Ruptura
16 Quando se desprende de uma ilusão
Notas iniciais
Camile e Leonor voltaram para a estranha pedra que encontraram no caminho, mas o máximo que podiam fazer era encarar ela fixamente por muito tempo até chegar à mesma conclusão: nada.
— Que inútil. — Leonor bufou. — Não adianta ficar aqui, não vamos desvendar o que está escrito só olhando.
— Tem razão — concordou Camile. — Então… E agora? Voltamos para a caverna?
— Nem pensar, não quero voltar para aquele lugar. — Leonor sentia calafrios só de lembrar da caverna escura, e, em sua opinião, talvez não encontrassem pessoas metade animais que fossem tão legais quanto os que as ajudaram.
— Então estamos mesmo em um caminho sem saída. — Camile suspirou, encostando as costas contra uma árvore. — Eu queria pelo menos ter encontrado Dungo.
— Quem?
— Meu cachorro.
Leonor franziu as sobrancelhas para ela, mas não questionou. Havia concluído que Camile era estranha assim mesmo.
— O quê? — Camile notou o olhar. — Vai me dizer que você nunca sentiu saudades de um animal de estimação?
— Animal de quê? — Leonor estava agachada no chão, cavando mais um pouco ao redor da pedra para tentar encontrar algo novo. A esse ponto suas mãos já estavam sujas e as barras de suas roupas também.
— De estimação. Sabe, quando você adota um cachorrinho ou um gato para cuidar dele em troca da sua companhia — explicou. — Espera, você não sabe o que é um animal de estimação?
— Não temos isso de onde eu vim — disse simplista.
— Ah. Puxa, que solitário.
Leonor parou o que estava fazendo para encarar Camile, inclinando a cabeça levemente para o lado.
— Como é no lugar onde você mora? — perguntou.
— Não tem muita coisa, só eu, meu pai e a nossa fazenda. E o Dungo, claro — complementou.
— Só? — Leonor franziu a testa. — Quer dizer, literalmente só isso?
— É. — Camile parou para pensar um pouco. — A gente também tem alguns porcos e galinhas na fazenda, mas eles não duram muito tempo.
— E você ainda disse que eu sou solitária — murmurou. — E a sua mãe? O que aconteceu com ela?
— Não tenho mãe. — Deu de ombros.
Leonor foi surpreendida mais uma vez.
— Como? Todo mundo tem uma mãe.
— Acho que sou uma exceção — disse Camile sem dar muita importância ao assunto, o contrário de Leonor que estava tão intrigada que insistiria até não poder mais.
— Isso é impossível, se for assim então como você nasceu? — Em resposta, Camile fez um gesto de que não sabia. — Espera, você sabe como as pessoas nascem, certo? — Leonor a olhou duvidosa.
— É claro que eu sei! — A garota bufou. — A questão não é essa. Eu não tenho uma mãe, talvez eu não tenha nascido como as outras pessoas.
É claro que Leonor voltaria a insistir naquele assunto mais tarde, ainda não estava satisfeita com a resposta que recebeu.
— Então isso quer dizer que você nunca conheceu outra pessoa além de seu pai antes de nos conhecermos? — perguntou quando percebeu aquilo.
— Acho que sim. — Camile pensou um pouco. — É, é isso mesmo, nunca conheci ninguém.
— Como…? — Leonor deixou a pergunta no ar, mas a outra entendeu.
— Meu pai me deu vários livros que explicam como a sociedade e as pessoas num geral funcionam. Foi ele quem me ensinou a ler e a escrever — explicou. — É claro que a maioria era de ficção, mas ainda assim…
Aquilo apenas não entrava na cabeça de Leonor, ela não conseguia compreender como alguém poderia viver a vida toda assim, afastado do mundo. Porém, quando lembrava de como haviam a caçado sob a acusação de estar envolvida com as sombras, ela pensava que seria melhor se todas aquelas pessoas não existissem e pudesse viver apenas com sua família.
— Bem, acho que vamos precisar procurar respostas em outro lugar. Aqui não vamos encontrar nada — disse Leonor se levantando, finalmente cansando de verificar aquela pedra estranha de novo e de novo.
— Talvez se dermos uma volta por aí eu tropece em outra pedra — sugeriu Camile, ao que a outra garota ficou em dúvida se ela estava só brincando ou falando sério mesmo.
Porém não pode perguntar antes que um barulho chamasse sua atenção:
— Psst.
Leonor virou a cabeça para trás imediatamente, com uma expressão confusa.
—Hã? O que foi isso?
Encarou as árvores altas, tentando achar o que fez barulho entre elas, porém não encontrou nada além das folhas balançando naturalmente. Pensou que talvez estivesse enlouquecendo.
— Aconteceu algo? — perguntou Camile totalmente alheia.
