Running Away From Hell
19 Cap. XIX — Catching Fire
Notas iniciais
Enfim! Estamos aqui novamente com mais um capítulo e eu quero agradecer a todo mundo que está mandando reviews e lendo e, bem, gostando da fic mesmo em seus altos e baixos. Muito obrigada mesmo e espero que gostem deste capítulo :)
05 de Abril de 2012
Horn Springs, Lebanon, TN
11:15 AM
— Rachel... — murmurou Quinn, as mãos presas no volante, os nós dos dedos brancos. Os olhos estavam fixados na mansão. — Rachel.
O pesadelo estava se tornando realidade, a estranha sensação era terrivelmente correta. Rachel corria perigo, Rachel poderia estar morta. E ela não conseguia se mover, não conseguia respirar direito. Sabia que deveria levantar, mas a ideia de encontrar os restos mortais de Rachel não entrava em sua cabeça.
A ponta extrema da casa estava em chamas; a parte mais perto já desmoronava. As cinzas espalhavam pelo ar, criando uma aterrorizante névoa negra. Os outros três haviam saído do carro, e Quinn podia ouvir Brittany chamando aos berros por Santana, o desespero preso em sua voz. E ela não conseguia nem sair do carro...
— Quinn! — Sam exclamou ao abrir a porta do Cadillac e puxá-la para fora. Segurada pelo garoto, sentiu-se mole. Quinn desviava o olhar choroso dele, as mãos fechadas em punhos. — Acorde, por favor, Quinn! Precisamos de você!
Não, não precisavam, pensou ela. Rachel podia estar morta, qual era a sua função naquele mundo apocalíptico se a razão de continuar vivendo estava morta? Nenhuma. Não vivia agora, custaria a sobreviver. O pesadelo voltava a seus olhos como se fosse tortura.
— Ela não está morta, me escuta! — A voz de Sam e os sacolejos dele pareciam distantes. — Quinn, olha pra mim! Rachel não está morta!
Lentamente, as palavras do garoto foram por ela entendidas. Ela balbuciou algumas coisas, mas teve certeza de que Sam não entendera. Tirou as mãos dele de seus braços e tomou coragem para encará-lo. Ela firmou o corpo e disse num murmúrio esperançoso:
— Ela não está... morta?
— Não — Sam respondeu com firmeza. — Vamos, nós temos que olhar os estragos.
Quinn concordou com a cabeça, sentindo o braço de Sam passar por sua cintura e abraçá-la. Não conseguia chorar, não conseguia sentir. O choque e a moleza do corpo pareciam ter desaparecido e davam lugar a nada, apenas a um olhar fixo seu na mansão destruída.
Não notou, que no caminho, havia vários walkers mortos; alguns arrancados a cabeça, outros simplesmente com as vísceras para fora; os tênis de Quinn pisando em partes cerebrais que ela certamente acharia nojenta em um dia normal. Ela comentaria com Santana o quanto isso era desgostoso e as duas ririam. Seu estômago revirou-se, mas ela ficou sem saber se era por causa das lembranças ou dos pedaços de carne.
Ao chegarem perto da casa, encontraram uma ainda desesperada Brittany gritando por Santana e Hanna tentando acalmá-la. Brittany se sentara no chão, as mãos fechadas em punhos segurando uma grande quantidade de cinzas. O calor era sufocante e o suor começava a brotar da testa de Quinn a medida que ela começava a se aproximar da casa, como se algo a estivesse puxando para ela.
Parou no que antes era o hall de entrada e virou-se para os outros. Apenas Sam a observava. O fogo estava perigosamente perto; o suor que escorria por seu rosto crescia consideravelmente. Os restos do segundo andar ainda estavam de pé. Quinn localizou o berço de Beth a uns dois metros de distância e sua garganta secou.
Beth... Puck a teria salvado, certo? A garota era sua filha também, afinal de contas. Puck era o melhor pai do mundo, mas nem todos iriam se lembrar dos outros em uma situação de perigo. Ela engoliu em seco, arrependida de ter apenas pensado em Rachel. Beth era igualmente sua, ela devia se preocupar com ela da mesma forma com que se preocupava com a namorada.
Um farfalhar embaixo da mesa de jantar destruída ali perto a fez pular assustada. Sobreviventes? Quinn duvidava. Deveria se aproximar? Talvez. Voltou a olhar para o grupo. Sam tentava acalmar Brittany. Eles não importariam se ela avançasse um pouco... Pensando nisso, Quinn arrastou os pés para mais perto da mesa, limpando o suor da testa.
