Running Away

15 Capítulo 14 - Speak to me


Notas iniciais
Hello! Finalmente voltei com um capítulo novo! Ficaram muito ansiosos? Obrigada pelos comentários, já estou respondendo eles! Ei, vocês deviam diminuir as ameaças de morte contra a autora ;) só acho Estou adiantando a postagem porque alguns leitores no twitter são muito insistentes. Espero que vocês gostem!

You speak to me

And I listen

Like your words are curing me

I know I wandered far

Until I couldn't see

All that I need

I hold my breath

Fear is gripping me

An I can't shake it off

Buf relief

Is knocks me over

When you talk

It's all the I need

I will find my

I will find my way back

I will find my

I will find my way back

(Find my way back — Cody Fray)

Felicity Smoak

— O nome dele é... — Tentei falar, mas era difícil dizer aquele nome sem que minha mente fosse inundada de tantas lembranças ruins que eu me sentisse sufocada. Ele era meu inferno pessoal, apenas pensar o nome dele trazia a imagem de seu rosto em minha mente, eu via seu olhar novamente tão cheio de promessas vis e eu podia sentir o medo voltado, o terror se apoderando de cada parte de mim.

— Amor, você não precisa dizer o nome se te incomoda tanto. — A voz de Oliver era como um farol em meio a um mar turbulento e escuro, assim como o farol, sua voz me guiava de volta para a segurança da casa, de volta para luz, de volta para ele. Senti suas mãos em meus braços, tirando cuidadosamente as minhas dali. Eu não havia percebido o momento em que eu as havia colocado desse modo, eu não estava apenas me abraçando, eu tinha minhas unhas cravadas fortemente em meus próprios braços, machucando-me, um meio de fazer a dor física superar a dor emocional, não que isso fosse capaz.

— Me desculpe. — pedi enquanto respirava fundo e buscava um meio de encontrar a clareza necessária para contar a minha história sem que me quebrasse um pouco mais.

— Nunca mais se desculpe por estar machucada, não é sua culpa. — Oliver disse a última frase contendo uma raiva quase papável que contrastava com a delicadeza de sua mão colocando-se em meu queixo o erguendo, fazendo meus olhos encararem os seus. Naquele azul sem fim que eram seus olhos eu encontrei o que precisava: minha clareza. — Me conte a sua história, eu prometo permanecer aqui, com você em cada momento por pior e mais assustador que ele seja, lembre-se que eu estou aqui. — Me atrevi a sorrir com aquele pensamento, e a aumentar aquele sorriso quando senti suas mãos segurando firmes nas minhas.

Eu não estava mais sozinha. Não mais.

Eu tinha Oliver, não importa o quanto ele tenha tirado de mim no passado. Oliver era aquele que estava se sobrepondo aos momentos ruins, ele levava a tristeza de mim, e colocava a felicidade em seu lugar. O jeito que Oliver me fazia sentir com apenas um toque era algo que ele jamais conseguiria tirar de mim.

— Obrigada — agradeci, mesmo sabendo que Oliver não compreendia o quanto eu estava grata a ele, o quanto ele havia trazido para minha vida, talvez ao final da minha história eu lhe mostrasse isso. — Como eu dizia, eu era apenas uma estudante normal. Eu tinha um namorado, Cooper, e naquela época nós brigávamos pelos motivos mais tolos. Nós tivemos uma briga grande no começo da manhã e ele desapareceu pelo restante do dia, já anoitecia quando eu andava pelo campus preocupada em busca do idiota quando ele, ele...

— Seu professor? — Oliver indagou de uma forma calma, embora o aperto de suas mãos tenha se tornado muito mais firme, e eu tenha visto algo como pura raiva flamejar em suas íris azuis.

— Sim, meu professor — confirmei — Ele apareceu, me ofereceu ajuda eu fui até a sua sala, ele disse que ia ligar para um amigo da polícia, me deu algo para beber e eu simplesmente apaguei. Quando eu acordei eu estava no porão de sua casa, o corpo de Cooper ali, com seu olhar pétreo e sem vida, seu sangue pegajoso se espalhando por todo o lugar... — Eu não terminei de contar, Oliver havia me puxado para o seu colo e agora me abraçava forte como se me acalentasse, seus lábios pressionados em minha testa, eu sentia a respiração irregular dele batendo contra meus cabelos. E havia seu coração, retumbando tão rápido e alto quanto era possível.

— Me desculpe. — Ele soltou meio exasperado, enquanto me liberava do seu abraço — Eu vejo tanta dor em seus olhos Felicity, e tudo o que e consigo pensar é que preciso ser suficiente para tirá-la de você.

Como dizer que ele era não apenas suficiente, mas também necessário e o único capaz de fazê-lo? Coloquei uma das minhas mãos delicadamente em seu rosto, os pelos de sua barba por fazer arranhando de uma forma gostosa a palma da minha mão enquanto eu o acariciava. Eu lhe dei um sorriso triste, eu sabia que essa história ainda ficaria pior, que esse era apenas o começo e que havia muito a ser contado.

— Oliver, você quer que eu pare de contar? — O questionei, talvez aquilo fosse demais para ele, talvez ele devesse apenas ler o maldito relatório sobre o meu caso.

— Não. — Negou prontamente. Eu via em seus olhos aquela necessidade, ele precisava saber por mim. — E eu não quero que você pegue leve comigo, eu quero tudo, Felicity. Eu vou tentar me controlar, por mais que seja difícil, ainda mais considerando como eu me sinto por você, mas eu prometo tentar. — Eu me perdi naquela promessa absorvendo apenas a parte de “como eu me sinto por você”, querendo esmiuçar aquela frase e descobrir o que Oliver sentia por mim, mas ainda não era hora de falarmos de nossos sentimentos. Agora era hora de contar a minha história.

E eu contei.

Eu abri meu coração a Oliver. E descobri que era algo incrivelmente fácil de fazer. Eu não contei apenas o meu passado, eu não falei apenas sobre o tempo em que eu fiquei presa naquele lugar sombrio ou sobre as coisas sórdidas que aquele homem dizia ou fazia a mim. Eu contei sobre meus pesadelos, sobre a visão do corpo sem vida do meu ex namorado que nunca saiu da minha mente. Eu falei sobre o meu medo sempre que eu escutava o barulho da porta rangendo ao se abrir e seus passos ecoando pelo assoalho da escada do porão, do asco que eu sentia quando ele encontrava alguma forma de me tocar ou ainda do desespero em que eu me via quando ele me dopava e eu era sugada pela inconsciência. Horas eram perdidas, horas essas que eu me horrorizava apenas em pensar sobre o que ele poderia ter feito a mim.

