Série Paradise - Dominique(Degustação)
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Aron
Não é fácil atravessas as mesas e os grupos que conversam e dançam de pé para chegar de novo ao balcão. Para um dia dos namorados até que um bar conhecido pelo agito está bem movimentado. Esse drink do dia dos namorados sempre faz sucesso.
Ethan está limpando o balcão quando me encosto pedindo licença a um casal que podia ir se beijar em outro canto. Deprime a pessoa ficar assistindo a isso. Humilha os solitários.
— O de sempre? – Ethan me pergunta e afirmo, uns segundos e uma dose de uísque está sobre o balcão. – O que foi?
— Nada. – Dou de ombros. A música alta não abre espaço para longos diálogos. Levo o copo aos lábios, a moça bonita conversa com um cara, demorei demais para atravessar o salão, o cara foi mais rápido e chegou primeiro, vamos ver se ele terá sorte. Parece que não é meu dia.
— Amendoim? – Aron empurra uma tigelinha sobre o balcão em minha direção, empurro para o lado oposto, ela corre sobre o móvel de madeira lustroso e esbarra em uma taça que vira para o lado derramando o Martini. Um rosto surge sobre o balcão, uma loura nada animada me lança um olhar furioso.
— Desculpe. – Digo sem graça. – Ethan, mais um drink para a moça. O que ela escolher.
—Obrigada. – Ela diz esticando a mão para pegar guardanapos. Pego meu copo, me contorço um pouco entre as pessoas e consigo parar a seu lado.
—Se molhou? – Pergunto, ela me olha de cima a baixo, sorri, é linda, usa jeans, uma camisa rosa de tecido fino, pulseiras douradas e brincos combinando, sapatilhas baixas.
— Só a mão e a manga, nada demais. Obrigada. – Ela agradece Ethan que estende outra bebida. – Lugar legal, nunca tinha vindo.
—Meu lugar preferido, venho quase toda noite. – Respondo tomando mais um gole de bebida. – Está sozinha?
—Vim com umas amigas, mas.... – Ela aponta duas duplas conversando, as garotas parecem bem interessadas em seus interlocutores. – Sobrei.
—Sei como é. – Digo pensando na minha própria existência. – Mora na cidade?
— Brooklyn. – A jovem sorri, leva uma mecha de cabelos atrás da orelha. – E você?
— Uns quarteirões daqui. – Ela continua a sorrir. – Trabalha no que?
—Médica, clinica geral, em um hospital perto de casa. Também atendo em uma clinica, quase não tenho folga, é raro uma noite como essa.
—Que... pena. – Não sei bem o que dizer, não acho que daria certo me envolver com alguém assim, eu sei o que acontece, a carreira fica em primeiro lugar e nem posso reclamar, afinal, a pessoa tem direito de escolher isso. Charlene escolheu na época e só pude aceitar.
—Me conta de você. – Sua mão toca meu peito e descansa um segundo sobre o terno para depois ir em direção a taça.
—Executivo, nada demais, trabalho em uma multinacional, só... finanças. Assunto chato. – Meu olhar corre o salão. Dominique está conversando com o cara que não parava de olhar para ela. Talvez esteja com mais sorte que eu. Nossos olhos se cruzam, por um segundo acho que ela não parece muito contente, é ela a desviar os olhos primeiro. Volto minha atenção a jovem diante de mim.
— Alguém especial? – Ela pergunta olhando para Dominique.
—Uma... amiga, só isso.
—Não me disse seu nome. – Verdade, nem perguntei o dela.
—Puxa, é mesmo. Aron. – Tomo mais um gole de uísque, acho que chega por hoje, não vejo como isso vai dar certo e não quero uns beijos e uma noite de sexo, não que costume recusar essas coisas, mas acho que hoje quero apenas ir cedo para casa.
— Denise. – A moça se estica em minha direção, toca meu ombro quando encosta seu rosto no meu em um tipo de beijo de apresentação.
—Legal, desculpe, eu me lembrei de algo importante, preciso ir. Divirta-se. – Nem espero muito para ver sua reação, só aceno para Ethan e caminho por entre as pessoas em direção a saída, preciso de ar. Antes de passar pela porta ainda encontro com os olhos de Dominique mais uma vez, de novo ela não parece muito feliz, ergo a mão em um aceno que ela responde com um sorriso desanimado.
O ar da noite me domina e é bom, relaxante e libertados. Fiz bem em vir a pé, não gosto de beber e dirigir e não parece que vá acontecer nada melhor do que caminhar para casa enquanto penso na vida.
Amanhã tenho trabalho, quero descansar para a chatice das reuniões. Também não quero mais embarcar em furadas, trinta e cinco anos, estou um tanto cansado de errar.