Infelizmente ou não, a mesa não havia queimado completamente e Quinn levou alguns minutos de puro esforço para levantar a madeira fumegante. Os grunhidos tinham se intensificado, implorando, seja lá o que era, para que o tirasse dali. Ao finalmente tirar o pedaço de madeira em cima do ser, ela deu um gritou e sentiu o estômago dar uma volta completa.
Rory grunhia na direção dela, os olhos fundos e a boca manchada de sangue. Mortificado. Zumbi.
Ele ergueu os braços para atacar Quinn, mas a garota estava um pouco mais longe, ainda assombrada com o que estava testemunhando. Tremendo, ela tirou a pistola do coldre e forçou-se a mirar na cabeça de Rory. O tiro fez os outros sobressaltarem.
— Eu sinto muito — Quinn murmurou ao se aproximar do corpo do garoto e passar a mão pelos seus cabelos escuros. A pele pálida dele se escurecia a medida que mais cinzas caíam do céu. Quinn fechou os olhos dele enquanto observava os pingos de suas lágrimas limparem a testa do garoto. — Me desculpe, Rory.
Quinn beijou a testa dele e se levantou, limpando o rosto com as costas da mão. Pelo ar acinzentado, reconheceu as silhuetas dos outros três; Brittany aparentemente se recuperara e estava em pé. Quinn se aproximou deles e informou a razão do tiro.
— Rory... — murmurou Sam, chocado. As chamas diminuíam de forma gradativa, porém as cinzas ainda dominavam tudo. Atrás dela, os restos do segundo e do terceiro andar desmoronavam, enterrando talvez para sempre o corpo do garoto irlandês. — E-ele... e-eu...
— Vamos embora — decidiu Hanna, se apoiando em Brittany.
— Para onde? — retrucou Quinn, por cima do ombro de Sam. — Não nos resta lugar nenhum para ir.
— Você lutava com unhas e dentes para proteger Rachel e o seu grupo. — Hanna apontou para Quinn quando ela se soltou de Sam. — Você era a garota mais corajosa que já conheci e faria tudo para salvá-los. Aquela garota jamais desistiria de encontrar o amor da sua vida.
— Não ouse falar de mim como se me conhecesse — Quinn disse entre tossidas fortes. Era o que tinha para debater, pois sabia que o que Hanna estava falando era a verdade. Ela mudara, masquem não havia? Todos eles lutavam todos os dias para sobreviver, enfrentavam a morta diariamente, quem não perderia as esperanças?
— Quinn, ninguém conhece você de verdade — Brittany falou com a voz rouca e embargada. — Nem mesmo Rachel.
Ela deu de ombros, fingindo não se importar com o comentário, e fixou o olhar em Brittany, quando uma ideia lhe ocorreu.
— O condomínio.
— O quê? — perguntou Sam e Hanna.
— Santana e Puck sabem onde o condomínio fica, eles podem ter ido até lá.
Hanna franziu a testa. Parecia considerar a ideia.
— Vamos lá, então — disse. — É uma opção.
O olhar dela se demorou em Quinn, que a fitava profundamente. Hanna assentiu, virando-se para a estrada e mancando na direção do Cadillac, se desviando dos walkers caídos no chão, seguida de perto por Sam. Quinn forçou um sorriso a Brittany.
— Você não acha que Santana está ali, acha? — ela perguntou, acenando com a cabeça para a mansão desmoronando.
— Não mesmo. Ela é durona.
— Assim como Rachel.
Quinn agradeceu Brittany silenciosamente.
05 de Abril de 2012
Plantation Boulevard, Lebanon, TN
11:46 AM
Brittany não entendia. Ela simplesmente não compreendia.
Como a mansão havia pegado fogo? Os walkers espalhados pelo quintal e pela estradinha eram fáceis de entender, mas um incêndio em uma casa enorme daquela? Incompreensível, até para o seu cérebro.
Brittany estava com medo por Santana. Sua namorada estava no condomínio, tal como Quinn havia sugerido? E os outros, estariam bem? A imagem do segundo andar desmoronando e Quinn contando que Rory estava lá embaixo passaram por sua cabeça. Tentou conter as lágrimas enquanto o Cadillac, dirigido por Sam, avançava lentamente pelas ruas povoadas de errantes decapitados.