— Felicity... Ele, ele tocou em você? Eu quero dizer se ele chegou a...? — Oliver me interrompeu encontrando dificuldades para dizer aquela palavra tão feia. Ele sequer precisava dizê-la, bastava que eu olhasse em seu rosto, para ver o horror que ele expressava apenas diante daquela possibilidade.

— Você quer saber se ele me estuprou? — seu rosto se contorceu, a palavra o atingindo como um tapa, seus olhos não escondendo a dor — Não. — Oliver fechou os olhos ao ouvir minha negativa, soltando todo o ar preso e permitindo-se um breve momento de alívio — Quando eu contei a polícia que havia momentos em que ele me dopava eles acharam melhor que eu fosse examinada. Foi um momento delicado, a parte covarde em mim tinha medo de saber a extensão do que ele poderia ter feito, você não faz ideia do medo que eu senti... — Oliver apertou sua mão na minha, fazendo me lembrar de que ele estava aqui — Mas ele não o fez. Eu não tenho certeza se ele não pretendia fazê-lo. Era difícil acompanhá-lo, às vezes ele tentava ser gentil, era como se ele quisesse que eu o quisesse, que eu o aceitasse. — estremeci, diante do horror daquele mero pensamento — E outras vezes ele tinha rompantes de pura fúria. Para ser honesta eu não sei quais das duas partes me assustava mais, ou qual das duas partes o controlava — Expliquei. Eu nunca tinha sido capaz de compreender com exatidão a personalidade dele, eu preferia classificá-lo como perversamente doentio.

— Eu queria ter estado lá para você. — Disse, me fazendo questionar se teria sido diferente se eu conhecesse Oliver naquela época. Se teria sido mais fácil superar a dor tendo ele como meu porto seguro. Porque agora, estando com Oliver, mostrando-lhe todas as minhas partes quebradas eu sentia algo dentro de mim mudar. Eu sentia o medo aos poucos desaparecendo, e sendo substituído por nada menos do que esperança. Eu sentia os caquinhos de mim se juntando outra vez, como se Oliver tivesse sido aquele que estivesse os colando. Eu me sentia quase inteira.

— Eu queria que você estivesse. — falei apenas. Eu não poderia dizer como teria sido, mas se eu pudesse falar por agora, era incrível o quanto apenas estar com Oliver me fazia bem. Contar minha história então, era como se pela primeira vez eu estivesse dividindo o meu peso com alguém.

— Eu estou aqui agora, eu não vou a lugar a lugar algum. — Aquilo era demais para mim, Oliver e eu, a forma como tudo parecia estar evoluindo entre nós, criando não apenas um vínculo sentimental forte, mas confiança e cumplicidade acima de tudo. — Conte-me mais. — Pediu, sua mão deslizando suavemente em meus cabelos brincando com os fios soltos, enquanto a outra acariciava minhas mãos. Oliver me distraia com seus toques, a sensação boa que eles me causavam ajudando a aliviar a pressão em meu peito, fazendo-me focar no agora e não nos sentimentos ruins que contar aquela história trazia de volta.

— Eu fiz isso a mim mesma. — Falei erguendo e mostrando a cicatriz em meu pulso, sobre a qual Oliver me questiona tantas vezes. A mandíbula de Oliver se tencionou, na verdade cada músculo do seu corpo estava dessa forma, rígido, como se ele tentasse muito fortemente se controlar de ter uma reação ruim. — Eu não estava tentando me matar, Oliver. — assegurei, rapidamente. Eu sabia o quanto esse assunto era pessoal e delicado para ele — Havia um canivete no chaveiro de Cooper, eu o peguei e o escondi. Quando ele partiu, eu o usei para cortar a corda que prendia meus pulsos, mas me machuquei no processo.

— Está é uma prova do quanto você é forte, amor. — eu ainda não conseguia me acostumar com Oliver me chamando de amor, era uma sensação tão única e boa que me emocionava cada nova vez que eu o ouvia dizer essa palavra para mim. Era isso o que ele sentia? Era amor? — O que aconteceu a seguir? Você conseguiu escapar? — Perguntou parecendo esperançoso.

— Eu deixei o porão, eu procurei uma saída da casa e quando não achei eu liguei para a polícia. — Oliver assentiu ansioso, erroneamente acreditando que aquele era o fim — Mas ele chegou, e ele ficou furioso comigo. E ficou ainda mais furioso quando descobriu que eu havia ligado para os policiais, ele...

— Ele te machucou? Fisicamente, eu quero dizer? — Esclareceu, consciente de todos os meus machucados emocionais.

— Sim. Ele era violento às vezes, era um lado muito volátil dele. — não havia razões para não contar a Oliver, e, além disso, eu queria. Havia uma parte de mim, que queria desabafar, que precisava contar tudo, cada momento de dor ou medo, como se esse fosse o único meio de me livrar isso.

— Eu vou matá-lo. — Oliver falou sem sequer hesitar.

— Oliver... — Chamei seu nome ao observar a escuridão em seus olhos, eu não podia repreendê-lo por dizer isso, muitas vezes era isso que eu desejava fazer.

— Eu sei que eu pedi para que você me contasse, eu precisava ouvir de você. Eu estou tentando ouvi-la, eu estou tentando ser alguém bom para você, alguém que você possa apenas desabafar e que vai sempre encontrar em mim um abraço acolhedor quando acordar durante a noite de um de seus pesadelos — falou de modo exasperado, senti vontade de corrigi-lo e dizer que meus pesadelos jamais conseguiam me alcançar quando eu dormia no calor dos seus braços, porém Oliver estava agitado demais. — Mas cada vez que eu imagino as coisas horríveis que ele fez a você, tudo o que eu consigo pensar é em fazê-lo pagar por isso. — Eu olhava em seus olhos azuis e via puro ódio, o mesmo tipo de ódio que eu sentia sempre que pensava nele - Eu vejo a sua dor, eu consigo senti-la também, me machuca ver o quanto esse filho da puta te machucou. Isso faz algum sentido? — Me questionou, parecendo um pouco confuso consigo mesmo.

Eu apenas assenti, analisando o rosto de Oliver com cuidado. Ele tentou se manter firme por mim, mas agora eu o via desabando diante da minha história. Como se realmente cada memória que eu dividi com ele o machucasse, assim como elas me machucavam. A minha dor era a dor dele, quando eu sofria ele sofria junto comigo e eu simplesmente não conseguia vê-lo sofrer. De alguma forma, eu precisava estar bem para que ele estivesse bem. Eu nunca havia me sentido responsável pela felicidade de alguém antes, era assustador. Toquei seu rosto novamente, meu toque parecendo ter o mesmo efeito que o dele tinha em mim. Aos poucos seus olhos raivosos se tornaram mais dóceis, sua feição rígida se suavizou, enquanto ele deslizava minha mão até sua boca, beijando-a por um tempo até que pareceu se acalmar completamente.

