Ruína e Ascensão

4 Capítulo 4 - Antes da Tempestade


Lilith

Acordar era a pior parte do dia, principalmente quando você é acordada por batidas imparáveis na porta.

Soltei um grunhido, irritada, e me levantei da cama com a maior má vontade do mundo enquanto amaldiçoava quem quer que estivesse atrás daquela porta pela audácia de incomodar meu sono maravilhoso aquelas horas da manhã! Eu não teria dó, eu pegaria essa pessoa e transformaria em purê, não haveria pena ou misericórdia, eu iria descarregar todo o meu ódi-

"Ah, oi Alexis." senti minha raiva se esvair aos pouquinhos.

Alexis era um rolinho de canela precioso, e também a única pessoa na qual eu nunca gritaria por me acordar de manhã, principalmente porque eu sabia que acordar cedo também era um tremendo sacrifício para si.

E também porque meu mau humor matinal é algo terrível, então se você está me acordando é melhor você ter um ótimo motivo. Ou ser Alexis.

"Vejo que você estava querendo matar quem estava atrás dessa porta. Devo me preocupar?" brincou com minha notável troca de humores.

"Haha." imitei uma risada, eu não mataria Alexis mas eu ainda estava incomodada de ter sido acordada.

Andei em passos largos até minha cama e me joguei nela, abraçando minhas cobertas e esperando o que quer que Alexis quisesse me falar. "Bem?" perguntei, meio impaciente após alguns segundos de silêncio.

"Trouxe café da manhã para você e Blake. Talvez Bran se ele acordar a tempo. Está na cozinha." falou, e eu abri os olhos, olhando em sua direção, esperando algo mais. Alexis não me acordaria só para isso.

Encostado na parede, sua perna balançava levemente, um sinal de nervosismo, e parecia pensativo, olhando para o chão.

Alexis não gostava de ser pressionado, então eu apenas esperei, embora eu estivesse morrendo por dentro pra fazer exatamente isso.

"Tome cuidado hoje, ok?" suspirou. Notei seu tom preocupado, mas antes que eu pudesse perguntar algo, ele mudou de assunto. "E vê se compra comida que preste, por favor."

Controlei minha vontade enorme de insistir e perguntar o que estava incomodando, mas eu sabia que se Alexis precisasse falar, falaria quando estivesse preparado, então apenas segui.

"Você vai tão cedo para a biblioteca?"

"Sim e não." disse coçando a nuca. "Preciso passar em casa antes, mas vou logo depois."

Assenti com a cabeça, levantando da cama e me espreguiçando.

"Fique seguro, ok?" pedi. Alexis sorriu, dando três tapinhas no topo da minha cabeça.

Eu me senti um cachorro. Não nego. Quando essa pessoinha havia ficado maior que eu, para começar? Maldita puberdade. Saudades do tempo que eu era a mais alta entre nós três e podia ficar dando ordens e me sentindo a maioral — embora eu ainda seja.

"Já vou indo, e não esqueça de Blake, por favor." despediu-se, dando um pequeno aceno com a mão e saindo do quarto.

Como se fosse possível esquecê-la.

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Depois de tomar um banho refrescante e bem merecido, eu me sentia revigorada e pronta para ação!

Ou ao menos era isso que eu tentava dizer à mim mesma para me motivar… eu não achava que estava funcionando. Não mesmo. Eu estava tudo, menos preparada para começar o dia.

O que é estranho. Eu estou acostumada a ter uma rotina e saber o que esperar do meu dia, apesar das ocasionais surpresas no trabalho mas até essas surpresas eram coisas que eu esperava que acontecessem um dia. Mas isso? Isso era algo que eu nunca esperava lidar. Talvez com uma princesa, mas definitivamente não uma princesa de décadas atrás.

Suspirei, olhando para a porta em minha frente e depois para a muda de roupas em minhas mãos, que eram para Blake. Como nós iríamos sair, ela precisaria de outras roupas… apesar de que eu não era bem um ícone fashion, então minhas roupas consistiam basicamente em preto e vermelho.

Respirei fundo, e bati na porta duas vezes. "Alô?" chamei.

