Running Away From Hell
24 Cap. XXIV — Sean
Notas iniciais
Sem mais delongas, mais um capítulo novo para vocês :)
26 de Abril de 2012
Kylie Gayle Road, Oakland, TN
04:47 PM
— Sinto muito pelo pescoço.
— Sem problemas — Rachel falou de mau humor, massageando a área.
Sam e Puck tinham reajeitado os bancos da igrejinha na beira da estrada para formar um círculo. Eles tentaram se arranjar neles; alguns, como Santana e Sugar, deitando no colo de suas namoradas e tomando um banco inteiro somente para elas.
Joe não mencionava o modo de como as meninas se tratavam, ou simplesmente parecia ignorar. Sentando ao lado de Sam, que estava ao lado de Hanna protetoramente, o homem trocava algumas palavras com os dois até que toda a atenção do grupo se voltou para ele.
— Vocês são os primeiros forasteiros que eu vejo em meses. Os últimos... Bem, eles eram mais violentos que vocês. Atacavam primeiro, perguntavam depois. — Joe apontou para a cicatriz que cortava todo o seu rosto. — Esse foi meu prêmio por não contar a eles onde a nossa comunidade estava.
— Você os matou?
Quinn estava chocada com a história. Ele não dissera muita coisa sobre a tal comunidade, mas a naturalidade com que contava algumas mortes — pessoas, não walkers — que ele causara era impressionante.
Ela gostava de matar errantes, pois era de certa forma o que lhe tirava o estresse. Mas nunca chegara a matar humanos. Nem quando as coisas estavam completamente malucas em Lima. A vida era algo tão frágil e precioso que ela mesma se condenaria por matar um humano. Eles tinham tido sorte com Hanna — alguém que queria ajudá-los e não era vingativa —, porém, e se fosse outra pessoa, alguém que colocasse o grupo em perigo? Ela seria capaz de matá-lo?
— Você é o único da equipe que sobreviveu? — Hanna cortou o assunto antes que Joe respondesse a pergunta de Quinn.
— Você se lembra. De quarenta, dez foram para casa morrer com suas famílias. Vinte permaneceram com as pesquisas e dez fugiram pro campo. Ajudantes e estagiários não contam, é claro — Joe acrescentou. — Fui um desses dez designados a vir pra cá. Três morreram durante o percurso. Os walkers estavam loucos naquela época.
“Ao chegarmos, era uma pequena quadra abandonada e cercada. Tinha quatro pessoas: os filhos e a mulher de Jackson. Ele os mandara para organizar tudo. Tínhamos comida, armamento, um laboratório pra pesquisas...”
— O que houve? — indagou Sam.
— Pessoas chegavam, e pessoas comem e matam walkers. — Joe deu de ombros. — Temos comida até pelo menos o próximo verão, mas estou preocupado. Armas... Elas já estão em falta.
Joe observou cada um deles fixamente. Ninguém falou por longos minutos. Quinn sentiu-se desconfortável com o silêncio; achava que a presença de Joe os forçava a isso. Ela não confiava nele — afinal, quem confiaria em um homem que tentara matar sua namorada?
— Estamos muito distante da comunidade? — perguntou Rachel, quebrando o silêncio. Ela fora a única a devolver o olhar de Joe com a mesma intensidade; uma das muitas razões para Quinn amá-la.
— Uma hora de carro. — Joe sacudiu os ombros novamente.
— Por que está tão longe de lá? — Puck questionou, distraído com Beth.
— Estamos tentando investidas mais longas, uma forma de banir os walkers mais perto do condomínio. Além disso, se irmos mais longe, há maior possibilidade de acharmos armamento.
“Vocês têm sorte de terem parado aqui,” Joe disse depois de novos minutos de silêncio. “Se tivessem ido à cidade, provavelmente estariam mortos há essa hora.”
Rachel lançou a Quinn um olhar vitorioso. Como aquela baixinha sempre tinha razão era algo que ela jamais iria saber. Quinn trocou um olhar sério com Hanna, que assentiu culpadamente. Ela sabia que não era culpa dela; ninguém tinha ideia do que estava acontecendo com o mundo. Eles viviam em um mundo de suposições agora.
— Você vai nos levar lá, não vai? — perguntou Santana insegura.
Joe abriu um sorriso. Como ele não se expressava muito bem, ela não conseguiu definir se era escárnio ou felicidade. Ela mordeu o lábio, entrelaçando seus dedos nos de Rachel inconscientemente.
