Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
5 Capítulo 05
Notas iniciais
Por mais que a mente de Rudolf soubesse que ele devia focar no presente e em tantas coisas que tinha para resolver, lembrar-se de alguns momentos era algo inevitável. Era como se ele se sentisse puxado de volta para aquele exato momento.
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Era o dia 23 de junho de 2014. Numa festa junina organizada por parentes e amigos, na área de lazer condomínio Corais do Atlântico, todos estavam juntos para assistir a terceira e decisiva rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, sediada pelo Brasil. Alguns haviam já assistido algumas das partidas que ocorriam na Arena das Dunas, mas os jogos da seleção brasileira eram os que reuniam a maior parte da "turma" e deixavam todos ansiosos. Rudolf era um fissurado por futebol desde a infância, registrando, em seu livro de memórias, vários momentos marcantes da Seleção: a eliminação traumática para Camarões nas Olimpíadas de Sydney, em 2000; a final da Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coreia, em que o Brasil fora pentacampeão derrotando a Alemanha, finais vencidas contra a Argentina, como na Copa América de 2004, Copa das Confederações de 2005, Copa América de 2007 e Superclássico das Américas de 2012, bem como a dura eliminação para a França nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006.
O livro de Rudolf contava certamente com mais páginas, que ele atualizava sempre que a seleção obtinha algum novo resultado, fosse ele positivo ou negativo. Como ele se daria conta muito em breve, aquele torneio reservava algumas surpresas pouco agradáveis para quem acompanhava a Seleção.
Porém, para Rudolf, as surpresas que estavam pelo caminho dele chegariam bem mais cedo, e seriam independentes dos resultados do futebol.
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Aquele dia em específico estava, até então, marcado para ele como uma data bastante agradável.
Todos estavam tensos, porque após dois primeiros jogos, o Brasil não convencia. Mesmo vencendo a Croácia por 3x1, o desempenho do time não encantava, não enchia os olhos dos torcedores. O empate amargo em 0x0 com o México, disputado em Fortaleza, apenas demonstrava que a seleção tinha uma imensa fragilidade ofensiva e criativa. O jogo da seleção basicamente se resumia aos zagueiros e laterais chutando a bola para a frente esperando que alcançassem o Neymar e então o camisa 10 resolvesse a parada para todos. No primeiro jogo, Neymar conseguira anotar dois gols, mas no jogo contra os mexicanos, até mesmo ele perdera tantas oportunidades de gol que a falta de opções ofensivas do Brasil ficou gravemente escancarada.
Contra o frágil Camarões, já eliminado após duas derrotas, o Brasil precisava vencer por um placar "elástico" não apenas para se garantir nas oitavas de final, mas também para garantir o primeiro lugar do grupo e, quem sabe, um caminho menos difícil na fase eliminativa da Copa.
De início, Rudolf, sentado numa das primeiras fileiras colocadas no salão para assistir a TV gigante que um dos parentes havia trazido, prestava atenção em tudo na partida, e parecia que as coisas iriam andar muito bem.
Neymar abre o placar para a seleção após receber cruzamento de Luiz Gustavo, logo aos 17 minutos de jogo. Parecia que enfim a seleção se livraria dos chutões de Thiago Silva, David Luiz, Marcelo e Dani Alves tentando alcançar Neymar durante os 90 minutos.
Porém, logo em seguida, aos 26 minutos um dos alas de Camarões consegue superar Dani Alves na corrida e no drible e executa o lançamento para um de seus companheiros, que toca para o gol — Júlio César pouco pôde fazer com uma jogada que desmontou a zaga brasileira por dentro. Dani Alves vinha fazendo, talvez, as suas piores apresentações pela seleção desde que Rudolf conseguia se lembrar, quando o jogador fizera sua estreia pelo Brasil num amistoso contra o Kuwait (vencido por 4x0) em outubro de 2006. Mais à frente, essas atuações custariam a Alves o lugar de titular na Copa e na Seleção.
Mais à frente ainda, erros e decepções gravíssimos na vida de Alves fariam Rudolf e diversos fãs do futebol perderem o encanto pelo antigo ala direito do Brasil.