Imediatamente ouvi alguns barulhos de dentro do quarto que pareciam ser… de colisão? Não tive muito tempo para pensar, pois a porta foi aberta abruptamente por alguém com os cabelos bagunçados e roupas amassadas, e com uma expressão muito confusa.

"Está tudo bem?" questionei um pouco preocupada pelos barulhos, eu parecia ter acordado-a.

"Eu estou bem eu só… tropecei?"

Algo me dizia que ela não havia só tropeçado; balancei a cabeça, tentando não sorri. Estiquei a muda de roupas para ela.

"Achei que você precisaria de novas roupas para hoje. Se não for seu estilo pode escolher outras…" balbuciei, meio insegura já que meu estilo é, bem… meu. Blake definitivamente não parece ser o tipo de pessoa que só usa duas cores, como eu.

Ela pegou as roupas que eu havia oferecido com um pequeno sorriso no rosto.

"Muito obrigada, essas estão ótimas, não se preocupe." agradeceu-me. "E eu acho que gosto bastante de amarelo."

"Combina com você." fui sincera. Realmente combinava, eu conseguia visualizá-la com uma blusa amarela destacando a cor de seus olhos.

"Obrigada, os olhos ajudam." respondeu, encostada na porta, olhando para baixo.

"Sim, ajudam." concordei. Percebi que ela estava meio aérea, então resolvi emendar minha saída. "Tem café da manhã lá em baixo, desça quando estiver pronta, mas sem pressa. Quando acabarmos de comer, iremos. Tudo bem para você?" perguntei, não querendo soar como se ela fosse nossa 'prisioneira' e não tivesse opções.

"Tudo ótimo, obrigada." respondeu, com a testa levemente franzida, parecendo pensativa.

Por um momento desejei poder ler mentes, para saber o que ela estava pensando. Blake era um ponto de interrogação ambulante, e isso me intrigava. E não era só porque ela era supostamente uma princesa perdida com milhões de incógnitas mas… geralmente, eu era boa em leitura corporal, em saber o que as pessoas estavam sentindo ou até pensando, mas Blake me deixava muito nervosa, porque eu não conseguia lê-la. Eu não sabia se ela estava frustrada, com medo, feliz — nunca deixe-se enganar pelos sorrisos de alguém — ou outra coisa. Até antes dela sair do choque inicial eu… só consegui ver surpresa e um pouco de confusão. Não medo.

Bem, eu esperava que Blake não tivesse a habilidade de ler minha mente porque estranho ela ter lido esses pensamentos.

"Bem, eu vou me trocar e te vejo lá em baixo em alguns minutos." disse, sem parecer ter lido meus pensamentos, mas sim que tinha saído dos seus próprios.

Então eu, demonstrando mais uma vez a minha belíssima falta de habilidade social respondi com um estranho 'hã… ok' e saí.

Sinceramente, se Blake pudesse ler mentes, ela saberia que eu sou bem mais legal e não socialmente estranha na minha cabeça.

Dei de ombros, conformada pelo fato de ser socialmente incapaz de não ser estranha em uma conversa.

Decidi ir até o quarto de Bran, o que me custou apenas pouquíssimos passos para ficar na frente da porta. Bati algumas vezes, chamando-o, ele tinha o sono pesado e eram necessários uns três alarmes no máximo para acordá-lo, ou um balde de água — algo que eu faria com o maior prazer.

Como eu esperava, ele não respondeu. Abri a porta e olhei dentro, vendo-o jogado na cama, roncando profundamente. Dei um sorrisinho, ele não mudou nadinha desde a época que éramos crianças.

Entrei no quarto e andei até a janela, abrindo as cortinas. Hoje eu não iria incomodá-lo, uma hora ele acordaria com os raios de sol dando tapas na cara dele. Figurativamente, é claro — para minha infelicidade.

Saí do quarto logo em seguida, fechando a porta. Desci as escadas rapidamente e rumei em direção à cozinha, indo mexer nas sacolas que Alexis tinha trazido.

