Running with the Wolves
16 Melhores Amigos
Notas iniciais

Liam Dunbar estava parado no corredor, os olhos fixos em um armário especifico que, em uma cidade normal, estaria cheio de homenagens naquela altura, mas ali era Beacon Hills, era como se as pessoas nem se importassem mais com mortes.
A notícia do incidente com Greenberg tinha se espalhado depressa, mas era como se não houvesse acontecido, a escola prosseguia em sua rotina, Liam nem sabia ao certo quando todos tinham parado de se importar com as mortes, quando tinham ficado tão anestesiados pela tragédia constante que abatia a cidade?
Em qualquer outro lugar a população estaria chocada com a morte de um adolescente, ainda mais um que tinha perecido nas mãos de um policial, durante uma suposta invasão a casa de uma colega. Mas as coisas não eram assim em Beacon Hills. Ninguém se perguntava por que um policial tinha matado um menino, na verdade, o que Liam ouvia pelos corredores da escola eram apenas cochichos sobre "será que ele era uma daquelas aberrações também?". O anuk-ite tinha sido derrotado, mas o medo e preconceito do sobrenatural ainda estava ali, de um jeito ou de outro.
A grande maioria sabia sobre os lobisomens e todo o resto de criaturas, mas eles ainda fingiam que não tinha acontecido, fingiam que a vida era normal e que não tinham se unido em uma caçada contra os próprios amigos.
E mesmo assim não havia homenagens no armário de Greenberg, porque, por mais que as pessoas fingissem que a cidade era normal, elas estavam cansadas demais de parar suas vidas cada vez que um adolescente morria em Beacon Hills...
A morte tinha virado uma normalidade ali.
Mas Liam não queria que fosse assim. Ele não queria que as pessoas deixassem de se importar, que pensassem que as mortes eram inevitáveis.
Caminhou até o armário de Greenberg e procurou um canetão na bolsa, rabiscando na porta de metal:
"Sentiremos sua falta, Greenberg"
— Hey, Dunbar! — Ouviu o Treinador Finstock chamar sua atenção. — Desde quando deu pra pichar armários! Se você for pra detenção não vai poder jogar e você sabe que...
O homem ainda está andando com passo duros até Liam, quando sua fala ficou presa em sua garganta.
Olhou a frase no armário e comprimiu os lábios em um sorriso triste. Sempre pegava no pé do garoto Greenberg, mas gostava dele.
Bateu no ombro de Liam em aprovação pelo gesto, e os dois ficaram ali por um segundo, encarando a porta de alumínio.
— Não deixe a diretora Martin saber que foi você... — Aconselhou apenas, tirando o próprio apito do pescoço e o pendurando na porta, também em forma de homenagem.
Liam sorriu compassivo e assentiu uma vez, vendo o treinador se afastar em seguida rumo a própria sala.
Foi nesse instante que seu aparelho celular vibrou no bolso.
"Estamos aqui em casa, você vem?"
Era uma mensagem de Scott McCall, haviam conversado algumas horas antes e o alfa dissera que já estava na cidade com Malia e Stiles, e que se reuniriam em breve.
"Estou a caminho"
Respondeu, caminhando para o vestiário masculino, afim de guardar seu bastão de lacrosse e seguir para a casa do amigo.
Seria uma reunião pequena, apenas com os mais próximos a Scott, para que os três recém-chegados ficassem a par de todos os detalhes. Somente depois fariam algo geral e conheceriam Crystal.
Liam entrou no vestiário e de imediato ouviu o chuveiro, sentindo o perfume de sabonete misturado a um cheiro que conhecia muito bem: Theo.
Seu coração disparou imediatamente e suas mãos começaram a suar sem motivo algum. Era como se Liam estivesse pregado ao chão, o incidente em seu banheiro e o beijo que trocara com Theo voltaram-lhe a mente.
Liam sabia que tinha que sair dali, estava tentando se manter longe de Theo e dos sentimentos conflitantes que ele trazia, era algo complicado demais para lidar naquele momento, por isso estava tentando seguir a vida como se nada tivesse acontecido.
