Notas iniciais
Nunca desistam dos seus sonhos. Não espere as pessoas de que vc gosta partirem desta vida para dizer o quanto elas são importantes, para dizer o quanto vc as ama. Sejam compreensivos um com o outro, vcs dois. Acolham, abracem e entendam um ao outro... Livrem-se das suas amarras, das coisas que te deixam "pensativos" e aproveitem cada segundo um com o outro, pois o tempo que temos nesta vida é extremamente curto e limitado. Aproveitem-no, então, da melhor forma que puderem. Amizade e muitos outros sentimentos, precisam ser vividos e sentidos sem nenhuma amarra e vcs dois precisam se permitir viver, precisam se permitir muitas coisas, inclusive um para com o outro. Abraços, beijos e meus melhores votos para vcs dois, para todos e para quem estiver acompanhando esta história.

Tão logo sua tia o alcançou, Rudolf pôde sentir que ela estava se segurando para não chorar, como também para não se "desmontar" emocionalmente quando o estivesse dando a notícia e repassando-lhe o que lhe fora informado sobre o "acontecido".

-Eu notei que havia algo errado, mas só de olhar para a cara da tia, eu não podia imaginar o que havia acontecido — disse Rudolf, no tempo presente, recontando a experiência para Ibrahim.

Sua tia tocou-lhe o ombro e, guardando enfim o celular, pelo qual recebera a notícia, olhou profusamente para Rudolf e lhe disse:

"Meu filho, preciso que você seja muito forte nesse momento. Seu pai e sua mãe estão, agora, nos braços do Senhor."

Rudolf automaticamente "caiu" em uma das cadeiras da festa, suas pernas tendo ficado bambas, e não sentiu forças para fazer mais nada. O choque inicial o deixou também sem fala.

-Lembro de que eu demorei uns 5 minutos para conseguir falar, e mesmo assim, estava gaguejando — disse para Ibrahim.

-Isso é intenso, Rudolf. Minhas condolências...

Obrigado.

-Não deve ter sido algo nada fácil de se passar. O que aconteceu?

-O que sei é que eles sofreram um acidente na estrada, no caminho para o aeroporto. Estranhei porque, embora eles sempre gostaram de viajar, eu não sabia de alguma viagem planejada por eles naquele momento. Até comentei isso com minha tia, mas... Ela apenas disse que talvez meu pai tivesse planejado uma viagem surpresa para minha mãe e, por isso, não contou a ela nem para ninguém, deixou para revelar quando eles tivessem chegado ao destino. Ou algo assim. Na verdade, o choque me consumiu de tal forma que, de imediato, eu não dei muita atenção a esse pensamento por algum tempo depois daquele dia. Nunca mais tinha pensado nesse assunto... E pior, toda vez que penso, me recordo daquele dia com detalhes extremamente vívidos.

...

...

...

...

-Me recordo até do velório... Eu estava quase que sem conseguir falar naquela ocasião. Falei apenas o mínimo, o necessário... O que a emoção me permitia falar. Chorei. Chorei o quanto pude, chorei talvez tudo que eu não havia chorado na minha vida até aquele momento. Muitos me desejando condolências, e eu com a voz fraca, embargada, mal conseguia agradecer ou responder. Meu avô também conversou bastante comigo na época, buscando me consolar. Escutei bastante a tudo o que ele me dizia, que me amava, que eu precisava ser forte, que eu precisava me lembrar deles dois nos momentos bons, de tudo que eles me ensinaram, de tudo de bom que passei com eles. Eu escutava... mas não conseguia processar tudo o que ele e os outros me diziam.

Nesse momento Rudolf se levantou. Foi até sua estante e pegou um retrato com uma antiga foto dele com seus pais. Rudolf com uns 9 anos de idade, vestindo uma camisa da seleção brasileira, igual ao dia em que eles faleceram devido ao jogo da Seleção na Copa contra Camarões, com seus pais dos dois lados dele, na foto. Na foto, Rudolf usava a camisa para comemorar a vitória do Brasil nos pênaltis contra a Argentina na final da Copa América em 2004.

--Acredito que seus pais foram pessoas que te deixaram marcas e legados extremamente importantes, que te deram um bom ensinamento e te colocaram para seguir nos bons caminhos, que fizeram em tudo o melhor deles para te orientar, guiar, conduzir e auxiliar. Agradeço por ter me contado, Rudolf... entendo a importância deles para você. Minhas condolências, mais uma vez.