— Como você escapou? — Sua pergunta era urgente, ele precisava saber, como se ao menos a certeza de que eu havia escapado pudesse lhe tranquilizar, dizer-lhe que o pesadelo em algum momento teve um fim.

Mas só porque eu consegui escapar, não quer dizer que aquele foi o final.

“Eu havia acordado tonta e enjoada, seja lá o que ele aplicava em mim, os efeitos estavam ficando cada vez piores. Ao menos dessa vez havia um travesseiro macio embaixo da minha cabeça e um colchão confortável ao invés do assoalho frio daquele porão. O cheiro de podridão também havia sumido, e eu sentia uma fragrância de rosas se espalhando por todo o ambiente. Me atrevi a pensar que talvez a polícia tivesse chegado a tempo, me resgatado e que agora eu estava descansando em minha casa ou em um quarto de hospital.

Me permiti aquele momento de ilusão.

Porque eu ainda me permitia me iludir? Porque eu fazia isso a mim mesma? Me permitia ter esperanças apenas para vê-las destroçadas no instante em que eu abria meus olhos e me deparava com minha realidade desesperadora?

Abri meus olhos pesados com muito custo e fitei o quarto em que eu estava em uma análise fria e meticulosa buscando por pontos de saída. Não havia muito para assimilar, apenas a cama e uma pequena mesa ornada com um vaso de cerâmica com um bonito arranjo de rosas vermelhas. A janela estava bloqueada por grossas barras de madeira, mas pelo que eu podia ver pelas frestas eu deveria estar longe de Las Vegas. Havia uma grande mata ali, a vegetação era alta e muito verde contrariando o clima desértico da minha cidade natal. Não havia sinal de casas próximas, estávamos literalmente no meio do nada.

— Finalmente você acordou, querida. — Eu senti o usual arrepio gélido de medo subir por minha coluna ao escutar aquela voz, me neguei a me virar e a encarar seu rosto também, eu não precisava acrescentar mais isso — Estive ansiando por esse momento todo o dia. Gostou do seu quarto? Gostou das flores? Eu sempre achei que você exalasse um cheiro doce assim como as rosas vermelhas. — Ele dizia num tom cortês, mas que logo desapareceu, senti sua aproximação deixando-me tensa e então veio o seu toque rude e opressor sobre meus ombros, me obrigando a me virar — Olhe para mim quando eu lhe fizer uma pergunta, querida. — Exigiu, seu toque agora em meu queixo erguendo minha cabeça e forçando-me a encarar seus olhos opressores — Muito melhor. Agora responda.

Eu o odiava. Com cada parte de mim. Com uma fúria e ódio tão grandes que eu sequer sabia que era capaz.

— Eu quero ir para minha casa. — Disse, a coragem sendo alimentada pela minha raiva.

— Esta é a sua casa, agora. — cuspiu, a raiva resplandecendo em seus olhos, sua mão se colocando ao redor do meu pescoço em um aperto opressor enquanto meu corpo era prensado contra a parede, eu lutava para respirar, mas era em vão — Quanto mais rápido aceitar isso, mais fácil será sua vida aqui. Você não quer me ver irritado, eu posso ser realmente ruim quando sou contrariado, querida. Eu sugiro que aceite sua nova vida, e eu serei bom para você. — sorriu docemente tentando me convencer, mas eu sabia que aquela era uma mentira, não havia um modo de ele ser bom para mim — Então eu irei perguntar novamente, gostou do seu quarto?

— Gostei das flores. — Menti, minha garganta ardendo enquanto eu usava o restante de fôlego que me sobrava. A mão dele finalmente deixou meu pescoço e enquanto eu buscava desesperadamente por ar, ele me fitava com um sorriso vitorioso. Eu costumava gostar de rosas, Cooper havia me dado um buquê delas nos dias dos namorados. Mas agora, eu as odiava, como se tudo o que ele tocasse perdesse a pureza, como se seu toque corroesse todas as coisas e transformasse tudo o que era belo em algo feio.

— Bom. — respondeu satisfeito ao ver minha aparente desistência de lutar. Sua mão apertou em torno do meu pulso que ainda estava dolorido, segurei o resmungo de dor enquanto ele seguia me arrastando pelo quarto e me aproximando ao vaso com as flores. Era melhor ter seu toque por sobre as faixas do ferimento do que em minha pele — Cheire-as. — Ordenou, e assim o fiz. — Elas não possuem um aroma adocicado e quase afrodisíaco? — Pisquei, contendo as lágrimas de ódio que faziam meus olhos arderem. Aquele sorriso sádico havia voltado ao seu rosto, eu não queria admitir a mim mesma, mas eu sabia que iria ficar muito pior do que já estava. Seu sorriso contorcido, seu olhar predatório, prometia-me coisas desprezíveis, coisas que ele iria fazer comigo, mais cedo ou mais tarde. Olhei para a porta que ele havia deixado aberta ao entrar, minha única saída. Eu poderia passar dias tentando elaborar um plano decente, dias e noites regadas ao medo e a incerteza das coisas terríveis que ele poderia fazer. Eu não queria mais pensar, minha mente estava cansada e eu só queria que o pesadelo acabasse.

Eu decidi por tomar uma atitude desesperadora.

— Sim elas possuem. — Seu sorriso se estendeu ainda mais, ele parecia completamente extasiado com a minha cooperação. Seu toque veio suave, deslizando em meu rosto fazendo meu estômago se revirar, cada parte de mim sentindo nojo de seu toque em minha pele. E contrariando a tudo, eu não o repudiei.

— Nós nos divertiremos muito juntos, minha querida. — Eu quis gritar, me rebelar contra o pronome “minha”, não, eu nunca seria dele. Seu rosto se aproximava do meu lentamente, eu sabia o que viria a seguir e eu tentava não pensar nisso ou eu simplesmente vomitaria.

— Pode fechar a porta? — Pedi, meu coração batendo tão alto que tive medo de que ele o escutasse. Sua boca estava tão próxima a minha que eu sentia o gosto da exalação dele, eu precisava desesperadamente que ele recuasse.

— Não há ninguém aqui que possa nos ver, querida. Ninguém irá te julgar por me dar o que eu quero. — Afirmou. Seu hálito quente bateu contra mim, senti meu corpo estremecer. O medo tentando tomar o controle, as lágrimas ardendo em meu rosto.