É decepcionante acreditar em uma historia e no fim acabar solitário. Talvez eu espere demais das minhas relações, todo mundo diz que fantasio, idealizo e depois quebro a cara e talvez seja isso, mas ainda acho que tem alguém por aí, alguém que pode estar disposta a dividir uma vida comigo.
Gosto de pensar em acordar com a garota certa ao meu lado, gosto de pensar em criar um filho, fazer um piquenique, não me sentir sozinho em dias cansativos, noites de natal, quero outras preocupações além das reuniões no escritório e viagens de negócios. Quero ter para quem voltar.
Atravesso a rua, a noite está gelada e sentir frio é melhor que não sentir nada, estou exausto de não sentir coisa alguma, eu gosto de saudade, frio na barriga, ansiedade, gosto de emoções, me atiro nelas sem medo. Não posso ser assim tão errado.
Meu apartamento fica uns quarteirões do escritório, posso ver o arranha-céu Fitzalan imponente da minha janela, sou orgulhoso do que consegui, cheguei a empresa por uma indicação de amigos, mas eu construí com meu melhor meu espaço.
Theodor pode ser um idiota teimoso e irritante, mas sabe reconhecer talentos e nunca me facilitou a vida por que construímos uma relação próxima. Conquistei meu lugar por que sou bom e fico orgulhos disso, mas não é apenas para isso que vim ao mundo. Estabilidade profissional e financeira não me faz um homem realizado. Quero as manhãs de domingo, aquelas das comédias românticas, com panquecas, bagunça de crianças e cachorros, o problema é que a garota certa está se escondendo e não a encontro.
Abro a porta, a luz da sala se acende assim que atravesso a porta, não faço nada além de deixa o molho de chaves sobre o móvel e atravessar os ambientes em direção ao meu quarto. Acho que desde que me mudei para esse apartamento há oito anos que não mudo nada e nem sei quanto tempo ele já estava aqui, preciso de um sofá novo, um colchão mais macio, concertar o vazamento na pia do lavabo.
— Belos pensamentos para o fim da noite do dia dos namorados. Vazamento no lavabo. Sua vida é mesmo um carrossel de emoções Aron Reed. Parabéns!
Um banho quente e cama, nada mais. Apago quase que instantaneamente. O celular toca me despertando. Desligo e salto da cama, gosto das manhãs, sempre acordo animado e disposto. Abro as cortinas e o dia está um tanto nublado.
Aperto o botão da secretária eletrônica enquanto ligo a cafeteira. Devo ser a última pessoa a ter uma secretária eletrônica e um telefone fixo em uso, mas minha mãe liga nele pelo menos cinco vezes, tem sempre mais um recado da minha cunhada, dois ou três do meu irmão e claro, o único recado do meu pai. “Aron, quer ligar logo para sua mãe, ela já ligou meia dúzia de vezes e não para de reclamar que não responde a ela, tenho que trabalhar”. Ele nunca diz mais do que isso.
Meu pai tem uma corretora de seguros de médio porte, meu irmão é seu sucessor, eu fugi de trabalhar com eles, não é algo que ele goste, mas eu não queria ser seu empregado, queria vencer por meus meios, queria algo novo e diferente, deu certo para sua completa decepção que sempre achou que eu voltaria correndo para debaixo de suas asas.
Os recados começam. “Filho, que saudade, me liga” “Aron, é a mamãe, eu fiz seu prato favorito, vem jantar conosco?” só quando o último recado que é do meu pai termina é que pego meu celular para falar com eles.
—Bom dia, mãe. – Encho a xicara com café forte enquanto caminho de volta para a suíte.
—Finalmente, não tem pena de me deixar tão angustiada? Sou sua mãe e me preocupo. Não falamos desde... desde...
—Ontem de manhã. – Aviso enquanto escolho um terno e jogo sobre a cama. – Como estão as coisas? – Pego meias, cueca, paro diante das gravatas.
—Tudo ótimo, quero saber de você. – Ela diz enquanto pego a gravata azul marinho e os sapatos pretos.
—Estou muito bem, trabalhando, essas coisas. – Vou para o banheiro. Fico com o celular no ouvido enquanto uso a mão livre para escovar os dentes, minha mãe falando sem parar sobre meu pai, seu dia, a nora, meu irmão e a vida de modo geral.
— Quando vai me trazer a namorada?
Cuspo depois de bochechar. Limpo a boca e caminho para ligar o chuveiro, hora de me despedir.
—Quando tiver uma namorada, mãe. Agora preciso ir, tenho reunião, ligo mais tarde. Amo você.
— Também te amo, apareça mesmo sozinho. Esperamos você, não são quinze minutos de carro, não pode ficar tanto tempo sem vir.
—Prometo, vou no fim de semana, prometo. Domingo janto com vocês. Te amo.
