Running Away
6 Capítulo 5 - Use Somebody
Notas iniciais
I've been roaming around
Always looking down at all I see
Painted faces, fill the places I can't reach
You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you, and all you know, and how you speak
Countless lovers under cover of the street
You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you
(Use Somebody — Kings of Leon)
Oliver Queen
Se alguém me perguntasse eu negaria isso, mas eu estava verdadeiramente preocupado com Felicity.
Ergui meus olhos para o relógio de parede da cozinha que marcava uma hora da tarde. Ela já deveria ter acordado, eu sei que ambos havíamos chegado durante a madrugada e que ela havia trabalhado muito no bar, mas ainda assim ela tinha tido tempo o suficiente para dormir e descansar. E tendo como base as últimas semanas de convivência percebi que Felicity não fazia o tipo dorminhoca, então por que ela ainda não acordara? Eu estava em uma luta interna entre abrir a porta de seu quarto apenas para verificar se ela estava bem e se precisava de algo, ou me conter e ficar aguardando por um pouco mais de tempo.
A primeira opção era a mais tentadora. Entrar em seu quarto, vê-la deitada sobre a cama com seus cabelos espalhados e vestindo pouca roupa ou com sorte quem sabe até mesmo nenhuma. Eu me aproximaria lentamente, tomaria meu tempo observando suas curvas, seus seios subindo e descendo pela respiração tranquila de quem dorme despreocupadamente. Talvez eu me atrevesse a afastar seus cabelos de seu rosto testando em meus dedos a textura suave que pareciam ter, sentaria em sua cama olharia seu semblante leve e livre de todo aquele ar petulante que ela sempre adquiria quando estava perto de mim, e então eu a acordaria de uma maneira bem provocante, inclinaria meu corpo em direção ao dela e sussurraria algo pecaminoso em seu ouvido apenas para ver seus olhos se arregalarem em surpresa ao me verem ali tão perto, suas bochechas se tingiriam daquele vermelho delicioso, e seus lábios pronunciariam uma sequência de palavrões enquanto ela me expulsaria do seu quarto irritada.
Eu adorava a irritar, gostava de ver sua reação, ela ficava ainda mais linda e deliciosa quando brigava comigo, eu gostava de como seus olhos ganhavam vida, se tornavam duas labaredas de fogo prontos para me queimar vivo. Ela poderia negar, mas eram nesses momentos em que ela perdia o controle e eu via toda a atração que Felicity sentia por mim, e que desesperadamente tentava esconder. Mas sabiamente eu escolhi a segunda opção. A opção a qual eu não corria o risco de em meio a uma discussão boba, deixar me levar por aquela atração, puxá-la em meus braços firmemente colando cada curva do seu corpo pequeno junto ao meu e então provar de seus lábios carnudos que me pareciam sempre tão convidativos.
Infelizmente e contrariando tudo em mim, eu escolheria a segunda opção e seria o cavalheiro que deixaria a bela adormecida dormir um pouco mais. Até porque eu ainda estava incomodado com algo.
Eu fiquei inquieto com o comportamento dela na noite anterior, era quase como se ela não estivesse realmente presente. Desde o momento em que Helena lhe entregara a rosa uma luz em Felicity se apagou, ela mal me ouvia apenas concordava com tudo o que eu dizia assentindo fracamente. O que havia de errado? Felicity nunca concordava comigo. Ela se irritava, discutia comigo, me chamava de idiota ou me provocava. Esse era o seu estado normal. Era, de certa forma uma das muitas coisas que me atraia nela.
Todas as minhas tentativas de chegar até ela se mostraram frustradas. Felicity simplesmente havia murchado, e quando chegamos ao apartamento não foi diferente. Ela simplesmente se recolheu ao seu quarto me lançando um cordial boa noite.
Eu fiquei tão chocado que inclusive resolvi adiar a conversa sobre o tal “emprego” dela. Não havia a menor chance de eu permitir que ela continuasse lá. Helena era uma boa pessoa e o bar possuía uma boa índole, mas simplesmente aquele lugar não era para Felicity.
Eu passei a manhã inteira elencando motivos para que ela não trabalhasse no bar de Helena, pensando em uma forma de convencê-la a desistir. O horário era péssimo, ela voltaria para casa durante a madrugada e embora fosse relativamente perto o suficiente para fazer o percurso a pé, as ruas eram mal iluminadas, ela poderia ser assaltada. Eu sabia que estava exagerando, o bar ficava próximo a delegacia e aquela região era uma das mais seguras da cidade, mas Felicity não precisava saber disso. Pensei em até mesmo em falar com alguns conhecidos e conseguir um emprego em outro lugar, se ela fazia tanta questão assim de trabalhar.