— Por favor? — Implorei numa última tentativa e o vi vacilar, ele sabia que havia vencido a guerra. Fechar ou não fechar a porta, seria apenas uma concessão de sua parte. Seus dedos dedilharam sobre meus lábios, seu toque me fazendo encolher diante da carícia áspera e a náusea se tornar maior.

— Mal posso esperar para prová-la. — Levou os dedos que me tocavam à própria boca e então para meu alívio, ele se afastou e deu-me as costas atendendo ao meu pedido. Agi o mais rápido que consegui, peguei o vaso de flores espatifando-o com toda a força que tinha contra a sua cabeça.

Seu corpo cambaleou, e ele caiu para frente, em meio aos estilhaços do vaso e dúzias de rosas que se espalhavam pelo chão. Pulei seu corpo, ansiosa para sair dali, mas senti seu aperto em meu tornozelo, tentando me impedir. Ele ergueu a cabeça, mirando seus olhos assustadores para mim.

— Eu vou te encontrar Felicity, você é minha. — Ameaçou antes de apagar.

E então eu corri para fora daquela casa. Corri o máximo que consegui, até meus pés cansarem, e segui correndo mesmo não aguentando mais. Eu apenas precisava me afastar e correr. Correr dele, correr dos meus medos, correr da garota que eu costumava ser e eu não conseguia mais encontrar porque ela havia se escondido dentro de mim, em um lugar afastado que ela julgara estar segura.”

Oliver ouviu o relato da minha fuga em um completo silêncio, embora eu tenha sentido seu abraço firme nos momentos mais tensos, lembrando-me de que ele estava aqui comigo. Como policial, eu acredito que ele esperava que eu dissesse que a polícia havia feito o seu trabalho e me encontrado, e não que eu tivesse lidado com tudo sozinha. Como alguém que se importava comigo, eu podia ver o quanto ouvir a minha história o abalara.

— E você apenas correu? — Oliver me questionou se esforçando para parecer controlado, embora a voz dele tenha soado baixa e vacilante. Varri as lembranças daquele dia e me concentrei em sua voz e em seu toque quente que afastava as más sensações.

— Até encontrar ajuda, liguei para polícia e voltei para a casa. — Simplifiquei, eu não precisava contar a ele que eu tive que correr pela mata durante a noite, morrendo de medo que ele me encontrasse.

— Foi depois disso que você foi morar com seu tio em Gotham? — Inspecionou.

— Não. Depois do sequestro, nós pensamos que ele apenas fugiria. Não seria esperto voltar com a polícia de Las Vegas de sobreaviso, e um carro estacionado a porta da minha casa vinte e quatro horas por dia, me vigiando. Eu apenas assumi que ele iria atrás de outra garota. Eu sei que isso soa terrível, mas eu apenas queria que ele se esquecesse de mim e fosse atrás de outra. — confessei.

— É compreensível, Felicity, esse... Inferno! Sequer de homem esse ser deveria ser chamado! — perdeu a paciência que ele tão cuidadosamente havia cultivado — Mas ele voltou?

— Sim, ele sempre volta. — Oliver apertou as mãos em punhos, as veias de seus braços se sobressaindo, era óbvio o quanto a minha frase o incomodava. Mas o que eu poderia fazer? Não importa o quanto eu fugisse ou me escondesse, ele não desistia e sempre me encontrava. — Eu ainda me lembro da sombra dele parada a janela do meu quarto apenas me observando, ele cortou a energia da casa e tentou me pegar mais uma vez. Foi nesse momento que eu soube que ele não iria desistir, e decidimos que eu ficaria mais segura com tio Gordon. Eu fiquei escondida em Gotham por um ano, até que mais uma vez ele me encontrou, me emboscou num beco escuro, mas eu consegui fugir. E agora estou aqui, com você. — Falei dando-lhe um quase sorriso, e só então percebi que pela primeira vez eu havia contado toda a minha história sem chorar no processo.

— Você está comigo, amor. — Oliver segurou meu rosto em suas mãos enquanto seus olhos estavam nos meus. E mesmo sem que seus olhos pudessem falar, eu compreendia o que eles me diziam. Apesar de todo o caminho tortuoso, de todas as fugas, de todos os meus medos, a vida me compensara me dando algo de bom, me trazendo até ele e de alguma forma isso havia mudado tudo — Ele não vai te encontrar aqui, eu te prometo, Felicity.

Oliver não poderia me prometer isso.

Eu sabia que em algum momento ele apareceria, e novamente ele tentaria tirar tudo de mim. Ele tentaria me tirar Oliver, porque ele não suportava a ideia de que eu tivesse alguém. Ele me queria sozinha, para que assim eu não tivesse para quem correr, assim, na mente doentia dele, seria mais fácil para mim aceitá-lo. Era assim que essa história funcionava, eu as vezes me questionava se isso não era o motivo para que ele fosse tão obcecado por mim, a eterna brincadeira do gato que persegue o rato. Talvez ele visse isso como um jogo, que eu deduzia que só teria fim quando um de nós dois morresse. Porque ele não pararia de me perseguir e eu nunca pararia de fugir... Exceto que agora era diferente para mim. Se ele aparecesse novamente, eu seria capaz de fazer minhas malas e desaparecer deixando a minha vida em Starling City para trás?

Deixando Oliver?

De certa forma eu havia me acostumado a ser só, a criar laços que pudessem ser desfeitos facilmente, assim seria sempre mais fácil ir embora. Mas Oliver e eu? Era um laço que eu não via um modo, e nem mesmo eu queria desfazer. Era um daqueles que um dia eu tanto desejei ter, era um laço permanente.

— Agora eu entendo porque eu sempre sentia que nunca conseguia te alcançar. Porque você construiu um muro envolto de si mesma e nunca permitiu que alguém entrasse. — falou, me fazendo suspirar ao ter seus olhos em mim. Eu esperava pelo olhar de pena, era sempre assim quando alguém descobria a minha história. Mas não era isso que eu via em Oliver, havia compaixão é claro, mas acima de tudo eu via a minha dor ali, refletida em seus olhos, eu via meus medos, e eu via também aquele sentimento novo, que eu ainda não me atrevia a nomear, embora soubesse bem o que era — Eu não entendo, como ou porque você me deixou entrar, Felicity. Eu estou grato, Deus como eu sou grato por sua confiança em mim, por você me deixar estar com você depois de tudo o que passou. Mas como eu, com meu jeito por vezes bruto e mandão que eu sei te tira do sério, como eu consegui isso? Porque você me deixou entrar? — Ele parecia seriamente confuso com aquilo, como Oliver poderia não entender? Talvez eu devesse mostrá-lo como ele havia, sem sequer se dar conta, me modificado.

