Ruptura
15 Quando você se aventura pelo desconhecido
Notas iniciais
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Harian tinha muito do que se queixar, seu passado conturbado e frio, o mal que havia assombrado seu mundo, até mesmo as várias pessoas que lhe passaram a perna quando mais precisava delas. Mas ela não reclamava, em nenhum momento, achava que fazer isso seria chato demais. Apenas ficava quieta e batia de frente com tudo que viesse contra ela.
Porém, naquele momento, ela sentiu vontade de xingar todos os céus possíveis. Aquilo já estava passando dos limites.
Depois de ter deixado Alexia na floresta vermelha para procurar por Anna, a garota que havia gritado por socorro, ela não conseguiu mais voltar para o universo onde estava Alexia, indo parar em uma cidade sombria onde foram perseguidas pelas bruxas. Harian pensou que seria mais seguro se deixasse Anna escondida, então foi sozinha atrás das bruxas, porém no meio da batalha ocorreu um acidente e ela se transportou para outro universo.
Não fazia ideia de onde estava, parecia uma caverna ampla e escura, onde ela só ouvia o barulho de água pingando e alguns morcegos que passavam por ali.
— Mas que merda, hein. — Harian não era de praguejar, mas aquele momento pedia.
Ela desembainhou a espada, deixando que o brilho dela iluminasse o local. Não era muito, mas já ajudava para não tropeçar em nada.
Decidiu explorar o local, tentar encontrar uma saída. Mais uma vez ela não conseguia usar as passagens para outros universos, como se estivessem bloqueadas. Ou talvez o problema fosse ela, não sabia direito.
Na sua caminhada encontrou vários escritos nas paredes, indicando que aquele lugar é ou já foi habitado. Seu palpite é que eram um povo consideravelmente avançado, considerando que pareciam textos bem-feitos e até complexos, porém deveriam ser muito antigos pelo que via nos entalhes na pedra.
Até encontrou alguns desenhos, mas eram tão feios que Harian não fazia ideia do que significavam. Apenas ignorou e seguiu seu caminho.
Levou um susto quando esbarrou em algo. Iluminando melhor percebeu que era um corpo jogado no chão, vestindo uma armadura completa e com armas ao seu lado. Levantando o capacete com a ponta da espada, Harian viu nada mais do que um esqueleto embaixo da roupa.
Quanto mais se aprofundava naquela caverna escura, mais corpos como aquele ela encontrava, alguns armados e protegidos, outros tão comuns que dava pena. Alguns ainda eram cadáveres apodrecendo, mas outros já deviam estar ali há tanto tempo que só sobraram os ossos. Harian percebeu que aquilo era como um tipo de aviso, um alerta do que estava por vir.
Com esse pensamento em mente, ela se manteve atenta a qualquer perigo.
De repente o chão tremeu. Harian se encostou na parede para não cair, vendo a poeira cair do teto com o balançar brusco.
“Um terremoto?”, pensou, no entanto não tinha tanta certeza. Por um momento achou que fosse morrer soterrada, mas aquelas paredes e teto da caverna deveriam ser muito fortes, porque mesmo com o tremor súbito continuaram firmes.
Harian não queria ficar ali por mais tempo, mesmo que tudo não tivesse desabado, não queria contar só com aquela sorte por mais tempo. Porém, sem conseguir se transportar para outro universo e sem encontrar uma única saída, ela se viu obrigada a continuar aquele caminho.
Sendo assim ela caminhou, caminhou e caminhou. Conforme ia, percebeu que o número de corpos aumentava, o que significava que estava perto de algo. Também notou que naquela caverna começaram a surgir pequenos brilhos nas paredes. Aproximando-se mais notou serem algo como pedras preciosas, provavelmente eram de muito valor.
“Será que é isso que todas essas pessoas vieram buscar?”, pensou no mais plausível.
No seu mundo conheceu muitos como aqueles, que arriscariam suas próprias vidas por um pouco de riqueza. Nesse quesito, achava que todos os universos tinham algo em comum.