A manada havia descido por ali, Brittany deduziu. Ela não sacava como um bando poderia ter chegado tão rapidamente, como eles teriam virado justamente na direção da mansão. Talvez fossem mais dotados, pensou. Uma fórmula nova do CDC que transformava os mortos-vivos em quase seres humanos — em seres inteligentes.
— Eles estão vivos, ela está viva. — Ela escutou Quinn murmurar ao seu lado, as mãos tapando os ouvidos, os olhos fortemente fechados. Balançava-se para frente e para trás, tremendo.
Sem pensar, Brittany puxou Quinn para um abraço, afagando os seus cabelos. A garota sacudia em seus braços, sussurrando o nome de Rachel, implorando para que a garota estivesse viva. Naquele momento, Brittany se esqueceu de Santana e a única preocupação que lhe veio à cabeça foi consolar e cuidar de Quinn acima de tudo.
A corrida até o condomínio não levou mais do que cinco minutos. Sam mantinha a expressão séria, sustentando o olhar em frente. Hanna voltara a ler o diário de Jackson, indiferente a tudo que acontecia a seu redor. Após tanto tempo com eles, Brittany imaginara que ela já criara algum laço, uma conexão com o grupo. No entanto, ela sempre era vista em seu pequeno mundo.
Quinn saiu do Cadillac, se apoiando em Brittany enquanto Hanna e Sam observavam os portões escancarados. Ao seu lado, Quinn limpou as lágrimas e se desvencilhou dela. Manteve-se firme, segurando a mão de Brittany com segurança.
— Nós fechamos os portões antes de sairmos — Sam explicou a Brittany. Quinn concordou com a cabeça. — O cadeado foi arrancado a tiros, não podem ter sido os walkers.
— Eles estão em algum lugar ali dentro — completou Hanna séria. — Vamos.
Eles embrenharam pela rua principal lentamente com o Cadillac, cada um com os olhos fixados em uma janela do carro, procurando por algum sinal de outros seres humanos. Hanna os guiava, pois os outros dois aparentemente haviam se esquecido do mapa do condomínio.
O silêncio era absoluto. Qualquer farfalhar vindo de um arbusto ou um grunhido característico de walkers ganhava total atenção deles por alguns segundos. A cada metro ultrapassado, Brittany podia sentir que estava perto de Santana. O alívio que sentiria ao encontrá-la...
— Vocês estão ouvindo? — disse Quinn, a voz saindo um pouco mais alta que o normal.
Brittany franziu a testa para ela.
— Ei! — exclamou Sam de repente, apontando para algum ponto além da visão de Brittany. — Aqueles ali não parecem walkers.
— Tem razão — concordou Hanna, tirando os olhos do diário. — Andam retos demais.
Brittany colocou a cabeça para fora do carro a fim de ver o que os dois tanto observavam. Um pouco de longe, duas silhuetas andavam, de fato, eretas demais para serem mortos-vivos. Seu coração se encheu de esperança. Seria Santana ou alguma outra pessoa do grupo?
— Eles estão se aproximando... — murmurou Quinn ao seu lado, puxando o ferrolho de sua pistola e mirando nos pontos que poderiam ser humanos, cada vez mais perto do carro.
— Quinn, espere! — sussurrou Brittany, fazendo a garota baixar sua guarda. — Talvez sejam os garotos.
Emburrada e com as mãos tremendo, Quinn guardou a pistola de novo no coldre. Sam, por outro lado, continuava com a sua empunhada. Antes que Brittany pudesse impedi-lo de fazer alguma besteira, uma voz conhecida invadiu seus ouvidos.
— Gente, calma! Armas para baixo! — Era Puck, a quatro metros de distância. Ele acenava freneticamente. — Cara, ainda bem que vocês nos acharam! O sufoco que passamos nessas últimas horas...
Se não fosse pela voz, Brittany certamente não o teria reconhecido. Sua cabeça estava encoberta por uma gaze amarelada, respingadas por gotas de sangue. Seu moicano estava rapado pela metade, restando dele somente um pequeno pedaço na parte de trás de sua cabeça. Uma parte de seu tronco também estava enfaixada, o que fazia Puck parecer uma múmia punk com a jaqueta de couro que usava.
Ao lado dele, Santana sorria sofregamente, mas intensamente, ao perceber que a namorada continuava sã e salva. Brittany ofegou ao ver o estado que Santana estava, com medo de abraçá-la e poder perder o resto da felicidade e cor que inundava seu rosto.
— Ela... Ela... — A voz de Quinn sumiu enquanto acompanhava Brittany para fora do carro. — Santana...