— Achei ter ouvido algo, mas não era nada. Deixe para lá. — Voltou-se para a garota. — Vamos andar, mesmo que essa floresta não tenha animais não me sinto confortável parada aqui.
Andaram alguns passos à frente, prestando atenção no seu caminho para não perder qualquer coisa suspeita ou estranha que aparecesse. Pensavam que talvez pudessem achar resquícios daquele povo antigo que lhe dessem respostas.
— Psst.
Leonor virou a cabeça bruscamente para trás, a tempo de ver algo desaparecer entre as folhagens. Dessa vez tinha certeza, havia alguém ou alguma coisa seguindo elas.
— Quem está aí?! — Avançou irritada na direção onde viu o movimento. — Apareça!
Mas parecia que estava falando com as árvores, afinal não recebeu nenhuma resposta.
— Não tem nada aí. — Camile olhou preocupada para ela.
— Eu vi alguém se mexendo aqui — disse Leonor olhando por todo o lugar. — Tenho certeza. Se você quer alguma coisa, apenas fale logo! — gritou para quem quer que fosse ouvir.
Uma voz, baixa e discreta, se fez presente do lado esquerdo de Leonor, dizendo:
— Sinto muito por isso. Mas sou tímido demais com pessoas novas. — A voz, que parecia ser masculina, falava de um jeito estranhamente arrastado, além de parecer que a pessoa tinha a língua presa.
— Quem é você? — perguntou Leonor.
— Apenas um ninguém. Por que estão aqui? — Apesar de ouvirem claramente a voz da pessoa, as duas não podiam ver ele.
— Nos perdemos — disse Camile, se aproximando com cuidado. — Você sabe algo sobre essa floresta?
— Ah, sei sim, sei bastante. — Ouviram folhas farfalhando, como se a pessoa estivesse em movimento. — É uma floresta muito sombria, de fato.
— Percebemos. — Leonor estava desconfortável. — Nós gostaríamos de encontrar algumas respostas. Nos deparamos com as pessoas que moram naquele subterrâneo e elas nos explicaram um pouco sobre a história desse lugar, mas é insuficiente.
— Ah, vocês já conheceram as cavernas. — A maneira que ele falava era um pouco engraçada, porém naquela situação, onde não conseguiam enxergar a origem da voz, acabava por se tornar apenas estranho. — Eu também vivi naquele lugar por muito tempo, mas é frio demais para mim. Eu gosto de ficar aqui na superfície, no sol quentinho.
— Aham, imagino. — Leonor apenas concordou, incerta do que dizer. — E você sabe algo sobre as inscrições naquela pedra? — Apontou para o objeto há alguns metros de distância.
— Hm… — A voz hesitou. — Talvez eu saiba algo de útil. Enquanto eu estive aqui na superfície pude notar algumas coisas.
— Você pode nos contar?
— Não sei. — Assumiu uma postura defensiva. — Como vou saber que isso não é uma armadilha?
— Armadilha? — Leonor ficou imediatamente frustrada, não estava com paciência para desconfianças sem sentido. — Que tipo de armadilha?
— E se vocês forem apenas uma obra da Sombra tentando me mandar de volta para as cavernas? Não quero voltar para um lugar tão frio.
Leonor olhou para Camile, que, tão confusa quanto ela, apenas deu de ombros.
— A Sombra? Você quer dizer, aquela mesma da história? A que incitou todos a comerem animais? — perguntou Leonor.
— Na verdade primeiro eles bebiam o sangue e depois os devoravam crus — ele corrigiu.
— Bem, não estamos sendo controladas pela Sombra ou algo do tipo, só queremos entender melhor essa história e achar a saída desse lugar — disse Leonor.
A voz ficou quieta por alguns instantes, como se analisasse se estavam sendo sinceras ou não, mas por fim decidiu falar:
— Dificilmente encontrarão uma saída daqui, uma vez que entram na Floresta das Remintas, é difícil sair. Porém, acho que posso fazer algo por vocês. — De repente alguém surgiu do lado de Leonor, que levou um susto. Era uma figura masculina de baixa estatura, ou era o que sua postura encolhida fazia parecer, com uma pele escamosa verde e olhos saltados que se moviam independentes um ao outro. — Depois de passar um tempo vagando sozinho por essa floresta, é possível notar que esse lugar conta muitas inverdades. Venham comigo.
Leonor primeiro olhou para Camile, perguntando silenciosamente se deveriam segui-lo, mas a garota já estava confiantemente andando atrás do estranho rapaz. Sem muita escolha, Leonor foi junto.
Mesmo que para as duas a floresta parecesse apenas infinita e as árvores todas iguais, ele parecia saber bem por onde ia, sem titubear nem mesmo uma vez se deveria ir para a direita ou esquerda. Leonor se perguntou como ele poderia conhecer tão bem o lugar e mesmo assim não ter encontrado uma saída durante todo esse tempo.
