Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Lembrando-se de sua conversa com Johnny, Rudolf mandou mensagem também para seu amigo Marcus Joseph, que estaria passando alguns dias em Natal. Marcus era também um professor de História, efetivo do Estado do Rio de Janeiro, que Rudolf conhecera num encontro de escritores anos atrás. Marcus vinha fazendo viagens pelo Nordeste e incluíra Natal em seu circuito turístico, após estadias por Recife, Porto de Galinhas, Olinda, São Luís do Maranhão, Maragogi e mesmo destinos internacionais como Cuba e Rússia.
Marcus se instalara em um hotel próximo da orla de Ponta Negra e vinha fazendo caminhadas matinais na beira-mar, por vezes acompanhado do próprio Rudolf. Eles haviam se encontrado primeiro na segunda-feira, no saguão do hotel, logo no dia em que Marcus chegara ao RN. Mesmo sabendo que o amigo havia adquirido para si um pacote de viagens que incluíra programações para quase todos os dias, Rudolf insistiu que o convite para assistir as peças e contações de histórias no projeto estava de pé, caso Marcus pudesse e desejasse comparecer.
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A peça daquele dia iria encenar uma adaptação da novela Os Dez Mandamentos. Ao invés de se apresentarem no projeto, onde o espaço era limitado, conseguiram alugar o palco no centro do Parque das Dunas, principal reserva ecológica de Natal e do RN. Lá o espaço para o público convidado era bem maior e todos podiam se acomodar, de modo a conseguirem acompanhar a peça de forma confortável enquanto alguns faziam piqueniques na ampla área em frente ao palco.
Rudolf estava interpretando Josué. Ibrahim interpretava a voz de Deus. Muitas das crianças e adolescentes do projeto estavam no elenco como figurantes ou auxiliando a apresentação em outras funções, assim como os professores e demais funcionários e voluntários do projeto. Cecília, Milena e Julia vieram abraçar "tio Rudolf" antes da peça começar, depois que Rudolf já estava caracterizado como Josué. Cecília apresentou ao professor uma nova amiga, chamada Carolina, também do projeto, que também vinha ajudando animadamente com a peça, inclusive contribuindo com o roteiro da mesma. Logo que Cecília e as meninas se afastaram, todas, já com suas roupas da peça, foram para suas posições, orientadas pelos monitores do projeto, que estavam sendo os diretores da peça. Rudolf, com suas roupas de guerreiro, armadura, barba postiça e uma peruca para simular os longos cabelos de Josué, se encaminhou também para sua posição ensaiada, para o início da apresentação.
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A peça tem início com Quenaz, guerreiro da tribo de Judá e irmão mais novo de Calebe, líder da tribo, tendo uma conversa franca e de coração aberto com seu filho, Otniel. Pede que o filho não desista de treinar para se tornar um bravo guerreiro de Israel, que não se deixe levar pelas críticas maldosas dos outros, e pede também que ele fique no acampamento dos hebreus para vigiar e tomar conta da população de idosos, crianças e mulheres que ficaria no acampamento enquanto os valentes de Israel partiam para a guerra.
Partindo de Cades-Barneia, os hebreus se estabeleceram em Sitim, onde levantaram seu acampamento, após terem passado pelos territórios de Amaleque e do Neguebe após algumas batalhas, e contornado o território de Edom, após o rei de Edom ter recusado passagem aos hebreus. O povo de Israel se aproximava cada vez mais da fronteira da Terra Prometida.
Adira, cunhada de Moisés, e Zípora, esposa de Moisés, recebem a notícia de que o rei Seon, monarca dos amorreus que habitava em Hesbom, não havia autorizado a passagem dos Hebreus e nem negociar com os emissários designados por Moisés. Os filhos de Moisés e Zípora, sacerdotes levitas Gerson e Eliezer, trazem a notícia para elas, anunciando também que o conselho de reis da região havia se reunido e estipulado que nenhum reino daquela área autorizaria a passagem dos hebreus — os feitos do Deus de Israel, a abertura do Mar Vermelho, as pragas do Egito e as vitórias contra reinos como Amaleque no deserto já haviam sido relatados por toda aquela área e se espalhado por todas as nações daquela região.
Adira acreditava que sua fuga de Hesbom seja a causa da recusa do rei em permitir que os hebreus atravessem pacificamente o reino — devido a ela ser esposa do antigo general dos amorreus, Oren, que também havia rompido com o rei Seon e se encontrava foragido — mas Zípora a consola e diz que acredita não ser o caso, no que é apoiada por Gerson e Eliezer, que relembram que todos os reis estavam contra Moisés no conselho.
"Não se preocupe", ia dizendo Zípora, "minha irmã, o nosso Deus não deixará o exército e o povo de Israel desamparado nesta batalha. Ele estará com Josué e com todos, para que saiamos vencedores".
"Está bem... eu oro para que Ele proteja também a Oren e Ezequiel", respondeu Adira, referindo-se a seu marido e seu filho.