As duas correram para a garota, sem saber o que dizer ou fazer. A outra apenas deu de ombros, mas, ao fazer isso, seu corpo tremeu todo e ela soltou um palavrão acompanhado de uma careta de dor.
— Que bom que você voltou, Britt — Santana se esforçou a falar, sorrindo de novo e fracamente. Ela apertou os lábios de Brittany, ainda chocada, contra os seus.
O braço direito de Santana estava enegrecido e dois de seus dedos da mão direita haviam sido queimados no incêndio. A pele dela estava amarela; podia ver em seus olhos que deveria estar em repouso. A gaze, que cobria o curativo de Puck, também estava sendo usava na mão dela.
Brittany mordeu o lábio, sentindo as lágrimas se formarem. Ela a mostrara que não estava se importando com os ferimentos, como se não estivesse doendo — pois tudo o que importava a Santana era tê-la de volta. Brittany prometeu a si que jamais a deixaria sozinha de novo.
— Vocês estão pálidos — observou Hanna, analisando Santana e Puck. — O que diabos estão fazendo fora da cama?
— Tive um pressentimento e obriguei Puck a vir comigo — disse Santana, parecendo culpada. Depois, olhou para Brittany, e toda a dor em seus olhos sumiu por um segundo. — Não importa mais.
— Importa, sim! — exclamou Hanna, tocando no braço enegrecido de Santana delicadamente. — Você está... você perdeu metade da mão, pelo amor de Deus! Quem fez esses curativos?
— Harmony — respondeu Puck, animado. — Ela falou que a mãe dela era médica ou coisa do tipo.
— Todos estão bem? — indagou Quinn, preocupada. Porém, tudo o que Brittany ouviu foi: Rachel está bem?
— Beth está salva e sem nenhum ferimento — respondeu Puck. — Harmony escapou por um triz. Sugar queimou somente as sobrancelhas. E Rachel...
Puck fez uma pausa dramática. Brittany teve que segurar Quinn para que a garota não pulasse nele, desesperada por notícias.
— Bem, ela está ótima, tirando uma pequena queda do...
Os olhos de Quinn se arregalaram; ele se atrapalhou nas palavras.
— Esquece. Vamos para a casa que arrombamos; é perfeita para o momento, era de um médico.
Quinn bufou em desespero e seguiu o garoto a pé. Sam e Hanna voltaram ao Cadillac. Dirigiam sem pressa, comboiando tranquilamente os dois. Restaram somente Brittany e Santana. Ela fixou o olhar na mão enfaixada e escura de Santana, engolindo em seco.
— Isso não é nada, Britt-Britt — Santana disse, piscando para ela. — Acredite, eu não posso morrer por isso. Tantas mortes heroicas num apocalipse zumbi e me matam dessa forma? Não é o que acontece em Lima Heights, me desculpe.
— Estamos no Tennessee — retrucou Brittany, confusa.
— E daí? — Santana cutucou a barriga da namorada com a mão esquerda, soltando uma risada fraca. — Não vou negar de onde eu sou.
Brittany entrelaçou seus dedos nos de Santana e seguiu os outros, que já viravam a esquina. Olhou apaixonadamente para a namorada, e disse:
— Ainda estamos noivas, lembra-se?
Santana riu.
— Como se esquece de que estou noiva da garota mais linda do mundo?
05 de Abril de 2012
Plantation Boulevard, Lebanon, TN
12:03 PM
Rachel. Puck tinha dito que eles estavam perto da casa arrombada, mas eles não chegavam nunca. Rachel. O garoto contava algumas piadas; ela respondia com acenos de cabeça. Rachel. Puck perguntava sobre a cidade, como estava. Rachel. Quinn não conseguia responder.
Rachel. Puck perguntou se estava tudo bem. Rachel. Claro, estava; ele não tinha percebido? Rachel estava viva, esperando por ela. Quinn a veria novamente, ela desejava sem nenhuma injúria ou algo do tipo. Ela não queria mais nenhum sofrimento na vida delas, nenhum a mais.
— Ei, a nossa casa é essa ali! — exclamou Puck, apontando para uma mansão enorme, estupidamente maior que a de Sam. Tomava uma parte do quarteirão e tinha quatro andares.
Os olhos de Quinn brilharam. Rachel estava ali.
Sam enfiou o carro na garagem e começou a tirar os suprimentos que eles tinham adquirido em Nashville. Brittany vinha ralhando com a namorada o caminho inteiro, brigando por ela não seguir as ordens de repouso dadas por Harmony. Hanna continuava presa em seu diário, e, como sempre, ignorando as cantadas clássicas de Puck. Quinn não deu a mínima para nenhum deles. Rachel era o que precisava.