"Meu favorito!" exclamei, ao ver o pão de passas, pegando e cheirando-o, deixei os aromas do meu pão favorito dançarem pelas minhas narinas, canela, açúcar mascavo… ah, Alexis era mesmo um anjo enviado do céu.

Continuei olhando as sacolas, encontrando dois sanduíches, e três copos de cafés, que já se encontravam mornos.

Sentei na mesa e peguei o que havia meu nome, dei um gole para comprovar que sem dúvida era o meu favorito, café, leite, chocolate e muito creme por cima. Eu tinha um fraco por doces, não podia negar.

Sendo bem sincera, Alexis conhece mais sobre mim do que eu, sério. Eu não fui abençoada com uma memória ótima, como ele, que principalmente se importa em saber nossos gostos, sempre perguntando ou gravando quando comentamos que "tal coisa é nossa favorita", ou ao contrário. Eu tento lembrar das coisas que agradam-o também, e consigo, na maioria das vezes.

Por exemplo, seu café favorito é o mais chato e básico possível: apenas café com leite. Sua fruta favorita é morango, e, bem…

Me virei após ouvir passos atrás de mim, vendo Blake entrar pela porta da cozinha com as roupas que eu havia lhe dado: uma blusa branca com uma jaqueta jeans por cima, uma calça azul escura e um tênis preto. Ela parecia uma adolescente comum.

Sentou-se na mesa e olhou as coisas para comer, pegando um sanduíche e o café com seu nome, bebericando-o e fazendo uma careta.

Olhei para ela, e ela olhou de volta para mim.

"Não gosto de café." justificou, continuando a comer seu sanduíche.

Justo. Embora eu ache uma heresia sem tamanho.

Tomamos o café da manhã em silêncio, e embora ela tivesse dito que não gostava de café, tomou-o todo, e também tenha comeu os dois sanduíches.

Não reclamei. Não era eu que tinha passado anos sem comer.

Depois de terminamos, me levantei, jogando os copos descartáveis e as embalagens no lixo, e guardando o que sobrou da comida na sacola. Também limpei as migalhas da mesa com um pano, tudo isso enquanto sentia o olhar de Blake sobre mim.

"Você… Precisa de ajuda?" perguntou, hesitante.

"Não, eu já acabei."

Ela parecia incomodada.

"Está tudo bem?" resolvi perguntar, sentando de frente para ela, que direcionou a atenção dos seu olhos dourados pra mim.

"Eu fiz alguma coisa errada ontem?"

Fiquei surpresa por ela responder tão diretamente, geralmente eu estava acostumado aos falsos "sim, está" mesmo quando algo claramente não está.

"Não, não fez. É só que…" suspirei, balançando as mãos, vagamente. "Magia é algo delicado para o Bran, então ele se convenceu a só usá-la quando é necessário…" respondi, surpreendentemente calma até para mim. Blake parecia pensativa com a resposta.

"Você é poderosa." falou após alguns segundos.

"Sim. Alexis também. Mas não Bran. Não a maioria de nós atualmente."

"A maioria de nós?" perguntou, séria.

Eu suspirei, eu realmente não esperava estar tendo uma conversa dessa tão cedo… literalmente. Meu mau humor matinal ainda não se foi completamente.

"As coisas mudaram muito de lá pra cá. Principalmente a magia, nem todos hoje em dia têm. Para compensar temos a tecnologia, que é facilmente contornada pela magia… mas já é alguma coisa." expliquei.

Blake pareceu entender, mas se não entendeu, não disse nada.

Considerei isso como o fim da conversa e me levantei, indo em direção ao balcão da cozinha. Peguei um par de óculos escuro que estavam ali em cima e voltei para a mesa, entregando-os para Blake.

"Achei que seria bom manter um perfil discreto. Os olhos são chamativos." expliquei. "Mas não precisa usar se não quiser."

"Não, tudo bem. Eu entendo." respondeu, colocando os óculos

"Vamos então?" perguntei, indicando a porta. "Temos muitas paradas na nossa turistagem. Você vai gostar!"

Ela deu um sorriso pequeno. "Sim, vamos."

E foi assim, com esse sorriso, que tudo começou a dar errado.

Notas finais
voltei :D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.