De volta à partida, aos 35 minutos, Neymar recebe passe de Marcelo e consegue deslocar o goleiro de Camarões, anotando o segundo gol do Brasil. A partida foi para o intervalo com a vantagem numérica para a Canarinha, mas o futebol ainda não vinha sendo 100% convincente e a dependência em Neymar ainda parecia muito escancarada na seleção. Como no jogo paralelo do grupo, Croácia e México empatavam em 0x0 — a determinação da FIFA desde a Copa do Mundo de 1986 para evitar que times jogassem a última rodada da fase de grupos já sabendo, de antemão, qual resultado precisavam para passar para as oitavas de final, era de que os jogos da terceira rodada de uma mesma chave acontecessem sempre no mesmo horário — esses resultados deixavam o Brasil líder da chave, à frente do México em pontos e em saldo de gols.
Quando a partida reinicia, a superioridade da seleção se mostra soberba. Talvez a melhor partida da Seleção na Copa até então e uma das melhores partidas que o Brasil fazia em muito tempo. Logo aos quatro minutos do segundo tempo, David Luiz deu uma de suas escapadas ao ataque, ao invés de tentar logo de cara um chutão visando Neymar, e cruzou da esquerda para Fred completar de cabeça, anotando o terceiro gol. Após ser criticado nas primeiras duas partidas da competição, o camisa 9 do Brasil anota seu 21º gol pelo país, algumas semanas e 3 jogos depois de seu último gol, que havia sido na vitória de 1x0 sobre a Sérvia, no Morumbi em São Paulo, no último jogo de preparação antes da estreia no Mundial e após duas apresentações de baixíssimo nível nas primeiras duas rodadas da Copa por parte do atacante mineiro, artilheiro da Copa das Confederações no ano anterior e ex-artilheiro de Cruzeiro e Lyon, no momento sendo goleador do Fluminense em solos cariocas (Fred terminaria o ano, após uma Copa do Mundo esquecível, como o artilheiro do Campeonato Brasileiro daquela temporada).
O terceiro gol alivia os torcedores e a própria Seleção, que agora parecia jogar para apenas administrar o resultado e garantir a classificação. Contudo, Felipão promove algumas mudanças no time, deixando a seleção mais leve e até mais rápida se aproveitando do resultado favorável e da classificação praticamente já assegurada. Uma dessas alterações, Fernandinho, que entrara no lugar do volante Paulinho, contribuiu para a vitória após troca de passes com Oscar, chutando do lado esquerdo e superando o goleiro camaronês, anotando o quarto gol, confirmando a goleada e a classificação, dando números finais ao confronto a apenas 6 minutos do final do tempo regulamentar. Fernandinho passaria a ser titular para o restante da Copa, após ter ficado 2 anos sem jogar pela seleção, e se tornaria um dos jogadores mais frequentemente convocados pelo Brasil nos anos posteriores.
Com a vitória de 3x1 do México sobre a Croácia ao mesmo tempo, o Brasil passava em primeiro com os mexicanos em segundo, se colocando para enfrentar a Holanda enquanto o Brasil se digladiaria com o Chile na fase seguinte.
Todos se abraçando, pipocas, refrigerantes e cervejas voando no ar, enquanto todos se confraternizavam no salão de festas após a confirmação da vitória e da classificação. Rudolf pulava, como se tivesse voltado a ser uma criança, aquela criança de 7 anos que havia visto o Pentacampeonato. Havia uma enorme bandeira do RN disposta, pendurada na parede atrás do televisor. Vez ou outra, alguém pegava uma canetinha e anotava o nome na bandeira, marcando aquela data em que o Brasil dava mais um passo avançando na Copa do Mundo.
Em meio às comemorações efusivas, com o jovem estudante da Licenciatura em História da UFRN já pegando seu caderninho para fazer mais anotações em seu "livro de memórias", uma de suas tias se voltou para ele, com um olhar consternado e preocupante, enquanto falava com alguém no celular.
"Rudolf, meu filho, você precisa ser muito forte nesse momento. Aconteceu uma coisa..."
Rudolf sentia a mão de Ibrahim pousando em seu ombro no tempo presente, mas continuava inerte e rememorando a lembrança daquele dia, que de um festejo total, tornaria-se logo em algo pecular e particularmente entristecedor.
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