Exclui da minha lista, é claro, o único motivo real que me fazia querer mantê-la longe daquele lugar: eu não conseguia lidar com aquilo. Pensar nos homens bêbados que eram frequentadores assíduos do bar, e que não se intimidariam pelo olhar bravo dela, muito pelo contrário encarariam isso como um desafio e não hesitariam em usar suas mãos bobas, me deixava em um nível de ira quase irracional.
Será que ela não via que merecia mais do que isso? Mais do que servir bebidas para um bando de homens que fariam de tudo para transar com ela?
Além do que, eu não poderia estar sempre presente para livrá-la desses libertinos. E o que aconteceria se um deles a encurralasse em um beco escuro durante a madrugada? O simples pensamento me deixava irado, e reforçava a ideia de que eu precisava convencê-la a procurar outra coisa para fazer.
— Bom dia. — Felicity saudou assim que entrou na cozinha. Ela era uma visão e tanto quando acordava, tão linda que me arrependi de não ter ido em seu quarto. Seus cabelos estavam bagunçados e jogados por um lado do ombro, ela vestia nada mais do que shorts curtos e uma blusa de um super-herói com arco e flecha.
— Você está bem? — não segurei minha preocupação ao despender um olhar atento a ela. Seu rosto estava lívido, as bochechas coradas que tanto me deliciavam haviam desaparecido, seus olhos pareciam confusos e os pequenos círculos escuros embaixo deles diziam-me que apesar de ter se levantado tarde Felicity não havia dormido muito, ou pelo menos o sono não tinha sido satisfatório.
— Eu pensei muito e acho que deveria conversar com você sobre algo. — ela disse, ignorando minha pergunta sobre o seu bem estar. Concentrei meus olhos em seus passos que vinham hesitantes em minha direção, suas mãos apertavam uma a outra deixando claro o quão nervosa ela estava. Minha experiência como policial me dizia que algo estava muito errado.
— Sobre o que você quer conversar? — tentei soar o mais tranquilo e aberto possível, encostei-me na bancada da cozinha de uma forma casual, não transparecendo o quanto eu queria que ela se abrisse comigo.
Felicity por sua vez parecia estar em uma luta interna. Como se quisesse me dizer alguma coisa, porém estivesse com, não sei se a estava lendo corretamente, mas aquilo parecia medo. Sim, algo acontecera e deixara Felicity apavorada.
— Você tem falado com meu tio? — sua pergunta soou um pouco trêmula — Eu tentei falar com ele a madrugada inteira, deixei várias mensagens e ele não me retornou ainda. — Eu sabia que não era aquilo que ela queria conversar exatamente, era mais como se Felicity estivesse indo pelas beiradas antes de chegar ao assunto principal. Mas aquela pergunta me abriu os olhos para algo, Felicity estava desesperada para falar com o tio, seja lá o que tenha acontecido diante da falta de respostas dele ela decidira me procurar.
— Ele deve estar bem — tentei tranquilizá-la — Provavelmente está em alguma operação da polícia de Gotham e por isso ele não pode atendê-la. É isso que está a afligindo? Está preocupada com o seu tio?
— Não. — negou rapidamente, fechando os olhos e balançando a cabeça — Quero dizer, é claro que estou preocupada com ele, mas não era exatamente sobre isso o que eu queria falar com você. — seus olhos se ergueram para os meus, sondando-me, como se verificassem se eu era digno de sua confiança — Na verdade eu queria falar com você sobre o que me fez mudar para Starling City. — apenas observei atento e esperei enquanto Felicity tomava uma respiração longa e profunda. — Há pouco mais de um ano eu estava na faculdade e... — antes que ela pudesse continuar, seu celular começou a tocar a interrompendo — Tio Gordon! — Felicity atendeu a ligação parecendo verdadeiramente aliviada — Sim, eu estou bem. Eu queria falar com você sobre aquele assunto de Metrópoles, você tem certeza de que ele está...
Não consegui ouvir mais da conversa dela com o Gordon, pois assim que atendeu ao telefone Felicity se afastou indo em direção ao quarto dela. Sua atitude era suspeita, Gordon tinha sido muito vago comigo quando pediu para que eu cuidasse de Felicity, não me disse o porquê dessa mudança, mas deixou claro que era de suma importância. De certa forma eu presumi que ela era apenas uma típica garota problema, que estava precisando se afastar de alguma confusão. Mas agora analisando melhor o comportamento dela eu estava começando a achar que talvez estivesse errado.
Controlei a minha vontade de escutar por trás da porta, o policial em mim estava clamando por algumas respostas. Mas eu queria que Felicity viesse até mim e me dissesse o que estava acontecendo, não sei por que, mas eu queria merecer essa confiança.