— Claro — disse Joe, embora Quinn não estivesse suspirando de alívio como os outros. Alguma coisa nos olhos dele não passava a Quinn confiabilidade necessária. — Por mais jovens que vocês sejam, foram os únicos que me renderam. Isso vale alguma coisa.
Ele olhou para Sam, que corou fortemente. Hanna colocou a mão em seu ombro, demonstrando apoio, e sorriu ao garoto. Quinn observou, feliz, os gestos, pois aquilo significava que a estória que tinha começado em Nashville simplesmente havia tido um avanço promissor.
— Temos que ir andando se quisermos chegar lá antes da noite — Hanna disse e se levantou determinada, olhando no relógio.
— Tá certo. — Joe a acompanhou enquanto os outros garotos se ajeitavam. Quinn se perguntou se deveriam voltar os bancos da igreja aos lugares corretos, porém depois percebeu que talvez mais ninguém pudesse entrar ali. Em razão disso, apenas abraçou Rachel de lado e foi para o Cadillac, com Brittany, carregando Beth, e Santana.
Ela não pôde deixar de sorrir ao ligar o carro e seguir o Impala e a moto de Joe. Uma nova porta se abria para eles. Um novo futuro.
26 de Abril de 2012
Town Creek Road, Covington, TN
06:18 PM
— Essa é a nossa comunidade — disse Joe com um sorriso ao pararem em frente a um portão de ferro.
Hanna sorriu também, abraçando Sam por trás e pondo a cabeça no ombro dele. Todos estavam de pé; os carros e a moto de Joe estavam parados atrás deles enquanto todos contemplavam o portão, a maioria sem palavras para descrever o que sentia.
O portão era cercado por duas torres não muito altas, construídas precariamente, e que Hanna supôs ser para vigias. O muro estendia por mais dez metros para cada lado. Era um pouco mais baixo que as torres, mas ainda assim imponente, rodeado por cercas elétricas.
— Andrew! — exclamou Joe, indo ao pé da torre à esquerda. — Os portões, cara! Sou eu, Joe!
Uma cabeça morena surgiu no alto da torre, a expressão franzida. Ao identificar Joe, acenou e sorriu. De longe, Hanna pôde ouvir o grito do homem pedindo para que os portões fossem abertos.
Hanna e Quinn embarcaram novamente nos carros para levá-los para dentro dos muros. O resto do grupo, ainda bestificados com tudo, seguiu Joe a passos lentos.
O estacionamento não era muita coisa. Havia uma Kombi antiga e mais um Camaro amarelo estacionados em frente à primeira casa, mais perto do portão. Hanna colocou o Impala ao lado do Cadillac de Quinn e a acompanhou pelo condomínio.
O lugar lembrava muito Horn Springs. Era basicamente algumas quadras separadas do mundo por um muro enorme. As casas não eram tão grandes quanto ao condomínio onde passara boa parte da vida, mas pareciam ser tão confortáveis quanto. As ruas eram limpas e possuíam uma mistura de cheiros vindos de inúmeras casas.
É como estar de volta ao mundo normal, Hanna pensou. Quinn a seguia para o meio do condomínio, uma praça com grama verde-relva. A grama estava verde! Crianças brincavam no parquinho improvisado. Ela reconheceu uma como a filha mais nova de Jackson. A garotinha estava brincando como se nada tivesse lhe atingindo. Hanna quis chorar.
— Isso tudo é tão... — começou Quinn, mas Hanna a interrompeu:
— Eu sei. — Bizarro. Era o que definia aquele lugar.
No meio da pracinha, uma pequena multidão se formava. Hanna viu seu grupo ali e puxou Quinn para que pudessem se juntar a eles. Já estava de noite — os postes de iluminação eram acesos por meninos na idade de Quinn. Aparentemente, eles eram a razão da reunião na praça.
Estrategicamente no centro de tudo, estava um dos cientistas que Hanna conhecera no CDC. Sean era um grande amigo de Jackson e ela estava feliz em revê-lo. Obviamente seria o homem no comando ali. Nos últimos meses, sua barba branca crescera (Hanna ouviu Sam comentar animado que era o Papai Noel) e as rugas aumentaram, mas ele parecia ser ainda o mesmo homem simpático do CDC.
— Hanna! — O tom de Sean foi surpreso. Ela não hesitou em sair do lado de Sam para abraçá-lo. O gesto foi retribuído afetuosamente. — Eu achei... Nós achávamos que estava morta!
— É uma longa história, Sean — comentou Hanna após soltar-se do homem. — Podemos falar sobre o que houve amanhã? Meu grupo fez uma viagem longa e realmente precisamos descansar.
