São Francisco
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Fiquei imóvel observando os dois de papo por alguns segundos. Eles pareciam visivelmente numa conversa animada. O cara de porte alto e atlético, tinha cabelos loiros, pele um pouco bronzeada e estava muito próximo demais da Sara pro meu gosto. Sorrindo alegrinho demais, não tirando os olhos dela e pra piorar, ainda tinha aquela sua mão que não parava quieta e deslizava a todo instante pelo braço da minha namorada, algo que estava me dando nos nervos.
Resolvi ir até lá saber quem era aquele sujeito e o quê de tão animado que aqueles dois tanto falavam a ponto de estarem rindo a beça daquele jeito.
A passos pesados e de cara amarrada cheguei nos dois, e me pronunciei parando atrás de Sara:
—Interrompo?
Minha namorada se virou pra me encarar e o sujeito conversando com ela, me encarou também.
—Ei já tava quase indo atrás de você.
"Tô vendo!"
—Se perdeu no caminho?
—Tive que esperar um pouco.
Meu olhar não a fitou nenhum momento enquanto Sara falava comigo e eu lhe respondia. Estava com os olhos presos no sujeito desconhecido.
De repente, me deu um estalo. Seria o tal Kylie esse sujeito? Pois se fosse, Sara e eu teríamos uma séria conversa depois acerca dela estar deixando que um ex dela fique deslizando a mão pelo braço dela daquele jeito. Tenho certeza que se fosse uma ex minha que fizesse isso em mim e ela visse, não iria gostar nada disso, da mesma forma, que eu não tinha gostado nada de ter visto aquilo.
—Tá tudo bem com você?
—Não! Tá tudo péssimo.
Dessa vez, eu olhei pra ela. Quis perguntar na cara dura quem era o sujeito ali com ela, mas não tinha coragem. E também nem foi preciso fazer essa pergunta, já que no instante seguinte, Sara tratou de nos apresentar.
E advinhem?
O tal sujeito é mesmo o Kylie! Pro meu aborrecimento e raiva extrema.
Sara me apresentou o sujeito se referindo como um amigo. E contou ao Kylie que eu era o namorado que ela já tinha comentado com ele.
Confesso que gostei de saber que ela já tinha falado de mim para aquele sujeito! Mas ainda sim, estou chateado com ela pelo que vi.
O sujeito me estendeu a mão de maneira cordial enquanto sorria pra mim como se fôssemos velhos amigos.
Apertei sua mão só por pura educação, mas foi um cumprimento rápido da minha parte. Nem bem toque sua mão e já soltava-a.
—Gil, o Kylie tava me contando como foi lá na competição de surfe que ele foi participar em Bali, na Indonésia. — Sara explicou-me. _Ele ficou em primeiro lugar!
—Que bom pra ele! — Disse secamente.
—Você tá com algum problema, Grissom?
—Tô, Sara! Mas eu não vou discutir qual é o meu problema, na frente de estranhos.
Meu olhar pousou sobre o tal Kylie que apenas observava calado ao meu diálogo com Sara.
E parece que meu comportamento ali e as minhas palavras fizeram o sujeito se mancar e resolver 'bater retirada'.
—Bom vou indo, pernuda. Amanhã ou na segunda deixo na pousada pra você a prancha de stand up paddle que trouxe de presente pra você.
Mais raiva me deu ao ouvir isso. Ele comprou uma prancha pra ela? Esse cara ainda é a fim dela. Será que ela não percebeu?
—Beleza. Tô mega ansiosa pra praticar.
Kylie se despediu de Sara com um abraço e um beijo no rosto, depois me estendeu a mão mais uma vez. Novamente apertei sua mão de maneira rápida. E tão logo ele se foi dizendo a Paul ao passar por ele, que amanhã voltava ao trabalho ali, eu encarei Sara sério.
Ciúmes.
Raiva.
Ciúmes.
Raiva.
Ciúmes.
Era o que eu sentia em enormes proporções.