Deixo o telefone sobre a bancada para entrar no chuveiro. Meia hora e estou deixando meu apartamento para o trabalho, caminho até o escritório, duas reuniões pela manhã, uma com Theodor e outra com a diretoria. Não sei como ele aguenta aquele bando de desocupados ultrapassados que adoram dar palpites, mas nunca dizem nada útil e no fim, felizmente, Theodor resolve do seu jeito.
— Bom dia. – Ele está animado, depois de uma noite romântica é de se esperar.
— Bom dia. – Deixo a pasta na cadeira ao lado e me sento.
— Passou pela Allison? – Theodor me questiona.
—Não. Sua antessala está vazia.
—Todo dia atrasada. Vamos longe.
— Parece que sim. – Não estou muito animado e abro a pasta para retirar a agenda e entrar logo no assunto mais importante.
—Noite ruim?
—Não. Noite péssima.
—Sinto muito. Quer saber como foi a minha?
—Não Theodor, não somos amigos, não precisa me contar como foi sua noite. Vamos direto ao ponto. Trabalho.
—Certo. A Serena amou a surpresa, até chorou um pouco, sou muito bom em surpreende-la com noites românticas.
— Você? Quem teve a ideia?
—Dakota, mas não importa quem teve a ideia, o que importa é quem executa, essa é a pessoa mais importante.
—Nesse caso, sou a pessoa mais importante dessa empresa, afinal você tem as ideias e o camelo aqui executa.
—Pode procurar outro emprego. Prefere?
— Devia demitir sua diretoria.
—Preciso deles para mostrar as fotos do Andy e da Lupe. – Ele diz de modo tranquilo enquanto folheia documentos.
— Sabe que sua filha vai ter sérios problemas de identidade? Por que você a chama de Lupe, o Andy também, os outros chamam de Maitê e bom, ela vai demorar a saber quem é.
— Então chame a menina de Lupe, mamãe odeia, além disso é fofo. Combina com ela. Já viu que carinha de mexicana ela tem?
— Dá um pouco de vergonha de você, sabia? Não tem mais uma reunião que não comece com você passando vergonha. Seja sério, mas sei lá, não somos amigos, então é só um toque.
—Um amigo ficaria do meu lado, elogiaria a beleza dos meus filhos. Que gráficos são esses?
—Sua equipe econômica que me mandou. – Ele faz careta.
— Vou ter que discutir isso depois na reunião com a diretoria, não gosto nada desses números, está muito conservador, não acha?
— Bom, você é o kamikaze, eles são os caras que tentam te colocar juízo, natural serem mais conservadores com os números. O que importa? Sempre ignora e faz do seu jeito.
— Sempre dá certo. – Nos envolvemos finalmente em trabalho e por meia hora discutimos o dia, a semana e os investimentos futuros. Mias tarde ele convence a diretoria que do seu jeito é bem melhor e no fim é mesmo. Admiro seus instintos.
— Acho que é isso. – Suspiro no fim da reunião. – Agora vou para minha sala, te encontro na reunião com a diretoria.
— Você fica tão chato quando não está sonhando com seu futuro casamento. – Theodor reclama. – Por que não namora a Dominique, o Andy fica com a Dakota e ficamos todos em família, seria muito mais interessante.
—Muito interessante, quem sabe o Sean fica com a Maitê.
— Não coloque minha princesinha nisso, ainda tenho que analisar o Sean, não vou confiar logo de cara, já viu como ele fica arrancando os brinquedos da mão dela? Não sei, ainda é muito cedo para tomar uma decisão como essa.
— Se fossemos amigos, eu diria que você anda meio maluco.
—Se fossemos amigos eu diria que a Dominique precisa de alguém como você e que combinam muito.
—De onde tira esses absurdos? Não temos nada em comum. Nada!
—Viu? Perfeito, cada um tem algo novo e especial para acrescentar, mas não somos amigos, então não é da minha conta.
Allison invade a sala um tanto apressada. Os olhos arregalados e um tanto desajeitada.
— Desculpe o atraso senhor Fitzalan, eu estava...
— Não se importo em me informar, tenho certeza que a secretária mais eficiente do país teve seus motivos, sinto muito que tenha se atrasado, prometo fazer todo o possível para chegar tarde amanhã e assim jamais cometer a gafe de chegar antes da senhorita.
—Senhor Fitzalan, eu me atrasei porque estava vomitando, estou grávida. – Até a Allison feliz para sempre e eu infeliz e solitário. — Mas se quiser posso vir direto sem passar no banheiro e vomito aqui mesmo. – A careta dele é impagável.
—Parabéns, Allison, fico muito feliz. – Digo abraçando minha velha amiga.
— Obrigada, Aron, é um menino, soube ontem, já sabia que estava grávida, mas preferi não contar.
—Grávida? Então não posso mais brincar de irrita-la?
