A festa de Verônica se estendeu até as altas horas da madrugada – a psicóloga e Leo sabiam como dar uma festa.

Rudolf tinha aula cedo no dia seguinte, mas não estava preocupado. Em fato, sua mente, talvez devido ao clima festil, estava tranquila como em muito tempo não ficava.

Após terem conseguido, surpreendentemente, assistir a todo o filme – mesmo pausando-o, por insistência de Ibrahim, para cantar os parabéns para Verônica, cortar o bolo e pegarem uns lanches e mais refrigerante para ambos, Rudolf se encontrava na varanda do apartamento de Verônica, admirando a vista. Conseguia ver a orla de Ponta Negra, bonita mesmo no escuro. A Av. Eng. Roberto Freire, que levava para a Vila de Ponta Negra e por outro lado de sua bifurcação, levava para a enseada da praia homônima do bairro, ainda com alguns carros passando bem debaixo da vista do rapaz. A Av. Deputado Antonio Florencio de Queiroz, mais conhecida como “Rota do Sol” e que separava Alagamar de Ponta Negra, rugia abaixo deles com ainda algum movimento de carros, seja quem estivesse indo de PN para as praias do litoral sul, seja quem estivesse indo do litoral sul para PN ou para outras partes de Natal. Verônica tem sorte de morar num ponto tão animado e movimentado do bairro, pensou o historiador.

Pensara em tirar o caderno de Johnny para folhea-lo um pouco, visto que Ibrahim o deixara a sós por um momento, sob pretexto de ir pegar mais refrigerante.

- Um homem da sua idade devia estar tomando assim tanto refri? – indagou Rudolf naquele momento, poucos minutos antes, tentando implicar com o velho.

Ibrahim apenas deu de ombros.

- Nunca fui muito fã de cerveja. É muito amarga. Preferiria um vinho, mas cá estamos e então, graças ao nosso bom amigo Léo, vamos de refrigerante. Sou criança e jovem por esta noite. Eeeeeba!

E saiu em meio ao salão. Rudolf pôde jurar que o avistara, de longe, tentando flertar com algumas das amigas de Verônica.

Sozinho, com a vista da orla, das ruas e a teia de arame da varanda de Verônica protegendo-o de uma possível queda do nono andar, Rudolf voltou a ficar absorto em seu estado contemplativo, e estava para tirar o caderno de Johnny de seu bolso quando sentiu alguém tocando-lhe no ombro levemente.

- Oi, menino.

Ele se virou, e a dona da festa o encarava, sorridente. Verônica era uma afro-descendente de mais ou menos 1,75 metro de altura, olhos pretos profundos, cabelos pretos sedosos e bem penteados, presos num bonito rabo-de-cavalo. Tinha um porte bastante atlético, que, Rudolf supunha, era advindo dos anos de serviço prestados à Marinha. Usava uma echarpe no pescoço e um conjunto de roupas elegantes, uma calça social branca, uma camisa bege e um blazer preto sobre a camisa. Tirara o salto alto e agora estava com um tênis All-Star, que ele desconfiava de que pertencia na verdade a Léo, e que estava apenas cedido à namorada do rapaz temporariamente, para que ela não sentisse dores nos pés. Pelo que notara, Verônica estivera de salto durante boa parte da noite.

- Obrigada, mais uma vez, por ter vindo – ia dizendo ela. – O grande Rudolf Fontes abrir um espaço na sua agenda para me visitar e ainda mais no meu aniversário... Todos deveriam saber a honra que isso é.

- Obrigado, Vê – disse Rudolf, disfarçando o movimento de quase pegar o caderno, pegando um copo de refri no lugar e levando-o rapidamente à boca, mesmo estando já sem muita vontade de comer ou beber nada. – Mas você sabe que eu não perderia por nada, independente de como está a minha agenda.

- Ah, eu sei. E eu vi a sua agenda. Ninguém nunca te disse que precisa agendar alguns dias de descanso, mocinho?

- Sim, na verdade. Uma psicóloga bem intrometida chegou a mencionar isso.

Os dois caíram na risada.

- Você vai dar aula de 7h30 da manhã? Socorro! Não deveria já estar na cama?

Rudolf fez um gesto com a mão, como se não se importasse tanto com a preocupação de Verônica.

- Não esquenta, Vê. Estou acostumado. Veja os presidentes do Brasil. A maioria deles não tinha muitas horas de sono.

- É, mas você não é presidente.

- Além disso, veja o Einstein. Dizem por aí que ele só dormia 3 horas por ano. E veja o tanto que ele conseguiu fazer.