—Será que agora pode me contar qual é o seu problema? Por que essa hostilidade com o Kylie? E por que está me olhando assim?
Ela ainda me pergunta tudo isso mesmo na maior tranquilidade e com um discreto sorriso nos lábios?
Ela quer me provocar e tirar do sério com isso?
Mais raiva me deu!
—O que você ia achar se me encontrasse de conversa animada com uma ex e está estivesse muito perto de mim, deslizando a mão pelo meu braço, como eu vi esse Kylie fazendo em você?
Apesar de estar cheio de raiva por dentro, eu consegui falar de maneira calma até demais, pra quem era consumido pelo ciúme e a raiva como eu estava sendo naquele momento.
Sara pensou e pensou na minha pergunta por um segundos, até que por fim, me respondeu:
—Tá, eu não ia gostar nada disso!
Ah, quase me rendi a vontade de ironicamente bater palmas pra ela por isso. Pelo menos, ela foi honesta e confirmou o óbvio.
—Pois é e eu não gostei, Sara... Na verdade, eu detestei!
—Mas ele é meu amigo, Grissom.
—Um amigo que antes já foi seu ficante.
—Só que agora é somente um amigo querido.
Da parte dela até pode ser isso, mas da dele tenho minhas sérias dúvidas a esse respeito.
—Ele ainda é a fim de você! — Resmunguei após um breve silêncio ter se instaurado ali entre nós.
Sem que eu esperasse Sara riu na minha cara. Não sei qual era a graça ali pra ela rir.
—Não viaja, Grissom. Ele não é a fim de mim coisa alguma. Kylie gosta de mim como uma amiga.
—Ah, claro. Eu vi como ele gosta mesmo de você como uma amiga. Vi muito bem, Sara. Ô se vi! — Usei do sarcasmo que na maioria das vezes quem usa é ela comigo. _E esse negócio de "pernuda"?
—É como ele me chama.
—Claro!
—Claro o quê, Grissom?
—Nada!... Deixa quieto que é melhor!... Você me trouxe aqui de propósito pra eu conhecer esse cara, não foi?
—Não! Eu nem sabia que ele já tinha voltado de Bali. — Ela se justificou pra mim. E mesmo com raiva, eu consegui acreditar nela.
—Eu quero voltar pra pousada. Pra mim já deu de passeio por hoje.
Eu tava de saco cheio dali e daquela discussão toda. Queria ir embora e não discutir mais, o aquela situação toda ali já tava até me dando dor de cabeça.
Pra minha satisfação, Sara resolveu não contestar mais nada ali e acatar meu pedido de irmos.
Ela foi até o padrinho dela que de longe tinha nos espreitado o tempo todo e se despediu dele. Segui até eles e me despedi do Paul e lhe perguntei quanto era a água de côco que tínhamos consumido pra pagar por elas. Mas o homem disse que, de maneira alguma, ia aceitar que eu pagasse nada. Era por conta da casa.
Assenti e, logo Sara e eu já seguíamos pra pousada em total silêncio.
Eu tava muito chateado com o que eu vi. Mas do que isso, eu tava me consumindo de ciúmes. Ver um cara, que já se envolveu com Sara, tocando-a daquele jeito e ela consentindo, e mais, cheia de sorrisos com ele... Não foi algo que eu gostei.
E sei, como: 2 + 2 = 4, que se fosse o contrário, o efeito que aquela cena tava me causando, seria em minha namorada o mesmo ou quiça até mesmo pior, do que foi em mim. Até mesmo sua reação não fosse tão contida como foi a minha, tendo em vista que ela não sabe se conter e pior ainda, não sabe disfarçar nada quando o ciúme lhe toma. Eu também não sei disfarçar isso.
—Vai ficar me dando gelo mesmo?
—Eu não tô te dando gelo. Só não tô a fim de papo por agora.
Chegamos a pousada em poucos instantes e o pai dela já estava na porta a nossa espera feito um segurança na porta de uma boate.
