Ruthven

3 Amanhecer


Rubens sentia-se estranho, for de órbita, algo estava errado, muito errado, ele esbarrou em algumas pessoas antes notar que Braut o olhava de longe. O quê? O homem sorriu, mas tinha algo diferente naquele sorriso. E Rubens levou alguns segundos para perceber o que era.

Presas.

O homem tinha presas, como os vampiros dos filmes que Rubens cresceu assistindo ainda na casa dos seus pais.

Mas que porra é essa?

O jovem Rubens respirou fundo e levou a mão até o pescoço onde sentiu uma dorzinha, tateou a pele macia e sentiu um líquido quente, levou os dedos até onde pudesse enxergar, e por mais que a visão estivesse embaçada conseguiu notar o líquido vermelho e brilhoso, não tinha dúvida, era sangue.

Caralho, inferno... caralho, o que esse homem fez comigo? Lucas? Onde está Lucas? Eu preciso achar o Lucas... Rubens saiu procurando o homem, mas notou que Braut caminhava lentamente em sua direção, então mudando sua intenção de última hora preferiu sair da festa.

Caminhou devagar pra fora da festa, o corpo parecia cada vez mais cansado, será que fui drenado? Oh meu Deus, que caralho. Rubens saiu e logo sentiu a brisa da rua tocar seu rosto, ainda podia ouvir a música da balada, mas bem mais baixa. Olhou para algumas pessoas na rua, sentiu que alguém passou a mão em sua bunda, mas não tinha certeza. Ele precisava procurar um táxi, então se afastou da casa de show, indo para uma rua estranha e vazia logo atrás da boate. Rubens caminhou sem presa, devagar, seu corpo ficava mais lento a cada segundo que passava. Foi então que sentiu que estava sendo seguido.

Olhou assustado para onde tinha vindo.

— Quem está aí? — Ele gritou apavorado. Ficou encarando a rua vazia e escura. — Apareça!

Rubens soltou um grito quando viu um gato amarelo pular de trás de uns sacos pretos de lixo.

O coração acelerou, mas ele não sentiu que seu corpo estava agindo da forma que deveria agir, o coração estava lento.

Preciso chegar em casa...

Virou-se para voltar a caminhar, e foi então que sentiu alguém segurar em seu pescoço.

Rubens tentou gritar, e quando percebeu que era Braut esse desejo ficou ainda maior. Quem era aquele cara? Ou melhor, o que era aquele cara? Ele decidiu que não queria saber, pouco importava que tipo de aberração era aquela, ele só precisava se afastar o mais rápido possível dali.

Respirou fundo tentando encontrar fôlego para gritar, talvez alguém ali perto poderia ouvir, com certeza haveriam garotas e garotas de programa por ali, eles não perderiam a oportunidade de trabalhar tão próximo de uma boate de luxo.

— Você não iria embora sem me dar um beijo, certo? — Braut perguntou sacana, o semblante bizarro e assustador que um psicopata provavelmente teria antes de matar alguém.

Rubens se remexeu no aperto de Braut, mas não havia nada que pudesse fazer, estava tão fraco e sem ar que resolveu se entregar.

— Ótimo... bom garoto. — Braut disse baixo e guiou a boca para a de Rubens, mordeu rapidamente e sorriu.

Rubens fechou os olhos e os dois se beijaram, mas não por muito tempo, levou menos de um minuto para que numa velocidade incrível Braut tivesse quebrado o pescoço do jovem Rubens.

***

Era dia ou noite?

Ele já não sabia, parecia fazer tanto tempo que estava ali. Haviam passado minutos ou horas, talvez meses e anos.

O dia estava amanhecendo ou anoitecendo?

Com certeza amanhecendo.

Era um lindo amanhecer..., mas algo estava diferente, algo estava estranho, seu corpo estava sofrendo de agonia, gritos horríveis estavam ecoando, os outros também podiam ouvir ou tudo aquilo estava acontecendo dentro de sua cabeça?

E que dor era aquela? Ele estava queimando ou estava congelando? Era sede ou fome? Socorro.

Não tinha mais controle sobre seu corpo.

Respirou fundo e aguardou.

— Fala papai! — Disse um homem barbudo sorridente.

— Não! Vai, diz mamãe, filho. — Falou uma mulher sorridente.

— Papa...

Quis gritar, quis morrer, implorou para morrer, clamou aos céus que acabassem com aquele tormento, que lhe dessem paz.

— Eu te amo, Marcus.

— Eu não sou bichinha... — risadas fartas. — Vou contar pro seu pai, seu viadinho.

Risadas.

— Eu não quero um filho invertido, suma da minha frente antes....

Dor.

Gritos.

Choro e mais choro.

Era o misto de emoção que o estava levando a loucura, a agonia apertava seu peito e fazia seu coração lento acelerar, a dor em seus ossos lhe matava, mas sem necessariamente matar, o prazer culpado... o ódio que semeava, e amor, o amor que já não sabia mais sentir, mas que sabia que ainda sentia.

Então tudo parou.

Então tudo acabou, assim, exatamente do nada como começou.

***

Rubens acordou e estava tudo escuro, que horas era e onde ele estava? E principalmente, que cheiro estranho era aquele? Evitou se mexer, não sabia se deveria fazer isso, mas num impulso de medo e pavor se sentou.

Piscou os olhos algumas vezes, mais rápido do que já tinha feito antes, e foi quando notou estar dentro de um caixão.

É o quê?

— Mas que bizarrice é essa? — Ele perguntou sozinho, levantou do caixão e pisou no chão, o chão que deveria estar gelado, parecia diferente, tinha uma textura diferente, e Rubens precisava saber onde estava. O Jovem rapaz caminhou em direção à janela e abriu a tranca, não fez força nenhuma, mas a tranca quebrou facilmente, ele sentiu-se diferente, estranho, mais forte. Então puxou a janela, abriu de uma vez e se assustou, estava dia, mas o que mais o chocou e assustou foi que os raios do sol queimaram sua pele de uma forma horrível. Rubens gritou e fechou a janela rapidamente com uma batida só, correu para longe da janela como nunca tinha feito antes.

Estava tão veloz.

Estava tão diferente.

O que é que tinham feito com ele?

Rubens ouviu alguém batendo palmas e virou-se rapidamente, a visão que teve lhe deixou nauseado.

— Não te aconselho a fazer isso de novo, o sol pode te matar da próxima vez, recém-criado. — Braut disse sorrindo de forma debochada, exibindo as presas que Rubens tinha visto outro dia na balada.

Ele tinha mesmo ido à balada? E quando isso tinha acontecido? Ele não conseguia lembrar, parecia fazer tanto tempo, mas ao mesmo tempo parecia ter sido ontem. Por que não conseguia se lembrar?

— Mas o quê? Que merda é essa? E o que você fez comigo? — Perguntou Rubens, e então notou que estava nervoso, mas que não sentia seu coração batendo. Mas que merda é essa?

— Não importa, não importa...

— É claro que importa. — Rubens disse irritado e bateu a mão em uma mesa que se espatifou de forma praticamente mágica, aquilo era impossível.

Mas que esquentadinho você, — disse Braut sorrindo. — Nós temos muito tempo para conversar sobre isso. — O homem com rabo de cavalo deu as costas ao rapaz, e então parou. — A propósito, seja bem-vindo a eternidade, Ruthven Von Korinth, o oitavo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.