— Tio Gordon mandou lembranças. — disse, tão logo voltou a cozinha. Fiquei satisfeito ao perceber que ela parecia melhor, menos abatida embora ainda houvesse certa escuridão nublando os seus belos olhos azuis.
— Então ele está bem. — comentei casualmente, esperando que Felicity continuasse de onde paramos.
— Sim, estava em uma operação da polícia e esqueceu o celular em casa. — esclareceu, por algum motivo evitando o meu olhar.
— Como eu disse. — ressaltei convencido ganhando um pequeno sorriso dela — E você parece mais calma. — acrescentei.
— Sim, eu só estava preocupada com ele. — ergui uma sobrancelha descrente. O comportamento de Felicity e até mesmo suas palavras haviam deixado claro de que não era isso, algo havia acontecido, algo que até certo ponto a deixara desesperada para conversar com o tio. Algo que a fizera, por um momento abaixar todas as barreiras e recorrer a mim.
— Felicity — a chamei num tom condescendente, quando notei suas intenções de dar a conversa por encerrada — Nós ainda não terminamos de conversar. — Ela virou-se para mim — Você disse que ia me contar algo, e isso parecia importante. — a respiração de Felicity se tornou irregular e a vi forçar um pequeno sorriso antes de me dirigir as palavras.
— Não era nada. — negou altiva.
— Não parecia ser nada. — desencostei da bancada me aproximando dela a passos lentos — Você parecia com medo de algo. — parei a um passo de distância dela fixando meus olhos nos dela. Eles eram de um azul tão límpido que por um momento me desnortearam. Num movimento inconsciente coloquei uma de minhas mãos sobre o seu ombro, nem percebi que tentava confortá-la com o meu toque. — Eu não consigo te entender, em um momento você age como uma garota mimada que não precisa da ajuda de ninguém e no outro momento tudo o que eu vejo é uma jovem assustada. — assim que eu terminei de falar vi o semblante de Felicity mudar ela segurou a respiração, seu corpo inteiro adotou uma postura mais rígida.
— Você está certo, Oliver, eu sou uma garota mimada. — ela ergueu o queixo em desafio e sua postura se tornou mais ereta — Eu me meti em confusão quando estava em Gotham e tio Gordon achou melhor que eu ficasse longe por um tempo, então ele me mandou até você.
— Por que será que eu não estou comprando mais essa atitude? — minhas palavras a deixaram um pouco desconfortável, a expressão em seu rosto permaneceu impassível, difícil de se ler, mas seus olhos, seus olhos não eram bons mentirosos.
— É a verdade. — não, não era. Eu sabia disso porque no instante em que as palavras saíram de sua boca ela desviou o seu olhar do meu dando-me as costas. Movido pela vontade de confrontá-la e também de concluir aquela conversa eu desci minha mão até seu pulso, forçando-a a girar em minha direção.
Estanquei abruptamente, não porque meu movimento fizera com que Felicity se aproximasse de mim tanto que quase colidimos. Não, não foi isso. Embora a proximidade do seu corpo me provocasse um desejo quase irracional de puxá-la contra meu corpo, naquele instante eu me vi atraído por outra coisa. Uma cicatriz. Eu a senti no instante em que toquei seu pulso. Girei seu braço para cima, deslizando o polegar pela linha reta que seguia até quase a metade de seu antebraço, ela era perfeita demais, como se Felicity tivesse feito aquilo a si mesma.
Senti Felicity estremecer com meu toque.
— O que é isso? — a questionei num tom fitando-a intensamente, eu já tinha visto marcas assim antes e isso nunca terminava bem.
— Não é nada. — Felicity disse tentado puxar o braço de meu aperto. Não permiti que se soltasse. Não permitiria que ela fosse até que ela me explicasse exatamente o que aquilo significava.
— Felicity, você fez isso a si mesma? — ela recuou dando um passo para trás, parecendo assustada. Não era para menos, eu não estava sendo apenas indelicado, meu tom era duro, meu aperto era firme eu estava sendo brusco e extremamente estúpido com ela. Porém em minha defesa, esse assunto mexia comigo de uma forma irracional.
— É claro que não! Foi um acidente de bicicleta quando eu era criança. — justificou rapidamente.
— Você está mentindo. — constatei com um gosto amargo na boca. A cicatriz ainda tinha certo relevo, o que me dizia que não poderia ser tão antiga. Felicity abriu a boca como se quisesse me dizer algo, mas mudando de ideia em seguida então eu continuei. — Eu vejo isso em seu rosto, Felicity. Você está me escondendo algo... E não é algo bom, eu gostaria que você soubesse que pode confiar em mim, eu quero... Ajudar você. — falei tentando soar calmo.