Ele reclamou da demora e do horário que voltamos, já que havia escurecido. Sara explicou que estávamos no quiosque do padrinho dela de papo. E quando Otávio já ia fazer outra pergunta, eu disse que ia entrar porque estava com dor de cabeça. Não tava com paciência para o interrogatório do meu sogro. E pedindo licença aos dois, entrei na pousada. Encontrei Laura na recepção e cumprimentei-a.
—Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa? Não me diga que meu marido foi grosseiro com você, quando chegaram?
Ela se preocupou em me questionar. Pelo visto, minha cara tava denunciando que tinha acontecido algo.
—Não, ele não foi grosseiro, não. Eu só tô com um pouco de dor de cabeça! — Não era de total mentira o lance da dor de cabeça, já que realmente minha cabeça começava a doer. _Eu vou subir e deitar. Boa noite, Laura.
—Não vai jantar conosco? Estávamos esperando você e Sara chegarem.
Nesse instante, Sara e o pai dela entram na recepção. Após lançar um olhar a Sara e ver que ela estava tão séria quanto eu, foi que respondi a pergunta me feita por Laura:
—Desculpa, Laura, mas não. Eu não tô com fome. Boa noite a todos!
...
Eu dormia quando comecei a sentir um toque sutil nos meus cabelos, depois em meu rosto. Era uma mão. Permaneci de olhos fechados achando que fosse imaginação ou apenas um sonho.
A mão macia deslizou para meu pescoço, alcançou meu ombro massageando-o de leve. Aquilo era bom! Que sonho bom! Depois a mão foi deslizando lentamente pela extensão do meu braço até alcançar a minha mão e se agarrar à ela.
—Gil!
Abri os olhos imediatamente ao ter meu nome sussurrando em meu ouvido. Eu conhecia bem aquela voz. Bem até demais! Virei-me mais que depressa na cama e acendi o abajur. Encontrei minha namorada sentada ali perto de mim.
—Sara?? — Sussurrei espantado. _O que faz aqui sua maluca e... — Olhei no meu relógio que apanhei de cima do móvel onde ficava o abajur. _... Às 01h25m da madrugada? — Devolvi o relógio ao seu lugar.
—Quero conversar com você! — Ela me respondeu sussurrado também.
—Agora? — Indaguei incrédulo.
Ela não podia esperar amanhecer o dia pra fazer isso?
Deus do céu! Se o pai dela aparece e nos pega ali, eu tô encrencado. Na verdade, estou morto!
—Sim, agora! — Sara confirmou chegando mais perto de mim.
—Sara não quero nem pensar no que o seu pai vai fazer comigo se te pegar aqui no meu quarto à essa hora, sua maluca!
Ela riu. Mas eu não. Tava apavorado.
—Ele deve estar no vigésimo sono e sequer irá aparecer aqui. Você tem medo dele, né?
—É respeito. Agora vai dormir. Quando amanhecer você conversa comigo o quê quer.
—Não! Eu quero conversar agora.
Certamente, ela queria falar do ocorrido no quiosque e não era hora e muito menos, lugar pra se ter essa conversa.
Mas Sara é teimosa e bateu o pé dizendo que queria porque queria conversa ali e naquele momento comigo sobre o ocorrido no quiosque do padrinho dela, como eu já imaginava.
Resignado, me sentei melhor na cama e concordei em termos essa conversa ali no meu quarto e aquela hora da madrugada.
Ela começou me pedindo desculpas pelo que houve. Disse que realmente não devia ter consentido, mas explicou que não havia malícia alguma da parte de Kylie naquilo que fazia. Era só carinhoso dele e que ele adorava "falar com as mãos". Segundo Sara, o sujeito gosta de falar tocando nos outros. É o jeito dele com todos os AMIGOS e AMIGAS.
E reforçou dizendo que ele só gostava dela como um amigo mesmo. Nada além disso! E que eu não tinha motivos pra ter ciúmes dele e ficar aborrecido daquele jeito.
—Sinceramente, Sara, se fosse eu e a Heather naquela cena, você também não sentiria ciúmes e se "chatearia" com o que viu?
