Notas iniciais
Hey Estou de volta com mais um capítulo! Espero que gostem! Xx Nymphadora P.S. Feliz Natal!!

Quando Lily retomou à consciência pensou que o que acontecera não passara de um sonho. Um sonho terrível que chegava a congelar-lhe o sangue nas veias mas apenas um sonho. Suspirou e virou-se de lado esperando encontrar o corpo quente do marido, esperando aconchegar-se nele. Esticou uma mão esperançosa, talvez Harry tenha acordado e James estava com ele? Talvez… Um guincho repentino acordou-a do seu estupor e ela sentou-se rapidamente, alarmada. Harry brincava com o que pareciam ser brinquedos antigos no chão ao seu lado e sorriu na direção dela quando a viu acordada, esticando os pequenos bracinhos num estranho convite para se juntar a ele ou para lhe pegar ao colo. Ergueu-se do sofá do qual não se lembrava de ter alguma vez ter estado ali, pegando em Harry. Apertou-o contra o seu peito e beijou-o carinhosamente na confusão negra que era o seu cabelo. Observou o espaço onde estava percebendo que ainda se encontrava no escritório de Dumbledore. O lugar mais seguro onde poderias estar, Lils. A voz de James soou mais uma vez na sua mente. James estava certo, claro, mas havia algo naquele espaço que a inquietava. Talvez o sossego não natural que habitava aquele espaço ou facto de dezenas de retratos a encaravam de dentro das suas molduras.

Engoliu em seco balançando Harry enquanto caminhava pelo escritório tentando desesperadamente manter a mente em branco. Se não pensasse no que tinha acontecido era como se nunca tivesse acontecido, certo? Faz como quiseres, Lily. Era exatamente isso que Lily ia fazer. Não ia pensar em James ou no que tinha acontecido no dia anterior. Ou seria hoje? Ela não sabia quanto tempo tinha dormido. Não muito, ela esperava. Pensou novamente nos seus objetivos. Não pensar em James. Manter Harry em segurança. Criar Harry. Não pensar em James. Manter Harry em segurança. Criar Harry sozinha. Inspirou lentamente. Ela ia conseguir. Fechou os olhos vigorosamente enquanto encostava a testa suavemente na testa de Harry. Nós vamos conseguir, anjo.

A porta abriu-se bruscamente espalhando pergaminhos e penas pelo ar. Observou assustada quando um feiticeiro atravessou a confusão, por ele criada, numa questão de milésimos de segundo e parou à sua frente.

“Lily?”

O murmúrio pouco mais alto era do que a sua respiração acelerada. Encarou-o com um quê de irritação no olhar. Como é que ele ousava aparecer diante dela?! Severus Snape. A voz de James rosnou e como por instinto ela voltou-lhe as costas protegendo Harry da linha de visão do homem. “Sai daqui” o sussurro não fora mais alto do que aquele que ele lhe dirigira. Como se não tivesse ouvido Snape avançou deixando a mão levitar brevemente sobre o ombro dela antes de a pousar.

“Lily, eu…”

Antes que ele pensasse em terminar a frase, Lily sacudiu-se violentamente e pulou para longe dele. O cabelo ruivo despenteado com pequenas faíscas nas pontas que combinavam com a raiva no olhar dela. Harry apertado nos braços dela observava a troca de palavras com interesse. A voz de James suspirava-lhe para ter calma. Snape não vale a pena o risco de magoar Harry se puxares da varinha agora Lily. Respirou fundo deixando o murmúrio da voz de James restaurar-lhe a pouca paz interior que ainda possuía. Um dia vais te esquecer de como era a voz dele. Sentiu os olhos picar com lágrimas por derramar. Piscou rapidamente tentando livrar-se delas decidindo por fim encarar Snape.

“Eu disse para saíres, Snape.”

Ele tinha deixado crescer o cabelo, reparou. Chegava-lhe aos ombros em ondas pretas e oleosas. Nada como o cabelo de Sirius. Nem de perto, concordou. Os olhos escuros dele observaram-na. Tentando encontrar algo? Ferimentos? Agarrou em Harry com mais força abrandando a força somente quando pensou que o poderia estar a aleijar. Sem desviar os olhos de Snape apontou para a porta de saída.

“Sai.” E Severus Snape saiu e Lily rezou para que ele nunca mais voltasse a entrar. E como é que ele entrou pela primeira vez? Encarou a porta chocada. Que raios é que Severus Snape estava a fazer em Hogwarts? Passou a mão pelo cabelo rebelde de Harry, afinal não estavam tão seguros como pensara.

(...)

Remus e Sirius chegaram horas mais tarde mas que pareceram dias para Lily. Não abandonara o escritório de Dumbledore mesmo quando o mesmo se ofereceu para a acompanhar até ao quarto que fora arranjado para eles em Hogwarts. Ela recusou, obviamente. Só iria colocar um pé fora deste escritório no momento que fosse para se mudar para uma nova localização mais segura e com Severus Snape presente Hogwarts não era tão segura como ela pensara. Como eles pensaram. Porque James continuava na sua mente e iria continuar. Ia chegar o dia em que ela não se recordaria do formato dos lábios de James ou da maneira como ele se ria ou até mesmo a cor exata dos olhos dele mas Lily ia fazer questão de continuar a ouvi-lo. James iria ser a sua consciência mesmo que quando vivo precisasse de Lily para ser a dele.