— Eu preciso perguntar — ele disse enquanto andava. — Há quanto tempo estão aqui?
— Acho que mais de um dia? — respondeu Camile, um pouco incerta já que anteriormente havia desmaiado e não sabia bem quanto tempo havia passado enquanto isso.
— Então vocês passaram uma noite aqui?
— É, isso mesmo — disse Leonor. — Por que precisa saber?
Mas ele não deu atenção à pergunta, murmurando consigo mesmo:
— Se foi apenas uma noite, ainda dá para reverter em pouco tempo…
Sentiram vontade de perguntar sobre o que estava falando, mas na mesma hora chegaram ao seu destino.
O rapaz estranho parou na frente de uma caverna, que diferente da outra ficava na superfície e era aberta na frente e atrás, com apenas uma cobertura e duas paredes de pedra.
— É aqui que eu durmo. Terão que passar a noite aqui se quiserem ver. — Ele rapidamente sentou no chão, recostando-se contra a parede da caverna.
— Ver o que exatamente? — perguntou Leonor. — Por que temos que ficar aqui?
— Precisam de paciência. Tudo vai se explicar — ele apenas disse.
Leonor não gostava muito da ideia de ficar parada com um desconhecido aguardando por algo que nem sabia o que era, mas quando olhava para o garoto encolhido e de fala estranha, ela não via como ele podia ser uma ameaça. Então, seguida de Camile, ela apenas sentou no chão sujo daquela caverna.
— Se todas as pessoas que vivem aqui são metade humano e metade animal, que tipo de animal você é? — perguntou Camile, sendo cutucada por Leonor que murmurou que ela estava sendo indiscreta.
— Não sei. — Ele olhou para as próprias mãos escamosas com unhas amareladas. — Que tipo de animal eu pareço ser?
— Um camaleão — respondeu Leonor. — Foi assim que você se escondeu tão bem na floresta, não é? Você se camuflou mudando de cor.
O rapaz apenas virou a cabeça para o lado, os olhos fitando Leonor e Camile separadamente. Leonor levou esse gesto como uma concordância.
— O que é um camaleão? — perguntou Camile para a garota ao seu lado.
— São répteis — respondeu brevemente. — Não importa agora. Por quanto tempo temos que esperar?
— Já está anoitecendo. Agora não vai demorar muito — ele disse.
— Podemos pelo menos comer um pouco mais daquelas frutinhas? Estou com fome — reclamou Camile.
— Não, com certeza não. Vocês não deveriam comer mais essas frutinhas — alertou.
— Por que não? — Leonor franziu a testa.
— Vocês vão saber. Olhem, — apontou para fora da caverna — o sol está se pondo.
A medida que o sol ia embora, as inúmeras estrelas e a escuridão azulada substituíam sua luz alaranjada. Observaram estupefatas o céu cósmico reaparecer.
Então, em poucos minutos, começou a chover, como da outra vez sem nuvens.
— Realmente são as árvores fazendo chover — murmurou Camile.
— Nós já vimos isso, o que tem de novo aqui? — perguntou Leonor, virando para o rapaz camaleão.
— Olhem melhor, não acham que tem algo de diferente da noite passada?
Leonor estreitou os olhos para a floresta, tentando enxergar o que havia de tão surpreendente. Mas era frustrante, parecia que estava perdendo tempo ali.
— Nada. Só está chovendo! É só uma floresta estúpida que chove… — De repente a compreensão a atingiu. — Ah.
— O quê? — perguntou Camile. — O que aconteceu?
— A floresta… está parada.
Claramente na noite anterior Leonor estava correndo de árvores que se mexiam e a perseguiam, tinha certeza disso, porém agora elas apenas agiam como árvores comuns, paradas no seu devido lugar. Exceto pelo fato de que elas choviam, se comportavam como deveriam.
— Será que elas ainda estão… dormindo? — sugeriu Camile, tão confusa quanto a garota. — Talvez elas só não queiram andar.
— Não, não, elas são… — seu tom de voz diminuía enquanto falava — …comuns.
— Você entende agora? — disse o rapaz atrás delas. — Não há nada de estranho com as árvores e nem com essas pessoas.
Camile e Leonor viraram ao mesmo tempo para trás, vendo o garoto que continuava ali, sentado no mesmo lugar, porém as escamas haviam desaparecido, juntamente com os olhos bizarros e as unhas amareladas. Era apenas uma pessoa comum, com traços comuns, com a aparência suja de alguém que estava vivendo naquela floresta há muito tempo.
— O quê…? — Leonor ficou mais confusa. — Como…?
— Eu disse que essa floresta era cheia de inverdades.
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