— Por causa disso. — Me inclinei para Oliver passando as pernas sobre as suas e sentando-me em seu colo, minhas mãos se apoiando em seu peito sobre o seu coração, satisfeitas por senti-lo bater mais depressa sob meu toque. E então eu levemente rocei nossos lábios, testando a textura macia dos deles, vendo com euforia a forma como eles se encaixavam perfeitamente um no outro. Oliver moveu gentilmente suas mãos em minhas costas em um carinho suave, porém hesitante, ele ainda não havia entendido. Circundei seus lábios com a ponta da língua em uma carícia erótica, puxando a carne macia de seus lábios entre meus dentes e exigindo o que era meu. Oliver ofegou, suas mãos se prendendo em minha cintura com mais força puxando meu corpo para si. E finalmente o beijo veio. Vivo e queimando-me por dentro. Aquela fome insaciável, parecendo um pouco domada pela intensidade dos sentimentos que havíamos compartilhado naquele dia.

Eu havia começado o beijo, mas definitivamente era Oliver quem o comandava. Sua boca transformou meu leve roçar de lábios em algo muito mais intenso. Sua língua explorava a minha boca como se nunca se cansasse do gosto, como se quisesse mais, e aquilo não fosse o suficiente. Uma de suas mãos estava afundada em meus cabelos, coordenando cada movimento e determinando a profundidade daquele beijo.

E eu sentia cada parte de mim viva.

Mas não eram apenas línguas deslizando uma sobre a outra, não era sobre desejo que corria em nossas veias. Era sobre puro sentimento. Eram bocas que se beijavam porque precisavam uma da outra, porque beijar Oliver acelerava meu coração, e deixava cada parte de mim em puro êxtase. Era assim para ele também?

— Felicity... — o grunhido rouco e repleto de desejo saiu do fundo de sua garganta como uma pergunta, forçando-me a me afastar de seus lábios macios e explicar por meio de palavras a minha atitude. Recuperei meu fôlego e abri meus olhos, encarando os de Oliver calorosos e sorri para ele. Deus, eu era tão grata pela oportunidade de estar vivendo isso com ele.

— Você acordou cada parte de mim de um longo pesadelo, você resgatou a garota que eu era e que eu achei que havia se perdido naquele pedaço sombrio da minha vida. Com você eu aprendi a não segurar meus sentimentos, a não me negar o que eu quero. Eu me atrevi a me deixar ser feliz. Quando eu estou com você, seja numa discussão tola ou dormindo em seus braços acalentadores, sentindo seu toque quente e suave e por vezes até mesmo possessivo em minha pele, sentindo seus beijos exigentes. Quando fazemos sexo quente e excitante e caímos exaustos em sua cama. — ganhei um sorriso sensual ao dizer isso — Eu me sinto viva. Cada célula em mim se sente desperta e ansiosa por viver mais disso. — Falei me emocionando ao descrever a forma que Oliver me fazia sentir — E você é o único que já me fez me sentir assim.

Oliver me olhava de uma forma diferente. Na verdade, ele simplesmente não parava de me olhar. E eu comecei a me senti envergonhada por ter exposto tanto de mim, do que eu sentia a ele. Eu o teria assustado? Ele iria se afastar agora?

— Oliver...? — Chamei esperando que ele me dissesse algo. Ele apenas piscou, seus olhos se perdendo em seus dedos que brincavam com uma mecha dos meus cabelos. E então eles voltaram para os meu rosto, parecendo ansiosos. Eu ainda tinha minhas mãos apoiadas em seu peito, e seu coração retumbava tão alto e rápido, que ainda que eu não o estivesse tocando eu seria capaz de perceber isso.

— Me deixe fazê-la se sentir viva como nunca antes se sentiu, amor — Pediu me olhando seriamente. Ele não esperou por uma resposta ao seu pedido. Sua mão em meus cabelos simplesmente puxou meu rosto para ele, e novamente Oliver tomou minha boca para si.

Eu esperava pela explosão de prazer.

Eu esperava pelo erotismo.

Mas nada me preparou para a delicadeza de seu beijo. Para a suavidade de sua língua tocando a minha com reverência enquanto seu gosto mentolado explodia em minha boca, para suas mãos afagando os meus cabelos enquanto Oliver me conduzia num beijo doce, lento e ao mesmo tempo tão devastador. Eu nunca tinha sido beijada dessa forma, com tanto carinho e cuidado envolvido.

Eu com certeza não esperava ver adoração em seus olhos quando lentamente ele afastou nossos lábios. Eu estava sem ar, e não tinha certeza se era pelo beijo tão significativo ou se pelo que eu via em seus olhos. Mas ali estava. Oliver não olhava para mim e me definia pelo meu passado, ele olhava para mim como se visse o seu futuro... Inferno! Eu não queria deixar meu coração seguir nessa estrada tão incerta, mas a verdade é que Oliver me olhava como se eu fosse a mulher que ele amava.

Oliver seguiu com seus movimentos tão excitantemente lentos, seus olhos não desviaram-se dos meus nem mesmo por um segundo, mas suas mãos em minha cintura desceram até a barra da blusa que eu vestia a tirando-a vagarosamente, seus dedos raspando suavemente em minha pele durante todo o processo, seu toque quente sobre minha pele fria fazendo-me estremecer em puro deleite. Repeti seu movimento, desta vez era eu quem lhe tirava a blusa do mesmo modo excitante e lento, me perdi enquanto deslizava os dedos pelo torso de Oliver, e sorri ao perceber que eu já conhecia o seu corpo literalmente com as pontas dos meus dedos.

— Porque você sorri? — Ele me questionou, sua boca havia se movido para o meu pescoço, seus dentes prendiam-se em minha pele, seus lábios a beijavam, sua língua deslizava, quente e úmida, a sensualidade da carícia roubando a minha atenção.

— Porque eu tenho você. — Respondi simplesmente. Seus lábios deixaram minha pele e Oliver me fitou parecendo feliz e sorriu para mim, como se me dissesse que ele sorria pelo mesmo motivo. E então seus lábios voltaram aos meus, ao mesmo tempo em que as mãos de Oliver se firmavam em minhas coxas, ele se ergueu do sofá caminhando comigo em seu colo, levando-me até seu quarto.

Eu não sabia precisar em que momento o restante de nossas roupas foram retiradas, era difícil processar isso quando cada toque de Oliver ganhava um novo significado. Cada beijo parecia revelar uma nova emoção. Não era apenas sobre prazer, era sentimento. Montes deles. Sentimentos bons e ruins, sentimentos que hora eu queria sentir, hora eu queria ignorar. Mas todos eles estavam ali a flor da minha pele, fazendo-me sentir viva.

