Ruínas da Guerra

10 Leão Dourado


Dante já havia perdido a noção de tempo a muitas horas atrás, a única coisa que seu consciente sabia era que ainda estava de noite no mundo lá fora, pois era possível ver o breu do lado de fora da taverna.

O barulho de dentro da taverna era estridente por causa da música, das coversas altas, da bebedeira e da agitação. Plebeus, leões dourados e alguns comerciantes, todos estavam ali para beber, comer e alguns chegavam para passar um dia em um dos quartos alugados.

A taverna se chamava Sacerdote Vermelha e era revestido de madeira com pilastes sustentando seu interior, um balcão com tarbeneiras atendendo aos pedidos dos beberrões. A taverna era iluminada por lâmpadas e não havia lustres no teto, apenas lâmpadas nas paredes e algumas velas no balcão da taverna. Várias mesas estavam espalhadas por toda a taverna, algumas com comidas, algumas com barris de cerveja e outras sem nada, apenas homens e mulheres rindo e conversando sobre a vida boa e sobre grandes aventuras.

Na mesa do centro da taverna, Dante estava sentado com um enorme barril de hidromel sobre a mesa. Dante estava acompanhado por dois amigos, Skiron e Andoni, Dante havia os conhecidos ainda quando eram crianças e ambos haviam escolhido se tornar cavaleiro do rei igual a ele.

Skiron aparentava ser muito mais novo do que realmente era, com seus cabelos loiros e olhos azuis. Ele estava com a sua armadura assim como Andoni, que possuía cabelos castanhos e seus olhos eram castanhos escuros, tanto Skiron e Andoni eram apenas um ano mais novos que Dante.

Dante e seus amigos já haviam dividido três barris de hidromel e todos estavam bêbados com o doce álcool do hidromel.

—Dante. – disse Andoni se aproximando de Dante para que ele pudesse ouvir. – Aposto dez leões de ouro que você não consegue levar aquela garota para cama.

Ele então apontou para a taberneira por detrás do balcão que acabara de entregar copos de cerveja para um comerciante. Ela agora estava fitando todos àqueles beberrões beber.

—Cara você vai perder isso fácil. – disse Skiron para Andoni.

—Acho que não... Hic... – soluçou Andoni. –Ela é bonita demais para ficar com Dante.

—Acho que você está bebendo muito hidromel. – disse Dante com um sorriso entre os dentes. – Isso está fazendo mal para a sua cabeça, amigo.

—A questão aqui não sou eu, é você... Hic... – soluçou Andoni novamente. – Topa ou não?

—Hoje à noite quero que deixe as moedas com a dona da taverna. – disse Dante rindo.

—E onde vai ser? – perguntou Skiron.

—Aqui mesmo! Lá em cima há quartos e vou pegar um deles. – respondeu Dante se levantando com a sua caneca de hidromel e se dirigindo em direção ao balcão.

Ao se aproximar do balcão Dante pode perceber a beleza da taberneira. Ela possuía um belo corpo esguio, mas só era possível ver dos seios para baixo porque o balcão cobria o resto do corpo da jovem. Os olhos delas eram azuis e ela possuía grandes cabelos castanhos, seus lábios eram perfeitos, ela era certamente a plebeia mais bela de Sanvitale. A jovem garota aparentava ser da idade de Dante, talvez um pouco mais nova.

—Se divertindo sozinha? – perguntou Dante enquanto se sentava em um dos bancos na frente do balcão.

—Apenas fazendo o meu trabalho. – respondeu ela com um doce sorriso.

—Já lhe falaram que você é bonita demais para ser taberneira?

—Não, nunca me falaram isso. – o rosto da garota começava a ficar vermelho.

—Então são todos cegos! – disse Dante após beber seu último gole de hidromel. – Posso saber o nome da bela dama?

—Janett, meu nome é Janett. – respondeu ela esticando a mão para cumprimentar.

—É um belo nome. – disse Dante dando um belo beijo na mão da jovem. – O meu é Dante.

—Sim, eu sei. Você é famoso por aqui. – disse ela enquanto Dante largava a sua mão.