Mas era difícil, principalmente porque, quanto mais tentava ficar indiferente a Theo Reaken, mais o garoto quimera parecia decidido a atiça-lo.
Guardar o bastão e dar o fora. Ele nem vai perceber que eu estou aqui.
Liam praticamente correu até o armário, colocando suas coisas ali de qualquer jeito, evitando a todo o custo olhar na direção dos chuveiros.
Estava tão concentrado em resistir a "Theotação" que sequer notou que o chuveiro já estava desligado. Por isso, quando deu um passo em direção a saída e Theo surgiu na sua frente, com nada mais que uma toalha enrolada na cintura, Liam foi pego totalmente de surpresa.
— E aí? — Theo cumprimentou normalmente, parando no caminho de Liam.
— Hey... — O mais novo acenou sem graça. — Eu não sabia que você estava aqui.
Não precisa perguntar o motivo, afinal não era atípico que Theo tomasse banho na escola fora dos horários de aula, era algo rotineiro já que ele morava na própria caminhonete.
— Mas estou. — Theo deu de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Eu... — Liam gaguejou e limpou a garganta. — Eu vim só... guardar essas coisas. — Olhou de um lado para o outro, de repente estava muito quente ali.
Theo não cedeu passagem, pelo contrário, se colocou ainda mais na frente de Liam, mais perto, os braços cruzados sobre o peito desnudo, evidenciando ainda mais seus músculos.
Liam tentou pensar em qualquer outra coisa. Sua mão estava suando frio e seu coração poderia fazer inveja a qualquer solo de bateria, de tão forte que batia.
— Scott já chegou com o pessoal e... Eu tenho que... tenho que ir — gaguejou e xingou a si mesmo por isso, geralmente tinha uma resposta mal-educada na ponta da língua quando se tratava de Theo, mas depois daquele beijo...
Era quase revoltante que Theo parecesse tão senhor de si, tão natural e nada afetado. Liam começou a se irritar de verdade.
— Pode ir, ué... — Theo deu de ombros, mas não saiu do lugar, havia um sorriso superior em seu rosto, um sorriso cretino que o deixava ainda mais irresistível.
— Você precisa me deixar passar. — Liam cruzou os braços também e encarou o outro de queixo erguido.
O simples ato de sair do vestiário havia se tornado uma competição, assim como qualquer coisa quando se tratava daqueles dois.
— Não estou impedindo. — Theo ergueu uma sobrancelha, era um desafio.
Liam se deixou levar pela raiva e quando viu já tinha jogado o corpo do mais alto contra o armário, o problema é que isso também os deixou bem mais perto.
Foi inevitável, Liam olhou para a boca de Theo e se lembrou do beijo, isso o fez perder o foco.
Theo sorriu, desde que Crystal tinha dado aquele conselho, ele conseguia se manter no controle por mais tempo, sabia que afetava Liam e por isso se sentia tão confiante.
— Vai me socar ou me beijar? — Perguntou irônico.
Liam rosnou. Empurrou Theo com as duas mãos, fazendo as costas dele baterem contra os armários de metal e deu alguns passos para trás.
— Idiota! — Xingou, saindo do vestiário o mais rápido que podia, para não ceder a nenhum desejo insano que tinha nascido em sua mente.
Theo riu alto o bastante para que fosse ouvido, era certo que estava com a vantagem...
Quanto tempo mais Liam seria capaz de resistir?
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Crystal Green andava de um lado para outro da sala, com o celular na mão. Sua impaciência e ansiedade tinham tudo a ver com a demora de Theo.
Havia mandado diversas mensagens para o amigo, a última delas declarava "uma emergência", por isso, quando ouviu a caminhonete estacionar na frente da sua casa, logo estava com a porta escancarada.
— Graças a Deus! — Exclamou, vendo o rapaz caminhar em sua direção.
— Qual é a emergência? Alguém morreu? — Ele questionou quase despreocupado. Sabia que não era nada de mais, porém, a lembrança do incidente com Greenberg o fez dirigir um pouco mais rápido até ali, depois de seu encontro com Liam no vestiário.
