Ruptura
13 Quando você descobre um novo mundo
Notas iniciais
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Helena e Ariadne foram levadas para uma praia, com um céu tão azul e uma areia tão limpa que até parecia irreal. Não haviam pessoas em volta, o que era bom, considerando que elas literalmente surgiram do nada ali. Seria algo difícil de explicar.
Ariadne nunca havia estado em uma praia, apesar de já ter ouvido várias vezes sobre como era um lugar encantador, e Helena esteve ocupada demais enfrentando um cenário de guerra para aproveitar qualquer coisa. Então para as duas estava sendo uma experiência nova e divertida.
— Que bonito. — Ariadne estava hipnotizada pelas ondas se movimentando e pelo cheiro de maresia.
— Eu acho que não estamos vestidas para um lugar assim — Helena disse, olhando para o vestido elegante que Ariadne usava e depois para as próprias roupas, uma saia preta até os joelhos acompanhada de uma blusa branca de mangas longas, as meias escuras junto com o calçado de salto baixo e, para completar, um casaco pesado sobre os ombros, o que havia pegado na cabana. Definitivamente, nada apropriado para uma praia.
— Hm? Ouviu isso? — disse Ariadne olhando para os lados. — Parece que há pessoas por perto.
Andando mais um pouco pela praia, descobriram que estavam próximas do que parecia ser uma pequena cidade, com prédios e carros andando pelas ruas.
— Oh! — exclamou Helena. — Espere aqui, eu já volto. — E saiu correndo antes que Ariadne pudesse dizer algo, deixando ela sozinha.
Dando de ombros, apenas fez o que ela pediu. Se abaixou próxima ao mar, apenas para vê-lo mais de perto, pensando que deveria aproveitar aquele momento único. Seus sapatos estavam cheios de areia, a barra das vestes, agora sujas, estavam sendo molhadas pela água que ia e vinha, mas pela primeira vez Ariadne não se importou com nada daquilo, seja com a aparência ou com o tecido caro que vestia. Apenas estendeu a mão para tocar a água, parecendo uma criança descobrindo o mundo.
— Voltei! — Ariadne se levantou quando ouviu Helena, que estava com um monte de roupas em mãos.
— O que é isso?
— Roupas! Peguei para nós — explicou Helena, entregando as peças para a garota. — Eu estava em dúvida sobre que número você vestia, mas acredito que somos do mesmo tamanho, certo? — De repente fez uma cara pensativa. — Talvez você seja um pouco mais magra.
Ariadne franziu as sobrancelhas.
— Como você pagou por tudo isso?
— Quem disse que eu paguei? — Helena falava com naturalidade.
Ariadne decidiu que era melhor não fazer mais perguntas. Encontraram um canto onde poderiam se trocar sem serem vistas, Helena se vestiu rapidamente, mas Ariadne parecia confusa. No castelo, não eram nem ela mesma que se vestia, com roupas tão diferentes das que era acostumada, apenas complicava sua situação. Então Helena teve que ajudá-la a se vestir.
Quando Ariadne estava colocando a camisa branca, Helena de repente puxou ela, olhando para algo nas suas costas.
— Ai! — Ariadne parecia um gato assustado.
— Eu não acredito! Você tem a mesma pinta nas costas que eu tenho! — Helena exclamou enquanto segurava os ombros da outra garota. — Como isso é possível? É exatamente igual.
— Nós somos iguais, lembra? — Ariadne terminou de se vestir ao se soltar do aperto repentino. — Acho que temos mais em comum do que apenas o rosto.
Elas andaram pela cidade passando despercebidas por todos, felizmente. Ariadne parecia encantada com tantas coisas diferentes, desde os carros e prédios altos até as pessoas que passavam por elas. Tudo era novo e bonito.
— Essas pessoas vivem tão tranquilamente nesse lugar bonito? Parece incrível — disse ela.
— É, alguns tem mais sorte que outros — comentou Helena. Não que ela se ressentisse por ter nascido em um mundo tão ruim, mas era verdade que sentia uma certa inveja daquelas pessoas, felizes e despreocupadas, como se a vida fosse apenas passear na praia e sair com os amigos.
— O que é aquilo? — Ariadne apontou para uma sorveteria, que exibia um balcão com variados sabores e cores.