Eu tinha as mãos de Oliver por todo o meu corpo, assim como sua boca. Elas estavam em meus seios, em meu sexo, beijando-me, tocando-me, com delicadeza e suavidade, com sofreguidão e desejo. Eram múltiplas sensações, múltiplas emoções, era muito para se assimilar, milhares de perguntas zuniam em minha cabeça me questionando sobre o que era isso o que eu sentia. Por isso eu me permiti apenas me perder, me perder em Oliver, me perder em nossos sentimentos, porque eu sabia que só assim eu encontraria a resposta.

Ele tinha seu corpo másculo sobre o meu agora.

Seus olhos de um azul tão distinto exercendo um poder quase hipnotizante nos meus.

Suas mãos buscaram as minhas, as entrelaçando as suas.

Ele sorriu.

E ele me beijou.

E eu encontrei a minha resposta.

Seu corpo tão perfeitamente encaixado ao meu, sua pele queimando junto a minha, nossas respirações se mesclando, sua boca tomando a minha com tanto ardor e paixão, retirando de mim qualquer resquício de medo e me fazendo concentrar no que era bom. Eu e ele. Nós. Juntos.

— Felicity, eu... — Oliver se afastou alguns centímetros da minha boca, sua voz soou afobada pelo desejo, seus olhos no entanto estavam nos meus e eles brilhavam, mostrando uma nova emoção, uma que antes eu apenas pensei ter visto em seu olhar.

— Eu sei, eu também. — Concordei, mesmo sem que eu soubesse o que ele iria dizer. Eu apenas esperava que fossem as mesmas palavras que gritavam desesperadamente em minha mente.

Finalmente, Oliver se inclinou para me beijar, seu corpo sobre o meu se projetando para frente. O toque de seu pênis deixando de ser apenas um roçar provocante no meio das minhas pernas e passando a ser uma investida firme enquanto ele entrava dentro de mim. Arfei contra a sua boca ao senti-lo ir mais fundo. Eu até podia já ter feito sexo com Oliver dezenas de vezes, mas toda vez eu me surpreendia com o quanto aquilo mexia comigo. Como cada vez eu me entregava um pouco mais.

E agora eu finalmente havia entregado tudo.

Não éramos dois corpos sedentos por prazer. Éramos duas pessoas perdidas, mas que se encontravam um no outro. Duas pessoas cujos corações agora batiam na mesma sintonia. Duas pessoas, que se tornavam uma só. Nossos corpos se fundiam, enquanto nossos corações se conheciam e se apaixonavam um pelo outro.

Oliver se movia investindo com a destreza de um amante hábil, ele sabia onde me tocar para me proporcionar maior prazer, ele já conhecia meu corpo. Mas agora ele conhecia meu coração também, fazendo algo mudar e deixar tudo muito mais íntimo.

— Goze para mim, amor. — sussurrou. Eu teria me irritado com sua ordem, mas ela soou tão gentil em seus lábios que não eram mais do que um pedido, um pedido que meu corpo se viu ansioso por atender. Oliver empurrou mais uma vez e eu comecei a sentir a onda de prazer começar a se espalhar por meu corpo, que estremecia diante das estocadas de Oliver que seguiam cada vez mais rápidas e profundas. Seu nome saiu de meus lábios num grito grave, meu corpo convulsionava, meu sexo abraçava o seu e Oliver murmurou meu nome em resposta ao seu próprio orgasmo que explodia enquanto ele se derramava dentro de mim.

Como sempre, quando acabamos Oliver girou seu corpo ficando de costas sobre a cama e puxando meu corpo para si, fazendo-o se acomodar com perfeição sobre o seu. Seus braços circundaram minha cintura enquanto eu descansava minha cabeça em seu peitoral, me distraindo com as batidas de seu coração. Mas dessa vez o aperto das mãos de Oliver ao redor do meu corpo parecia mais firme e protetor, o beijo suave que ele deixava no topo da minha cabeça demorou-se por um tempo muito maior.

Talvez eu estivesse errada. Mas o sexo dessa vez tinha sido diferente. Não tinha sido sobre sexo, não tinha sido sobre encontrarmos o ápice do prazer um no corpo do outro. Tinha sido sobre encontrar a nós mesmos. E sim, Oliver estava certo ele havia me feito me sentir viva como eu nunca havia me sentido antes, por que tudo o que eu senti estando em seus braços, saboreando do gosto do seu beijo enquanto ele me fazia sua, tudo o que eu sentia era amor.

Ele estava me amando, de uma forma única e passional, como eu nunca tinha sido amada em toda a minha vida. E eu o estava amando de volta.

E tudo o que fizemos aquela noite foi amor.

***

Oliver Queen

Amanhecia, os primeiros raios do sol se atreviam a passar pelas brechas das persianas do meu quarto, a luz amarelada banhando o corpo nu de Felicity deitado de bruços na cama, parcialmente coberta por um fino lençol. Seus cabelos pareciam mais brilhantes naquela luz, a pele dela reluzia, em seu rosto eu não via nenhum sinal da garota que tanto sofreu no passado, ela parecia apenas tranquilamente feliz.

Ela era tão linda! Como alguém podia sequer desejar lhe fazer algum mal?

Ela dormia passivamente em nossa cama, sim nossa, até mesmo isso ela havia reivindicado para si, seu cheiro estava impregnado nos lençóis e travesseiros, misturado ao meu, formando uma fragrância nova, nossa. Não seria o mesmo para mim se ela não estivesse ali. Ela dormira a noite inteira em meus braços. Ela não teve pesadelos, embora eu acredite que ela tenha sonhado comigo em algum momento, pois meu nome escorregou algumas vezes de seus lábios seguindo de um pequeno sorriso. Fazendo-me sentir um bastardo convencido por isso. Eu quase não dormi minha cabeça estava cheia demais para isso, mas permaneci ao seu lado, mantendo seu corpo quente e pequeno seguro em meu abraço.

Ela havia me contado tudo. E como policial, eu não deveria ter me chocado tanto. Eu já vi muita coisa ruim acontecer, é meu trabalho lidar com a sordidez humana, mas ainda assim, eu simplesmente não conseguia me manter alheio aquilo. Eu queria enrolá-la em meus braços e protegê-la desse monstro, queria escondê-la num recanto remoto da terra onde ele não a acharia. Mas eu sabia que essa não era a melhor abordagem. Eu precisava livrá-la dele, de uma vez por todas. Por isso eu a deixara sozinha na cama e agora eu analisava o inquérito policial minuciosamente, buscando por pistas, dicas, ou qualquer tipo de informação que me levasse até o desgraçado.

Eu faria justiça e a manteria segura.

