Rude Girl
36 Capítulo 36 — Conversas e soluções
Notas iniciais
A primeira coisa que tomei consciência quando acordei foi do perfume que estava aspirando e do braço a minha volta. Eu estava quente mesmo com o vento gelado que a manhã soprava, meu corpo estava totalmente aquecido pelo de Jimmy, que estava logo trás de mim, em um sono que considerei ser bem pesado. Pisquei algumas vezes para afastar o sono e me remexi no seu enlaço até que pude me virar para ver seu rosto. Assim que o olhei achei que meu coração fosse parar completamente. Seu rosto parecia tão relaxado e a vontade, sua respiração era serena e o cabelo caia por seus olhos, fazendo-o parecer ainda mais adorável. Toda nossa noite passou em minha mente e tive que suspirar ao lembrar que havia lhe dado esperança para meu perdão. Havia pedido dois dias, mas será que eles seriam o suficiente?
Sentindo-me uma tola, me aproximei um pouco, sentindo os dedos coçarem por tirar sua mexa para longe de seus olhos. Olhei em volta, percebendo que havia amanhecido e que a estrada da montanha continuava deserta. Porém isso não garantia que não tínhamos sido vistos, um carro poderia ter passado enquanto dormíamos e pensado que eram dois adolescentes que haviam caído de bêbados para não ter conseguido chegar a suas casas. Não me importei. Na verdade nada importava quando finalmente tomei coragem e toquei as pontas suaves de seu cabelo, afastando-as para lado e alisando sua testa. Assim como me lembrava, os fios eram macios e perfeitos, não pude me afastar imediatamente, mas quando percebi que estava o acariciando demais, afastei a mão, suspirando pela falta de consideração que estava tento com Damien naquele instante. Ainda namorava afinal de contas, não podia ficar tocando outro cara enquanto o namorava.
— Não pare — Jimmy sussurrou.
Eu me assustei e tentei me afastar, mas seu braço ainda estava me segurando contra seu corpo, prendendo no lugar quando ele abriu aqueles olhos impossivelmente escuros.
— Gosto quando toca meus cabelos — falou ele, e parecia tão sério que senti meu corpo tremer ante a intensidade de seu olhar. Jimmy encarou a reação como outra coisa — Está com frio? — Se inclinando, ele tratou de se levantar e então me soltou. Tudo em mim choramingou a perda, mas me contive onde estava quando ele começou a puxar de dentro do cesto de piquenique, o que me pareceu ser sua jaqueta preta. Colocou sobre meus ombros antes de voltar a me puxar. — Melhor?
Incapaz de recusar o contato, assenti. Em seguida olhei em volta para o sol que surgia no céu um pouco nublado.
— Todos devem estar preocupados com meu sumiço.
— Não se preocupe. Eu mandei uma mensagem para Jared assim que você dormiu dizendo que estávamos bem. Não vamos ter que encarar a policia na porta da sua casa pelo menos — Sorriu.
Eu me encolhi, puxando as pernas para que pudesse abraçar e apoiar o queixo nos joelhos.
— Que casa? — perguntei com rancor — Não faço ideia para onde devo ir... Depois de tudo, ainda estou com dificuldade para entender para onde as estrelas querem que eu vá.
— Eu estou sempre aqui para ajudá-la — disse ele, seus olhos intensos me coagiam — Por agora, vamos para a casa de Jared, e quando chegarmos lá, pode resolver o que vai sair disso.
Jimmy tocou meus cabelos quando esses caíram para frente, e cuidadosamente, os empurrou para trás. As pontas dos seus dedos roçaram meu rosto, e quando virei-me para olhar, notei pequenos calos nos seus dedos, e a pele envolta deles parecia mais áspera, o que denunciavam as mãos de um pintor.
— Você ainda pinta — Apontei curiosa.
Ele recolheu a mão como se eu estivesse pegando fogo. Olhou para os dedos e depois para mim.
