma que não se deu conta de que as informações aos poucos foram arrancadas dela.

— Onde estava o seu irmão? – foi Carter quem perguntou.

— Longe – Alexa voltou seu olhar novamente para o príncipe, seu olhar implorava para que ele parasse de perguntar – Eu contei a ele o que aconteceu quando voltei, decidimos que eu não podia mais ficar ali e que iria para o norte.

— Você e seu irmão? Então porque ele não estava com você quando te encontramos? – Julian falou pela primeira vez.

— O plano era ir sozinha e eu adaptei o plano. – Ela avaliou a sala onde estava, não havia nada nas paredes, nenhum quadro para observar e se esconder daqueles olhares sobre ela – Mais um ponto na lista de decisões erradas que eu tomei – Alexa olhou para a poltrona em que estivera sentada como se não pudesse sustentar o peso do próprio corpo por muito tempo, mas não se sentou – Não queria envolver Isaac, queria que ele tivesse mais tempo.

— Tempo para o que? – Ela observou Jonathan despejar mais uma pergunta, mas sua mente vagava, procurando se concentrar na esperança de que em breve poderia dormir e que a inconsciência sufocaria aquele sentimento que agora ameaçava desarma-la na frente de seus inimigos. Frequentemente os pesadelos vinham e roubavam essa dadiva, mas a dor no pesadelo era diferente dessa. Essa era real, ardia e não tinha como extravasar.

— Para reunir todos os homens leais a ele contra o rei Henrique – O príncipe se manteve inexpressivo e Alexa desejou que pudesse ler a mente por traz daqueles olhos intensos.

— Farei o que estiver ao meu alcance para que, nem o rei, nem Charles, toquem em você novamente – Jonathan disse sem desviar seus olhos dos dela.

— Isaac não é como ele, será um bom rei – Ela sussurrou – as coisas serão diferentes em Viryan.

— Se ele algum dia chegar a ser rei – Jonathan a corrigiu e ela o encarou com raiva. – Eu acredito que voltaremos a discutir sobre isso em breve. – Ele se levantou – Você comeu alguma coisa hoje?

— O que? – sussurrou confusa.

— Eles levaram comida? – o príncipe parecia avaliar a garota. Inevitavelmente a vergonha a atingiu e tinha quase certeza que seu rosto corou, ela sabia que estava num estado lastimável.

— Eu não estava com fome – Alexa deu um passo atrás – posso voltar?

Jonathan ignorou a pergunta e caminhou até um dos guardas que aguardava do lado de fora da sala, ele disse algo e o homem se retirou.

— Vem – ele olhou para a loira e indicou a porta com um aceno. Alexa o seguiu para fora do salão.

Outros dois guardas que a trouxeram também acompanharam conforme atravessaram o castelo. Eles pararam diante de uma porta que imediatamente foi aberta por um dos guardas. Era um quarto espaçoso, com uma cama de casal centralizada na parede posterior a porta, um armário e uma secretária rústica com uma cadeira. Alguns pergaminhos, tinta e caneta estavam arrumados na mesa ao lado de uma vela. A parede esquerda tinha uma porta tapada por uma cortina e pelos raios de luz intensos que a cortavam a garota podia apostar que dava para o exterior. O que a fez pensar o quão alto estariam para ele a permitir ter acesso ao exterior. Outra porta ao lado do armário levava a um banheiro, da entrada era possível ver um pedaço da banheira, e tudo o que sua mente conseguiu pensar no momento era em chutar o príncipe para fora daquele quarto e tomar banho.

Alexa não ousou dizer uma palavra, não queria perder a oportunidade de ter um pouquinho de dignidade, embora todo aquele conforto parecesse extremamente suspeito. Uma mulher, baixinha e com aparência afável, atravessou a porta com um cesto cheio de roupa nas mãos, depois de sua reverência ao príncipe ela cumprimentou a garota com um sorriso e passou por ela para colocar as roupas que estavam no cesto em cima da cama. Eram vestidos, ela os estendeu um a um, pareciam simples e confortáveis, mas não do estilo que um prisioneiro usaria. Não fazia o primeiro pensamento do observador ser “um vestido de princesa”, mas certamente de alguém que pertencia a corte. Alexa tentou esconder a confusão em seu rosto embora sentisse que o olhar aguçado do príncipe sobre ela conseguia descobrir aquele sentimento.

— Tem roupas limpas – ele acenou para a roupa em cima da cama com a cabeça – eles vão encher a banheira para que tome banho e trazer comida também. Pode descansar um pouco depois disso, vou dar ordem para que ninguém a perturbe nas próximas 24 horas.

— Imagino que a minha imagem atual esteja realmente dando pena – Alexa comentou encarando a roupa na cama.

— Está – ele respondeu atravessando a porta do quarto – vejo você em breve.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.