Eu gostaria de conversar com Gordon, ele com toda a certeza tinha mais informação a acrescentar. Ele estava investigando isso por fora, e conforme o senhor Diggle havia me informado essa era a causa do seu desaparecimento. Suspirei irritado ao escutar o bip do meu celular me mostrando uma nova mensagem do Capitão Lance, eu sabia que era da delegacia. Eu tinha que ir, mas eu não queria deixá-la.

— Eu conheço esse olhar. — Felicity falou preguiçosamente enquanto se espreguiçava sobre a cama.

— Conhece? — A questionei, deixando o os documentos que eu analisava de lado e indo até a cama, apoiei meu joelho no colchão e me inclinei, colocando o meu corpo parcialmente sobre o dela e a beijei suavemente.

— É o seu olhar de que tem que trabalhar, mas preferia ficar na cama se divertindo comigo. — Eu ri, como era fácil me sentir muito mais leve apenas estando na presença dela. Eu gostaria de ser capaz de criar uma bolha com apenas nós dois dentro dela, sem perseguidores, sem preocupações, apenas nós dois.

— Definitivamente você é muito boa em ler olhares, poderíamos usar alguém como você na delegacia. — embora eu tenha apenas brincado eu via uma solução se formando na minha mente — Na verdade, você não quer vir comigo hoje? Você já conhece Sara, vocês duas podem aproveitar para estreitar o laço de amizade. — Esperei ansioso que ela dissesse sim, me surpreendi com sua mão que se colocou delicada em meu rosto e com o sorriso indulgente nos lábios dela.

— Eu não vou deixar você fazer isso, Oliver. — Afirmou seriamente.

— Eu não estou fazendo nada. — fiz-me de inocente.

— Você está preocupado comigo.

— Isso é errado? Depois de tudo o que você me contou, querer que você fique segura e protegida ao meu lado, é errado? — Questionei me sentindo frustrado diante da minha incapacidade de mudar aquela situação.

— Não é errado, mas também não é saudável. — Sua mão se espalmou em meu peitoral, num sinal claro de que ela queria que eu me afastasse.

— Felicity... — Reclamei, embora eu tenha me afastado e me colocado de pé ao sentir seu olhar intimidante em mim.

— Eu aprecio o que você está tentando fazer, mas eu não vou mudar de ideia, Oliver. — seu tom foi decisivo, e ainda que não fosse, eu conhecia Felicity bem o suficiente para saber o quão teimosa ela era. Ela sentou-se a cama, cobrindo a nudez de seu corpo com o lençol e me fitou com aquele ar decidido — Tampouco eu vou me isolar, me trancar nesta casa e viver o resto dos meus dias com medo. Eu já tentei isso. E tudo o que eu consegui foi ficar depressiva. — Fiquei surpreso ao ver que ela havia previsto o meu próximo pedido — Eu preciso viver, entende?

— Eu entendo. — eu realmente entendia, mas eu queria o bem estar dela e também a sua segurança, e eu detestava a forma como as duas opções pareciam se excluir — Será que pode pelo menos me esperar para que eu te leve ao bar hoje? — Eu gostaria de sugerir enfaticamente para que ela largasse o emprego, eu poderia elencar diversos motivos mostrando o quanto o trabalho dela não era seguro, mas eu não ia arriscar comprar essa batalha hoje e tê-la de mau humor comigo. Eu lutaria uma batalha por vez.

— Você é um maldito namorado controlador, Oliver Queen. — Sorri tolamente ao escutá-la me chamar de namorado, e me puxar pelo colarinho da camisa para si. Ela me beijou parecendo feliz, percebi que Felicity estava de bom humor, mais feliz do que eu já tinha visto aqui. Algo dentro de mim me dizia que isto tinha a ver com a noite passada, em como todo o nosso relacionamento parecia muito mais profundo e fortificado agora que tínhamos nos aberto um com o outro.

Felicity se afastou do beijo quando o seu celular começou a tocar em algum lugar do quarto. Ela alcançou o aparelho no bolso da calça que ela vestia noite passada.

— Quem é? — Questionei um pouco aborrecido ao vê-la sorrir para a tela. Eu estava gostando de ser o único que lhe provocava sorrisos.

— Como eu disse, namorado controlador. — Ela brincou com um sorriso provocador em seu rosto e começou a vestir as suas roupas. Ela revirou os olhos para mim logo depois de vestir a blusa quando notou que eu ainda estava esperando por sua resposta. — É Selina, minha amiga de Gotham ela está em Starling e quer marcar uma hora para nos encontrarmos hoje. — Disse, com a intenção de me tranquilizar.

— Vocês duas não pretendem ir para uma boate novamente, pretendem? — Meu lado possessivo tomou a frente. Eu me lembrava de como tinha terminado a última visita da amiga de Felicity, e ela se resumiu a mim, retirando a minha garota de uma boate repleta de predadores.

— Talvez. — deu de ombros, como se aquilo não fosse nada demais.

— Felicity... — Chamei seu nome num tom inflexível, ela não poderia estar falando sério!

— Você fica fofo quando banca o namorado ciumento também. — seu semblante se quebrou num sorriso largo, e Felicity se aproximou de mim — Não se preocupe, provavelmente será apenas um café antes de ir para o bar. E eu ligarei para você, se eu precisar de alguma coisa, qualquer coisa. As coisas estão calmas, não se preocupe com isso, ok? — pediu, alisando suavemente meus cabelos com seus dedos — Agora eu preciso que você apenas solte o ar que esta prendendo, se nós vamos fazer isso dar certo, eu não quero ter você preocupado com cada passo meu.

— Tudo bem. — Concedi ganhando um sorriso satisfeito de Felicity. Eu sabia que não conseguiria não me preocupar com ela e também sabia que essa discussão seria uma daquelas as quais nunca chegaríamos a um acordo. Mas eu gostava de vê-la sorrindo, eu gostava da felicidade que eu via em seu rosto. Eu decidi que poderíamos discutir sobre planos para sua segurança mais tarde, por hora, eu apenas queria deixá-la feliz, ela merecia.

***

A primeira pessoa que vi quando cheguei a delegacia foi John Diggle. Ele estava encostado em minha mesa com seus braços cruzados, seu semblante era enigmático esperando por mim. Eu me desculpei por ter saído tão abruptamente no dia anterior, ele apenas assentiu sendo muito mais compreensivo do que eu esperava. Ele me informou que havia conversado com o capitão Lance, e que iria precisar da minha ajuda em um caso especial da polícia de Gotham.

Eu não neguei, na verdade eu estava ansioso por aquilo. Eu queria encontrar Gordon e queria também me informar ao máximo sobre o perseguidor da Felicity. Durante toda a parte da manhã e boa parte da tarde John me colocou por dentro do caso, me passou todas as informações que eles tinham sobre ele, e trabalhamos juntos tentando determinar em que ponto Gordon se perdeu em sua investigação, mas tudo o que chegávamos era a um beco sem saída.