— Eu não sou uma suicida, Oliver! — exclamou exasperada. Pisquei diante da convicção presente em sua sentença — E eu não quero sua ajuda... Eu não preciso dela. — A sentença que se seguiu não foi tão convicta, na verdade Felicity parecia vacilante ao dizê-la, havia uma brecha ali, uma parte dela que queria sim a minha ajuda — E eu apreciaria se soltasse o meu braço agora. — finalizou com o queixo erguido, lábios apertados em uma linha fina, ela parecia a mistura perfeita de fúria e delicadeza.
Suspirei soltando-a resignado. Eu não conseguiria tirar nada mais dela, a observei dar as costas para mim, meus olhos a seguiram até que ela saísse da minha linha de visão. Por que era tão difícil decifrá-la? Por que eu queria tanto entendê-la? Seria mais fácil ignorá-la, ignorar a atração que eu senti por ela e tratá-la apenas como o favor de Gordon, mas não, eu estava começando a me importar demais com Felicity, percebi assustado.
E se importar nunca era algo bom.
***
Felicity Smoak
“Você pode confiar em mim.” Repeti a frase mentalmente, reproduzindo com perfeição o timbre de Oliver.
Encarei o teto branco do meu quarto, enquanto me fazia aquela pergunta: eu poderia confiar em Oliver? Eu tinha certeza que sim, por mais que ele se comportasse como um neandertal às vezes, ou melhor quase sempre, ele tinha seus momentos, como agora pouco em que ele havia sido realmente compreensivo e pronto para me escutar. Bem, pelo menos até a parte em que ele pensou que eu tentei cometer suicídio, aí ele surtou.
O problema não era com ele, era comigo. Eu que não queria simplesmente jogar meus problemas em cima dele, eu que não queria que ele entrasse. Que ele visse a Felicity que ainda estava apavorada. Porque eu mesma não gostava dessa versão de mim, essa versão fraca, que queria apenas um abraço para se acomodar e permitir derramar todas as lágrimas que segurava, dividir todo o peso que havia em seu coração, essa versão frágil eu tentava manter escondida.
Eu estava melhor agora que tinha conversado com tio Gordon e ele tinha me garantido que todas as informações levavam a crer que ele ainda estava em Metrópoles. Não havia razão para me preocupar, Helena deveria estar certa, alguém simplesmente deixou uma rosa para mim, pode ter sido um cliente qualquer já que alguns deles não perderam a oportunidade de flertar comigo na noite passada.
Passei meus dedos sobre a cicatriz fina, sentindo o coração apertar. Eu ainda podia sentir o calor da mão de Oliver ali, tentei me concentrar nisso, na sensação de seus dedos em minha pele, mas era tarde demais, as lembranças já estavam vindo, já estavam se apoderando de mim.
“Acordei pela segunda vez naquele porão. Dessa vez havia uma fraca luz acesa em um canto do cômodo o que dava ao local uma iluminação meio fúnebre. Meu corpo estava dolorido por ficar deitada ao chão por tanto tempo, e meio pesado pela droga que ele havia aplicado em mim. Sentei-me ignorando o enjoo que subia pela minha garganta ao respirar mais profundamente e sentir meus sentidos serem impregnados pelo odor fétido. Olhei na direção em que o cheiro parecia vir e percebi que a alguns metros de mim estava o corpo sem vida de Cooper.
Eu não sabia há quanto tempo eu estava naquele lugar, mas Cooper parecia morto há um tempo considerável, mais um pouco e ele começaria a se decompor. Não segurei as lágrimas quentes que desciam pelo meu rosto ao pensar no meu namorado. Nós estávamos juntos há quase um ano, ele era um idiota às vezes, eu não estava tão apaixonada quanto antes e o namoro caminhava para o fim, mas ainda assim ele era alguém importante para mim, e eu o amava. E agora ele estava morto e eu não conseguia não pensar que aquilo era culpa minha.
Eu costumava ter uma vida normal, minhas maiores preocupações se resumiam as minhas provas escolares e fazer as pazes com Cooper após uma briga tola. Agora tudo isso parecia distante. Preocupações bobas diante do que estava acontecendo. Cooper estava morto. E eu presa em um porão de um psicopata completamente fora de si que sabe-se lá o que pretendia fazer comigo. Eu precisava ser racional, precisava me controlar e encontrar alguma solução, sair desse porão e conseguir pelo menos justiça pela morte de Cooper.
Cooper.
