Ruína
1 Dig up her bones, but leave the soul alone.
Notas iniciais
Ao lermos “era uma vez”, mesmo que inconscientemente, a ideia de um final feliz forma-se em nossa mente. Vemos príncipes e princesas, cavaleiros em armaduras brilhantes e vilões sendo vencidos por pessoas essencialmente boas, associamos aos tão conhecidos contos de fada. Esta história não possui um desfecho de todo agradável, as protagonistas são imperfeitas e a bruxa má não tem forma. Um conto que de “fada” não tem nada. Ele se passa em tempo e lugar sombrios, e, por isso, não alimente as esperanças de um desenrolar alegre.
Dresden, Alemanha
Entre 1944 e 1945
Memórias de Emmeline Kiefer
Emmeline observava-se no grande espelho de corpo inteiro pendurado na parede de seu quarto, trajando apenas uma camisola fina de seda. Passava as mãos delicadas pelas curvas bem distribuídas, procurando traços que parecessem diferentes, agora que completara seus dezessete anos. A luz da manhã entrando pela janela iluminava-a e ressaltava a beleza exótica com que fora agraciada; os longos cachos ruivos, olhos amendoados, a pele branca manchada por uma constelação de sardas e o rosto anguloso, ao mesmo tempo gentil e desafiador. Ela ansiava por sentir algo novo, algo que marcasse sua entrada no mundo das mulheres, porém continuava com a mesma fisionomia do dia anterior, quando ainda tinha dezesseis.
Decepcionante.
Ao despir-se para vestir o vestido branco de verão, um presente de seu avô, ignorou as cicatrizes no abdôme e na região perto dos seios, sentindo um arrepio desagradável quando esbarrou nelas. Eram lembranças desagradáveis que preferia ignorar, principalmente em seu aniversário. Com os cabelos penteados e presos em uma trança simples, os pés calçados e a habitação arrumada, desceu as escadas em espiral que uniam os dois andares da mansão Kiefer, indo em direção ao salão de jantar.
Mal podia esperar para ver os presentes que receberia dos pais, o café da manhã farto preparado pela empregada e os abraços apertados que receberia dos irmãos mais novos. Infelizmente, a Alemanha estava em guerra, e não podia se dar o luxo de ter dias felizes. Nem mesmo os Kiefer, uma família tão importante, estava à salvo desta catástrofe.
Talvez fosse porque a casa ficava nos limites de Dresden, talvez as sirenes não estivessem funcionando como deveriam, talvez fosse apenas hora de partir. Nenhum talvez, no entanto, prepara uma garota para perder a família, o dinheiro, a segurança e a sanidade. Quando os bombardeios começaram, e os jatos dos Aliados rasgaram o céu, nada poderia mudar o curso terrível do que aconteceria a seguir.
Que ironia do destino, arruinada no dia de seu nascimento. Às vezes, nos meses seguintes, Emme amaldiçoava os céus por continuar de pé, enquanto sua vida descia aos chãos. Estar morta seria um alívio em comparação aos anos que viriam. Preferia mil vezes ter ficado para trás junto de seus irmãos, permanecido parada quando o barulho dos mísseis fez o teto tremer, segurado a mão da mãe e aguardado pacientemente a subida ao paraíso. Ela, no entanto, fora tola, movida por impulsos humanos fracos, instintos sobreviventes. Correu até o porão externo, um abrigo particular da vizinhança, ignorou o mundo e fugiu pela própria vida. Salvou-se, porém perdeu a melhor parte de si no processo: sua humanidade, abandonada junto dos familiares.
Egoísta.