— Você não vinha nunca, tive que apelar para a sua compaixão! — Crystal soou ainda mais urgente e Theo negou algumas vezes, enquanto revirava os olhos.
— Achei que estava com o Derek... — Ele apontou, seguindo com a jovem para dentro de casa.
— Ele me beijou! Quer dizer eu o beijei. Nós nos beijamos e... — Ela se embolou nas palavras, tentando contar tudo de uma vez.
— Por que você acha que eu quero saber disso? — Theo cruzou os braços, entediado, e se jogou no sofá.
Crystal assumiu uma postura contrariada.
— Porque você é o meu melhor amigo, eu ouço seus dramas e você ouve os meus, é assim que funciona. — Ela também se jogou no sofá.
— Eu não tenho dramas. — Theo se defendeu, querendo desconversar.
— E o Liam é o que então? — Crystal retrucou toda superior.
— Ele é uma complicação momentânea com a qual eu já estou lidando. — O garoto não se deu por vencido.
— Vocês se resolveram? Se beijaram? Disse pra ele como se sente? — A empolgação de Crystal com aquele assunto nunca deixava de surpreender Theo, era até engraçado em partes.
— Você fez todas essas coisas aí com o idiota do Derek? — Ele devolveu em um tom entediado.
Não queria falar sobre Liam, mesmo que sentisse que tinha uma certa vantagem, Theo no fundo sabia que não era vitória alguma.
— Ele não é idiota... — Crystal defendeu Derek Hale, dando um pulo do sofá e seguindo para a cozinha.
Já tinha se habituado ao apetite de Theo, por isso, assim que o convidou, tratou de preparar alguns quitutes.
— E sim, a gente se beijou! — Ela completou em seguida, no limite de toda sua empolgação.
Voltou para a sala com a bandeja e o refrigerante e os colocou na mesinha de centro.
— Sua lista tem três itens... — Theo acusou, se servindo sem qualquer cerimônia.
— Vou trabalhar nos outros em breve. — Crystal garantiu, se sentando novamente e se servindo também. — Eu disse que queria ir mais devagar e as coisas ficaram meio... estranhas. Depois ele teve que sair por causa do tal Scott.
Theo a encarou desconfiado e Crystal bebeu um gole de refrigerante, como se estivesse disfarçando.
— Você praticamente baba pelo cara e agora diz que quer ir devagar, qual a lógica disso? — Ele estreitou os olhos. Algo ali não se encaixava.
— Tem que ser especial... — A jovem tentou desconversar, soando um tanto sem jeito. — Eu não quero falar sobre isso.
Considerando que Crystal sempre queria falar sobre tudo, Theo ficou curioso. Ele tinha um palpite sobre o que aquilo significava, mas queria ter certeza.
— O que aconteceu com aquela coisa de melhores amigos e blá blá blá? — Fez um gesto banal com a mão, parecendo desinteressado.
— Não vai rir? — Crystal questionou se ajeitando no sofá.
— Se for engraçado, eu vou sim. — Theo garantiu e ela revirou os olhos.
— Eu nunca fiz... isso — revelou finalmente, suas bochechas ficando coradas e suas pernas se mexendo impacientes.
Theo ficou sério, não respondeu de imediato.
— Você não riu? — Crystal estreitou os olhos e ele deu de ombros. — Espera... Você também nunca fez!
Ela estava genuinamente surpresa com aquela informação.
— Achei que não queria falar sobre isso... — Theo desconversou, colocando uma grande quantidade de salgadinho na boca.
— Isso é uma surpresa, porque olha só pra você... — Crystal apontou para o garoto de cima a baixo.
Ela sempre pensou em Theo como o pegador, quer dizer, ele tinha essa aparência...
— Eu não tive muito tempo pra essas coisas. — Ele deu de ombros, não se sentia confortável em falar sobre aquele assunto.
Afinal, como explicaria que tinha passado a adolescência inteira treinando para algo no qual ele falhou? Não havia tempo para namoro e esse tipo de coisa quando estava com os Doutores do Medo, na verdade, a primeira vez que tivera uma amizade verdadeira era aquela.