Desviei meu olhar para seu corpo, ele costumava andar com um canivete em seu chaveiro, eu achava bobagem, mas ele insistia em carregá-lo dizendo que tinha sido um presente do avô dele, e que tinha um significado sentimental. Arrastei-me até ele, orando para que ainda estivesse lá.
— Eu sinto muito, Cooper. — murmurei ao começar a tatear seus bolsos com as minhas mãos que ainda estavam presas às costas. Respirei aliviada e esperançosa quando percebi o molho de chaves em um de seus bolsos. Talvez houvesse uma chance, eu só precisava soltar as minhas mãos e tentar fugir.
Fiquei em alerta quando escutei o ranger da porta sendo aberta e me encolhi em uma parede mantendo o molho de chaves escondido atrás de mim.
— Você acordou. — a voz era tão suave e o sorriso caloroso, mas eu agora via o mostro por trás da fachada do homem educado. Ele se aproximou lentamente, uma das mãos acariciou meu rosto como se eu fosse seu bichinho fofo de estimação. Seu toque, por mais delicado e suave que fosse me fazia encolher e me retrair com medo do que poderia vir a seguir.
— Eu acho que é hora de nos livrarmos disso, o cheiro não está muito bom. — ele disse com um sorriso indo em direção ao Cooper. O observei embalar sem cuidado algum o corpo do meu namorado em um saco preto como se fosse nada mais do que lixo. — Eu não vou me demorar, você ficará bem sem mim? Eu vou trazer algo especial para você comer, você precisa se alimentar, não quero que adoeça. — apenas assenti ainda espantada com o seu comportamento, ele demonstrava cuidado e preocupação comigo, mas frieza com todo resto. Ele parecia não se importar com o corpo humano que carregava sobre o ombro, o corpo cuja vida ele tirou. Ele não entendia que era uma pessoa? Como alguém consegue ser assim tão... tão monstruoso?
Observei ansiosa ele deixar o porão, sua presença além de medo me provocava repulsa. Notei com o coração palpitando que ele não havia trancado a porta do porão, esperei por um tempo que pareceu longo demais, até que escutei o barulho de um carro sendo ligado. Peguei o molho de chaves de Cooper em minhas mãos e tateei até encontrar o canivete que se abria ao pressionar um pequeno botão na lateral. Tentei cortar a corda que me prendia pelo lado de fora, mas não consegui. Consegui maior estabilidade quando encaixei o metal entre a corda e meu braço. Segui o empurrando para cima. A medida que cortava a corda o canivete ia cortando a minha pele também. Mas a vontade de me libertar era tanta que me fazia ignorar a dor, quando finalmente me vi livre ergui meus braços para frente, era bom poder movimentá-los novamente. Analisei o ferimento que se estendia do meu pulso até metade do antebraço, sangrava muito eu precisava estancar aquilo ou perderia muito sangue.
Subi as escadas correndo desesperadamente até chegar a porta que para meu alívio realmente estava aberta. Andei pelo corredor em busca uma janela ou porta, estava escuro e eu tive medo de acender alguma luz e chamar uma atenção que não deveria. E se houvesse mais alguém ali?
Quando cheguei à sala respirei aliviada ao ver a ampla janela corri em direção a ela esperançosa, mas estanquei quando olhei por ela e vi a luz de um farol iluminar o lado de fora. Para piorar o meu pesadelo a janela estava trancada com um cadeado.
— Não, não, não! Não agora! — chorei — Pense, Felicity, tem que haver outra saída ou pelo menos algo que me dê esperança. — agarrei ao telefone sem fio que estava sobre a mesa de centro e me arrastei me escondendo atrás do sofá. Logo em seguida escutei o barulho da porta sendo aberta, prendi a respiração e tentei controlar meus tremores.
A luz se acendeu, e ele não se moveu. Parecia analisar o ambiente sabendo que algo estava errado, eu tinha sido estúpida, provavelmente deixei um rastro de sangue por todo o lugar.
— Querida...? Onde você está? — novamente a voz suave me assustou — Quer brincar de esconde-esconde? Tudo bem nós iremos brincar, mas eu vou exigir um prêmio no final. — estremeci com suas palavras pensando em todas as coisas ruins que ele poderia fazer comigo. Apertei meus olhos, lágrimas ardidas desceram por eles. Eu precisava usar o telefone, mas eu sabia que no instante que eu falasse algo ele me encontraria. Eu não tinha alternativa, disquei o número da polícia e sussurrei tão logo a ligação foi atendida.
— Por favor, me ajude, ele voltou, ele voltou! — desliguei o telefone logo em seguida o jogando para longe de mim, na esperança de que ele não percebesse que eu o havia usado. Menos de um segundo depois seu rosto sádico aparecia em minha frente. Tentei me defender usando o canivete, mas sua mão parou meu braço jogando a minha única arma para longe.