— Espera garota, eu vou te guiar — Puck disse, desviando o olhar de Hanna e correndo para uma Quinn afobada, que seguia para dentro da casa.
— Rachel! — Quinn gritou desesperadamente, apertando as mãos em punhos. Não houve nenhuma resposta.
Quinn não reparou no hall detalhado ou na sala de jantar enorme. Ela queria ver Rachel, ela precisava ter Rachel em seus braços naquele momento. Ela correu os olhos pelo cômodo e parou, cansada. Harmony, que dava uma colherada de alguma coisa estranha para Beth, encarou-a, assustada.
— Quinn! — exclamou surpresa, pousado o prato da garotinha na mesa. Beth sorriu e bateu palmas, como se reconhecesse a mãe. — Eu... Que bom que vocês voltaram! Rachel...
— Ela está bem? — perguntou Quinn, distraída por um momento ao ver Beth e seu ataque de risadas. Pelo menos, uma de suas paixões estava bem.
— Sim, sim — respondeu Harmony, voltando a alimentar Beth. — Ela está ótima. Só sofreu uma queda durante o incêndio, mas, bem...
Ela deu de ombros, enquanto Quinn perdia o fôlego. Rachel caíra, novamente? Essa fora a razão de ela ter entrado em coma, em primeiro lugar, e todo mundo estava agindo como se fosse normal. O trauma dos ferimentos e o acidente ainda sem explicação deveriam ter causado uma baita de uma contusão nos cérebros deles.
— Segundo andar, segunda porta à direita — Harmony respondeu aos pensamentos de Quinn antes mesmo que ela pudesse formulá-los.
Quinn pulou pela escada de dois em dois degraus e, em menos de cinco segundos, chegou ao segundo andar. Mais uma vez, ela ignorou a decoração vintage, e tudo de mais sofisticado que havia no corredor. A única coisa com que se importava era ver Rachel bem.
Ela abriu a segunda porta à direita no corredor e parou de chofre. Rachel dormia embaixo de cobertores fofos, e tão tranquila e calma que ela quase se arrependeu de ficar preocupada por causa de sua saúde. A garota fechou a porta da forma mais silenciosa que pôde, mas a janela aberta a entregou, fechando-a com um estrondo.
— O que foi? O que tá acontecendo? — Rachel acordou de repente num salto, uma pistola em mãos, mirando em Quinn.
Quinn arregalou os olhos e levantou as mãos, surpresa. Rachel ao reparar quem era, abaixou a arma e franziu a testa. Ela coçou os olhos, não parecendo acreditar; do outro lado, porém, Quinn abrira um sorriso enorme e aliviado. Rachel...
— Eu disse que voltaria — Quinn sussurrou feliz, se aproximando da cama. Rachel engatinhou sobre ela para chegar perto da namorada. — Oi.
— Ei.
Elas se encararam em silêncio por vários minutos. Suas mãos se entrelaçaram quase que automaticamente ao ficar perto o bastante uma da outra. Antes que Quinn pudesse pensar em fazer outro movimento, no entanto, Rachel pulou em seus braços, apertando-a contra seu corpo. Não chorava, não expressava nenhuma emoção. Somente queria que os braços de Quinn estivessem ao redor dela novamente.
— Tudo vai ficar bem — Quinn tentou consolar a garota, afagando seus cabelos. — Vai acabar tudo bem.
— Você disse que nos tiraria dessa — Rachel disse, soltando-se de Quinn e colocando o rosto dela entre suas mãos. Quinn nunca a tinha visto tão madura, como se as poucas horas em que estavam sozinhas a tivesse mudado completamente. — Nunca tive tanta esperança nisso da mesma forma que estou tendo agora.
O beijo foi desesperado, silenciador. Quinn sentia falta dos lábios de Rachel, sentia falta da forma de como ela puxava seus cabelos róseos, da forma que ela gemia enquanto mordia seu lábio. Sentia falta de como seus corpos se uniam perfeitamente, de como o ar parecia condensar ao redor delas quando estavam juntas.
— O que houve com a casa? Por que ela pegou fogo? — perguntou Quinn no ombro de Rachel, sem fôlego por causa do beijo.
Rachel permanecia séria. Nada poderia atingi-la, e Quinn apenas queria saber por que.
— Mais tarde. Vamos nos reunir, e assim nós contamos tudo.