Brincava com Harry sentada no chão junto do sofá onde acordara quando, pela segunda vez naquele dia, a porta foi aberta de rompante. Dumbledore ergueu o olhar do livro que lia e observando os convidados que apareceram subitamente retirou-se da sala com um sussurro que voltaria brevemente. Remus liderava o caminho. Mais cicatrizes do que Lily se lembrava que ele possuía há uns meses atrás e ombros curvados como se transportasse o peso do mundo às costas. Não és Atlas, Moony. James costumava dizer. James e a sua adoração por mitologia. Lily observou-o caminhar lentamente como se cada passo lhe custasse. Harry gatinhava na direção de Remus abanando o brinquedo que trazia na mão e balbuciando palavras ininteligíveis para quem não fosse um bebé.

Sirius seguia próximo. Cabelo num desalinho e um corte recente a adornar-lhe a bochecha. A barba por fazer fazendo-o parecer mais velho. Ou seriam os olhos que lhe traziam aquela aura de cansaço? Ergueu-se, lentamente, como se tivesse medo de fazer movimentos súbitos e de os assustar. Não punha os olhos neles há mais de meio ano. Será que ela também lhes parecia diferente?

“Lily?”

E de repente o tempo voltou a andar e ela atirou-se para os braços de Remus. Chocando com ele no meio do escritório. Harry aos pés deles gargalhava alienado do que acontecera no espaço de um dia. Agarrou-se a Remus com desespero, puxando para junto de si tocando onde quer que conseguisse alcançar, ouvindo-o murmurar pedidos de desculpas. Porque é que te estás a desculpar, Moony? Não fechou os olhos. Atrás de Remus estava Sirius que a encarava com os olhos raiados de vermelho e que se abaixou para apanhar o bebé animado do chão. Sirius com Harry alegre no colo, se fechasse os olhos podia reviver a cena deles parados no meio da cozinha desarrumada cobertos de farinha. James tentando livrar-se da culpa. James. Mas ela não podia fechar os olhos. Não agora quando precisava de os manter mais abertos que nunca. Não podia chorar. Não agora. Anjo. Não. Soltou-se de Remus que soluçava silenciosamente contra o pescoço dela. Sentiu uma lágrima escapar e apressou-se a limpá-la. Mas a mão de Remus chegou primeiro secando a lágrima gentilmente. Acariciou-lhe a bochecha coberta de cicatrizes finas e avançou na direção de Sirius deixando um lobisomem desconsolado a poucos passos dela. Tirou Harry dos braços de Sirius passando-o para o colo ansioso de Remus que assim que teve Harry na segurança dos seus braços abraçou-o com força.

Analisou Sirius e sabia que ele lhe estava a fazer o mesmo. Sirius com a sua barba por fazer, cabelo escuro pelos ombros e roupa manchada. Sirius com o seu cheiro a cigarros e a bebida. Sirius ali à frente dela. E ela sabia que ele sentia a dor da perda de James tão forte como ela sentia e como Remus sentia. Sentia a dor que a perda de James trazia. Um aperto no coração e nos pulmões. Um punho que a impedia de respirar em condições. E cada movimento que ela fizesse e cada passo que ela desse doía-lhe. Uma dor tão grande que ela precisava de parar por uns momentos para se estabilizar novamente. Sirius estava ali à frente dela a observa-la com aqueles olhos escuros cheios de tristeza e a vontade de chorar que ela estava a controlar precariamente atacou-a com toda a força. Deu um passo em frente ao mesmo tempo que Sirius abria os braços.

Abraçar Sirius ou abraçar Remus não era o mesmo que abraçar James. Nunca iria ser o mesmo que abraçar James. Remus abraçava-a vigorosamente. Agarrando-se a ela como se fosse uma âncora não o deixando flutuar com a mais violenta das ondas. Sirius abraçava-a como se ela fosse uma coisa delicada. Encaixava a cabeça dela debaixo do queixo e embalava-a. O abraço de James era diferente. James abraçava-a como se soubesse que ela não se ia partir. Como soubesse que ela estava alí, que ela era real, que ela nunca iria embora. Mas quando Sirius a abraçou naquela manhã fatídica de 1 de novembro de 1981 eles foram ao chão. Caíram de joelhos na carpete poeirenta do escritório de Albus Dumbledore enrolados um no outro, lágrimas a mancharem as faces de ambos. As mãos de Lily estavam na face de Sirius tentando limpar os vestígios do choro e as dele estavam no cabelo dela tornando-o mais emaranhado do que já estava. E cada vez que Lily se recordava desse momento o que mais lhe doía eram os sussurros desesperados de Sirius misturados com os dela. “Ele não está morto. Lily. Ele não está morto” Mais soluços. “Ele morreu, Sirius. Ele morreu” Mais lágrimas. James. James. James.