Crystal não fez outras perguntas, ela sabia sobre a coisa de ter sido criado por cientistas, mas não foi por isso, no fundo ela entendia que cada um tinha seu próprio tempo e tudo bem.
— Então, de virgem pra virgem, como acha que vai ser? — Ela comentou divertida, se servindo de alguns salgadinhos.
— Sei lá... — Theo deu de ombros.
Seu foco de vida era outro, então nunca pensou muito naquilo. Sexo era uma coisa que aconteceria uma hora ou outra, mas então veio Liam e as coisas ficaram muito confusas. De repente Theo não sabia mais de nada, não tinha um objetivo claro, era como se sua vida estivesse sem rumo.
Será que era assim para todos os jovens?
— Ei, quer me ajudar com uma coisa? — Crystal soou repentinamente empolgada, como se tivesse acabado de ter uma ideia.
— Eca! Não! — Theo retrucou de imediato. Sabia que a garota não estava se referindo ao assunto anterior, mas não quis perder a oportunidade.
— Eu não estou falando disso, idiota! — Ela jogou uma almofada nele enquanto se colocava de pé e ambos riram juntos.
Crystal subiu as escadas correndo e desceu momentos depois com o que pareciam algumas agendas ou livros nas mãos.
— Eu encontrei os diários da minha mãe, estava pensando em darmos uma olhava pra ver se descobrimos algo sobre bruxas e essas coisas... — Colocou tudo no chão perto do sofá.
— Finalmente algo útil! — Theo exclamou, pegando um dos exemplares imediatamente.
Odiava sentir que ultimamente sua vida girava apenas em torno de Liam. Aquela competição/flerte entre os dois era interessante e divertida, mas Theo não queria pensar muito nisso, então ocupar a mente com outra coisa era a melhor alternativa.
— Acha que é invasão de privacidade? — Crystal questionou, com um dos diários no colo, ainda sem abri-lo.
— Acha que ela teria deixado isso por aqui, se não quisesse que você encontrasse? — Theo respondeu neutro, foleando as páginas.
Eram vários diários, de modo que não sabiam bem por onde começar, nem onde encontrariam o que queriam. Na verdade, eles sequer sabiam se encontrariam alguma coisa útil.
Conforme Crystal virava as páginas era como se não reconhecesse a mulher nelas. Rosalyn River era forte, corajosa e bastante teimosa, tinha problemas na escola e dificuldades para se encaixar. Ela tinha sido criada conhecendo o sobrenatural e não via muita utilidade em "coisas de humanos", ela sabia que era uma Delta desde sempre...
Tão diferente de Eliza Green, que era doce, carinhosa, amava a casa e as coisas do dia a dia. Crystal sentia que eram mulheres diferentes.
Enquanto passava pelos relatos percebeu que Rosalyn era muito próxima de Talia Hale, até que, em uma das passagens ela finalmente se deu conta do que estava ali o tempo todo.
— Minha mãe era apaixonada pela mãe do Derek! — Ela exclamou em voz alta e Theo ergueu os olhos sem muito interesse.
— Pelo jeito o mau gosto é de família. — Ele debochou e Crystal revirou os olhos, preferindo ignorar a brincadeira.
— Era algo meio proibido... Talia tinha obrigações com a alcateia — explicou neutra.
O relacionamento da mãe com o pai fez ainda menos sentido para Crystal. Onde Bart se encaixava em tudo aquilo?
Mesmo com a surpresa e com todas as descobertas, Crystal ainda se sentia como uma mera expectadora, não tinha encontrado nada de útil no diário, até que leu um trecho que lhe alarmou no mesmo momento.
— Theo! Olha isso! — Estendeu o diário para que o amigo lesse a parte apontada.
"Eu queria que não houvesse alcateia, ou essa coisa de alfa... Talvez as coisas fossem diferentes se ela não tivesse um legado para dar continuidade.
Mas então, eu penso se os meus sentimentos e os dela ainda seriam os mesmos...
Quem nós duas seriamos sem a ligação?