— Sim... Todos os dias. — respondeu, e alguma coisa em sua voz me fez encará-lo querendo uma resposta para forma como ele me observava, para como ele me analisava desde as pontas dos cabelos até as pontas nos dedos do pé. Ele parecia estar guardando a minha aparecia, devorando o máximo que podia.
— O que aconteceu com sua faculdade Jimmy? — Perguntei, olhando no fundo de seus olhos e notando como ele tentou desviá-los, mas eu estava cheia daquilo. Eu sentia que ele escondia algo, e queria saber o que era — Não desvie o olhar quando estou falando — resmunguei, e por um impulso louco, segurei seu rosto reto, querendo que ele me encarasse.
A surpresa foi facilmente detectada, porém substituída por um sorriso.
— Não ousaria fazer isso novamente, senhorita — disse a meia voz. Eu soltei seu rosto e bufei.
— Pare de tentar me bajular. Eu sei que está escondendo algo... Por que não quer nos contar? Você desistiu é isso? Não é vergonha nenhuma desistir, afinal, Liam também não quer fazer faculdade. — Mais uma vez, acho que sem perceber, ele tentou desviar a atenção de mim, mas limpei a garganta, indicando que permanecesse como estava.
Ele suspirou. — É complicado Harlow.
— Complicado ao ponto de não poder dividir com seus amigos? O que está acontecendo?
— Nada — Sua voz soou tão cansada, que comecei a me preocupar — Eu só... pensei que estava indo rápido demais e decidi esperar. — Eu o encarei completamente debochada.
— Você com certeza vai arranjar uma mentira melhor que essa. — falei entediada, ele virou os olhos. — Jimmy, eu sei que estava super animado para ir a faculdade. O que mudou?
Eu não esperava a forma como ele me olhou a seguir. O brilho em suas íris, a firmeza em sua face. Aquilo queria dizer alguma coisa, mas o que?
— Jimmy...
— Me dê dois dias — Ele me interrompeu. Eu franzi o cenho e ele sorriu — Falarei o motivo da minha desistência, juntamente com sua resposta. Mesmo se essa for negativa e eu odiá-la, apesar de tudo, você merece saber. Apenas me dê dois dias. É justo para ambos.
Suspirei. Não dava para negar nada quando ele pedia daquele jeito. Encarando seu rosto, assenti, vendo como ele sorria alto.
— Ok. Mas quero ouvir a verdade.
— E a verdade terá pequena — garantiu, e se inclinou para frente. Ele beijou minha testa e depois se levantou — Que tal nos encontrar aqui amanhã às oito? Por mais que eu queira estar o dia todo ao seu lado, eu prometi que daria tempo para que pensasse, portanto não quero que minha presença influencie sua decisão.
Sorri de lado, assistindo ele guardar as coisas no cesto, me levantando peguei a toalha na qual dormimos e entreguei a ele.
— Tudo bem, seria ótimo — Ele sorriu.
— Legal. Vamos então? — Assenti, e segurando sua mão nós caminhamos para estrada, onde sua moto estava devidamente escondida atrás de uma árvore. Esperei que ele prendesse o cesto atrás enquanto ajeitava minha mochila nas costas, e em seguida aceitei o capacete que ele tinha me oferecido na última vez que viajamos até o asilo. Em seguida me ajeitei atrás dele, passando os braços por sua cintura e ajeitando as pernas nos lados da moto.
Nós não falamos nada durante o caminho, e fiquei mais do que agradecida por isso. Mas quanto mais me aproximava de casa, mais a aflita me encontrava. O que aconteceria quando tivesse que escolher para que casa ir? Como falaria com Amélia sobre querer ficar com Jared e Dana, pelo menos até o julgamento? Eu não fazia a menor ideia, e isso estava me corroendo por dentro.