Quinn nunca a vira tão decida. Em razão disso, ela não discordou.
05 de Abril de 2012
Plantation Boulevard, Lebanon, TN
07:26 PM
A atmosfera durante o jantar daquela noite era de felicidade. Lembrava Rachel o primeiro jantar que tivera na mansão de Sam, há tanto tempo atrás. É claro, naquela época, eles tinham Mercedes e Rory...
Rachel engolia sem esforço o conteúdo de uma latinha de ervilhas que Quinn e os outros haviam trazido de Nashville. Metade das comidas deles tinha se perdido no incêndio, o que significava outra vasculhada no condomínio. Todos estavam inexplicavelmente em silêncio, incluindo Beth, que dividia o enlatado de batatinhas com Quinn.
Ela estava apenas esperando a pergunta. Todos eles queriam falar ao mesmo tempo, mas precisavam de um incentivo. Rachel sabia que se começasse a falar, não pararia; as lembranças da noite anterior tinham que sair dela de alguma forma. Olhou para Quinn e apertou a mão dela que não alimentava Beth. Tinha que saber o que acontecera na cidade.
— Tudo bem... — disse Sugar, levantando o que antes deveria ser suas sobrancelhas. Agora, apenas restavam alguns fios dourados. — Eu acho que deveríamos começar a falar, certo?
Puck, duas cadeiras distante de Rachel, concordou.
— Quem vai primeiro? — perguntou.
Rachel e Quinn se entreolharam, nervosas. Queria ir logo, tirar o peso que estava em suas costas. Ela queria contar para Quinn que conseguira se cuidar longe dela, que matara zumbis e protegera Beth e quase todo mundo — não como queria, mas fora um grande avanço.
— Só nos conte como a casa incendiou — pediu Brittany cansada. Ela estava sozinha, pois Hanna estava aplicando algo nas queimaduras de Santana.
Rachel respirou fundo. Lembrava-se vividamente da noite anterior. Dos gritos dos outros, dos gemidos dos walkers preenchendo o quintal, atravessando a cerca que outrora fora segura... Do barulho de explosão vindo do terraço, do fogo abrindo caminho pelo terceiro andar...
Um arrepio percorreu o corpo de Rachel. Ela e Santana estavam no terceiro andar e foram as primeiras a ouvir a explosão. O tempo que tiveram para arrumar o kit de primeiros-socorros de Hanna foi mínimo. Em poucos minutos, o fogo consumia a parte de cima da mansão. Elas só correram pelo corredor do segundo andar avisando a todos.
— O gerador — murmurou Brittany, interrompendo Rachel. — Foi isso. Ele explodiu. Mas como?
— Temo dizer que tenho culpa nisso — Puck disse envergonhado. — Eu não sabia qual era a dose da gasolina, pus o que achei que fosse. E-eu... estaríamos ainda morando lá se não fosse por minha estupidez.
Puck dissera isso o caminho inteiro até o condomínio. Culpava-se pela morte de Rory e pelo incêndio. Rachel não pudera evitar e encarar o garoto chorando, enquanto matava os zumbis que ganhavam território sobre a mansão. Não era culpa dele, mas não adiantava dizer: Puck era tão cabeça dura quanto Quinn, levaria essas coisas para o túmulo.
Brittany não ficou brava. Na verdade, a garota mal falou durante a explicação de Puck, incluindo alguns pequenos detalhes de Harmony, sobre a manada de walkers que avançou pela região. Rachel tinha que admitir que o terror de ver a mansão em chamas não se comparava ao montante de errantes que atravessava a estrada de terra bem em frente.
— Isso tudo... — Quinn mal conseguiu pronunciar as palavras — tá tudo muito confuso. O que aconteceu primeiro?
Rachel suspirou, ainda apertando a mão de Quinn firmemente. A garota continuava a alimentar Beth, distraída com os fatos jogados em cima da mesa.
— Santana e eu estávamos no terceiro andar; eu creio que era por volta das quatro da tarde... — começou Rachel, sentindo toda a atenção dos garotos se voltar a ela. — Enfim, estávamos arrumando o quarto de Hanna, já que ela finalmente estava fora e podíamos dar um jeito nele.
Naquele momento, Hanna entrou na sala de jantar, e arqueou as sobrancelhas para Rachel. Ela sorriu acanhada, mas não envergonhada. O quarto da garota era mesmo uma bagunça e alguém precisava limpá-lo.