— Você não tem ideia do quanto me magoa ver você fugindo de mim, minha querida. — Ele disse isso me puxando do chão enquanto me arrastava de volta para o porão, seu rosto era puro ódio. — Você precisa entender, que eu não vou deixar você ir. Nunca. Você é minha! — ele gritou a última sentença exaltado jogando-me no chão com violência e brutalidade.
— A polícia... Eles vão te encontrar. — ameacei fracamente em um soluço, ele soltou um riso alto, quase uma gargalhada e então seus olhos ficaram estranhos, escuros e aterrorizantes.
— Ninguém vai te encontrar. Ninguém vai te tirar de mim. — Sorriu diabolicamente — E eu tenho pena da pobre alma que tentar. — finalizou dando às costas para mim e me deixando sozinha na escuridão.”
Levantei-me da cama disposta a tomar um banho frio, eu precisava clarear a minha mente, me livrar daquelas lembranças tenebrosas e me concentrar no presente, me lembrar de que agora eu estava segura. Mas por mais distante que o passado estivesse, todo o horror que vivi, todo o desespero, toda a falta de esperança que eu senti nada disso desapareceria de mim, infelizmente já faziam parte de quem eu era. E por pior que tudo tenha sido eu precisava conviver com isso, encontrar uma forma de seguir em frente carregando minhas coleções de momentos ruins.
Após o banho eu me senti mais relaxada, me arrumei com deliberado cuidado para o trabalho, não queria que Helena fizesse nenhuma modificação nas minhas roupas dessa vez e definitivamente eu não iria usar uma blusa deixando a barriga de fora, não importa o quanto ela insistisse. Olhei para o espelho que havia no quarto, avaliando o conjunto da imagem. Eu sequer tinha parado para me olhar nos últimos dias, o tom de loiro que eu havia pintado o meus cabelos tinha combinado como o meu tom de pele e o corte na altura dos ombros me deixara com uma aparência um pouco mais sofisticada e até mesmo sexy.
Eu estava bonita.
Despendi atenção a roupa que usava, uma blusa simples e fechada, uma saia preta e botas de cano alto. Esperava que Helena não implicasse dessa vez.
Escutei meu estômago roncar em um protesto conhecido e me lembrei que ainda não tinha comido nada naquele dia, precisava comer algo antes de ir para o trabalho. Finalmente saí do quarto evitando ao máximo fazer qualquer barulho, eu não queria encontrar Oliver novamente e recomeçar aquela discussão. Para minha sorte não vi sinal dele, talvez ele estivesse me evitando também.
Fui até a cozinha e preparei um sanduíche e peguei um copo de suco, sentei na bancada enquanto me deliciava com a refeição.
— O que eu disse sobre se sentar na bancada da cozinha? — ergui meu rosto para encarar Oliver que entrava na cozinha, sua voz tinha soado levemente divertida. Seus cabelos estavam molhados, Oliver vestia jeans escuros e uma blusa branca, seu distintivo pendia no cinto da calça. Olhei em seus olhos e percebi que pareciam suaves, seus lábios se curvaram num pequeno sorriso quase como se pedissem desculpas pelo ocorrido mais cedo. Sorri de volta enquanto ele se aproximava, talvez fosse hora de darmos uma trégua — E o que você esta vestindo? — seus olhos se estreitaram quando se focalizaram em mim, um vinco se formou entre eles, a leveza ia embora e a expressão carrancuda que eu estava acostumada voltava ao seu rosto. Parece que a trégua durou menos de dois segundos!
— Eu gosto de ficar aqui, me sinto alta. — expliquei sem me deixar intimidar por seu olhar descontente — E se não percebeu estou vestindo roupas. — dei de ombros.
— Eu não sei se chamaria essa saia de roupa, a não ser que fosse de uma criança de dez anos. — observou, seus olhos indo desde meus pés calçados com as botas de salto fino subindo por minhas pernas desnudas, fixando os olhos na metade das coxas.
— Helena reclamou de como eu estava vestida ontem. — senti a necessidade de justificar.
— Então você ainda pretende continuar a trabalhar para ela? E vai vestir isso como uniforme? — a forma como ele falou, deixou claro que reprovava tanto o meu trabalho quanto as minhas roupas.
— É claro. — afirmei num tom desafiador.
— Felicity, eu não acho que seja prudente trabalhar naquele bar. — soltou, Oliver se colocou a minha frente, lançando-me seu melhor olhar intimidante.
— Por que eu deveria lhe dar ouvidos? — revidei impertinente.
