Running
1 Running
Notas iniciais
Correr nunca foi tão preciso. Mal conseguia sentir seus próprios pés. A velocidade zumbia em seu ouvido, como que pedindo que desse uma pausa e descansasse. Mas ela ignorava. Ignorava tudo que estava á sua volta. As pessoas na praça, as crianças correndo, as mães preocupadas. Passou zunindo por todos eles, que se assustaram com o vulto que correra tão depressa pela rua.
Desde quando a grama era tão fria e cinza? Desde quando tudo era preto e branco, como nos filmes que gostava de assistir? Agora parecia que eles não tinham mais graça. Assistir filmes não tinha mais graça. Ou tomar sorvete. Ou entregar bombons para o garoto que você sempre admirou no dia dos namorados pensando em ter uma chance, perdidamente. Todas as coisas que pareciam ter sentido, ou uma certa graça, eram sonhos longínquos. Como o país das maravilhas e a Rainha Branca. Ou como o gato que o sorriso lhe assustara nas noites cálidas á fio, dentro de seu sono. Seus belos dentes cheios de esplendor, que viravam uma lua minguante na escuridão, deixando a coitada da Alice com sua dúvida.
Nem o reino de Oz. Nem a Terra Média. Nem Nárnia. Nem Hogwarts. Nada disso parecia existir. A infância acolhedora, quente e macia se esvazia, para um mundo deserto e sem cor. Como o Texas. Ou como Utah. Talvez Nevada. Ela passara do Maine para Texas. De uma vida boa, com um riacho de água morna no quintal e noites de pizzas, para um casebre com alpendre, com vegetais colhidos da horta e água escassa. E logo depois da janta, um banho frio antes de dormir. Era como se sentia agora. Seu mundo estava caindo. E logo, depois do Texas, iria para o México, cruzaria o Chile e desembocaria no fim do mundo. No inferno, talvez. Ou no nada.
Quem se importaria?
Ela não tinha mais alguém que se importasse.
Sentia uma pontada lá no fundo, alertando: "Deixe os pés pararem". Mas não conseguia. Correria até onde pudesse. Talvez até o país das maravilhas, ou reino de Oz.
Era o pior sentimento de perda, como aquele aluno que estudou por todo o ano e tirou a nota mais baixa da sala no teste final. Como aquele filho que não respeitava a mãe, e a viu morrer diante dos seus olhos. Como aquele gato sorridente que sumira na escuridão para virar uma lua minguante, deixando todas as respostas para trás.
Era ainda mais do que perder um simples namorado. Ou ainda mais do que ter que amputar uma perna, como as suas desejavam naquele momento, de tanto correrem. Era como se tudo estivesse desabando, como se pegasse fogo, explodisse. Como uma ogiva nuclear, que sua radiação se espalha por milhares de cidades, contaminando a todos. O vírus que percorre, que domina, que mata. O vírus que aparece do nada e some com a morte.
Era como perder todas as pessoas amadas, deixá-las ir para bem longe, sabendo que o fim seria trágico. Deixá-las ir em direção a morte, sorridentes como o gato da lua minguante. Era decepcionante.
Porém correr atrás delas não a farão mudar de ideia. E suas pernas não aguentariam. Sabia que teria uma hora em que elas simplesmente parariam, e, sem andar, ela se jogaria no chão e desmaiaria de cansaço.
Correr atrás seria impossível.
Levara muito tempo para pensar, e quando se decidira, passara-se tempo demais. Já não podia mais correr por quilômetros. Já não podia atravessar o Texas, o país das maravilhas e Nárnia. Porque sua vida não passava de um conto de fadas dentro de um livro. Se você rasga uma folha, a história fica incompleta. Se você queima suas páginas, elas morrem e param de contar a beleza que há dentro de si.
Apenas morrem.
Suas corridas diminuíram para caminhadas, as caminhadas para passos, e seus pés descalços pararam devagar. Ela não era uma Alice. Ela não tinha um bolo que a fazia crescer, nem um chapeleiro, nem um coelho atrasado.
Ela não tinha ninguém, só a si mesma.
Notas finais
O que acharam? Não venham com zueras, comentem como gente, falou?
Kisses, kisses ~ #Minene
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