— Mas é claro! — disse ele, abanando a mão displicentemente. — O caminho de Nashville para cá deve ter sido duro... — Sean olhou para os garotos, parados vergonhosamente atrás de Hanna. — O problema é que vocês precisam de algumas casas e...
— Nos ajeitamos em uma só — Quinn apressou em dizer, corando furiosamente. Hanna franziu o cenho. A garota não era daquela forma. O que um cientista de alto padrão faz com você, ela pensou. — Por hoje. Amanhã resolvemos isso melhor.
Sean pareceu considerar a ideia. Olhou para a pequena multidão na praça, procurando algo. Sua expressão mudou rapidamente ao ver o que queria na plateia, estalando os dedos. Um homem saiu da multidão e se apresentou. Hanna não o conhecia.
— Hanna, este é o James — Sean os apresentou ligeiramente. — Ele é o faz-tudo, e mostrará a vocês a casa que deverão ficar por hoje. A garota ali... — e apontou para uma mulher ruiva que ela não conhecia também — irá levar os alimentos para vocês daqui a pouco.
Hanna agradeceu com a cabeça enquanto James colocava o grupo para se mexer. Seria estranho a partir da noite seguinte, ela imaginou. Eles se dividiriam, não morariam mais na mesma casa. Depois de tanto tempo juntos, será que os garotos acostumariam com a sombra de uma vida normal?
27 de Abril de 2012
Casa Principal, Town Creek, TN
09:20 AM
— A distribuição de comida é algo sério aqui na comunidade. Ninguém pode pegar mais do que o necessário. Temos dois homens confiáveis pra que isso não vire um transtorno. Franklin é o comandante da “polícia”. Nada como nos velhos tempos, mas estamos tentando.
Sean falava rapidamente e Hanna se esforçava para lembrar tudo. Ele explicara sobre o racionamento de armas (o grupo foi forçado a dar suas armas à Casa Principal, ou prefeitura, gerando uma onda de raiva em Quinn e Santana). Demorou um pouco para convencer as garotas de que eles não estavam livres mais e teriam de obedecê-los.
Os dois estavam na Casa Principal, conversando sobre os termos que Hanna evitara na noite anterior. Não era muito: era praticamente a forma de como o grupo deveria se tratar, e tratar os outros, se quisesse continuar ali. Mesmo sendo grande amiga de Sean, Hanna entendia que isso era necessário. Nenhuma pessoa relativamente perigosa deveria ter a permissão para entrar ali.
— Os garotos se ajeitaram? — perguntou Sean curiosamente, as mãos se entrelaçando sobre a mesa de vidro. A sala de estar da casa do cientista era muito maior que a que eles tinham passado a noite.
— Duas casas são o suficiente para nós, obrigada — disse Hanna dando de ombros. — Éramos um grupo de doze, mas alguns morreram...
Ela engoliu em seco. Mesmo tanto tempo mais tarde, falar sobre a morte de Rory e Mercedes ainda era doloroso, ainda mais quando uma delas era parcialmente sua culpa. Ficou encarando a mesa por alguns segundos antes de levantar os olhos e dar um sorriso para o homem.
— Eles são mesmo de Ohio? — O interrogatório de Sean não era muito diferente de Joe e outros cientistas que Hanna encontrara por ali.
Hanna se perguntara a mesma coisa quando os viu pela primeira vez. Como alguns adolescentes que não tinham nem terminado a escola tinham conseguido sobreviver tanto tempo? Viajando por tanto tempo o país em busca de algum lugar seguro, inclusive?
— São. Jamais os vi na minha vizinhança durante os dias antigos — Hanna falou. Por alguma razão, falar de Sam e Quinn para qualquer pessoa dali lhe fazia sentir um orgulho imenso dos garotos. — É incrível, eu sei.
Sean soltou uma risada grave. Ele tomou um pouco de seu café, e depois disse:
— Eles realmente merecem sobreviver mais do que nós, que vivem aqui desde sempre.
Ah, Hanna não tinha dúvida nenhuma disso. O horror que eles já passaram valia muito mais do que qualquer vida dentro do condomínio. Ela acompanhara grande parte dele e ainda tentava entender porque só um deles havia cometido suicídio. A vontade de viver que cada um deles tinha era impressionante.
— Vamos às pesquisas, Hanna — Sean foi direto, tirando a xícara de café vazia do caminho e pigarreando. — Achou o caderno dele?
Se referir à Jackson apenas como um objeto era dolorido. A única coisa que sobrara dele fora seu diário, sim, mas o cientista ainda vivia na memória da garota — e ela tinha certeza que na memória de Sean também.
