Ruínas Gloriosas
3 Salvas por um bode
Lucy
Fiquei preocupada com aquelas loucas brigando. Minha mãe deixou bem claro que eu deveria cuidar de Beatrice, acho que ela não gostaria nem um pouco se a garota aparecesse com um olho roxo... Não sabia por quanto tempo poderia evitar que as duas se matassem, felizmente Isa nos encontrou e veio correndo em nossa direção.
— O que está acontecendo? — Ela perguntou ao me ver segurando Taty.
— Essas duas querem se matar! — Acusei.
— Mentira! Só queremos conversar. — Taty falou.
Antes que alguém falasse algo, ouvimos novamente o barulho no campo próximo a floresta. Beatrice reclamou algo sobre animais e antes que eu pedisse para que ela repetisse, o barulho ficou mais alto. Automaticamente olhamos em direção à floresta assustadas, forcei a vista para tentar ver algo, mas continuei sem saber a origem do barulho. Iriamos voltar para o assunto da briga se não fosse pelo fato que vimos uma enorme sombra na parte iluminada da lua. Me estremeci, sentindo uma sensação ruim naquele momento.
Seja lá o que for aquilo veio em nossa direção, nós nos jogamos no chão para não sermos atingidas. Senti algo rasgando minha pele, a garra daquela coisa havia me cortado no braço.
— Lucy! Você está bem? — Perguntou Isa, preocupada ao notar meu corte.
Antes que eu pudesse responder o monstro voltou em nossa direção. Tentamos correr para dentro de casa, mas fomos impedidas por outro ataque. Pude finalmente observar melhor a criatura. Era uma mulher que possuía enormes asas — assim como as de um morcego — com alguns danos na mesma, suas orelhas eram pontudas como as de um elfo e a criatura era extremamente magra.
Seus dedos eram longos e afiados, suas pernas eram normais até a parte do joelho onde davam lugar para garras. A mulher voou em nossa direção quase nos acertando.
— Que merda é essa!? — Beatrice gritou.
— Não faço ideia! — Respondi assustada.
A criatura gritou algo em uma outra língua e veio em nossa direção. Seus dentes eram todos afiados e provavelmente poderiam fazer estrago facilmente. Ela nos olhava furiosa e em questão de segundos voltou a bater suas asas vindo em nossa direção. Ouvi uma melodia estranha sendo tocada, a criatura começou a se debater tentando tampar os ouvidos.
Olhei para os lados tentando descobrir a origem do som e vi algo um tanto quanto estranho... era um garoto metade humano e metade... bode... Ele tocava uma melodia em sua flauta que fez a criatura voltar para a floresta.
— Primeiro um monstro nos ataca, depois vem um bode tocando uma flauta e afasta o monstro? Acho que bebi muito... — Beatrice falou.
— Ei! Eu sou um sátiro e salvei a vida de vocês, então demonstre mais respeito, ok?
— Ah... obrigada... — Falei e ele olhou para mim, sorrindo.
— Então Sr. Bode — Beatrice começou. — Que merda era aquela!?
O garoto suspirou, provavelmente irritado com a falta de educação de Beatrice e disse:
— Uma galinha voadora do mal. — Beatrice cruzou os braços e olhou irritada para o garoto esperando uma resposta séria. — Ok. Aquilo era uma Harpia, um monstro. Mas não se animem porque eu apenas evitei o ataque imediato, ela vai voltar.
— V-vai voltar? — Isa perguntou assustada.
— Tenho que tirar vocês daqui.
Analisei melhor o rosto do garoto e notei dois pequenos chifres em sua cabeça. Pensei tê-lo visto em algum lugar e logo me lembrei do garoto que Taty havia beijado mais cedo na festa.
— Ei, não é o cara que você... — Sussurrei para Taty.
— Calada! — Respondeu. — Não me lembrava dessa parte... diferente dele... — Ela falou, se referindo às patas de bode.
Notei que o garoto falava algo para nós apesar que eu não prestei atenção. Beatrice parecia estar irritada com a situação e não demorou para que reclamasse.
— Eu não ligo pra nada que você fala. — Beatrice disse, recebendo em seguida um olhar irritado do garoto.
— Fala isso agora, mas se quiser eu te deixo aqui para bater um papo com a Harpia. — O garoto retrucou e Beatrice apenas suspirou derrotada. — Agora precisamos ir, já enrolamos demais.
— Do que você está falando? — Perguntei confusa — E quem é você?
— Ora, do Acampamento Meio-Sangue. Meu nome é Tadashi, sou o sátiro que deve buscar vocês e levar em segurança até o acampamento.