E o pior de tudo, Lily pensava enquanto levava a chávena de chá aos lábios, era saber que nenhum deles iria alguma vez recuperar disto. A perda de James abalava-os até aos ossos. Rasgando pele e músculo. Veias. Espalhando o sangue deles pelos ventos, deixando-os regarem as plantas do outro lado do mundo com ele. Observou Dumbledore do outro lado da mesa de madeira escura. Os óculos em forma de meia-lua apoiados na ponta do nariz. Remus e Sirius cada um do lado dela o chá esquecido, atentos ao Diretor. McGonagall com Harry sentada no sofá às costas deles. Há pouco mais de 24 horas estava sentada com James no sofá da casa deles a beberem chá e a relembrarem-se dos tempos de Hogwarts e agora aqui estava ela, num desalinho e com um filho órfão de pai. Só um, Lils? Ignorou a voz de James e regressou à realidade. Dumbledore falava com o olhar penetrante fixo em Sirius.

“Espero que perceba, Mr.Black, que é crucial retirar-se de momento”

Sirius bufou ao lado dela, escárnio a decorar-lhe a face. “Quer dizer esconder-me, não é Dumbledore?” Os barulhos de Harry no fundo da sala foi o único ruído que se fez presente durante uns minutos. Dumbledore encarava-os com o queixo pousado nas mãos em arco.

“Quero dizer, Sirius, que o Ministério vai fazer tudo que poder para pôr as mãos num membro da Ordem nem que para isso o tenho de acusar de homicídio.” Dumbledore ergueu-se contornando a secretária parando a poucos centímetros de Sirius, pousando-lhe uma mão confortadora no ombro. “Especialmente quando é conhecido o facto de que eras o guardião do segredo do esconderijo dos Potter” Antes mesmo do feiticeiro de barbas brancas poder terminar a sua fala Lily já o estava a interromper colocando a chávena violentamente em cima de uns pergaminhos na secretária.

“Sirius não era o Guardião do Segredo.” A exclamação de surpresa de Minerva soou atrás deles. Ignorou o olhar inquisidor de Remus e fitou Albus. O rosto do Diretor não traía nenhuma surpresa e os olhos demonstravam o que ele não não dizia. Ele sabia. Desviou o olhar do Diretor e encarou Remus do seu lado esquerdo. “Sirius e James” Engasgou-se. Anda lá, anjo. Engoliu em seco e voltou a tentar. “Sirius e James sabiam que toda a gente ia assumir que Sirius era o Guardião e pensaram que…”

“Pensámos em não corrigir ninguém e fazer Peter o Guardião. Ninguém iria desconfiar. Era o plano perfeito.” Terminou Sirius, a voz demasiado mordaz e com um brilho feroz no olhar. Oh James. Quão estúpidos tinham sido, todos eles, por pensarem que poderiam iludir Voldemort.

Levantou-se. Os olhos de todos os presentes presos nela. Esfregou os olhos com uma das mãos enquanto caminhava na direção do bebé de cabelos negros e sorriso cheio de dentes que estendia as mãos na direção dela. “Quando é que podemos sair daqui, Diretor?” A aluna em Lily ficou contente com a demonstração de respeito a Dumbledore mas, por outro lado, a adulta em Lily sentiu-se estúpida por chamar Diretor ao homem que era tudo menos Diretor dela.

“Minerva” A bruxa levantou-se aproximando-se do grupo. Lily, com Harry ao colo, apoiou-se nas costas da cadeira de Remus. “Podes acompanhar Miss Potter aos seus novos aposentos, por favor?” Virou-se rapidamente na direção de Dumbledore, as memórias do encontro com Snape ainda frescas na mente dela. Apertou Harry contra o peito dela.

“Eu não vou ficar debaixo do mesmo teto que Severus Snape!” Rosnou, assustando Remus. Sirius ergueu-se ficando frente a frente com Dumbledore. Sirius era mais baixo que Albus uns centímetros mas compensava essa falta de altura com raiva. Porém, em vez de Sirius foi Remus que falou. O lobisomem não se levantou da cadeira limitando-se a dirigir um olhar furioso na direção de Albus Dumbledore.

“Que merda está Snape a fazer aqui?” Lily nem pensou em repreender Remus pela linguagem. Analisou Dumbledore à espera de uma resposta. Albus não se deixou abalar pelos olhares enraivecidos de Sirius e a pergunta impertinente de Remus.

“Severus Snape é o novo professor de Poções e espero que o tratem com respeito” Um olhar sugestivo na direção de Sirius e Lily sentiu a inquietação de James dentro dela.

“Ele é o quê?!”

E Lily iria sempre lembrar-se daquela manhã. As exclamações indignadas de Remus, os gritos de Sirius e Lily ali no meio da confusão com Harry no colo e com uma vontade enorme de se deitar nalgum sítio e nunca mais se levantar. Oh James.

Notas finais
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