Em um dado ponto, Harian sentiu o ar ficar mais quente e sua visão se clarear mais. Ainda estava escuro, claro, mas parecia ter uma fraca fonte de luz mais a frente.
Harian parou de andar. Havia chegado no limite, o túnel estreita se abriu, revelando uma caverna maior ainda. Estava na beira de um precipício, abaixo havia apenas um abismo profundo, do qual era incapaz de ver onde acabava.
Olhando para os lados viu que o chão onde pisava se estendia por mais alguns metros acima do abismo, mas tinha dúvidas se valia a pena seguir por ali. Então ergueu a cabeça, tentando enxergar algo útil. A princípio pensou que era mais um caminho sem fim, porém com um pouco mais de atenção percebeu que não. Aquela era a saída.
— Certo, Harian — disse para si mesma. — Você só precisa subir, não vai ser tão difícil, certo? — Colocou o cerébro para funcionar, primeiro pensou em escalar, mas as paredes de pedra pareciam lisas demais, além de ser arriscado demais cair sem nada para a segurar.
“Será que não existe um caminho que me leve para cima?”, pensou.
Enquanto pensava, aquele forte tremor retornou. Harian teria caído se não tivesse se segurado nas rochas. O terremoto parecia especificamente mais forte ali.
Harian estreitou os olhos quando algo se mexeu na escuridão do abismo. Como algo grande, se movimentando hostilmente logo abaixo de si.
Sua respiração parou por um momento.
Uma forma assustadora subia, fazendo a terra tremer ainda mais apenas com um movimento. Ele subiu até ficar frente a frente com Harian, a encarando com olhos ameaçadores, como se desprezasse aquela pequena forma de vida na sua frente.
Harian encarou a criatura de corpo coberto por escamas que variavam entre o cinza e o verde, a cabeça dez vezes maior que ela mantendo-se numa altura que pudesse a encarar fixamente, com dentes afiados que poderiam a dilacerar em pouco tempo. Dois chifres grandes cresciam sobre sua cabeça, liderando uma fileira de outros pequenos chifres que provavelmente se estendiam por todo o corpo. Suas duas narinas respiravam pesadamente sobre Harian, liberando um ar quente.
Ele se apoiava com as garras das patas firmemente presas na parede abaixo de onde a garota estava, as duas asas negras e enormes abertas em uma pose ameaçadora, como se desafiasse a humana a enfrentá-lo.
Seus olhos, grandes e negros com a pupila de um réptil, expressavam a arrogância que devia provir de centenas de anos de vida ou seja lá há quanto tempo a criatura estivesse vivendo naquela caverna. Se ele pudesse falar, proovavelmente riria da insignificância da pessoa na sua frente.
Harian tomou o ar para seus pulmões em um suspiro pesado. Firmando a expressão e a postura, ela desembainhou a espada e a levantou, se colocando em posição de ataque.
A fera estava bem ali, bloqueando a sua saída daquele lugar, se era preciso lutar contra ela para chegar até lá, era o que faria. Ninguém iria a impedir.
Ela avançou. Com um impulso, saltou para a cabeça da criatura, que abriu a boca de dentes afiados para abocanha-la. Em um movimento ágil, Harian empurrou seu pé contra o nariz dele, dando um impulso para fazer uma estrela sem as mãos, e fincou a espada no topo da sua cabeça. Mas a pele escamosa deveria ser mais grossa do que imaginava, já que ele não pareceu nem sentir o golpe, ao invés disso parecia tratar Harian como uma mera mosca irritante.
Ele moveu a cabeça para tentar tirá-la de lá, enquanto Harian só podia segurar firmemente com as duas mãos a espada cravada e apoiar os pés contra o pescoço dele.
Ela olhou para o teto que se abria para a noite estrelada, pensando que poderia usar a criatura para subir até lá e sair. Precisava de um plano.
— Vá, criatura estúpida, voe! — gritou Harian, dando um chute no pescoço dele. Mas aquilo só pareceu ter o deixado mais irritado, ele soltou um rugido alto, mexendo a cabeça com mais força e a inclinando para trás.