Tudo isso é porque somos Rosalyn e Talia ou é porque somos Alfa e Delta?"
— Ela achava que os sentimentos dela vinham da ligação... e o Derek disse que quando eu me conectar ao Scott eu posso desenvolver um vínculo emocional com ele... — Crystal expôs seus pensamentos e Theo entendeu de imediato.
Se Rosalyn e Talia eram apaixonadas por causa da ligação alfa e delta, isso também faria com que Scott e Crystal se apaixonassem...
— Xiii... A Malia não vai gostar disso. — Ele tentou descontrair com uma brincadeira, mas Crystal não demonstrou nenhum humor.
Ela estava preocupada.
— Eu também não gosto disso — afirmou séria.
Podia ser apenas um exagero, mas Crystal sentia algo ruim quando pensava naquela ideia. Era como se ela estivesse traindo alguém...
Continuou lendo o diário, mas a mente não focava realmente, tinha que reler páginas inteiras quando percebia que seu pensamento havia voado longe.
Será que Derek sabia de tudo aquilo?
Theo por sua vez, se sentia um tanto entediado, o diário de Rosalyn Riven que tinha em mãos era uma obra pragmática. Contava o começo da adolescência da mãe de Crystal, antes da ligação. Ela era treinada para ser uma delta, antes mesmo de despertar os poderes.
Esperava por algo grande acontecer, treinando e se preparando, mas enquanto isso toda a vida passava por seus olhos. Em diversas passagens, Rosalyn deixava de ir a festas, desprezava amigos humanos, faltava na escola. Tudo isso em prol de algo que ela podia nunca alcançar, porque não haviam garantias de que ela teria os genes de uma Delta. As vezes esse tipo de coisa pulava gerações, e Rosalyn sabia disso, porque era algo mencionado no diário várias vezes.
Theo se identificou com ela, mas de um jeito negativo, afinal toda aquela história de ser um alfa e ter uma alcateia também não tinha sido desperdiçar a vida em busca de um ideal inalcançável?
Pelo menos Rosalyn realmente se tornou uma Delta e fez algo relevante na vida...
Ainda estava com esse pensamento em mente, quando algo um tanto interessante passou por seus olhos.
— Olha só isso, parece que sua mãe tinha uma arma mágica... — comentou, chamando a atenção de Crystal.
— Magica? — Ela se empolgou imediatamente, esquecendo de todo o resto.
Pelo menos uma notícia boa no meio de toda aquela bagunça... Mágica sempre vale a pena!
— Ela relata que está treinando com isso. — Theo apontou o trecho do diário.
"Ganhei meu bullwhip hoje, não era como eu esperava, me parece uma pulseira comum, mas minha mãe disse que um bullwhip é uma ferramenta que pressente o perigo, e age quase como uma extensão do meu corpo, está na minha família há anos e nunca falhou. Ninguém sabe ao certo como surgiu.
Papai diz que é uma arma mágica, mas eu não acredito em mágica, deve ter uma explicação mais logica que isso..."
Ao ler a pequena passagem no diário, Crystal não pôde deixar de notar algo importante: Rosalyn sempre tivera os pais ao lado para orientá-la...
— E aí? — Theo perguntou em expectativa.
— Acho que minha mãe deixou esse tal de bullwhip pra mim... — Crystal ergueu os olhos na direção do garoto e abriu um sorriso enorme.
Correu novamente até o quarto e encontrou a pulseira dentro do baú. Quando voltou novamente para a sala, explicou para Theo sobre o incidente com Greenberg, e como a pulseira havia brilhado naquela ocasião.
Crystal tinha certeza absoluta que a mãe havia lhe deixado a pulseira porque era o bullwhip, por isso, ela e Theo deixaram os diários de lado e começaram a tentar fazer a simples corrente se transformar em uma "arma mágica".
A jovem tentou de tudo: chicotadas, palavras magicas, colocou a pulseira no chão, girou a peça no ar, usou como um colar, tentou usar como um chicote de novo e de novo... Absolutamente nada aconteceu.
A única coisa que Crystal conseguiu foi quebrar um dos copos, quando bateu a corrente nele sem querer e o vidro se espatifou no chão, espalhando refrigerante para todo o lado.
