Run
1 going down
Catherine estava sentada à ponta da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e com as mãos a esconder-lhe o rosto. Encontrava-se no quarto de um motel relativamente antigo e extremamente rasca. O único candeeiro que iluminava aquele quarto tinha quase todas as lâmpadas fundidas e, de vez em quando, ficava tudo escuro por momentos antes de uma das lâmpadas decidir iluminar de novo.
Ela tinha apenas a roupa interior vestida e o cabelo loiro e longo totalmente despenteado. Quem a conhecia sabia que o cabelo dela estava sempre assim, mas continuava bonito no dia-a-dia. No entanto, ali, naquele momento, estava nada mais que lastimável. Catherine sempre fora uma jovem bonita — o seu rosto tinha a forma de um coração, os seus olhos azuis quebravam o gelo em todos os corações, as suas feições eram delicadas. Tal e qual uma boneca de porcelana. Tinha um corpo esguio e era dona de uma palidez única.
Com vinte anos acabados de fazer, Catherine tinha a certeza que havia encontrado o homem da sua vida — o seu príncipe encantado. Jovem e tola, não hesitou quando foi pedida em casamento pelo mesmo. Na verdade, nem sequer pensou nas consequências do seu acto, algo que não era nada característico dela.
Foi dessa forma que ela tinha acabado aqui. No quarto de um motel sujo, onde cada dia havia uma nova história para se contar — ou, mais precisamente, ouvir.
Levantou a cabeça de repente e deixou-a cair para trás, ficando a olhar para o candeeiro. Noutra situação, Catherine teria protegido os olhos da luz que, mesmo sendo pouca, ainda ofuscava. Mas ela já estava demasiado habituada a cenários assim para sequer notar diferença. Suspirou e agarrou numa garrafa que estava ao seu lado na cama. Levou a garrafa perto dos lábios, ansiosa por beber mais uns quantos goles da vodka. Não ficou surpreendida quando nada saiu da garrafa.
« Vazia », pensou frustradamente. No entanto, estava demasiado cansada para a sua expressão demonstrar qualquer emoção.
O silêncio tinha-se instalado, não se ouvindo absolutamente nada. Aliás, nada que Catherine quisesse ouvir, já que esta estava a esforçar-se para não ligar aos gritos provenientes do quarto ao lado.
Fechou os olhos com força, revivendo aquela cena na sua cabeça. Era impossível parar. Era impossível impedir aquela memória de ser lembrada. Era impossível trancá-la num cofre e deitar a chave fora.
Catherine estava sentada à grande mesa de jantar da sua casa. Era a única ali. Comia sossegadamente, apesar da sua mente estar a viajar para onde ela não queria — o paradeiro do seu marido. Ela tinha um problema com o álcool, mas isso não a tinha impedido de ter acabado com uma garrafa de vinho sozinha. Atirou o garfo e a faca com força contra o prato, produzindo um barulho irritante.
Levantou-se, desta vez com mais cuidado, e arrumou a cadeira. Sacudiu as mãos ao avental e dirigiu-se ao andar de cima da casa. Não fez cerimónia à porta do escritório do marido. Abriu abruptamente a porta e ajoelhou-se rapidamente à frente de um conjunto de gavetas perto da secretária que estavam fechadas à chave. Retirou uma chave pequena e prateada do bolso. Mordeu o lábio inferior, concentrando-se na fechadura. Inseriu a chave e deu-lhe umas quantas voltas, até ouvir o desejado clique.
Abriu a gaveta e retirou um livro de capa preta e grossa, pousando-o em cima da secretária. Levantou-se e fitou-o, mas não demorou a abri-lo. Percorreu as páginas com rapidez, sabendo exactamente pelo que procurava. Viu a marca de batom numa página que tinha passado, mas voltou atrás e leu o que estava escrito. Era uma morada.
Desceu as escadas quase a correr, atirou o avental para o chão, agarrou nas chaves de um dos carros e na sua bolsa e saiu porta fora.
A morada era a de um motel. Engoliu em seco ao ver mulheres semi-nuas a entrar e sair pela porta das traseiras, sitio onde ela estacionou. Entrou relutantemente no hotel, a tremer ligeiramente, dirigindo-se ao balcão de atendimento.
Encontrava-se lá um homem quase careca, com um tufo de cabelo grisalho e peculiar, que lhe deu as boas vindas.
Após alguma discussão e olhares perturbadores, o velho deu-lhe a chave do quarto 43. Ela subiu as escadas rapidamente e, cautelosa como sempre, aproximou-se da porta. Não ouvia barulho nenhum que identificasse como vindo de dentro do quarto. Ultimamente, parecia que Catherine só tinha silêncio para ouvir.
Abriu a porta com facilidade e entrou. O seu marido estava deitado na cama, sem roupa, sozinho. No entanto, ao seu lado, encontrava-se um quadrado branco de papel, com a mesma marca de batom que ela tinha encontrado na agenda. Dirigiu-se até à cama e recolheu o papel, rasgando-o e atirando os restos para o chão. Deitou-se na cama ao lado do homem que melhor conhecia — ou assim pensava.