Um palavra que assombraria seus pensamentos pela eternidade. Obviamente, o insulto vinha acompanhado da culpa, e a dor de, após o ataque, ver a mansão aos pedaços. Fumaça subindo aos céus, a mão de uma criança, provavelmente seu irmão, pendendo por entre os destroços como um brinquedo quebrado, cacos de vidro, tecidos queimados e, ironicamente, um perfeito cálice de prata intacto descansando onde um dia houvera uma bela sacada. Era como se o objeto risse de Emmeline, ou, pior ainda, fosse um tapa na cara dizendo: “Eu sobrevivi, eles não”.
Nunca percebera como a vida é frágil, até aquele dia. Como um castelo de cartas, pode ser derrubada com um sopro.
A ruiva, sem um pingo de emoção no rosto, sem uma lágrima embaçando sua visão, firme e forte, saiu do abrigo e caminhou até o olho do furacão, tomando o cálice nas mãos, o souvenir mais mórbido de todos. Queria, não, precisava sair dali, afastar-se dos escombros, dos corpos, de tudo que um dia fora a fonte de sua felicidade. Não tinha contato com outros parentes fora da Alemanha, e os documentos validando seu direito à herança e fartas contas bancárias ardiam junto da mansão vitoriana. Emmeline estava, no sentido mais literal da palavra, sozinha no mundo, e teria que se virar dali em diante. Ela engoliu em seco e, com o objeto debaixo do braço, deu as costas à cena e começou a caminhar até o centro comercial.
Em poucos segundos, os passos calmos transformaram-se em uma corrida desesperada. Sua expressão, no entanto, permanecia fria, inabalável. As cicatrizes em baixo do vestido branco, agora acizentado, coçavam e ardiam, lembrando-a de outra coisa que lhe haviam roubado. Enquanto disparava pelas ruas semi-desertas, seu reflexo dançava nos estilhaços das vitrines despedaçadas, levando a mão até os seios. Ela parou para recuperar o fôlego, com medo de fechar os olhos e as imagens daquela noite voltarem para assombrá-la. Os homens fedendo a álcool encurralando-a em um beco escuro, suas mãos apertando seu corpo e as unhas rasgando sua pele. Dizia a si mesma de que era tudo culpa dessa guerra estúpida, que destruiu o espíritos de tantas boas pessoas.
A verdade, dura demais para ser dita em voz alta, era um pouco pior. Homens são nojentos e perigosos. Ponto final.
Observou o caos que agora era a cidade, enquanto andava sem rumo. Passou por um grupo de jovens soldados, que assobiaram e despiram-na com seus olhos sedentos. Emme mal tinha notado o enorme rombo nas costas e os botões abertos, talvez por ter esbarrado em alguma coisa, e apenas ignorou os comentários indecentes dos rapazes. Ela parou para observar o reflexo nas janelas milagrosamente intactas de uma padaria, e viu o corpo invejável. Sentia-se suja.
— E aí, doçura, precisa de ajuda? — Um deles, general, segundo as medalhas enfeitando sua farda, aproximou-se com um sorriso carregado de malícia, já colocando uma mão no ombro de Kiefer.
Emmeline analisou-o por um momento, até sua barriga roncar. Não tido a chance de tomar café da manhã, uma preocupação banal em comparação ao que tinha acontecido, porém tudo em que conseguia pensar. O que saiu de sua boca depois disso foi movido pela mistura da fome, choque e medo, reprimidos em seu interior.
— Se você me comprar algo para comer, talvez eu possa te ajudar — O sorriso do homem se alargou, e ele enlaçou um braço no dela, puxando-a para perto.
Em um lapso de compreensão, soube qual seria seu ganha-pão. Vender aquilo que tornara-a uma mulher única: cabelos ruivos, curvas, sardas.
Era uma nova e vazia Emmeline Kiefer, para o bem ou para mal.
Quatro meses depois;
A ruiva fechou a porta atrás de si em silêncio, tentando não chamar a atenção do patrão, enquanto enfiava algumas notas no sutiã gasto. O cliente da vez era outro soldado, visto que a cidade estava cheia deles desde o bombardeio, todos loucos por contato humano, por qualquer que seja. Ela saiu do prédio baixo e mal acabado em que geralmente trabalhava, olhando para ambos os lados à procura de alguém que pudesse tê-la visto. Seu ofício, além de não ser dos mais respeitáveis, não era exatamente legal.