- Duvido que isso seja verdade, e bom, menino, você não é o Einstein.

- Rumpf.

Rudolf, mesmo sem vontade, bebericou mais uma vez do refrigerante preto.

- Menino, Verônica? Eu já tenho 30 anos. Fala sério.

- É, mas ainda é um menino aos meus olhos. Especialmente se comparar comigo.

- Deixa de besteira, você não é tão mais velha assim do que eu. Só alguns anos. Lembre-se que eu olhei sua ficha antes de recrutarmos você para o projeto.

Verônica riu jovialmente, como se tivesse mesmo voltado magicamente a ser uma adolescente.

- Ainda que você saiba... Seja como for, chegarei aos 40 antes de você. E talvez você devesse dizer isso ao meu namorado, sobre eu não ser tão velha.

Rudolf balançou a cabeça.

- Tenho certeza de que ele falou isso brincando.

Ela deu de ombros.

- É sempre bom deixar meu homem esperto – afirmou ela. – Mas sinto que você está pensativo com relação a outras coisas. – Ela se interrompeu e olhou para trás, esquadrinhando a própria sala de estar, como se procurasse alguém. – Ibrahim?

- Vejo que se lembrou da nossa última sessão – comentou Rudolf. – Sim, estou ainda com a pulga atrás da orelha. Mas, estou tomando providências.

- Vocês dois pareciam bem à vontade hoje.

- Li em algum lugar certa vez que “a encenação é uma chave fundamental para o sucesso”.

- Chocada! Está citando Harry Potter para mim em meio a um assunto sério desses, menino??

- Estou. Harry Potter sempre funciona, inclusive nesse caso. E não sou menino.

- Tem mais. Se me lembro bem... Ayesha?

- Sim. Mas não se preocupe. Coloquei alguém para investigar sobre ela e Ibrahim.

- O quê??

- Shiu – pediu Rudolf, olhando rapidamente em volta. – Ninguém sabe ainda. Estou confiando isso apenas a você. Preciso de respostas, de um jeito ou de outro.

- Bom, eu entendo, mas...

A hesitação dela em continuar a falar preocupou Rudolf.

- Mas o quê, Verônica?

- Mas você acha que Ayesha vale tanto esse esforço? Não quero ver você se desgastando por alguém que não te mereça.

- Do que está falando?

- Esforços, Rudolf. Todos são testemunhas de quanto você se esforçou por esse relacionamento. A minha dúvida é... vale a pena continuar se esforçando se esse esforço for apenas uma via de mão única? Há quanto tempo você se esforça? Há quanto tempo você espera pelo retorno de Ayesha? Será que você não está se desgastando demais? Essa é uma preocupação genuína que tenho.

Rudolf olhou para a rua embaixo, sentindo-se abatido de repente.

- E mais. Primeiro, tudo começa pela amizade. Você, hoje, consegue considerar Ayesha como sua amiga?

- Acho que sim.

- Acha??

Rudolf bufou levemente.

- Era tudo mais fácil quando estávamos viajando juntos ou quando ela estava aqui em Natal, comigo. Essa distância é uma putaria. Essa demora toda TAMBÉM é uma putaria. Estejam certos de que eu, da minha parte, não faria isso com ela caso os papeis se invertessem.

Pensou em pegar o caderno de Johnny para mostrar a Verônica (ela já conhecia a história e sabia sobre Johnny), mas se deteve.

Rudolf não era de xingar muito. Só soltava um palavrão quando realmente estava chateado com algo, algo que o tirasse do sério ou que ele considerasse extremamente injusto, seja com relação a ele, seja com relação a outra ou outras pessoas. Verônica sabia disso e notou. O senso de justiça de Rudolf era admirável, o que o levara a iniciar seu projeto social. Ela pôs a mão no ombro do professor.

- Só prometa a mim que vai se cuidar, que não vai fazer nada exagerado, menino. Se me permite um conselho, não de psicóloga, mas de amiga... Não perca seu tempo com quem não quer enxergar ou reconhecer os seus esforços, principalmente alguém para quem você direcionou os referidos esforços.

Ela deu meia-volta e voltou para o salão, interagindo e dando atenção aos convidados que ainda restavam. Rudolf acompanhou-a brevemente com o olhar, depois voltou a contemplar a vista noturna do bairro, perdido em seus pensamentos. Sua mão pousou sobre o bolso onde ficava o caderno de Johnny, tentada a pega-lo, abri-lo e folhea-lo sem parar, mais uma vez.