—Pois é... A fama me persegue. – disse Dante com um sorriso no rosto. – Você tem namorado? Marido ou algo do gênero?

—Não. – respondeu Janett olhando para baixo, seu sorriso havia desaparecido em seu rosto. – Nunca tive.

—Então eles realmente estão cegos.

—Quer mais bebida? – perguntou ela querendo mudar de assunto.

—Na verdade quero muitas coisas, mas no momento apenas mais hidromel. – ele então entregou a sua caneca para a jovem e o sorriso no seu rosto voltou. – Então, há quanto tempo você trabalha aqui?

—Já faz três anos. – respondeu Janett enquanto colocava a caneca por debaixo do barril e abria a torneira fazendo com que o hidromel caísse.

—Se você quiser eu posso conversar com a princesa e fazer de você uma criada dela, sabe... Não é muita coisa, mas é melhor do que ficar aqui.

—Nossa... Eu nem sei o que dizer... – disse ela incrédula. – Isso seria muito bom para mim e para ele.

Ela então ela acariciou a sua barriga e Dante pode ver que ela estava grávida e a sua barriga já estava grande. Dante não acreditou no que viu.

—Você está... Está... G-grávida! – disse Dante ainda sem acreditar. – Nossa... Eu não havia reparado.

—Ninguém percebe por causa do balcão. – ela então pós a caneca em cima do balcão.

—Mas você disse que... Disse que não possuía namorado nem marido.

—E não possuiu.

—E-eu... Eu não sabia... Desculpe-me... Eu não queria...

—Está tudo bem, já superei isso mesmo. — interrompeu Janett.

—Você sabe o nome dele? – perguntou Dante retirando a espada com a mão esquerda da bainha, mas não por completo.

—E o que você vai fazer? – disse ela com um sorriso afiado. – Matar ele?

—Não, vou manda-lo ao rei! – disse Dante. – Isso se eu não matar o filho da...

—Ei! – a interrompeu novamente enquanto segurava a mão de Dante que estava sobre a mesa. – Está tudo bem, ele morreu!

Dante colocou a parte retirada da espada na bainha novamente e a sua raiva foi se esvaindo.

—Me desculpe... Isso acontece muito comigo. Idiotice minha. – Dante então retirou a mão esquerda da espada e colocou-a sobre o balcão.

—Pelos deuses! Você parecia que havia se transformado em um mostro. – disse ela rindo.

—Você disse que ele havia morrido. – disse Dante ignorando o que Janett acabara de dizer.

—Sim, ele era um cavaleiro do rei e vinha aqui todas as noites e se sentava na mesma cadeira que você estava sentado.

Dante então olhou para a mesa na qual estava sentado e viu seus amigos cochichando no ouvido um do outro.

—Ele bebia cerveja sozinho. – contou Janett. — Certa noite ele veio falar comigo e uma coisa foi levando à outra e então aconteceu.

—Sinto muito, eu não devia ter perguntado isso...

—Está tudo bem, seu bobo! – disse ela com o seu doce riso. – Essas coisas acontecem, não com todo mundo, mas infelizmente acontecem. Esse é o mundo no qual vivemos.

Dante então retirou um saco de moedas da cintura e pós em cima do balcão.

—Toma. Fica com isso! – falou Dante.

—E-eu... Não posso aceitar! – disse Janett empurrando o saco com moedas na direção de Dante.

—Não, é seu! – disse ele empurrando o saco de volta. – Eu sou responsável por proteger essa maldita cidade e se isso significa ajudar uma grávida a cuidar de seu filho sozinha, pode ter certeza que eu farei isso!

—Nem sei o que dizer...

—Não diga nada, apenas aceite. Escuta... Eu irei vim aqui todos os dias que eu puder para ver o seu bebê e você e isso é uma promessa.

—Muito obrigada!

—Não tem de quer. – ele pegou a sua caneca e antes de virar ele perguntou: — Como irá se chamar o bebê?

—Ainda não sei como chama-lo.

—Então quando descobrir o nome dele ou dela eu quero ser o primeiro, a saber.

—Pode ter certeza que irá. – disse ela com um sorriso de felicidade.