— Ele não foi muito longe — disse Hanna, observando uma garota, provavelmente filha de Sean, tirar suas xícaras da mesa. Hanna sorriu à ela, que assentiu envergonhadamente. — Faz quase dois meses que o laboratório foi para os ares. Quando cheguei lá, apenas segui o aviso do doutor para virmos para cá. Se não fosse por Joe, teríamos entrado em Germantown e estaríamos mortos.
Sean assentiu, a expressão pensativa. Ela aguardou em silêncio, observando o homem ter, aparentemente, uma discussão com si mesmo. Hanna tamborilou os dedos na mesa, deixando sua atenção vagar pelo cômodo distraidamente. Pensou em Sam. Será que ele e Puck já teriam arrumado uma casa?
— Bom, Hanna — Sean chamou minutos mais tarde, batendo as mãos e se levantando —, creio que é só isso por hoje. Mais tarde, talvez, mostrarei a você o nosso laboratório.
Os olhos de Hanna cintilaram enquanto acompanhava Sean para a saída. Eles tinham um laboratório. Os cientistas teriam continuado com as pesquisas de Jackson? Ou estaria abandonado, aguardando um elemento chave para o fim de toda aquela assombração? Hanna sorriu, animada, para Sean.
— Eu sei, eu sei. — Ele abanou as mãos displicentemente. — Ah, Hanna, o que sabe sobre aquela garota de cabelos róseos?
— Quinn? — O laboratório foi varrido de sua mente. O que Sean poderia querer com Quinn? — O que tem ela?
— Ela parece durona. Poderia ser capitã-júnior da nossa “polícia”. E em relação aos outros garotos... Arranjei algo para eles também.
O cientista deu tapinhas no ombro de Hanna, despedindo-se. Ele fechou a porta na cara da garota, que se virou para a rua, descendo as escadinhas em frente à porta com um humor bem diferente de minutos antes quando entrara.
27 de Abril de 2012
Casa Principal, Town Creek, TN
02:13 PM
Quinn seguia Hanna pelas ruas da comunidade se perguntando o que Sean queria com ela. Hanna aconselhara a não levar Rachel, por isso a namorada estava terminando de ajeitar as malas na casa número 19 — o seu novo endereço (Sam e os outros estavam na casa 18, que tinham divido na noite anterior) — com Santana e Brittany.
A caminhada era curta. Mesmo morando numa das últimas casas do condomínio, tudo era perto. Como uma cidade pequena nos tempos antigos, pensou. Ao chegar à varanda da Casa Principal, ela observou o Cadillac tristemente. O carro estava confiscado pelas mesmas razões de sua Hi-Power. Ela esperava que ficasse muito tempo na comunidade, e então concordaria com a regra imposta por Sean — também só esperava que a influência de Hanna pudesse lhe fornecer alguns últimos minutos de glória com o carro.
— Que bom que vocês vieram! — Sean exclamou ao abrir a porta da casa, dando um grande abraço em Hanna. Quinn permaneceu atrás da garota, parada desconfortavelmente.
— Trouxe Quinn comigo, assim como pediu — falou Hanna após o cientista cumprimentar Quinn com um aperto de mão mais contido.
— Ótimo, ótimo. O que estamos fazendo aqui perdendo tempo? — Ele deu uma risada escandalosa. Quinn e Hanna se entreolharam divertidamente. — O laboratório não está aqui fora, então vamos entrando.
Quinn viu os olhos de Hanna brilharem de emoção. Era fato que a garota deveria estar ali mais do que qualquer um do grupo — mas o que ela, Quinn, estava fazendo ali os acompanhando? Não era cientista, não tinha noção nenhuma do que acontecia em um laboratório. O que Sean queria tanto com ela?
Ela e Hanna acompanharam Sean para dentro da Casa Principal. Quinn se deparou com um hall grande e, mais adiante, uma sala maior ainda. Lembrava a primeira mansão em Horn Springs, com uma TV de 42’ e sofás arranjados de maneira desorganizada. Eles seguiram por um corredor largo — Quinn podia ouvir crianças brincando em algum lugar no primeiro andar.
— A enfermaria está organizada aqui. — Sean abriu uma porta à esquerda do corredor e as garotas se depararam com uma sala ampla e muito limpa. No meio dela havia duas macas desconfortáveis; ao canto, estava um armário que Quinn supôs ser para guardar os medicamentos.
— Uau — sussurrou Hanna, impressionada.
Quinn também tinha que admitir que aquilo tudo era muito legal. Se tivessem aqueles equipamentos algumas semanas antes, ela pensou, talvez Puck e Santana tivessem melhorado em muito menos tempo.