— Sorvete. É um tipo de comida fria e doce. — Helena adivinhou que onde Ariadne vivia não devia existir algo como sorvete, então a ofereceu: — Você quer um?
Acabaram por se sentar à mesa do lado de fora do estabelecimento, tendo uma boa vista da praia bonita. Ariadne estava bem feliz experimentando um sorvete de morango, com roupas comuns daquele mundo, quase parecia ter nascido ali.
Mas Helena cutucava o sorvete de baunilha parecendo repentinamente chateada, era bem perceptível.
— O que há? — indagou Ariadne. — Não está bom?
— Não é isso. É que esse lugar me traz uma sensação estranha — disse. — Não parece feliz demais?
— Qual o problema com a felicidade? — perguntou confusa. — Não entendo o que quer dizer.
Helena suspirou. Talvez fosse apenas paranoia sua, talvez tivesse passado tanto tempo com o pensamento de que as coisas tinham uma tendência a piorar que aquilo estava mexendo com ela.
— Helena — chamou Ariadne de repente. — Eu estava pensando, se nós duas somos como a mesma pessoa de lugares diferentes, isso não significa que existem outras como nós?
Helena anuiu, pensando que aquilo com certeza fazia sentido.
— Então, será que poderemos encontrar outra de nós em um desses vários lugares? — Ariadne concluiu a linha de raciocínio.
— Acho que se tivermos sorte, sim — respondeu Helena. — Ou talvez não existam tantas versões nossas. Algumas podem até já ter morrido. — Deu de ombros.
— Ah.
Quando terminaram o sorvete, Ariadne perguntou como iriam pagar por ele, ao que Helena respondeu para apenas saírem andando como se estivesse tudo bem. Surpreendentemente, funcionou, já que o dono da sorveteria e nem as pessoas ali pareceram ter notado que algo aconteceu.
— Talvez eles não esperem que alguém roube sorvete — comentou Helena em tom de riso.
Andaram por algumas quadras, procurando qualquer coisa interessante para fazer enquanto o tempo delas ali não acabava. Helena havia explicado para Ariadne que o teleporte para outros mundos como um temporizador que mudava a cada vez, mas ela não fazia ideia de quanto tempo restava até ele estar perto de acabar.
Era uma cidade bonita com várias coisas interessantes, mas depois de um tempo acabava ficando chato e estranho, até mesmo Ariadne estava com aquela sensação.
— Parece que não há nada mais nesse lugar — disse Ariadne sentada em um banco com Helena. — Será que já podemos ir embora?
— Ainda não. Tenho a impressão de que vai demorar.
Enquanto estavam sentadas, sentindo a brisa leve no rosto, Helena de repente franziu as sobrancelhas e apontou:
— Aquilo é uma tempestade vindo? — Estranhou, afinal até então o céu estava limpo, mas agora podia ver claramente nuvens carregadas chegando.
— Acho que sim. — Ariadne tombou a cabeça para o lado, tão confusa quanto.
De repente, as pessoas pareceram agitadas, algumas fechando as portas de seus estabelecimentos, outros correndo para casa, espiando o que acontecia apenas pelas janelas entreabertas. Helena e Ariadne se entreolharam, ponderando se deveriam seguir elas.
— Garotas, vocês não deveriam estar aqui. — As duas se viraram para trás ao mesmo tempo, se deparando com uma senhora de cabelos brancos que andava com uma bengala. — Venham, venham comigo.
Eram duas opções, ou ficavam na tempestade que estava por vir e parecia aterrorizar a todos, ou iam com a senhora que nem conheciam, mas parecia disposta a ajudar. Bem, elas a seguiram até uma pequena casa, que passava despercebida no meio daqueles edifícios exuberantes.
A senhora fechou a porta, se certificando três vezes de que a trancou bem. Helena e Ariadne estavam tensas, sem saber muito bem o que fazer enquanto paradas na sala. Ao contrário do resto da cidade, aquela casa não parecia bonita ou luxuosa, apenas simples e aconchegante.
— Vocês podem ficar aqui até que passe. Se quiserem posso fazer algo para comerem — a senhora disse gentil.
— Pode nos explicar o que está acontecendo lá fora? — Helena apontou para a janela de cortinas fechadas.
A senhora as olhou estranho.
— De onde vocês são? Certamente de muito longe.
— Bem longe — Ariadne murmurou, sentando-se no sofá de dois lugares.