Como se sentisse meu nervosismo, Jimmy levou uma de suas mãos para tocar as minhas, que estavam a sua volta com grande empenho e o apertando mais que o necessário. Ele a cariciou, e isso ajudou um pouco e me fez ter controle de mim mesmo, pelo menos por enquanto.
Eu permaneci sentindo a forma como estávamos perto e nem me dei ao trabalho de prestar atenção no caminho, mas de toda forma eu soube assim que chegamos, pois Jimmy praguejou algo ao parar moto, e seus olhos estavam travados em minha varanda, onde Damien estava sentado e olhando diretamente para mim.
Senti meu coração pular e soltei Jimmy o mais de pressa possível, no entanto fazer isso quase causou a minha queda da moto, sorte minha era que Jimmy prestava atenção em todos os meus movimentos. Ele segurou-me pelo braço bem a tempo.
— Tenha calma — rosnou ele, e me ajudou pular da moto. Enquanto tirava o capacete, sabia que Damien assistia cada passo — Se ele for duro com você... — Olhei para Jimmy, ele encarava Damien com o que parecia ser um aviso mortal.
— Ele teria razão se fosse — falei, isso atraiu sua atenção. Seus olhos suavizarão antes. — Obrigada pela carona.
— Me chame se precisar de ajuda. Não hesite ok? — Assenti, entregando-lhe o capacete.
— Ok. Agora vá. — Ele não gostou de fazê-lo, mas depois de dar um último suspirar, beijou carinhosamente minha testa e partiu, sumindo na curva da rua. Percebi tarde demais depois, que não havia devolvido sua jaqueta.
Tomando o máximo de coragem possível, me virei. Caminhei até a varanda da casa, sentindo os olhos castanhos mel de Damien me devorarem por inteira, porém eu sabia que não existia malicia naquele olhar. Ele estava apenas constatando que eu estava inteira e sem nenhum arranhão. Quando finalmente focou em meu rosto, senti meu peito se apertar ao ver tanta magoa acumulada em suas íris.
Uma coisa que havia aprendido sobre Damien, era que ele nunca na vida deixava de sorrir. A todo instante ele tinha os dentes brancos e bonitos para fora, porém naquele momento, ele não o tinha e não o mandava em minha direção, tudo que podia ver ali era tristeza e por mais incrível que pudesse parecer, preocupação. Damien podia estar magoado comigo, mas ainda sim, não conseguia se impedir de ficar preocupado.
Eu cheguei a sua frente pronta para começar um longo discurso de desculpas e dizer que nada havia acontecido entre mim e Jimmy. Iria explicar como aquelas fotos eram falsas, mas fui interrompida quando a porta da casa foi escancarada e Jared apareceu ali, com manchas em voltas dos olhos e ainda em seu avental de trabalho. Ele não olhava para mim, tecnicamente, esfregava a mão em seus cabelos enquanto lia o que tinha em um pequeno papel.
— Damien, será que pode ir a farmácia comprar esses remédios para... — E então ele ergueu a cabeça. Ele arregalou os olhos e soltou o ar.
— Oh Deus, Harlow — Achei até visto lágrimas de alívio em seus olhos, porém não tinha certeza, considerando o fato que o próximo passo dele foi descer a varanda e me envolver com os braços — Ah querida, eu tive tanto medo que não voltasse para cá. Pensei que iria com ela... Meu Deus Harlow. — Ele me apertou mais, tão forte que eu senti minhas próprias lágrimas darem as caras. Percebi que Jimmy tinha razão. Por agora, o certo era esta com Jared e Dana, e os problemas eu resolveria depois.
— Desculpe ter fugido — sussurrei para ele, o abraçando também. — Eu só precisava de um tempo para pensar.
— Não. Tudo bem — Ele se afastou e sorriu, segurando meu rosto entre as mãos. As lágrimas que escapara escorregando por sua bochecha — O importante é que está de volta. — Sorri de lado, e então me dei conta o porquê dele sair para fora. Olhei para suas mãos com o cenho franzindo.