— A mulher de Jackson cuida daqui — informou Sean. — Ela é a única que sabe fazer esse trabalho com graça. — Ele parou e as fitou. — Sinto muito por não ter mostrado durante a manhã. Aquela visita tinha sido experimental.
Quinn assentiu, embora não tivesse ido à Casa Principal durante a manhã. Sean precisava ter toda a confiança necessária no grupo. Ela se perguntou o que Hanna tinha discuto com ele, e o que a garota havia falado sobre o grupo.
Ao invés de subir as escadas à sua frente, Sean parou de repente, fazendo com que Quinn, a última da fila, trombasse com Hanna. Ela se xingou internamente e coçou o nariz, emburrada. O homem mudou sua atenção para o armário embaixo da escada; Quinn franziu a testa para Hanna, igualmente perplexa. Sean entrou no armário e, ao perceber que nenhuma das garotas o seguia, não tardou a puxá-las para dentro.
— O que estamos fazendo aqui? — Quinn indagou timidamente.
Sean não lhe deu atenção. Ele mexia numa prateleira à esquerda de Quinn decididamente. O armário era minúsculo, lotado de velharias e teias de aranha. Quinn se espremeu contra Hanna, pensando no que Rachel diria se soubesse daquilo. Se elas saíssem dali viva, não contaria aquela parte à namorada, pensou.
Hanna e Quinn arregalaram os olhos quando Sean tirou a mão da prateleira, ouvindo um clique metálico, e começou a digitar com a maior tranquilidade do mundo alguns números em um painel digital. Assim, o estalido foi ouvido novamente e a prateleira se abriu para um túnel mal feito.
— Isso foi construído pelo próprio Jackson, a mulher dele me disse — Sean falou, entrando no túnel serenamente. Hanna se desgrudou de Quinn e o seguiu, assombrada. — Ela mora comigo e minha filha, mas apenas cientistas que trabalhavam no projeto antes têm permissão para entrar.
— Então o que diabos eu estou fazendo aqui? — Quinn perguntou sem rodeios, sentindo um arrepio ao começar a seguir Sean e Hanna no túnel. Ele descia rapidamente; Quinn supôs que chegariam mais fundo que o porão, se a casa tivesse um
— Por que você será a capitã-júnior da nossa dita “polícia” — ele respondeu displicente, continuando a andar pelo túnel, parando numa porta de vidro transparente. Atrás dele, Hanna dava pulinhos, tentando conter o nervosismo.
Quinn empacou no corredor, sem saber o que dizer. A julgar pelo fato de Hanna ignorar as últimas palavras de Sean, ela já sabia. Aquilo era uma ordem, esse negócio de ser capitã? Porque a última coisa que a garota queria era sair por aí comandando as pessoas e arranjar motivos para brigar com a namorada. Ficara lisonjeada, é claro, mas dar ordens não era algo para ela — Quinn preferia quebrar as regras.
— E-eu... Não... — Quinn começou a falar, mas naquele momento Hanna entrou no laboratório e soltou uma exclamação de felicidade. Ela revirou os olhos e pôs as pernas para se mexer, seguindo os outros dois.
Teve de conter o seu grito. Para um local subterrâneo construído às pressas, era bem avançado. Ela assoviou, impressionada, com a luz verde que o lugar possuía. Era enorme, com prateleiras e prateleiras de substâncias que jamais decoraria o nome; havia várias mesas dispostas verticalmente à porta de entrada, cheias de papéis e mais frascos com substâncias estranhas.
Uma televisão presa na parede mostrava um lugar que Quinn não conseguiu identificar à primeira vista, mas logo entendeu o que era: em algum lugar por aí, um walker estava preso e era vigiado dia e noite. Tal qual o errante que Hanna capturara e causara enormes consequências mais tarde.
— Que demais! — disse Hanna, correndo para espiar as mesas de trabalho dos cientistas. Ela parecia uma criança, Quinn observou.
— Abandonamos o trabalho há três semanas — disse o cientista a Quinn. — Tentamos, tentamos e tentamos, mas nada dava certo. Minha esperança é ela.
Quinn engoliu em seco. Ela estava reclamando de fazer metade do trabalho de um policial de antigamente enquanto Hanna tinha o mundo para salvar. Realmente as perspectivas mudavam um pouco as opiniões.
— O diário de Jackson contém algo que ela não pode entender — continuou o cientista, ainda falando em voz baixa; os dois observavam Hanna caminhar para lá e para cá no laboratório —, mas que eu possa. Nós dois podemos mudar esse mundo apocalíptico.