Harian olhou para trás, para a escuridão do abismo sem fim, e se segurou com mais firmeza na espada, pensando que realmente não queria cair lá.
— Certo — resmungou. — Parece que estamos com um problema de comunicação.
Ela escalou aquela pele escamosa, colocando-se de pé, apoiada na espada e no próprio bicho. Inclinou-se para entrar no campo de visão dele. Harian achou engraçado como seus olhos ficaram vesgos para ver a humana acima de si, mas ao mesmo tempo estavam furiosos.
— Eu preciso que você vá para cima, por favor! — Apontou para o alto, porém algo lhe dizia que a criatura não entendia uma palavra do que dizia.
Ele abriu a boca, soltando um som gutural. Harian sentiu o ar ficar ainda mais quente e, quando viu a luz subindo pela garganta do bicho, subitamente saltou para trás, em um puxão arrancou a espada do topo da cabeça dele e se agarrou em um dos espinhos nas suas costas.
A criatura inclinou a cabeça, soltando para cima uma rajada de fogo que bateu nas pedras. Harian, com a testa suando, ficou aliviada por não ter sido ela a ser carbonizada.
Aquilo seria mais difícil do que pensava.
De repente o bicho começou a se mover, escalando as paredes de pedras usando de suas garras longas e afiadas. Ele inclinou o pescoço para trás, tentando achar a intrusa, porém Harian percebeu que seu corpo não era tão maleável assim, então ele não conseguia alcançá-la.
Mantendo-se escondida do olhar ameaçador, Harian usou dos espinhos nas suas costas para escalar a criatura e voltar para o topo da cabeça. Ele continuava tentando achá-la, mexendo-se como um louco para tirar aquele pequeno incômodo de cima de si.
Harian se pôs de pé novamente, incapaz de desistir, balançou os braços para que prestasse atenção nela.
— Ei, eu preciso que me faça um favor! — gritou. — O que eu tenho que fazer para que me ajude?
A besta não parecia escutar ela, porém seus olhos estavam presos em algo. Harian seguiu o seu olhar, percebendo que encarava fixamente sua espada, como se algo ali o chamasse a atenção.
Viu naquilo uma oportunidade.
— Você acha isso interessante? — Balançou a espada mais algumas vezes, percebendo a criatura seguir o movimento. — Então… pegue! — Usando de toda sua força, Harian fez um movimento rápido e jogou a espada para o alto. Jogou com tanta força que ela disparou como um raio brilhante para cima, atravessando a saída da caverna.
Harian se segurou em um dos chifres afiados ao seu lado. A criatura se mexeu, fazendo a terra tremer novamente. Suas asas se abriram, enormes e imponentes, e se movimentaram, os dois primeiros bateres desengonçados, como se há muito tempo não o fizessem. Então tomou impulso para subir, agitando o ar com tanta força que Harian teria sido lançada dali se não estivesse se segurando.
“Se essa caverna não desabou antes, agora com certeza vai”, pensou ela.
A criatura avançou para fora, seguindo o brilho hipnotizante da espada. Harian sentiu quando o ar frio da noite atingiu seu rosto, que foi iluminado pela lua que pairava no céu juntamente com as estrelas.
Ele se aproximava cada vez mais da espada, que continuava a subir, até que em um único movimento sua boca cheia de dentes a abocanhou.
O rosto de Harian ficou pálido quando percebeu que estavam descendo novamente.
— Não, não! — gritou. A criatura embicou para baixo, numa velocidade ainda maior.
Sem sua espada para lhe auxiliar e sem conseguir lutar mais contra as correntes de vento que ficavam mais fortes, em um dado momento Harian acabou se soltando.
Ficou apenas no ar, caindo. Tentou achar algo ao redor em que pudesse segurar, mas não havia nada, o grande bicho já havia disparado para longe dela e as paredes de pedra estavam fora de seu alcance. Não pode fazer nada enquanto caía na direção do abismo infinito.
Exceto por um desejo.
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