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No campo de batalha, entre o deserto e as planícies que cercavam Hesbom, principal cidade dos amorreus (localizada na terra de Gileade, na Transjordânia, onde hoje se localiza o país Jordânia), o exército hebreu, liderado por Josué (Rudolf), estava posicionado diante do exército inimigo, os amorreus liderados pelo general Égor (que sucedera Oren).
Os amorreus faziam parte das nações que habitavam Canaã e seus arredores, assim chamadas de nações "cananeias" e eram assim vistos como a primeira linha de defesa do território contra a iminente chegada dos hebreus. O acordo entre os reis havia acontecido pois a pressão sobre os amorreus era muito grande; como controlavam boa parte dos territórios a oriente do Jordão, principalmente a área do rio defronte a Jericó, que era uma das principais cidades e considerada uma porta de entrada para o restante de Canaã, havia recaído sobre o povo do rei Seon a "responsabilidade" de deter os hebreus de uma vez por todas, evitando que Israel atravessasse a fronteira e entrasse de vez em Canaã.
Enquanto Égor passava em revista o exército de Hesbom, teve medo e tremeu diante dos hebreus. Mesmo em menor quantitativo numérico, os hebreus entoavam seus gritos de guerra sem cessar, para intimidar o exército oponente.
Égor retornou para Hesbom e foi até a sala do trono, para consultar o rei.
"São muitos homens, meu senhor. Não acha melhor desistirmos? Quem sabe, meu rei... não vieram realmente em paz?"
Seon riu amargamente.
"Eh... Ehehehehe... Você está CEGO, Égor! Esses MISERÁVEIS vieram preparados para guerrear. Estão organizados!! Quero todos os hebreus MORTOS! Depois tomaremos seu acampamento. A guerra só termina quando todos eles... estiverem dizimados! DIZIMADOS, ouviu bem???"
Enquanto os exércitos dos hebreus e dos amorreus se encaravam, lidando com o nervosismo e tensão e se preparando para a batalha, o discurso inflamado do rei Seon continuava. Além de Josué, estavam elencados na linha de frente do exército hebreu, Calebe, líder da tribo de Judá, Quemuel, líder da tribo de Efraim, Quenaz, irmão de Calebe, Irú, filho de Calebe, e outros dos principais guerreiros hebreus.
"Não será um Deus sem face, nem um exército de antigos escravos, que nos derrotará!", Seon continuava discursando, irritadiço e enervado, para tentar elevar o moral de sua tropa. "Nós já ganhamos batalhas contra exércitos maiores e mais preparados! Acabem com esses vermes... Morte aos hebreus!!"
Os soldados fizeram coro às palavras de Seon, batendo suas espadas contra os escudos ou batendo suas lanças no chão, mas Égor continuava receoso. Contudo, não havia escolha. O rei estava irredutível, e o general voltou para a linha de frente, deixando um pequeno destacamento guardando o palácio e a sala do trono.
Quando Égor retornou ao campo de btalha, Josué entoava seu discurso para os companheiros de exército.
-Quando estiverem lutando — disse Rudolf — não se esqueçam... QUEM é o nosso escudo. Quem... é a nossa força. Quem adestra as nossas mãos para a batalha? Somos herdeiros do Deus Todo-Poderoso. É ele o Senhor dos Exércitos, o verdadeiro general desta batalha! Não há o que temer. Vamos lutar, e vamos tomar posse... do que é nosso!!
Os hebreus entoam seus gritos de guerra, ecoando as palavras de Josué.
Vendo que não havia mais como evitar a batalha, Égor comandou seus soldados:
"Preparar..."
-Chegou a hora!! — exclamou Rudolf.
"Atacar!!!", Égor entoou sua ordem ao exército amorreu, direcionando-os para o combate.
Os hebreus se lançam, destemidos, contra seus oponentes. Josué consegue desferir um golpe e surpreender Égor; evadindo o general, Josué gira sua espada e desfere um golpe nas costas de Égor, executando assim o chefe do exército amorreu.
Quemuel, Calebe, Quenaz e os demais guerreiros também vão aniquilando, um a um, os soldados amorreus.
Sem mais resistência na planície, os hebreus rumam em direção aos portões da cidade. Os poucos soldados restantes tentam frear o avanço dos hebreus, mas são logo superados.
Josué e Calebe são os primeiros a chegar até os portões, se lançando de corpo, cabeça e tudo para forçar a entrada, enquanto os demais soldados hebreus se encarregam de eliminar os soldados amorreus que estavam guardando os portões. O próximo passo é rumar em direção ao palácio real.
Josué/ Rudolf usa sua espada para cortar os fios de uma tenda, surpreendendo os soldados que descansavam debaixo da mesma e que ficaram de sentinela diante do palácio, que, abismados, não conseguiram deter nem resistir Josué nem o avanço dos soldados hebreus que percorriam ferozmente as ruas de Hesbom.
Os hebreus vão se embrenhando no palácio, passando ao fio da espada os soldados com que se deparam pelo caminho. Chegando até a sala do trono, após conseguirem derrubar as portas da mesma, com Josué, Calebe e Quenaz se atirando contra as portas para forçar sua entrada, os hebreus finalmente encontram a última resistência do rei Seon: um último pelotão de soldados, vestidos de azul e com lanças e escudos em riste, tentando ao mesmo tempo, se proteger e intimidar os hebreus com as pontas afiadas das lanças.