— É o ritual mensal. Ele é feito para trazer boa sorte à cidade — explicou simplista, arrumando uma mesa com doces e salgados, parecia até que mais pessoas iriam comer ali.
— Por isso as pessoas pareciam tão aterrorizadas? — disse Helena perspicaz.
A senhora torceu as mãos em nervosismo.
— Por não serem daqui, talvez achem isso um pouco chocante. Para ser sincera, nem eu mesma entendo… — Balançou a cabeça em negativo.
Ariadne e Helena sentiram que aquilo era algo a se preocupar e o olhar daquela senhora denunciava isso.
— O que quer dizer? — Helena se inclinou mais para frente, interessada no que viria a seguir.
— Bem… — Ela parecia cada vez mais nervosa. — Venham, sentem, sentem. — Puxou uma das cadeiras à mesa. — Comam alguma coisa primeiro, esse não é um assunto confortável para falar assim, sem mais nem menos.
Helena olhou para Ariadne, as duas se questionando se deveriam confiar no que aquela mulher dizia. No fim, com um dar de ombros, apenas aceitaram, sentando-se à mesa e provando das deliciosas guloseimas feitas pela senhora.
— O que é o ritual mensal? — perguntou Ariadne que comia com a delicadeza e elegância de uma verdadeira princesa.
— Ele ocorre todo mês, é um costume não apenas da nossa cidade, mas do mundo inteiro. — Fez uma pausa. — Quer dizer, até pouco tempo atrás não era, mas isso foi antes.
— Antes? — Helena a fitou curiosa, a boca com alguns farelos da torta salgada que comia.
— Antes deles descerem à terra. Uma divindade tão suprema e inimaginável, capaz de aterrorizar e ao mesmo tempo admirar os seres humanos.
As duas tomaram faces hesitantes, incertas sobre o que aquilo queria dizer.
— Quando eles chegaram, nosso mundo estava em caos e guerra para todo lado — continuou a senhora. — As pessoas estavam desesperadas, sem ver um fim para esses tempos terríveis. Então eles vieram para nos fazer uma proposta, nos prometeram fazer do nosso mundo o mais feliz de todos, não aconteceriam mais guerras, as pessoas parariam de brigar. Mortes violentas seriam reduzidas à zero, todos viveriam seu dia a dia com um sorriso no rosto. Era perfeito demais para nós.
— Mas eles pediram algo em troca — adivinhou Ariadne, se servindo de mais um biscoito. Ela sabia bem como funcionavam essas negociações, quanto mais alto o valor da recompensa, maior era o sacríficio.
— Sim. — A senhora tinha uma expressão penosa, quase que culpada. — Para manter essa paz na vida de todos, precisaríamos realizar um ritual a cada mês, escolhendo dez pessoas para serem levadas pela divindade.
A mão de Helena que segurava um bolinho parou a pouco centímetros da boca, em choque. Ela havia até mesmo se identificado com a história, afinal o seu mundo também estava em caos e a humanidade prestes a se extinguir no meio de tantas guerras, ela conseguia compreender bem o sentimento de desespero. Mas quando ouviu a última parte, ela apenas sentiu algo dentro de si subir até a garganta e voltar na mesma hora.
— Você quer dizer como um… sacrifício? — murmurou, largando a comida de volta no seu prato, sem conseguir ingerir mais nada.
— Eu sei, parece absurdo — disse a senhora. — Mas toda vez que a tempestade chega no horizonte, é um aviso de que precisamos oferecer alguém para eles, ou então nossa cidade vai ser arrasada pela destruição novamente.
Helena se levantou bruscamente, andando até a janela e puxando a cortina um pouco mais para o lado, tendo uma boa visão do que acontecia lá fora. Exatamente dez pessoas, em duas fileiras de cinco, andavam pela rua na direção da praia, as mãos e pés presos por correntes pesadas que eram puxadas por dois cavalos sem cavaleiro que andavam na frente, arrastando aquelas pessoas.
Algumas pareciam determinadas, outras desesperadas. Não havia distinção entre homens ou mulheres, jovens ou idosos, era apenas uma escolha aleatória, sem importar se era de sua vontade ou não.
— Alguns aceitam de bom grado participar do ritual mensal, afinal é para um bem maior, mas outros simplesmente não entendem… — falava a senhora.