—Senhor Fitzalan, não acho que seja uma ideia segura no momento. – Ela diz sorrindo. Theodor sorri de volta, deixa a mesa e estende a mão, eles se cumprimentam.
—Parabéns. Crianças são a melhor coisa da vida. Quer ver como está a Lupe? Tirei uma foto antes de sair de casa.
Balanço a cabeça em negação, não é o mesmo velho e bom Theodor, cínico, frio e completamente avesso a humanidade.
— Serena me enviou umas fotos semana passada. – Allison conta a ele.
— Sei de uma loja que vende ótimos produtos para quando ele chegar, você sabe que hoje em dia tem umas fraldas... – Não escuto o resto, só deixo a sala e a mais nova amizade de Theodor para ir me envolver em meu trabalho que aliás, vai me tomar o dia todo até bem tarde.
A reunião com a diretoria começa chata, tem seu ponto alto quando Theodor se distrai falando dos filhos e termina com sua diretoria se curvando orgulhosa de como seu líder maior é incrível e ele é.
Deixamos o escritório juntos, ele para um lar cheio de amor e riso, eu para casa, solidão e silencio. Ando tão dramático que estou me achando bem chato.
A casa precisa de mudanças, é isso, vou redecorar os ambientes, isso deve ser um bom jeito de resolver as coisas por aqui. Novos ares, posso até pedir a Dominique que faça isso, não, melhor não, oferecer trabalho a ela pode até ofende-la.
Abro meu notebook em busca de sites de decoração, descubro que não sou muito talentoso, mamãe podia cuidar disso. Uma imagem da minha mãe entrando e saindo da minha casa, falando sem parar e me pegando nas situações mais constrangedoras do mundo se formam em minha mente e decido que uma morte lenta e dolorosa parece um cenário mais apropriado.
— Quer saber, Aron Reed, o melhor a fazer é aproveitar a noite no Paradise. É isso, jogar conversa fora, tomar um drink e conhecer pessoas.
Largo tudo e me levanto, pego as chaves do carro, depois desisto de ir de carro, caminhar é a melhor escolha, posso acabar bebendo demais e não vou ficar preocupado com isso.
Caminho até o bar, a noite está menos fria e o céu está limpo, não que dê para ver estrelas, é Manhattan e estrelas se escondem sob as luzes de lede que se espalham em excesso pela cidade.
Dominique chega ao mesmo tempo, toco a maçaneta e antes que a sineta toque ela está ao meu lado. Seu perfume é sempre incrivelmente sensual, não sei a marca, mas aposto em Chanel.
— Quero decorar minha casa. – Ela me encara franzido a testa, não é um bom jeito de abordar alguém. – Só estou... avisando. – O que deu em mim?
— Ok, me sinto avisada. – Ela diz passando por mim enquanto a sineta nos denuncia. O bar já está cheio, as vezes até sinto falta do velho e vazio Paradise, era quase exclusivo.
— Você é decoradora, por isso te contei. – Digo seguindo Dominique pelo salão em direção ao balcão.
—Gastei mil dólares em compras hoje. – Ela me diz de modo sério. – Você é um executivo da área financeira, por isso te contei.
— Vieram juntos? – Savannah pergunta.
—Não! – Dizemos em uníssono. Ela ri.
—Vou tomar champanhe. – Dominique continua se dirigindo a melhor amiga. – Você é dona de bar, por isso te contei.
—Que?
—Ela está me provocando. – Eu respondo por ela. Savannah ergue uma sobrancelha. – Champanhe para mim também.
—Ótimo, uma garrafa por conta do Aron! – Dominique diz sem a menor reserva, me sorri e suspiro. Por que não? Podemos tomar uma garrafa de champanhe juntos. Talvez até duas, ela me irrita e isso já é alguma emoção.
—Vá em frente, Savannah, uma garrafa e duas taças. – Ela balança a cabeça em silencio, um minuto depois estamos diante de duas taças e uma garrafa de champanhe.
— Me conte, o que pretende mudar em sua casa? – Dominique pergunta enquanto sirvo o champanhe.
— Tudo. – Ela ergue uma sobrancelha. – Um brinde?
—Sempre. Nunca recuso um brinde.
— Eu sei, me lembro. – Ela dá um sorriso sensual, não o sensual de sempre, parece bem direcionado e meu corpo reage, acho que ando muito carente. Só pode ser isso.
— Dominique, a...
—Inesquecível. – Brinco e ela ri comigo.
— Bom menino. Um brinde ao brinde! – Ela ergue sua taça e toco a minha. Assisto um tanto interessado demais enquanto ela leva o champanhe aos lábios de modo sensual.
—A noite de ontem deu frutos?
—Não. O problema de alguns homens bonitos é que eles são só isso. Bonitos!
Fale com o autor