— Não funciona! — Ela resmungou fazendo um bico enorme, uma pirraça digna de uma criança de sete anos. — Será que está com defeito?
— Talvez você esteja com defeito. — Theo debochou e caiu na gargalhada.
O que era pra ser um treinamento sobre armas mágicas, se tornou uma guerra de almofadas nada mágica, com enchimento espalhado pelo chão, quando Theo estourou uma delas sem querer.
Os dois acabaram deitados no tapete, Crystal ofegante como se tivesse corrido uma maratona e Theo com um sorriso simples no rosto.
Nunca tinha feito nada daquele tipo, se divertido com alguém sem um motivo escuso por trás disso.
Será que era isso que significava ter um amigo?
Encarou Crystal e ela tinha uma porção de espuma de almofada grudada do cabelo, enquanto tateava o chão em busca do celular.
— Nossa olha a hora! — Ela apontou quando acendeu a tela.
Theo observou o visor marcar duas e dezoito da manhã.
— O que tem? — Questionou vasculhando a mesa em busca de um salgadinho perdido.
— Seus pais devem estar preocupados. — Crystal estranhou a naturalidade de Theo.
— Eu não moro com os meus pais. — Ele foi honesto, podia ter inventado uma história, como fazia para todas aquelas pessoas na escola, mas não quis mentir para Crystal também. — Criado por cientistas sobrenaturais lembra?
Ele agia como se aquilo não o incomodasse, mas a jovem Green percebeu que era só fachada. Theo não gostava de ser solitário daquela forma.
— Com quem você mora? — Ela perguntou como se fosse uma conversa natural, mas na verdade estava preocupada com ele.
— Sozinho. — Theo deu de ombros, e por incrível que pareça não se sentiu incomodado de falar sobre aquilo com Crystal. — Os doutores tinham designado uma família de fachada, mas eles deram no pé.
Theo preferiu omitir a parte em que os pais falsos tinham sumido porque ele fora mandando para um inferno particular, pela ex-namorada de Scott.
— Você tem sua própria casa também? Achei que eu era a única louca. — Ela sorriu de canto, enquanto tentava recolher as espumas do tapete.
— Eu tenho meu próprio carro, na verdade. — Theo passou a ajudá-la.
— Você mora no carro? — A preocupação e surpresa de Crystal ficaram evidentes em sua pergunta.
— Eu viro um coiote, eu podia morar no mato se eu quisesse, a Malia fez isso por anos. — Ele deu de ombros, como se morar no carro não fosse um desafio, como se não sentisse falta de uma casa de verdade e de tomar banho no próprio banheiro ao invés de usar o da escola.
— Você podia morar aqui se quisesse... — Crystal sugeriu com uma naturalidade inocente.
— Não seja estúpida. — Theo fez um gesto banal com a mão esquerda e continuou o que estava fazendo. Claro que Crystal estava só brincando.
Mas ela não estava. Na verdade Crystal Green teve certeza de que era a coisa certa a fazer, simples assim.
— Eu tenho uma casa enorme, tenho quartos sobrando e meio que seria bom ter um amigo por perto. — Deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo chamar uma pessoa que ela mal conhecia para morar em sua casa.
— Não preciso da sua caridade. — Theo se sentiu um tanto irritado.
Não queria que ninguém sentisse pena dele. Não queria que Crystal pensasse que ele era fraco.
— Caridade? — Ela riu um tanto irônica. — Eu quase morri! Isso não é caridade, você é meu melhor amigo, ser meu guarda-costas sobrenatural é meio que o seu dever.
Empurrou o ombro de Theo levemente e riu.
Não havia clima estranho, ele não se sentiu diminuído ou fraco, na verdade, Theo se sentiu bem-vindo, se sentiu amparado pela primeira vez em muito tempo.
E de repente pareceu uma boa ideia...
— Pode ser... Você com certeza não vai conseguir ler todos esses diários sozinha, mesmo... — Theo deu de ombros e apontou a pilha que os dois tinham simplesmente esquecido ali no chão.