— Que bem maior é esse que mata pessoas para fazer outros felizes? — murmurou Helena com raiva.
Ariadne se aproximou do seu lado para também observar a cena. Ela franziu o cenho, pensando em algumas coisas.
— Isso não faz sentido, por que precisariam de dez pessoas para serem sacrificadas? — perguntou.
— A divindade disse que as almas dessas pessoas alimentaria seu poder, tornando possível para que continuasse a estabelecer a paz — disse a senhora.
Helena apenas sentia a revolta dentro de si vendo aquelas pessoas arrastando os pés pela rua, como se fossem animais prestes a serem abatidos. Olhando melhor, podia ver os olhos atentos escondidos em suas casas e estabelecimentos, esperando o sacríficio acabar para poderem sair e voltar à normalidade.
“Isso não está certo”, pensou.
Na mesma hora, a luz se apagou de repente. E não apenas a luz da casa, mas toda a cidade foi afundada na escuridão, nem mesmo o sol a iluminava mais.
Sem enxergar nem mesmo a um palmo de distância, Helena ofegou assustada, tateando ao redor até encontrar o que imaginava ser o braço de Ariadne, que parecia tão agitada quanto ela.
Alguns segundos se passaram, ouvindo apenas o som das ondas do mar que vinham do lado de fora, até que um estrondo alto, como um trovão a poucos metros delas, se fez presente. E então a luz voltou.
— O que foi isso?! — exclamou Helena.
— Olhe você mesma. — A senhora apontou para a janela.
Helena abriu uma fresta da cortina mais uma vez e, quando olhou para a rua, não havia mais ninguém lá. As correntes estavam jogadas no chão e os cavalos estavam parados no lugar, mas as pessoas sumiram. Todas as dez desapareceram sem deixar rastros.
— Elas foram levadas — disse. — Como…?
— Helena. — Ariadne a segurou de repente com o olhar alarmado. — Eu acho que sei o que aconteceu.
— Quê…?
— A escuridão, essa sensação fria… Eu já vi isso antes. — Ela estava eufórica. — Helena, a divindade que veio para esse mundo é a mesma sombra que invadiu meu castelo. Eu tenho certeza, são a mesma coisa.
— O quê? Tem certeza?
— Sim, sim, tenho! — Ariadne segurou as mãos dela agitada. — Escute, se aquela sombra chegou até aqui, talvez isso signifique que ela também esteja abrindo portas para novos lugares, assim como nós!
Helena prendeu a respiração sem perceber, pensando que talvez aquilo fizesse sentido mesmo. Ainda tinha muitas dúvidas, mas se a teoria de Ariadne estivesse certa, então era um grande problema a se preocupar.
— Temos que ir embora! — disse Helena já com a mão na maçaneta, mas ela apenas girou e a porta não abriu. — Senhora, onde está a chave? — Virou para trás, vendo a mulher sentada na mesa coberta de comida, tirando os pratos sujos naturalmente, como se não ouvisse o pedido. — Senhora?
— Vocês parecem ser meninas muito doces, de verdade — dizia a mulher. — Me sinto culpada por isso, mas não tive escolha.
Ariadne e Helena recuaram até encostar na porta. Tentaram abri-la mais uma vez, até mesmo tentando forçá-la, mas não conseguiam.
— Do que está falando? — perguntou Helena, seus olhos varrendo todo o cômodo em busca da chave.
— Não foi algo que eu queria fazer, de verdade. Mas o aviso foi claro. — Até poderiam se comover com o olhar de arrependimento sincero no rosto da senhora, mas as duas estavam ocupadas demais tentando achar um meio de sair. — Ele disse que se as encontrássemos, era para as segurarmos aqui, não importa por quais meios.
Sem pensar duas vezes, Ariadne abriu o saco que Helena carregava, tirando de lá a espada de punho de ouro manchada com sangue. Apontou para a senhora, o olhar determinado e a postura firme. Mas a mulher não parecia nem mesmo surpresa.
— Ah, criança, já não adianta mais lutar. — Balançou a cabeça em negativo.
Helena arregalou os olhos.
— A comida — murmurou. — A comida estava… — Mal teve tempo de completar a frase quando uma tontura forte a atingiu, levando-a ao chão. Depois disso Helena não viu mais nada, nem se Ariadne sofreu o mesmo efeito que ela, apenas apagou.
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