Então Dante se virou com a sua caneca em mãos e deu alguns passos em direção à mesa na qual seus amigos estavam, até que escutou uma voz vinda detrás dele, dizendo:

—Dante! – disse Jannet.

—O que foi? – perguntou Dante se virando para Janett.

—O nome dele vai ser Dante, se for um menino.

—É um belo nome. – disse Dante com um sorriso.

Dante então se virou e continuou a caminhar em direção a mesa.

—Eu disse que ele não era capaz! – disse Andoni para Skiron. – Ela é bonita demais para ele!

—Ela está grávida. – disse Dante enquanto se sentava na cadeira.

—O que? – perguntou Skiron olhando rapidamente para Janett.

—Me desculpa, não sabia. – disse Andoni. – Mas a passa as moedas.

—Como é? – questionou Dante.

—A aposta ainda está valendo. – respondeu Andoni. – Eu não disse que com grávidas a aposta não valeria.

Dante percebeu que todos, a sua volta, haviam se calado. A música, o murmurinho, as taças batendo nas mesas, tudo isso havia cessado, todos estavam olhando para apenas um lugar, Dante com o seu olhar seguiu para onde todos estavam olhando e avistou o leão alado, o seu pai, adentrando a taverna.

A aparência de Artimus não havia mudado muito, o seu corpo forte, a maça de seu rosto, os cabelos pretos lisos e a sua barba, tudo continuava da mesma maneira quando Dante o avistou pela última vez, a única grande mudança era as sua barba e seus cabelos grisalhos e algumas rugas em sua face.

Todos os cavaleiros e leões dourados que estavam presentes na taverna se levantaram e fizeram o comprimento para o seu superior, assim como Skiron e Andoni, mas Dante permaneceu sentado, ele sabia que aquela visita era de pai para filho e não de um superior para outro.

Todos da taverna ficaram fitando o leão dourado, incrédulos. Artimus começou a ir em direção a mesa Dante no instante em que fitou os olhos nele. A capa branca do leão alado começou a agitar enquanto andava, a sua armadura com grandes enfeites de leão, brilhava com as luzes das velas presentes na taverna.

—Rapazes! Deem-nos licença. – disse Artimus ao chegar à mesa para Skiron e Andoni. – E tirem esse barril de cima da mesa.

—Sim senhor! – respondeu Andoni retirando o barril.

—O que estão olhando? – questionou Artimus sentando na cadeira. – Continuem a fazer o que estavam fazendo!

Todos fizeram o que foram ordenados. Os soldados voltaram a beber, os comerciantes voltaram a conversar e a música retornou a ecoar pela taverna, mas algumas pessoas continuaram a fitar o leão alado. Andoni e Skiron então foram sentar em outra mesa longe de Dante.

—Você sabe realmente como animar uma festa, pai. – disse Dante ironicamente.

—Já ouvi isso muitas vezes e todas elas foram você que disse. – disse Artimus.

—Então é verdade. – disse Dante bebendo um pouco de seu hidromel. – Quer um pouco?

—Acho que eu preciso de um pouco. – disse ele, então Artimus se virou da cadeira e falou para Janett: — Querida, por favor, me traga uma caneca de hidromel.

—É pra já senhor! – respondeu Jannet indo buscar uma caneca.

—Então... O que faz o leão dourado estar numa taverna como essa a essa hora? – perguntou Dante.

—Vim falar com você. – respondeu ele.

—É bom ver você também pai. – disse Dante enquanto Janett trazia a caneca de hidromel para Artimus.

Artimus então viu a barriga de Janett e perguntou:

—Uma taberneira grávida! – ele então abriu um sorriso para ela. – Isso é algo realmente surpreendente. Já tem o nome para o bebê?

—Sim, se for menino será Dante! – respondeu ela.

Artimus perdeu o sorriso e então olhou para Dante com um olhar penetrante, uma mistura de raiva e surpresa.

—Ah, isso sim é surpreendente! – disse Artimus para Janett. – Pode ir, obrigado!

Dante bebeu um gole do hidromel de sua caneca enquanto o seu pai o fitava e Janett fora embora como ordenado.

—Faz apenas três dias que você chegou à cidade e trouxe consigo uma mulher com um filho na barriga?