Quinn permaneceu em silêncio. O rosto de Sean transpirava, mas estava feliz. Ele realmente acreditava em Hanna e em sua capacidade de acabar com aquele vírus. Quinn também acreditava nela. Ela vira o que Hanna era capaz de fazer; a garota tinha o cérebro mais importante nos dias atuais.
— Posso ter um dia para pensar sobre essa coisa de capitã? — ela indagou quase silenciosamente, ainda observando Hanna.
— Me dê a resposta amanhã à noite — respondeu o cientista. — Darei uma festa em comemoração à sua chegada aqui em casa. Pense e então me diga o que fará.
Quinn já sabia o que ela faria antes mesmo de sair do laboratório.
27 de Abril de 2012
Praça, Town Creek, TN
01:12 PM
Puck empurrava Beth no balanço da pracinha, olhando para os lados nervosamente. Ele não estava acostumado com a normalidade do local. Vivera tempo demais do lado de fora, até começar a achar que walkers e o puro terror eram seu normal. O condomínio parecia uma lembrança dos dias antigos, capaz de ruir a qualquer momento.
Ele nunca vira Beth tão feliz. Puck a empurrava para lá e para cá, os cabelos loiros balançando ao vento quente da tarde. O almoço entre o grupo tinha sido animado, com Hanna contando as novidades sobre os avanços da pesquisa. Eles tinham almoçado fartamente — com direito a vários sanduíches congelados, o que Puck achou maravilhoso. Ninguém via sanduíche ou algo congelado há séculos.
Algumas crianças brincavam de pega-pega, correndo loucamente pela praça. Ele se sentia estranho naquele lugar, pois as pessoas eram sempre mais velhas. Naquele momento, sentados no banco de madeira, havia dois senhores, cuidando das crianças. E só. Puck se lembrou das grades de tarefas que Hanna e Quinn costumavam montar e perguntou-se se acontecia o mesmo com a comunidade. Aparentemente não.
— Quantos anos ela tem? — perguntou alguém se aproximando do garoto, fazendo-o sobressaltar.
Puck se virou para a voz e deparou com a menina mais linda que já vira na vida — ultrapassando Quinn e Shelby. A garota tinha cabelos ruivos e ondulados que iam até os ombros e olhos tão verdes quanto os de Beth. Os lábios finos se abriam num sorriso simpático. Puck tentou pensar na resposta para a pergunta fácil da garota, porém só conseguiu grunhir e abri a boca em espanto.
— Ela é linda — a garota disse, encurvando o corpo na direção de Beth. Puck instintivamente pegou a filha no colo. A garotinha ameaçou chorar.
— Dois — ele falou, soltando todo o ar que prendia. — Beth... Ela tem dois anos.
— Beth é um nome muito bonito... — ela comentou, fazendo uma nova tentativa de se aproximar da garota. Dessa vez, Puck não recuou.
Ele não sabia o que estava acontecendo. Jamais fora alguém que se sentia tímido perto de mulheres. Costumavam chamá-lo de garanhão por alguma razão. Então, porque aquela garota ruiva lhe dava tanto frio na barriga?
Beth respondeu bem aos carinhos da menina. Sorriu para ela e a fez dar uma risada — a risada mais linda que Puck já escutara na vida. Suas mãos tremiam ao segurar Beth; Puck não fazia ideia do que estava acontecendo com seu corpo. Por que a menina o fazia agir dessa forma?
— Você é do grupo novo, não é? — a garota indagou, desviando a atenção de Beth. Puck não notara, mas Beth estava no colo dela.
— S-sou — ele respondeu gaguejando. — Hanna, ela é nossa...
— Ah, eu não a conheço. Eu e meu irmão — ela apontou para um garoto, de uns cinco anos, brincando com outra menina mais velha —, a gente veio da Califórnia, fugindo dos walkers. Infelizmente, meus pais não sobreviveram. Temos vivido aqui desde então.
— Hm — ele fez, não achando nada mais interessante para dizer. Qual é, você entrou numa casa em chamas para salvar a melhor amiga!, uma voz disse em sua cabeça. Diga algo!
Mas ele não conseguiu dizer nada, apenas ficou encarando Beth. O que se deveria dizer para uma garota tão bonita? Para sua surpresa, ela não pareceu dar atenção à sua falta de palavras. Brincava e sacudia Beth como se a conhecesse há tempos.
— Sou o Noah — disse de repente, lembrando-se de que não tinha dito seu nome. Não sabia por que tinha dito seu primeiro nome ao invés do apelido; pensou que daria a um ar mais inteligente. Seu rosto corou furiosamente quando a menina voltou o olhar para ele.