— Isso não está indo a lugar nenhum — Reclamei frustrado, jogando uma pasta com documentos de volta para a mesa. Capitão Lance havia providenciado uma sala para que Diggle e eu trabalhássemos sem que a agitação da delegacia nos incomodasse.

— Eu sei, eu mesmo já chequei tudo. Tem que haver algo que não estamos enxergando. Gordon conseguiu rastrear o sujeito até Metrópoles, e depois simplesmente some? — Deixou a indagação no ar.

— Você acha que Gordon está morto? — a pergunta amargou em minha boca, não apenas por quanto ele significava para mim, mas por Felicity. Eu não queria que ela perdesse mais alguém.

— É uma possibilidade. De toda forma nós precisamos saber da verdade e se Gordon tiver perdido a vida, nós temos a obrigação de terminar o que ele começou, achar o filho da puta e manter a sobrinha dele segura. — assenti enfaticamente, Diggle era um cara fácil de lidar, parecia ser um policial capaz e nossos pensamentos pareciam estar na mesma página — Ela está bem?

— Felicity? Sim, ela está. — Confirmei, me lembrando de pegar meu celular e mandar mais uma mensagem, apenas para saber como estava o dia dela. Eu não queria agir como o namorado controlador que ela me acusara de ser, mas eu precisava de notícias dela. Passar todo esse tempo esmiuçando o caso dela, descobrindo um pouco mais sobre o monstro que a atormentara, teve o efeito de me deixar ainda mais nervoso.

— Mas você não. — Diggle comentou puxando uma cadeira e se sentando a minha frente na mesa, seus olhos escuros me analisando.

— Eu estou bem. — afirmei, colocando o celular sobre a mesa enquanto esperava uma resposta de Felicity.

— Eu sou um policial, eu sei bem quando alguém está mentido. — sorriu simpaticamente para mim — Estou certo em supor que você não sabia sobre a história do perseguidor? E talvez, e isso é um belo chute, Felicity e você tenham um relacionamento um pouco mais íntimo?

— Como você pode saber disso? — devolvi surpreso.

— Gordon nem vai ter tempo de te agradecer quando o encontrarmos, ele vai apenas te matar. — avisou com certo humor na voz, mas logo em seguida respondeu meu questionamento — A sua reação quando eu entreguei o inquérito, me mostrou o quanto você se importa com ela. Sinto muito, mas com Gordon desaparecido eu precisava checá-la.

— Não se preocupe. — Dei de ombros, me sentindo ansioso por Felicity ainda não ter me respondido. — Eu fico grato por você ter contado. Felicity e eu esclarecemos as coisas e agora eu posso fazer algo sobre isso. — Tirei uma pasta da pilha de documentos que analisávamos, havia o nome do perseguidor dela no centro, por algum motivo desconhecido eu vinha evitando essa pasta.

— Até que enfim te encontrei! — Fomos interrompidos por alguém que abria abruptamente a porta — Porque você saiu ontem parecendo desesperado? Porque você não está trabalhando no caso de assassinato? Por acaso Oliver Queen, você me trocou por um novo parceiro? — Os olhos de Sara foram na direção de Diggle parecendo ameaçadores, as mãos em sua cintura demonstrando que ela esperava por suas respostas.

— Sara Lance, este é John Diggle da polícia de Gotham. John, esta adorável criatura é minha amiga Sara. — Apresentei.

— Prazer em conhecê-la. — Ele se levantou e esticou a mão na direção dela exibindo um sorriso cordial.

— Seja gentil, Sara. — pedi — John pediu minha ajuda num caso especial da polícia de Gotham. — Expliquei.

— O prazer é todo meu, John Diggle ladrão de parceiros. — Revirei meus olhos, Sara sabia ser extremamente infantil quando queria — Você é da polícia de Gotham? Está aqui pela garota que foi encontrada morta duas noites atrás?

— Não, é um caso diferente. — ele negou.

— Pensei que vocês iriam se interessar, já que descobrimos que ela era de Gotham e estava aqui apenas de passagem. — Explicou, dando de ombros.

— Espere Sara — chamei, antes que ela saísse — A garota morta no restaurante é de Gotham? — A questionei.

— Sim. Já temos até mesmo uma identificação. — ela olhou para a folha em suas mãos checando os dados — O nome dela era Selina Kyle, vinte e seis anos e trabalhava na Wayne Interprise — Informou. Meu cérebro demorou um pouco mais para processar aquela informação, porque aquilo simplesmente não fazia sentindo.

— Deve haver algum engano. — rebati — Selina Kyle é o nome de uma amiga da Felicity, elas trabalharam juntas na Wayne Interprise. — Diggle ficou mais ereto ao escutar aquela informação.

— Oh, eu sinto muito por ela. — Sara lamentou.

— Não, isso não pode estar certo porque eu tenho visto Felicity trocando mensagens com ela durante toda a semana, inclusive hoje pela manhã. Ela disse que estava na cidade e que gostaria de encontrá-la. — Expliquei.

— Isso é impossível, Oliver. Selina Kyle está morta há pelo menos uma semana, se Felicity está conversando com alguém, com certeza não é ela. — Sara respondeu parecendo um pouco perdida ao notar a nossa reação.

Diggle levou a mão a cabeça me lançou um olhar alarmado, que eu sequer pude corresponder. Meus olhos estavam focados na pasta que eu ainda segurava em minhas mãos empregando força suficiente para amassar o papel, as coisas começando a fazer sentido. O nome do desgraçado por toda aquela merda escrito em letras maiúsculas na capa parecia zombar de mim.

Professor Floyd Lawton

Eu abri o arquivo, me sentindo ainda mais idiota. Eu reconheci a foto no instante em que meus olhos a viram. Ele era o homem que se aproximou de mim algumas semanas atrás com o pretexto de comprar um apartamento na região. E agora ele estava falando com Felicity por mensagens de celular, fingindo ser a amiga dela que muito provavelmente ele tinha assassinado.

Ela nunca esteve segura comigo.

Ele esteve aqui o tempo todo, seguindo os passos dela. Brincando com todos, ele se aproximou de mim, o que me garantia que ele não estava perto dela, a observando nesse exato momento? Ou ainda pior marcando um encontro fingindo ser Selina?

— Eu tenho que ir até Felicity.

Notas finais
Hello again! Gostaram do Capítulo? Alguém acertou quem era o perseguidor da Felicity? Todo mundo apostava no Slade que eu sei... Mas ele não é o único com um tapa olho ;) Aguardo ansiosa pela reação de vocês! Beijos!