—Eu não trouxe ninguém a não ser eu mesmo. – respondeu Dante. – E eu não tenho filhos... Não que eu saiba...

—Por hora temos notícias mais importantes para averiguar. – disse Artimus. – O rei reuniu o conselho mais cedo.

—Que conselho?

—O conselho que você deveria ter ido ao invés de ficar aqui bebendo.

—Primeiro: faz três malditos anos que eu não bebo hidromel. – respondeu Dante. – Segundo: eu não fui notificado que haveria uma reunião.

—Por que ninguém sabia onde você estava. Eu mesmo procurei você e não o achei.

—Muitas pessoas sabiam onde eu estava. Você que não procurou no lugar certo.

—Enfim... – disse Artimus ignorando Dante. – Uma mensagem chegou há poucas horas atrás, ela dizia que uma guerra estava preste a acontecer e isso envolve toda a Sanvitale.

—Isso não é novidade. Quem escreveu? – logo em seguida Dante bebeu mais um gole de hidromel.

—Hector o Renegado.

Dante se engasgou com o hidromel por causa do choque da notícia. Algumas pessoas olharam para Dante tossindo alto com o hidromel entalado na garganta e então voltaram a fazer o que estavam fazendo.

—Quer me matar pai? – perguntou Dante ainda tossindo. – Tem jeito mais fácil sabia?

Artimus fitava Dante sem falar nada, até que Dante perguntou:

—Como você sabe que a carta era realmente de Hector?

—Antes de convocar o conselho eu fui para a biblioteca da cidade para achar uma carta escrita pelo próprio Hector.

—Alguém não pode simplesmente ter uma letra parecida?

—Não. A carta foi lida somente pelos elfos brancos, já que só eles sabiam ler naquela época e tudo da letra bate; cada acento, cada vírgula, tudo.

—Eu não acredito que ele esteja vivo.

—Ninguém acredita. É por isso que eu e o rei tivemos uma conversa enquanto você estava em seu treinamento.

—Eu apanhava de um velho e você conversava com o rei. Que coisa boa...

—Eu e ele decidimos que se houvesse um caso sério, você ficaria encarregado de proteger a princesa.

—E não é isso que eu faço? – questionou Dante. – Protejo todos do reino e todos os aliados do rei.

—Sim, mas quero que você realmente fique perto da princesa como um guarda-costas.

—O que é isso? Uma nova categoria de cavaleiros? – perguntou Dante. – Vai ter armaduras de bronze, prata e ouro e cada um vai ter um animal diferente com poderes diferentes?

—Não. – respondeu Artimus. – Isso é temporário. Quero que você fique com ela todos os dias e se ficar ausente, quero que você saiba onde a princesa esteve, quando e o porque dela ir para determinado local.

-Passei anos da minha vida treinando para me tornar um cavaleiro, chego à cidade, viro um leão dourado sem muito esforço e agora viro babá de uma princesa. Estou transbordado de alegria agora!

—Não importa se está feliz ou não, apenas faça o que foi ordenado!

—Eu sempre fiz o meu trabalho, pai. – disse Dante. – Não é porque você veio aqui e me disse para cuidar da princesa que eu não vou fazer isso!

—Assim espero. – disse Artimus se levantando da cadeira. – Ainda está com a espada?

—Sempre está comigo. – respondeu Dante mostrando a espada na cintura. – A protejo com a minha vida, assim como a princesa.

—Ótimo, continue assim!

Então o leão alado deu as costas e foi em direção à saída da taverna.

—Esqueceu o seu hidromel! – disse Dante.

—Pode ficar. É todo seu! – respondeu ele enquanto andava sem olhar para Dante.

Dante ficou fitando a caneca com hidromel que o seu pai deixou enquanto processava tudo o que havia escutado. Algum tempo depois Brielly havia chegado à taverna, ela olhou Dante e foi ao seu encontro.

—Achei que fadas não bebiam. – disse Dante para a fada.

—Eu não vim beber. A princesa solicita falar com você. – disse ela.

Dante viu que a fada estava pálida, como se toda a sua alegria tivesse ido embora de seu corpo.

—É urgente. – falou Brielly novamente.