— Porque eu não sei o que aconteceu, mas você ficou estranha assim que saímos de lá. — a forma como Oliver falou me pegou de surpresa, era cuidadosa e preocupada.
— Eu estou bem agora. — me defendi.
— Você não está. — discordou — E está bem louca se acredita que eu a deixarei sair de casa assim.
— Me deixar sair? — aumentei o tom de voz, me inclinando em sua direção — Pensei que tivéssemos deixado claro que você não manda em mim, Oliver.
— Se você quer trabalhar, nós conseguimos algo melhor. — propôs, me fazendo bufar em irritação.
— Eu gosto de lá. — afirmei — Helena é divertida e Roy é um amor. — Oliver revirou os olhos quando escutou o nome de Roy — Eu vou trabalhar lá Oliver, não há nada que você diga que faça com que eu mude de ideia quanto a isso. — garanti resoluta, ele suspirou fechando seus olhos e levando as mãos aos cabelos úmidos parecendo frustrado.
— Por que você tem que ser tão teimosa? — eu tinha uma resposta afiada na ponta da língua, mas perdi o foco quando encarei seus olhos, eu estava preparada para ver a fúria, para a discussão que acontecia sempre que discordávamos, mas não estava preparada para ver o desejo ali, tão puro e claro queimando em suas íris azuis, senti as mãos de Oliver se apoiarem em minhas coxas. Seus dedos quentes deslizando sob minha pele nua causaram um efeito desnorteador em mim. Eu sentia minha pulsação acelerar enquanto as mãos continuavam a subir ao longo da coxa e entrando por baixo da saia. Oliver se aproximando lentamente, se colocando entre as minhas pernas, nossas respirações ofegantes se mesclando.
Suas mãos se fecharam como garras ao redor das minhas coxas, puxando-me para si com certa rudez. Arfei. Seus lábios próximos demais aos meus, e ainda sim mais longe do que eu gostaria, eles não se tocavam, era como se apenas provássemos o gosto da respiração um do outro, deixando os nossos sentidos em alerta, desesperados e desejosos pelo momento que a expectativa daria lugar a concretização do que ambos queríamos. Meu corpo falou por mim quando minhas mãos alcançaram seus braços fortes cravando minhas unhas ali e trazendo o corpo de Oliver para o meu.
Sua boca roçou a minha num movimento tão deliberadamente sexy e lento que chegava a ser uma tortura, arfei quando sua língua tocou de leve meu lábio inferior para logo em seguida entrar em minha boca de uma única vez, sedenta e desesperada por aquele beijo.
Seu beijo era erótico, intenso e sexy.
Sua boca me devorava, profunda e deliciosamente.
Respirar se tornou algo supérfluo ante a necessidade de continuar a beijar Oliver. Desejo percorria cada parte do meu corpo e suas mãos aonde quer que me tocassem deixavam sua impressão, queimavam-me e marcavam o lugar como seu.
— Não vá. — Oliver pediu em meio ao beijo quente me deixando confusa — Fique comigo esta noite. — sussurrou, sua boca tinha deixado a minha e deslizado até minha orelha, sua respiração quente me fez estremecer em seus braços.
— Oliver... — antes que eu pudesse pensar no que dizer, a boca de Oliver voltava a se apoderar da minha com propriedade, seu beijo não era apenas viciante era fatal. Derrubava todas as minhas resistências. Inferno! Eu estava pouco me importando com as consequências desse ato. Eu não queria sequer pensar nas consequências. Tudo o que eu queria era apenas tirar nossas roupas e sentir Oliver por completo, queria a satisfação de ter seus lábios em cada centímetro do meu corpo, eu queria prová-lo, queria tê-lo dentro de mim, queria tantas coisas que era difícil organizar meus pensamentos. Cruzei minhas pernas ao redor da sua cintura, buscando um contato ainda maior, ele estava completamente duro e sua ereção pressionava meu sexo fazendo-me gemer diante daquele contato tão íntimo.
Enquanto sua boca continuava a me devorar com seu beijo intenso, uma de suas mãos deixava minha coxa e se aventurava por debaixo da minha blusa. Oliver rugiu, irritado ao encontrar a barreira do sutiã, sua mão passou por baixo do elástico da peça e passou a me acariciar tortuosamente. Movi minhas mãos em direção ao cinto da sua calça soltando-o com rapidez, eu estava ansiosa para irmos além.
— Calma, docinho. — sussurrou contra meus lábios, mordendo-os delicadamente — Temos a noite toda para isso.
Só então eu percebi.
Oliver não estava me beijando porque pensava que se transássemos me convenceria a ficar? A não ir trabalhar? Ele não faria isso... faria? Dormir comigo por um motivo tão mesquinho?