-Obrigado...

A voz de Rudolf vacilou ao agradecer. Ele pousou a foto com seus pais na estante, e seu olhar se demorou em uma outra foto também na estante.

Ele pegou a foto e passou a olha-la atentamente. Ibrahim se aproximou para observar e, pelo que pode notar, era uma foto de Rudolf em meio a seus amigos — muitos deles frequentavam também as unidades do projeto, por isso Ibrahim conhecia boa parte deles, seja de vista, seja porque já conversara rapidamente com alguns deles. No entanto, ele notou que em meio à foto, havia alguns amigos de Rudolf que ele nunca havia visto no projeto, nem nos aniversários de Rudolf ou de Ayesha, nem em lugar nenhum.

-Rudolf? Está tudo bem? — indagou ele. — O que te fez pegar essa foto? Está tendo algum outro "apagão"? O que essa foto tem de mais?

-Não... não é bem um apagão — começou Rudolf a explicar. — Eu estou sim perdido em memórias, mas ainda tenho consciência de você aqui do meu lado, do meu quarto, da minha casa... Estava me lembrando dessa foto. Eu reunido com muitos dos meus amigos. Creio que foi em algum dos meus aniversários. 2013, 2012 ou algo assim.

-Sim. E o que mais?

-Acontece que a perda dos meus pais não foi a única coisa grave que eu tive que lidar nesse meu crescimento, nesse meu desenvolvimento nos anos antes de conhecer você e Ayesha. Teve um outro incidente... Um que meus amigos todos sabem, mas que eu raramente conto para as outras pessoas devido a ter sido de foro tão íntimo, pelo menos, é o que nossa turma de amigos considera.

-E que incidente foi esse?

Rudolf balançou a cabeça.

-Nesse caso, te contar não será tão eficiente quanto eu te mostrar. — Ele pousou a foto na estante, olhou para o céu lá fora pela janela e depois voltou-se novamente para Ibrahim. — Está começando a anoitecer. Vamos fazer o seguinte... Por que não me encontra amanhã, no projeto? Eu pego meu carro e te levarei até um lugar.

-E que lugar será esse?

Não se preocupe... é um lugar bem próximo daqui. Acredite, é bem melhor eu te mostrar do que apenas te contar.

Ibrahim pareceu pensativo por um momento, mas logo respondeu:

-Está certo. Estarei no projeto a partir das 13h.

-Perfeito. Nos encontramos lá...

Ibrahim apertou a mão de Rudolf e se encaminhou para sair do apartamento.

-Fique bem, Rudolf.

-Obrigado. Vou tentar sim...

...

...

...

...

Tão logo Ibrahim saiu, enquanto ia memorizando os passos até o local aonde levaria o velho no dia seguinte, Rudolf se viu perdido em diversos pensamentos. Recordou-se de quando Ibrahim comentara que a demora de Ayesha em dar notícias ou de sequer dizer quando estaria de volta em Natal era um pouco estranha.

Será que era apenas caraminhola da cabeça do senhor árabe, ou teria ele um tico de razão?

Rudolf pegou o celular e tentou ligar para Ayesha.

Caixa postal.

Pensou que ela poderia estar em missão ou em algum lugar perigoso, e que por isso não o atendera. Havia um acordo entre os dois de que Ayesha era quem ligaria para ele na maioria das vezes, devido a essa prerrogativa de que ela nem sempre estaria em condições de ligar ou atender, dado os perigos da profissão dela.

Rudolf se lembrava do acordo, mas alguma coisa o incomodava no fundo de sua mente. Será que Ibrahim estaria com um fundo de razão no fim das contas?

Será que essa desconfiança de Rudolf era descabida ou desnecessária?

Rudolf não se aguentou e ligou uma segunda vez.

Caixa postal novamente.

Ele ligou uma terceira vez.

Caixa postal, novamente.

Ligou mais algumas vezes.

Caixa postal, sempre, e novamente.

-Rah... — pensou Rudolf em voz alta, pousando o celular numa mesa e contemplando o apartamento vazio. Podia não haver mais ninguém ali com ele, mas teve certeza de que seus pensamentos preenchiam o apartamento inteiro naquele momento. Será que Ibrahim tinha alguma razão em desconfiar e expressar sua desconfiança em voz alta, no fim das contas?