— Acho que não nos precisamos nos preocupar com isso mais, né — Hanna disse bem-humorada, sentando-se ao lado de Sam, o caderno misterioso dela ainda em mãos. Ela pegou uma das latinhas da mesa e acenou para que Rachel continuasse a história.
— Foi quando nós ouvimos uma explosão acima de nós. Santana me olhou e perguntou o que estava acontecendo, por que algo explodiria em cima da gente. E então pensamos, “o gerador”. De alguma forma, ele era a coisa que explodira.
“Corremos para a porta que dava ao terraço; entretanto, estava bloqueada. O fogo estava chegando perto da gente. Santana disse para correr e pegar o kit de primeiros-socorros de Hanna e mandar os outros fugirem da mansão. Ela ficou para tentar conter o fogo. Foi assim que... Bem...”
Rachel não terminou, apontando estupidamente para os dedos de sua mão entrelaçada com a de Quinn. A garganta secou. Se ela tivesse esperado por Santana só mais alguns minutos, talvez forçado a garota a ir com ela, que tentar apagar aquele redemoinho mortal era loucura... Ela olhou para Brittany, pedindo desculpas silenciosamente.
— Nós pegamos o que podíamos — ela continuou. — Comida, uns revólveres, qualquer coisa que poderíamos carregar na mão. Puck pegou Beth enquanto corria com Rory.
— Vocês não fazem ideia do quanto isso pode se espalhar tão fácil — Puck interrompeu, a voz embargada. Logo, já estava chorando dentro de seu enlatado. Sugar tentou consolá-lo, porém sem sucesso. — Rory... ele tropeçou no corredor, não sei o que aconteceu direito. Quando eu vi, estava fora da casa, com Beth nos braços, mas ele não estava atrás de mim.
— À essa hora, o fogo já tinha consumido grande parte do terceiro e do segundo andar — falou Sugar, por que o garoto parecia incapaz de dizer qualquer coisa. — Puck voltou para tentar achá-lo. Só acabou com essas queimaduras e metade do cabelo arrancado.
— Estávamos fracos, machucados e alguns em carne viva — disse Rachel, se referindo a Santana. — Puck pensou no condomínio, onde a Hanna morava. Qualquer coisa era melhor que nada, quando ouvimos o portão da cerca ranger. Alguns minutos depois, ranger mais e mais forte. Nos vimos presos, cercados por uma casa em chamas e uma manada de walkers. Era o incêndio ou a mordida.
— Pelo menos com a mordida você tem a chance de lutar — disse Sam, muito quieto até então.
Rachel concordou com a cabeça.
— Sua namorada foi o máximo, Quinn — Puck comentou com um sorriso antes que Rachel pudesse continuar. O garoto erguera a cabeça e enxugava os olhos vermelhos. Quinn levantou a sobrancelha para ela, abrindo um sorriso maroto. Rachel corou.
— Não fui, fiz o que eu pude.
— Bem, você fez espetacularmente — Harmony retrucou, séria. — Quinn, seja lá o que você tenha ensinado a ela, ensinou muito bem.
Rachel revirou os olhos. Quinn não ensinara muita coisa. Ela era Rachel Berry, aprendia as coisas observando, fixando o olhar nas mãos e nos movimentos da pessoa. Gostava de passar horas vendo Santana e Quinn matando os walkers na cerca, apreciando cada movimento delas. Assim, quando chegasse a hora, não precisasse ser uma completa boba, ela saberia o que fazer.
— Eu gostaria de pegar os créditos pelo maravilhoso desempenho dela, obrigada — Quinn anunciou, e todos riram. Ela se inclinou e deu um selinho em Rachel.
— Idiota — Rachel murmurou perto dos lábios da namorada.
— Heroína. Minha heroína — disse Quinn, se afastando da garota.
Rachel corou outra vez.
— O que importa é — ela prosseguiu, pigarreando — que a cerca foi derrubada pelos errantes e nós tivemos que ultrapassá-los para que pudéssemos sair. Foi uma sorte tamanha todos nós termos sobrevivido. Santana estava muito fraca e Puck estava prestes a desmaiar. E Beth... — Rachel suspirou, olhando para a criança ao lado da namorada. — Ela estava nos braços de Harmony, quase com um facão na mão também.
— Não foi nada. — Harmony deu de ombros, as orelhas ficando vermelhas. — Você era a garota que parecia mais um furacão.