— Dany — ela falou, abrindo outro sorriso enorme.
O coração de Puck pareceu derreter. Aquela garota tinha o rosto mais bonito que já vira, a risada mais linda que escutara, possuía uma química incrível com sua filha e também tinha o nome mais bonito que ele já ouvira. Não havia como aquela garota ser mais perfeita.
— Ela é sua irmã? — Dany continuou com o interrogatório, pondo Beth no balanço novamente e a movimentando. A garotinha ria e erguia os braços para o alto à medida que Dany a empurrava mais alto.
— Não... Ela é... — Puck pigarreou, desconfortável. — Ela é minha filha.
Dany ergueu as sobrancelhas, surpresa. Puck enfiou as mãos nos bolsos da calça, balançando-se para frente e para trás. Nunca se sentira envergonhado por ter tido Beth, porém, o olhar de Dany o fazia sentir o mais inesperado dos sentimentos.
— É uma longa história — ele simplificou, dando de ombros.
— É claro... — a garota continuou balançando Beth, olhando de soslaio para Puck de vez em quando. Seu olhar também voava para seu irmão, ainda brincando com a menina mais velha mais à frente. — Olhe, Sean disse que nós teríamos uma festa na casa dele amanhã à noite...
Foi a vez de Dany corar. O garoto ficou tão surpreso que deixou escapar um sorriso tímido.
— Quer ir comigo?
Em outro mundo — mais especificamente dois anos antes —, ele acharia um insulto completo ter sido convidado por uma garota para ir à uma festa, e não o contrário. Mas ali, vendo a forma de como Dany os olhava, ele e Beth, Puck soube que era o certo. Na verdade, ele nunca se sentira tão bem em ter sua masculinidade posta à prova.
— C-claro — ele murmurou. — Será um prazer.
Dany sorriu novamente e lhe deu um beijo na bochecha, voltando a segurar Beth nos braços. Puck sorriu também.
27 de Abril de 2012
Casa Nº19, Town Creek, TN
03:30 PM
— Eu não acredito que estamos jogando Monopoly — Santana falou em tom debochado, movendo o carrinho prata com que jogava.
— Acho melhor jogar Monopoly do que enfrentar walkers no meio da tarde — Quinn retrucou revirando os olhos.
Santana estreitou os olhos para a garota. Quinn sempre roubava quando jogavam esses tipos de jogos. Geralmente, ninguém tinha muita vontade de contradizê-la, porém, como ela namorava Rachel Berry, elas não tinham muito com o que se preocupar com trapaças. Rachel fitava a namorada com destreza, observando cada movimento dela em direção ao dinheiro do banco, comandado por Sugar.
Santana sentia-se praticamente nova. Nada como algumas horas de viagem dormindo no colo da mulher e outras horas de sono em uma das camas mais confortáveis que experimentara para acabar de vez com a dor e o sofrimento das queimaduras.
Ela suspirou, deixando Rachel pegar os dados de sua mão. Sobre o que ela reclamava não era o jogo nem as trapaças de Quinn, mas sim a normalidade com que jogavam. Os pertences das duas, ela e Brittany, já estavam no quarto no segundo andar. A casa delas também pertencia a Quinn e Rachel; Sugar e Harmony morariam com Hanna, Puck, Sam e Beth. Eles tinham duas casas. Comida congelada até o fim do próximo verão. Parecia irreal, mas era um prêmio muito aguardado. Finalmente, eles poderiam ter um fantasma da vida normal que tinham antes.
— Ei, Puck! — exclamou Harmony ao ver o garoto entrar na casa carregando Beth, o sorriso enorme. — O que houve?
— Eu fui à Praça com Beth e... — Ele parou o relato para observar o tabuleiro jogado no chão. Santana viu pelo canto do olho Quinn pegar algumas notas de cem do banqueiro. — O que vocês estão fazendo?
— Relaxando numa tarde quente e jogando Monopoly — respondeu Rachel, dando de ombros. Ela socou Quinn ao perceber o que ela fazia; Santana riu.
— Bem — Puck balançou a cabeça e deixou Beth no colo de Sugar —, eu conheci essa garota...
O rosto dele ficou vermelho instantaneamente. Santana ergueu as sobrancelhas, surpresa com a reação do garoto. Puck não era, de longe, um menino tímido e envergonhado. Aquela história seria engraçada. Ela ajudou Brittany a comprar um terreno perto de um dos seus, escutando Puck atentamente.