— Até parece que vou a lugar algum com estranhos, ainda mais sendo um bode. — Isa se intrometeu.
Nós concordamos em um gesto com a cabeça e recebemos um olhar irritado do garoto que já estava impaciente. Já estava tarde e não posso simplesmente desaparecer sem deixar notícias para minha mãe.
— Olha, não tenho muito tempo para explicar, vocês já deveriam ter sido informadas sobre isso. — Tadashi falou impaciente. — Bom, para começar... vocês já estudaram um pouco sobre mitologia, certo?
— Sim. — Disse Isa impaciente.
— Já devem ter visto as histórias dos deuses, cada um possui uma habilidade em alguma coisa, e os boatos de que eles se relacionam com mortais é verdade. — Nós o olhamos espantadas. — Aí surge os semideuses.
— Espera — Beatrice interrompeu. — Você quer que a gente acredite que “deuses” existem e têm filhos com mortais? — Debochou Beatrice.
— Sim. Tem alguma explicação melhor para aquele ataque?
Não respondemos. Aquilo não era nem um pouco normal, mas era um pouco complicado de acreditar nessa história toda.
— Vocês precisam confiar em mim. — Tadashi falou. — Estão correndo perigo aqui, aquela Harpia foi apenas um aviso do que está por vir.
Mesmo ainda estando um pouco desconfiadas, resolvemos seguir o garoto, que ia por uma estrada de terra. Não fazíamos ideia da distância que deveria ser percorrida, sem que percebessem me afastei e peguei o celular na minha bolsa. Disquei o número da minha mãe, mas ela demorou um pouco para atender — provavelmente estaria dormindo ou vendo um programa na TV.
— Mãe precisamos conversar — Sussurrei, tampando o aparelho com a mão para que não vissem o que eu fazia.
— Já cansou da festa? — Ela perguntou calmamente do outro lado da linha.
— É algo mais sério.
Expliquei toda a história mesmo achando que ela não acreditaria e pensaria que era o efeito da bebida, o que não aconteceu para minha surpresa. Quando terminei de falar ela suspirou e falou:
— Eu deveria imaginar que isso aconteceria... — Ela fez uma pausa e prosseguiu — Me diga onde vocês estão que eu vou aí.
— Ei! Desligue isso! — Tadashi veio em minha direção retirando o celular de minha mão — Eu sei que você se preocupa com sua mãe e quer avisa-la, mas agora não é uma boa hora. Telefones atraem monstros e permitem um acesso mais fácil com semideuses, é arriscado demais enquanto estamos longe do acampamento.
Peguei o celular da mão do garoto e voltei a falar com minha mãe, enquanto Tadashi me olhava irritado.
— Mãe, a senhora acha que estou louca? Devo mesmo segui-lo? — Perguntei desconfiada.
— É um sátiro certo? Ele vai te ajudar, isso envolve seu pai.
— E a senhora sabia de tudo isso? Como nunca me... — Antes que eu terminasse a frase, Tadashi pegou o celular de minha mão.
— Oi Helena, aqui quem fala é o Tadashi. Estou levando elas para o Acampamento Meio-Sangue e agora estamos ocupados... até depois.
Ele desligou o celular e me entregou em seguida. Fiquei irritada com ele já que queria ouvir o que minha mãe iria me dizer, essa história não fazia sentido e porque ela nunca havia me contado nada sobre isso? Quando conversamos não pude deixar de notar um tom desagradável em sua voz, ela parecia realmente estar preocupada. Resolvi seguir seu conselho e continuar seguindo o sátiro, as meninas resolveram fazer o mesmo, porém Tadashi as proibiu de realizar ligações dizendo que já nos arriscamos demais.
Antes que pudéssemos discutir algo, ouvimos um barulho vindo da floresta, nós nos olhamos e concordamos em ir. Começamos a seguir o sátiro e andamos uns trinta minutos sem parar, nesse ponto do trajeto só víamos pastos e fazendas que se tornavam assustadores durante à noite. As garotas começaram a fazer reclamações e discutir entre si, estavam ficando insuportáveis. Depois de um tempo ficaram tão assustadas com o lugar que ficaram quietas.
O sátiro olhava para os lados preocupado e procurava por algo, então disse:
— Que estranho... isso não era para estar desse jeito.
Levou um tempo para que entendêssemos do que ele falava. Notei então uma luz a cerca de trinta metros de onde estávamos, Tadashi apontou para lá e disse:
— Temos que ir para lá, rápido.
Quando estávamos indo para lá fomos surpreendidas por alguma coisa bem atrás de nós.
— Não acredito que ela voltou! — Disse Isa de boca aberta.
Era a Harpia novamente. Porque não né? Melhor noite de todas...
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