Tão logo os hebreus chegaram à sala do trono, Seon perdeu a compostura por completo.
"Morte aos hebreus!! Morte aos hebreus!!! MORTE AOS HEBREUS!!!!!", exclamava o obeso e quase idoso monarca.
Os hebreus entraram e cercaram o trono de Seon quase que por completo. Vendo-se encurralados, os soldados que guardavam o rei jogaram suas armas ao chão, em um ato de rendição.
"COVARDES!! Covardeeeees!! São todos uns COVARDES, VOCÊS!!!"
Agora só restava Seon, munido apenas de sua espada, oferecendo resistência aos hebreus. Enquanto os soldados hebreus cercavam os amorreus apontando suas espadas para eles, Josué tomou a frente, se encaminhando até o rei.
-Acabou, rei — disse Rudolf solenemente. — É melhor se render.
Os hebreus tencionavam ainda oferecer uma rendição pacífica para Seon, em forma de um acordo, mesmo que o rei dos amorreus não tivesse aceitado a proposta de paz inicial dos hebreus acerca de permitir que estes passassem pelo território amorreu sem a necessidade de um conflito.
Seon pareceu aquiescer. Guardou sua espada na bainha, tirou sua capa, jogou fora seu chapeuzinho real e seu gorro, e foi descendo os degraus do tablado onde ficava seu trono.
Ao ficar defronte a Josué, porém, Seon reassumiu uma postura hostil.
"Nunca! Nunca irei render-me aos vermes hebreuuuus!!!", e sacou sua espada da bainha, berrando a plenos pulmões.
Avançou contra Josué, que recolhera a própria espada, tencionado atingir e ferir o comandante do exército hebreu; contudo, Josué se desviou e esquivou dos diversos golpes de espada, até que conseguiu segurar o braço de Seon, e fazendo com que ele enfiasse a própria espada no peito, perfurou o corpo rechonchudo do soberano. Seon soltou um último grasnido, e caiu ao chão, expirando.
-A guerra acabou! — anunciou Rudolf para todos os presentes. — Rei Seon está morto. Digam a todo o povo... que agora, estas terras pertencem a Israel!!
Vibração empolgada de todos os combatentes hebreus. A conquista de Canaã completava mais uma etapa, um progresso, um avanço.
-Se quiserem, poderão permanecer — disse Rudolf, dirigindo-se aos atores que interpretavam os poucos soldados amorreus remanescentes e rendidos. — Desde que abram mão de seus ídolos de pedra. Não tomaremos suas casas, tampouco serão escravizados. Os que não quiserem ou não concordarem com esses termos, são livres para partir.
Josué abraçou e cumprimentou cada um dos guerreiros: Quemuel, Irú, Quenaz, Calebe e os demais valentes de Israel. Subiu até o tablado do rei Seon, pegou algumas maçãs, e jogou-as para os soldados, saboreando um lanche da vitória. Pegou também a coroa do rei Seon e exibiu-a para os companheiros.
-Iremos levar a coroa do rei para o Tabernáculo para derretê-la, para que este ouro sujo seja purificado e possa ser utilizado em prol de Israel. Vitória ao nome do Senhor!! — exclamou o comandante, e os demais hebreus ecoaram seu grito de guerra vitorioso. — Hesbom, agora, é nossa!!
Os soldados bradaram em comemoração ecoando a exclamação triunfante de Josué. Alguns brandiram suas espadas para o alto, alguns erguiam suas mãos em direção aos céus, louvando ao Deus Altíssimo pela vitória, e muitos se abraçavam.
Padre Mario, pároco da Paróquia Santa Rita, aplaudiu a apresentação, junto com diversos presentes.
A voz de Ibrahim, que não estava à vista da plateia, ecoou pelos auto-falantes.
"Os hebreus mantinham-se leais à aliança feita Comigo e fiéis aos meus mandamentos e ensinamentos. Com isso, conquistaram Hesbom, a capital do rei Seon e dos amorreus, perto das fronteiras com o reino de Moabe e com as estepes e planícies ao longo do rio Jordão, defronte de Jericó, a Cidade das Palmeiras. Era mais uma etapa vencida rumo à conquista da Terra Prometida, a terra que prometi a Abraão, Isaque e Jacó e toda a sua descendência, uma terra onde corre leite e mel."
Cecília, Carol, Milena e as demais meninas apareceram, atirando flores de uns cestos para a plateia. O público presente no Parque aplaudiu a encenação, e Rudolf e os demais atores se curvaram para eles, agradecendo pela calorosa salva de palmas, por seu comparecimento e consideração. Rudolf se dirigiu a Ibrahim e abraçou o velho, agradecendo sua participação e todo o apoio que dera à encenação. Mesmo com suas desconfianças, naquele momento, o historiador queria apenas a companhia dos amigos para que saboreassem o sucesso da apresentação, decidindo deixar pensamentos mais complicados para depois.
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