— O nome dela é Dany. Cara, ela é linda. — Puck sentou ao lado de Santana e tomou um gole da água dela. — Depois de Beth, a menina mais linda que já vi. Ficamos conversando e eu perdi a noção do tempo.
Quinn parecia um pouco ofendida pelo comentário de Puck sobre a beleza da menina, mas Santana não se importou. Quando as pessoas perdem a noção do tempo ao estar perto de alguém, é por que é amor — ou, pelo menos, foi assim que Santana descobriu estar apaixonada por Brittany.
— Onde está o Sam? — ele indagou, colocando uma peça no jogo. Rachel queria protestar, mas Quinn a impediu.
— Com Hanna, eu acho. — Harmony deu de ombros, recebendo o dinheiro do aluguel de uma emburrada Quinn.
Brittany e Sugar trocaram olhares marotos. Puck revirou os olhos. Mas Santana sequer teve tempo de soltar algum comentário sarcástico e zombar dos dois, porque naquele momento Sam e Hanna entraram pela porta da frente, as mãos dadas displicentemente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quinn cutucou Rachel e elas deram risadas, o que fez o casal corar fortemente.
— Sean disse que teremos uma festa — Hanna enfatizou a última palavra, como se não acreditasse no que estava dizendo — na casa dele amanhã à noite. Algo para comemorar nossa vinda. Falei a ele que nós não tínhamos roupas para tal ocasião, mas ele não se preocupou. O que usarmos não fará diferença.
Ela sentou perto de Sam, que estava perto de Quinn. Santana os olhou, desconfiada, mas não achou nada importante. Durante o almoço, Hanna dissera que Sean queria falar com cada um separadamente para descobrir no que eles eram “bons”. Quinn fora a primeira, demorou um tempo relativamente longo, e voltou no momento que Puck saíra com a filha para anunciar que era a capitã-júnior da dita “polícia”. Santana se perguntou que tipo trabalho Sean lhe arranjaria.
— Oi, gente — cumprimentou Sam, próximo de Quinn, puxando a blusa da garota para cima sem escrúpulos e mostrando aonde escondia as notas de dinheiro do jogo.
Santana assustou-se com a gritaria que seguiu. Quinn exclamava que jamais tinha visto as notas antes; a namorada gritava com ela por roubar embaixo de seu nariz; Sugar tapava os ouvidos de Beth, porque os palavrões eram os mais baixos que Santana tinha escutado na vida. Puck observava tudo com um olhar sonhador (e Santana sabia que ele estava pensando na tal garota, Dany) enquanto Brittany e Harmony se acabavam de rir.
Hanna, por outro lado, observava Santana atentamente. O sorriso que havia em seu rosto era assombroso. Santana chegou a se encolher contra o corpo de Brittany, ainda rindo da confusão que Sam aprontara.
— Você está de alta — murmurou Hanna, porém Santana ainda a escutou sobre a gritaria do grupo.
Ela abriu a boca, em choque. Seu coração por um minuto, porque não ousava acreditar. Hanna não era o tipo de pessoa que brincava com coisas sérias — embora ela tivesse se tornado bem atrevida nas últimas semanas. Alta significava Brittany... significava lua de mel... significava que ela podia derrotar Quinn. Ela poderia transar com sua namorada, e dessa vez sem bebidas ou dores para lhe impedir.
— Vamos — Santana sussurrou no ouvido de Brittany quando as zombarias tinham terminado e Quinn devolvera o dinheiro que roubara para o banqueiro, chateada. Rachel observava a recontagem, lançando um olhar reprovador para a namorada sempre que podia.
— Para onde? — indagou Brittany inocentemente, esperando que Sugar lhe entregasse o dinheiro para começar uma nova rodada.
— Brittany. — Santana chamou a atenção da mulher e a fez olhá-la nos olhos, colocando a cabeça dela entre suas mãos. — Eu. Estou. De. Alta. Hanna me liberou.
A surpresa de Brittany foi tão grande quanto a dela. Ela soltou as notas de dinheiro imediatamente e agarrou a mão de Santana, puxando a garota para que se levantasse. O grupo, sentado em uma roda, olhou-as, surpreso. Santana sentiu o rosto corar, mas não deu explicação. Ela estava ocupada demais subindo as escadas, para poder ter finalmente a sua lua de mel.
Notas finais
E, um anúncio terrível tanto para mim quanto para vocês, que eu esperei até aqui para dizer: este é o penúltimo capítulo da fic. Eu sei, eu sei, nem sei o que escrevo agora, mas vamos deixar tudo para o próximo, beleza?
Beijos e até lá :)
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