Eles riram juntos e Crystal recomeçou a guerra de almofadas. Nunca terminariam a leitura naquele ritmo.
E aquela madrugada, quando Theo se deitou em sua nova cama, ele finalmente sabia como era ter uma melhor amiga...
✶ ✶ ✶ ✶ ✶
Estava escuro, o tipo de escuridão que é capaz de fazer cada pelo do corpo arrepiar. Não havia som, mas o cheiro de podre impregnava as narinas de Lydia Martin.
Ela não sabia onde estava. Não sabia como tinha ido parar ali. Deu um passo para frente e notou que algo se quebrou sob seus pés com o som seco de uma casca de ovo sendo amassada.
Continuou andando, tentando tatear no escuro, em busca de qualquer coisa que fosse uma pista de onde estava.
A cada passo que dava, sentia seus pés afundarem em seja lá o que fosse, eram objetos ovais e frágeis, que se partiam, quebravam e feriam os pés de Lydia.
— Tem alguém aí? — Perguntou, ouvindo sua voz ecoar e reverberar de volta para si mesma.
Não houve resposta.
Mais um passo e Lydia sentiu que caia, quase como se afundasse em todas aquelas coisas quebradiças, despencou por vários minutos, como em um buraco infinito, sentindo os objetos esféricos baterem em si, ferirem seu rosto.
Aos poucos seus olhos distinguiam uma penumbra quase etérea, não o bastante para que enxergasse alguma coisa ao seu redor.
Seu corpo inteiro sentiu o impacto quando atingiu o chão. Notou que estava em algo molhado, quente e fétido, julgou ser lama, mas se enganou totalmente...
Os objetos esféricos e quebradiços caíram sobre si e Lydia teve que fazer o melhor para cobrir o rosto com a mão e assim se defender.
Só então notou a claridade flamejante que iluminava o lugar, algumas piras em chamas estavam espalhadas aqui e ali no que parecia uma caverna imensa ou algo assim.
Lydia olhou ao redor para reconhecer onde estava e o pavor tomou conta de si. O chão, que ela julgou estar coberto de lama, na verdade estava coberto de sangue fresco... os objetos esféricos que se quebravam sob seus pés eram crânios velhos e todas as paredes da caverna eram feitas de ossos.
A jovem tentou se afastar de tudo aquilo, se arrastando pra trás o mais rapidamente que podia. Mas tudo ali era exatamente igual, metros e metros de um chão inundado de sangue. A morte estava por todo o lado.
Nesse momento Lydia percebeu que as piras flamejantes faziam um caminho até o fim da caverna.
Seus olhos seguiram a trilha, que terminava no que parecia um trono de ossos, onde havia uma mulher.
Suas vestes negras pareciam flutuar. Lydia subiu o olhar devagar, um terror genuíno fazendo seu coração bater tão rápido que mal conseguia ouvir seus pensamentos.
A mulher tinha cabelos cor de sangue, assim como os olhos, aterrorizantes olhos vermelho vivo. Ela sorriu mordaz, como o próprio pesadelo encarnado e Lydia quis gritar, mas nada saiu da sua garganta, nem o grito de Banshee, nem voz alguma.
Observou a mulher misteriosa se levantar e aproximar em um segundo, como se a distância fosse nada para ela. Lydia continuou tentando se afastar, arrastando-se no meio do sangue em busca de qualquer fuga.
Suas costas bateram contra a parede de ossos. Não tinha mais para onde fugir.
A mulher de olhos cor de sangue tentou agarrar Lydia, mas antes que as unhas negras lhe tocassem, a jovem fechou os olhos com força...
Tudo ficou escuro.
Lydia acordou com um grito preso na garganta, o coração disparado e o alarme do celular tocando insistentemente.
Colocou a mão no peito e tentou se acalmar, tateando o celular pela cama. Era hora de pegar seu voo de volta para Beacon Hills.
Foi só um sonho... tentou convencer a si mesma enquanto se arrumava.
Mas Lydia Martin era um Banshee, uma percussora da morte, um sonho nunca era apenas um sonho...
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