O sol se punha por trás das plantações e tingia as nuvens em tons de amarelo, laranja e rosa. A tenente e o coronel que antes conversavam sobre os seus planos e a fase em que Amestris se encontrava, haviam silenciado para assistir àquele espetáculo natural. A admiração era mútua. Para Riza, era impressionante que depois de tudo o que tinham passado em suas vidas, ainda fossem capazes de perceber a beleza de coisas simples. Ou talvez fosse até compreensível que dessem mais valor.

Ela se perdeu em pensamentos sobre o coronel e seu dom natural de aproveitar pequenos momentos da vida. Alguns minutos depois, ainda com os olhos vidrados na paisagem, passou a se perguntar no que ele estaria pensando, já que estava há tanto tempo silencioso e imóvel. Quando resolveu verificar, viu que Roy a observava. Com o cotovelo apoiado na janela e o rosto apoiado na mão, inclinado, exibindo o seu característico meio-sorriso e um olhar brilhante. Ele parecia estar confortavelmente naquela posição há certo tempo. Riza conhecia aquela expressão, pois as vezes a flagrava no rosto do rapaz enquanto a mirava.

– Algum problema, coronel?

– Absolutamente – a sua voz saiu quase divertida, como era de costume e o sorriso se estendeu pela sua face – Nenhum.

A moça aprendera com o tempo a controlar as reações naturais de seu corpo ao charme do rapaz. Após quinze anos de convivência, não ruborizar era uma tarefa deveras fácil. Mesmo que estivessem frente a frente em um vagão estreito de trem e ele a estivesse olhando daquele jeito. Mesmo que a sua voz grave a fizesse estremecer.

Tinham tantas coisas com o que se preocupar no momento... A segunda grande batalha de suas vidas havia passado e levara consigo muitos problemas de administração daquele país. Governantes ambiciosos e corrompidos, criaturas malignas do submundo e todo um rastro de perversidade do exercito haviam sido deixados para trás. Eram tempos de paz, mas eles não descansariam.

Agora as seus esforços estavam voltados para a reconstrução de Ishibal, para a qual haviam feito um bom planejamento com o Fuhrer e seus fiéis companheiros. Caso tudo corresse como esperavam, aquele seria um importante passo para que Roy um dia chegasse ao topo. Ainda que eles próprios não pudessem se perdoar, ainda que nada do que fizessem fosse apagar os seus pecados.

– Eu não sei o que esperar dessas pessoas. – Ele disse por fim.

– Nem eu. Seja sincero com eles... É a única forma.

– Sim... — Um suspiro saiu de sua boca – Darei o meu melhor.

– Sei disso.

Lá fora a paisagem já começava a mudar. Conforme a noite caía, o verde ia ficando mais e mais escasso, a terra mais árida e o clima quente.

– Você vai estar ao meu lado não é? – Roy perguntou de supetão, mas o tom de sua voz era tão baixo que ela quase não pudera ouvir e ele olhava pela janela como se nem estivesse falando com ela.

Riza expirou pesadamente antes de responder.

– Não vejo motivos para essa pergunta, senhor. Quando foi que não estive ao seu lado? Francamente... Como pretende se tornar fuhrer estando inseguro dessa forma?

– Você tem razão.

Ele recostou-se no assento e fechou os olhos. Dentro de algumas horas estariam em Ishibal.

Naquela noite, já no precário quarto do alojamento, Roy tentava conter a insegurança conforme a sua subordinada lhe aconselhara. Talvez não fosse capaz estar seguro de suas ações enquanto não perdoasse a si mesmo. Era um fardo deveras pesado, o passado, e agora tão envolto em fumaça que ele já não conseguia lembrar bem do rosto das pessoas que matara. A única coisa que permanecia fixa em sua mente era o odor insuportável de carne queimando.

Sete anos haviam se passado desde o fim da guerra, mas ele ainda sentia, ainda sonhava, ainda sofria. Mesmo naquele quarto, na companhia de um copo de whisky, tinha aquela sensação de desamparo. Tudo o que realmente queria naquela noite era uma boa dose de calor humano e um colo, para que pudesse, finalmente, dormir em paz. O moreno sentiu-se tolo, ao notar que, de fato, essa era uma das coisas que mais sentia falta e mais rigorosamente se privava.

Ele tocou a parede em que estava encostado com a palma da mão. Sabia que Hawkeye estava do outro lado, provavelmente dormindo. O que os separava era apenas uma parede , não mais forte do que o muro invisível que haviam construído. Roy encostou a testa tentando sentir o seu calor através dela.

Era mesmo um tolo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.