Percorreu o seu rosto com o dedo indicador, fazendo com que ele abrisse os olhos.
Catherine desviou o olhar para a janela. Sempre que pensava nisso, sentia-se doente. Doente por diversas razões, todas elas igualmente graves. Levantou-se da cama e dirigiu-se ao espelho à frente da cama, fitando-o sem expressão.
Pegou numa garrafa cheia em cima da cómoda e, sempre sem quebrar contacto visual com o seu reflexo, arrancou a rolha e começou a beber.
A loira estava sentada na cama virada de costas para o marido. Focava o olhar nas suas mãos que estavam pousadas nos joelhos. Os seus dedos tamborilavam, enquanto a sua cabeça doía.
O homem andava de um lado para o outro no quarto. De tempos a tempos levava as mãos ao cabelo, nervoso. Então, parou. Olhou para Catherine, os seus olhos enchendo-se de fúria. Sem pensar, ele começou a gritar com ela. Disse-lhe que a culpa era toda dela. Que ela não era boa o suficiente para ele.
Catherine ficou calada, imóvel. A sua respiração abrandou, o seu coração batia fortemente contra o seu peito, lutando para escapar e sair dali. Ela própria estava a travar uma luta interna, ou assim pensava. Não sabia se devia de seguir a mente ou o coração.
Finalmente percebeu que, pela primeira vez, ambos estavam de acordo.
Nunca tremeu tanto como naquela altura. Esticou o braço, agarrando a sua bolsa. Dentro da bolsa, Catherine sentiu uma coisa fria, algo suave, pontiaguda. Avançou até onde o seu marido estava, sem nunca largar a bolsa.
Sentiu o olhar frio do homem que tinha à sua frente. Parecia queimar-lhe a pele, abrindo inúmeras feridas. Hesitou, mas quando o seu marido — aliás, aquele homem que, afinal, Catherine não conhecia — a agarrou pelos ombros, Catherine puxou da navalha e espetou-a na barriga dele, tentando fazê-lo recuar. Fez mais que isso, já que o homem caiu no chão agarrado à barriga. Estava a esvair-se em sangue, mas a loira não se importou.
Agachou-se ao lado dele e, mais uma vez, a navalha perfurou a pele morena. Desta vez, foi certeiro e mortal — em cheio no coração.
Permaneceu quieta por uns segundos, que mais pareceram minutos, antes de se recompor e levantar-se. Procurou por um pano para cobrir a navalha. A seguir, colocou esta, já embrulhada, na sua bolsa. Sacudiu a roupa e olhou uma última vez para aquele que deixava para trás numa enorme poça de sangue. Surpreendendo-se a si mesma, Catherine não conseguiu sentir compaixão. Saiu do quarto sem nunca olhar para trás. A culpa não era dela. Ela não era o infiel ali. E mesmo assim, esperava a sua vez para chegar à lista dos procurados pela polícia.
Catherine ainda encarava o espelho. O seu reflexo. Aquilo no que ela se tinha tornado. Não mantinha contacto com ninguém da sua família. Tinha cortado relações com todos os seus amigos. Era uma fugitiva e não podia desfrutar da ajuda de ninguém. Primeiro, porque não havia pessoa sã que iria dar abrigo a uma criminosa. Depois, porque ninguém que a conhecia sabia do seu paradeiro.
Suspirou, bebendo três grandes goles seguidos. Ligou a televisão e tornou a olhar para o espelho, a analisar cada traço no rosto da jovem que via à sua frente. A sua face sem expressão. Tocou no seu rosto, como que para se certificar de que ela era real — de que ela estava ali.
-... E a polícia local encontrou hoje evidências que podem revelar o paradeiro da criminosa e fugitiva, culpada do assassinato do jovem de vinte e cinco anos, há três anos atrás...
Catherine sabia que falavam dela e simplesmente ignorou. Estava na hora de sair dali. Acabou com a garrafa de vodka e deixou-a deslizar-lhe da mão até cair no chão alcatifado de uma cor verde esmeralda enjoativa, com um baque.
Pensar no futuro que ela podia ter tido — na vida de sonho que ela podia ter vivido — se não fosse tão jovem, ansiosa de encontrar o homem da sua vida, preenchia-a de tristeza.
A boneca de porcelana, perfeita e feliz, havia quebrado há muito tempo.
Notas finais
A Catherine deve ter algum mais grave que o homicídio. Casar-se aos 20/21 anos? Problemas de bebida? Não ser apanhada pela polícia há três anos? Esgueirar-se para dentro de motéis e derivados? Coitada da miúda. |:
Pessoalmente, acho que podia ter ficado melhor. Mas como fui interrompida inúmeras vezes, perdi o fio à meada e saiu isto.
Espero não estar muito mau. Reviews?
x,
Meowzah ~
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