Espalmei minhas mãos sobre seu peito afastando-o de mim, usei todo o meu lado racional para fazê-lo. Respirei mais pausadamente tentando recuperar a coerência que seus lábios roubaram de mim, ajeitei minhas roupas e ergui meus olhos para Oliver, o desejo ainda estava queimando em seus olhos, mas havia algo mais ali, além do desejo e da satisfação, havia um brilho de vitória. Esse brilho parecia zombar de mim.
— Você acha que um simples beijo vai me fazer mudar de ideia quanto a trabalhar no bar de Helena? — revidei caprichando no sarcasmo, enquanto descia do balcão num pulo e me afastava o máximo que conseguia dele. Se Oliver chegasse mais perto era provável que eu não resistisse a tentação. Tinha sido um beijo tão quente e sensual e meu corpo inteiro ainda queimava aonde ele havia me tocado, minha boca ainda sentia o seu gosto, eu estava sedenta por sentir mais dele, mas eu precisava diminuir um pouco do ego de Oliver Queen — Eu poderia ter transado com você Oliver e ainda assim eu estaria indo para lá. — deixei claro que não importava o que acontecesse entre nós, ele não iria me impor nenhum tipo de regra. Dei-lhe as costas com classe deixando um Oliver confuso e parecendo bem irritado para trás, peguei a minha bolsa sobre o sofá pronta para sair do apartamento quando senti seus braços me abraçarem por trás, imediatamente me tornei consciente do corpo másculo e firme contra o meu, engoli seco ao notar que ele ainda estava excitado. Suas mãos grandes se movimentaram lentamente sobre a minha barriga, sua barba roçou a pele do meu pescoço. Sua voz era rouca e baixa em meu ouvido, quis me bater mentalmente por não conseguir conter o arrepio de excitação que percorreu todo o meu corpo.
— Se nós tivéssemos transado docinho, você com toda a certeza não estaria indo para lugar algum além das paredes desse apartamento. E eu nem precisaria pedir para que ficasse, você faria isso por que quer, porque me quer. — ressaltou. Minha respiração estava irregular e eu segurei um ofego quando seus dedos passearam brincando com o cós da minha saia. — Você estaria em minha cama implorando para que eu beijasse cada parte do seu corpo, para que a tocasse e a fizesse minha mais uma e várias outras vezes. Para que te levasse ao orgasmo de um jeito que o seu namoradinho do colegial jamais conseguiu fazer. — Não contive um gemido quando seus dentes mordiscaram o lóbulo da minha orelha ao mesmo tempo em que uma de suas mãos parava de brincar e descia por dentro da minha saia tocando-me por cima da calcinha.
— Você está tão molhada. — constatou, seu tom convencido fez com que eu reunisse o que havia restado da minha dignidade e me afastasse de seu toque.
— Você é muito é muito presunçoso! — vociferei virando-me para ele.
— Eu tenho razão para ser, nenhuma mulher se arrependeu e todas elas pediram mais. — jogou a informação na minha cara.
— Eu não sou como elas. — deixei claro.
— Não é? — um sorriso torto e convencido surgiu em seus lábios — As marcas das suas unhas cravadas em meu braço contam uma história bem diferente. Eu poderia tê-la tomado naquele momento, em cima do balcão da cozinha, se eu quisesse. — apertei meus olhos com a imagem que se formou em minha mente, nós dois nus fazendo sexo sobre o balcão da cozinha. Oliver estava certo, eu estava louca por isso — Ou até mesmo agora. — deu um passo em minha direção, seus olhos pareciam predatórios.
— Você está certo. — confirmei o surpreendendo — Existe atração? Claro, mas toda vez que você age como um babaca convencido ela simplesmente evapora! — Menti, eu tendia a ficar ainda mais excitada com o seu comportamento idiota — Sabe, Oliver, eu poderia ter tido um bom sexo com você — Provavelmente maravilhoso, o melhor sexo da minha vida, mas eu não diria isso a ele —, mas é apenas isso que você pode oferecer uma garota. Sexo. — Desmereci. — E eu não procuro por isso.
— Você procura por um príncipe encantado? — debochou, seus olhos crispavam de raiva, mas eu notei algo neles, eles pareciam ofendidos.
— Eu não procuro por nada, Oliver. — falei honestamente, antes de lhe dar as costas e bater a porta do apartamento atrás de mim. Eu não podia me dar ao luxo de procurar por nada, não queria me arriscar a ter alguém na minha vida, ainda que o relacionamento se resumisse a sexo, eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso seria tirado de mim.
Ele sempre tirava tudo de mim.
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