Ela apenas confirmou com a cabeça alguns segundos depois de eu ter lhe lançado a questão.
—Então você há de convir comigo que pedir pra eu não sentir ciúmes e não ficar chateado é difícil de não acontecer? Você mesma não conseguiria isso.
Ela não me disse nada.
—Olha, eu vou deixar o que aconteceu no quiosque pra trás. Só não quero que isso se repita. Não me agradou nada ver outro cara te tocando daquele jeito e tão perto de você, mesmo esse outro sendo só seu amigo. Assim como sei, que você não gostaria que uma garota me tocasse daquela mesma forma e ficasse perto de mim daquele jeito que ele estava de você, ainda que a garota fosse minha amiga. Pode ser?
—Era só o que me faltava! Vou ter que parar de falar com ele é isso?
—Não! De maneira alguma ia dizer pra parar de falar com alguém, mesmo que eu não goste da pessoa.
—Você não gosta dele? Mas nem ao menos o conhece, Grissom.
—E nem quero conhecer.
—Por que?
—Porque não!... Você tem seus amigos, assim como, eu tenho minhas amigas. Mas você tem que delimitar um limite em certas amizade pra evitar problemas no relacionamento que você tiver tendo comigo ou com outro, caso sei lá, a gente termine um dia e você arranje outra pessoa.
Não queria nem pensar numa coisa dessas. A gente terminar e ela arranjar outro. Acho que seria difícil pra mim isso. Mas não é algo impossível de acontecer, né? Pois alguns relacionamentos começam... E terminam! Outros não! E era nesses 'outros' que queria acreditar que meu relacionamento com Sara estava incluso.
—Ok, Grissom! Eu vou conversar com ele então. Tá bom assim?
Confirmei com a cabeça. Seria bom se ela fizesse isso mesmo.
—Agora vai deixar de me dar gelo e voltar a ser o meu... "quatro olhos" de sempre, mas sem essa cara de chateado?
Sorri. Era impossível pra mim agora ficar de cara amarrada por muito tempo com ela.
—Sim, garota insuportável!
—Só não vou te acertar um soco no braço por ter me chamado desse jeito, porque nós acabamos de fazer as pazes.
Sorri de novo enquanto tocava seu rosto. Depois deslizei o polegar por seus lábios. Sara aproximou seu rosto do meu e me beijou de maneira ardente e sem qualquer pudor.
Meu sangue ferveu de desejo na hora. Cinco meses de saudade e ela vem me beijar assim e ainda mais, a gente estando onde estávamos... Numa cama! Inevitavelmente o desejo acumulado veio a tona.
Segurando em sua cintura, eu puxei Sara pra se acomodar em meu colo. Nosso beijo foi ficando mais urgente. As mãos de Sara se agarram aos meus cabelos. Já as minhas mãos, uma foi parar em sua nuca e a outra deslizava por sua coxa com possessividade.
Então, me dei conta de pra onde estávamos com esse beijo se eu não desse um fim nele logo.
Ali não dava pra rolar aquilo!
Com desprazer interrompi meu beijo com Sara ao afasta minha boca da dela de maneira abrupta.
—Sara não estamos na minha casa, sua maluca.
—Eu sei. — Ela ria feito uma garota levada. _A gente tá na minha. Mas pra sua informação, eu não tinha intenção de fazer aqui isso que você deve tá pensando, tá bem?
—Acho melhor você ir pro seu quarto, Sara. Seu pai pode aparecer e eu não quero dormir ao relento. Porque ele vai me expulsar dessa pousada se te pegar aqui.
Sara levou a mão a boca pra abafar sua risada que certamente, sairia alta.
—Não ri, não, que você sabe que isso é bem capaz de acontecer de verdade se ele aparecesse aqui.
—Tá bem, seu medroso. Tô indo então. Boa madrugada, nerd sem graça.
Ela me roubou um beijo rápido.
—Boa noite, garota insuportável e maluca. — Murmurei após eu agora lhe roubar um beijo.
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