Com o pagamento da noite em segurança, ajeitou a bolsa estilo carteiro com seus poucos pertences pessoais e saiu em disparada. O sol mal dava as caras no horizonte, e Emmeline estava à todo vapor. Andando com segurança por entre o labirinto que era a periferia de Dresden, mantinha a cabeça baixa e os olhos verdes no chão. Aprendera a agir como se aquilo fosse um jogo, e o objetivo fosse ser invisível.
Após segundos angustiantes em que teve de passar por uma patrulha policial, finalmente avistou o sobrado modesto em que vivia com Sophie e as algumas outras garotas. Jogou parte do dinheiro em um cofre na mesa da cozinha, onde o patrão mandava-as pagar sua parte do lucro, e despencou no sofá gasto e empoeirado da pequena sala de estar. Imediatamente, passos se fizeram ouvir pelo corredor, indicando que sua entrada na casa acordara uma das companheiras.
Sophie saiu de um dos quartos ainda vestida e maquiada, os cabelos negros bagunçados e feições cansadas. Emme acenou com a cabeça chamando sua única amiga para sentar-se ao seu lado. Era desconcertante o quanto as duas tinham mudado desde que se conheceram, há cerca de três meses. A morena já não era a garotinha ingênua que chorava em um travessa no meio da noite, magra como uma vareta e sem vontade de viver, desesperada para ser salva. E a ruiva já não era sua salvadora, aquela que lhe alimentara e botara um teto sobre sua cabeça, arrastando-a, mesmo que inconscientemente, para seu mundo de abusos e prazeres. Tinham evoluído de modo assustador.
Kiefer estava preocupada com ela. Sophie estava perdendo sua bondade aos poucos, afundando cada vez mais em um caminho escuro e sem volta. Já não se importava com sua segurança, bem-estar ou ambições. Estava se tornando algo horrível. Estava se tornando Emmeline.
— Você precisa sair daqui — Emme sussurrou, os lábios mal se movendo. Caso alguém escutasse aquela conversa, ambas teriam grandes problemas. Não tinha coragem de olhar a amiga nos olhos, de ver a confusão e a descrença estampadas em seu rosto. Ao invés disso, continuou falando, com medo de que, se parasse, nunca mais seria capaz de continuar — Sophie, você não está perdida que nem eu, ainda pode mudar. Por favor não discuta comigo, me ouça e me obedeça. Já te salvei uma vez e posso fazê-lo novamente.
Pela primeira vez desde que os pais morreram, sentia vontade de chorar.
— Que diabos quer dizer com isso… — A ruiva silenciou-a com o olhar cheio de emoção, algo raro para ela. Com certa dificuldade, tateou o chão embaixo do sofá, procurando o volume familiar que era seu cálice de prata, a única lembrança de um mundo feliz. Puxou-o para fora e enfiou-o na mão de Sophie, com força para que não pudesse recusar o presente. Dentro do objeto estavam várias notas amassadas em volumes mínimos, todas as poupanças de Emmeline.
Aquela ação por si só dizia mais que mil palavras. Era um adeus, uma chance de recomeçar. Qualquer um em sã consciência aceitaria. Emme não queria ser culpada por destruir uma alma pura como a da amiga, não poderia viver em paz se a deixasse continuar trabalhando naquele ramo. A guerra já tinha acabado com muitos inocentes, não deixaria a prostituição fazer o mesmo.
— Vá. Aproveite que ele não está aqui, e não olhe para trás. Você merece mais do que eu.
Sabia que seria punida quando notassem a ausência, Sophie não passaria despercebida, mas alguns sacrifícios valiam à pena. Ela valia à pena.
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