Rachel não pensava daquela forma. Ela matara muitos walkers, é claro, mas estava carregando duas armas e um facão. Harmony estava com Beth nos braços e fazia um trabalho perfeito. Puck estava perdendo sangue e ainda assim matava com a mesma fibra de antes. Santana, a garota que dera, em outros termos, a pele por Rachel, era mais corajosa em todo o campo. Ela não se importava com walkers tentando arrancar seu braço direito ou os dedos que lhe restavam, ela só queria sair dali e levá-los para um lugar seguro.
— Chegamos ao condomínio era tarde da noite. Havia quase dois mil walkers na manada. — Quinn arregalou os olhos, surpresa; Brittany apenas assentiu, como se algo finalmente tivesse feito sentido. Sam, por outro lado, observava o caderno de Hanna por cima de seu ombro. — E, incrivelmente, eles não tinham entrado aqui. Quer dizer, tinham os que já estavam aqui, os moradores, mas não havia nenhum novo.
Rachel franziu a testa para Hanna. Ela sentia que o caderno que a garota tanto lia nas últimas horas continha alguma das respostas que precisavam. A grande razão de eles terem ido a Nashville estava bem ali na sua frente.
— Os walkers de Nashville não são mais dotados que os outros, certo? Quase como se fossem seres humanos — indagou Brittany para Hanna.
— Não exatamente — respondeu Hanna, levantando os olhos. A atenção que Rachel recebia foi direcionada a ela. — Jackson diz que os testes para um novo vírus, um que cancelasse o que nos transformava em walkers, jamais foi para frente. Uma ou duas espécies poderiam ter sido soltas, mas ele nunca chegou a saber no que deu.
— Talvez ainda tivessem o desejo de comer carne humana, porém com um cérebro humano — disse Sugar, distraída. — Cara, essa coisa seria um problema dez vezes maior.
— Quase como canibais — completou Puck, pensativo.
— Pior que canibais — corrigiu Hanna, folheando o caderno. — A pior coisa que poderia nos acontecer: um walker com cérebro e também um desejo insano por cérebro. Mais rápidos, prevendo os ataques, uma grande máquina de luta. Conseguem imaginar isso?
Rachel acenou afirmativamente. Mas ela se lembrava dos walkers da noite anterior. Ainda eram burros e lentos. Não eram nada especial, pelo menos não da forma que Hanna estava descrevendo. No entanto, a pequena possibilidade de uma nova raça melhorada de walkers estarem andando por aí era aterrorizante.
— Além dessa boa notícia — disse Quinn sarcasticamente —, tem algo a mais no diário do doutor?
— Algo certamente interessante e que vale mais do que ficar aqui para sempre — comentou Hanna com um meio sorriso. Rachel nunca a vira tão alegre. — Um... lugar.
Quinn ficou ereta na cadeira, os olhos arregalados. Brittany fez o mesmo. Rachel olhou para Puck, se perguntando o que a garota queria dizer com aquilo. Uma nova viagem? Bem, aceitaria qualquer coisa para sair dali; já estava acumulando lembranças terríveis daquele local. Ela só esperava tempo para que Santana e Puck se recuperassem.
— “Consegui uma videoconferência com minha mulher hoje.” — Hanna começou a ler. — “Ela continua maravilhosamente linda. Tenho que me lembrar de agradecer aos garotos mais jovens aqui por terem o GPS e algumas coisas via satélite ainda funcionando. Onde Mary está é meio longe de Nashville, mas aqueles meninos são uns gênios. Pena que Hanna não está aqui, sinto falta dela. Porém ela irá voltar um dia, tenho plena certeza. Não tenho esperanças de viver, mas ela vai achar a Cura. Em Germantown, o abrigo está dando certo. Espero que Hanna possa ir para lá um dia.”
Ela fechou o caderno e abriu um sorriso enorme, encarando Sam com uma expressão vitoriosa. Os outros permaneceram em um silêncio que perturbou Rachel.
— Germantown? — Puck foi o primeiro a falar. — Onde fica isso?
— Umas cinco horas daqui — Hanna respondeu feliz. — É onde o nosso abrigo está. Onde podemos começar a reconstruir tudo o que nós perdemos.
Notas finais
Ah sim, e se alguém quiser falar comigo, podem mandar mensagem aqui no Nyah mesmo, ou no Tumblr e no Twitter - eu diria para me mandar uma ask no Tumblr, pois eu quase não entro no Twitter (que vocês podem encontrar no meu perfil aqui)... Obrigada a todo mundo que leu o capítulo, deixem seus reviews e sugestões.
Vejo vocês no próximo, beijos :*
Fale com o autor