— Para quem são os remédios? — indaguei. O olhar de Jad ficou então triste, cheio de preocupação.
— Dana não está muito bem — falou, e tudo em mim se enrijeceu.
— Dan está doente? — questionei alarmada, Jared ia falar, mas eu precisava ver com meus próprios olhos. Passei por ele e corri para dentro de casa, subindo as escadas até o quarto da minha irmã mais velha.
A porta estava aberta então apenas entrei direto, mas refreei os passos na entrada. Dana não era de ficar doente, de todos na família, era a que mais tinha boa saúde e nunca se gripava. Porém o que vi ali não parecia nada saudável. Minha irmã estava em baixo de dois cobertores e tinha os olhos fechados, eles estavam tão fundos que eu estremeci em simpatia. Seus lábios estavam um pouco rachados e pálidos, e quando me aproximei mais, caindo de joelhos ao lado da cama, percebi que ela tremia um pouco.
— Dan?
Seus olhos abriram e imediatamente marejaram, os meus fizeram o mesmo ao ver como ela parecia frágil.
— Você voltou — Ela fungou, e eu quis me xingar por ter ser quer ido. — Pen-pensei que fosse...
— Shh. Está tudo bem — Toquei seu rosto, sorrindo para ela suavemente e escondendo um estremecer ao perceber sua temperatura elevada — Eu não vou a lugar algum. Acredite. Mas quero que você me explique por que está assim. Realmente Dana, falei para se cuidar ou ficaria doente.
Um sorriso curvou em seus lábios trêmulos ela agarrou minha mão.
— Acho que acabei me descuidando por um minuto... Sinto muito — disse, e eu suspirei, balançando a cabeça negativamente.
— Você é tão teimosa. — resmunguei, e logo em seguida Jared entrou no quarto com um sorriso.
— Eu tenho falado isso a ela, mas não acredita — brincou, e caminhou até o outro lado da cama para poder tocar a testa da irmã. Essa mesmo lhe olhou divertidamente.
— Não faço ideia do que estão falando — resmungou, eu ri, e antes que pudesse me fingir de brava, outra pessoa passou pela porta do quarto. Não me surpreendi ao ver Caroline vestida em seu costumeiro terninho, porém ele estava diferente do habitual. Começando pelo fato de que o blazer tinha sido dispensado e a blusa branca de baixo parecia um tanto molhada, sua calça não era diferente. Eu fiquei chocada que estivesse olhando para uma Caroline tão desarrumada. Aquele cabelo preso em um coque com certeza teria deixado-a horrorizada se olhasse no espelho.
— Está tudo pronto para o banho dela — falou a Jared, e então me olhou com um sorriso — Harlow, que bom que está de volta.
— Claro — falei, e ergui um dedo para indica-la — O que aconteceu com você?
A expressão de Caroline foi de confusão, e então ela olhou para si mesma e piscou. Em seguida seus olhos se arregalaram drasticamente antes dela procurar pelo espelho de Dana, que era preso no guarda-roupa.
— Oh! Deus querido — Ela estava espantada, se tornando branca — Eu não percebi. Como não percebi tudo isso? Olhe meu cabelo e...
— Está descalça — Apontei divertida, Jared me olhou reprovador, mas parecia tão divertido quanto eu.
— Oh, eu estou uma bagunça.
— Se te consola Car — Dana tentou se levantar, mas Jared logo lhe olhou com uma advertência. Ela suspirou— Eu não quero nem ver minha aparência. Eu devo estar horrenda.
— Está mesmo — Garanti, Dana arregalou os olhos e Jared bufou uma risada.
— Não seja assim Harlow. Você continua linda, querida — Jad disse, e acariciou o cabelo da irmã. Em seguida caminhou até Caroline e envolveu um braço por sua cintura — A senhorita também. Está linda completamente desarrumada.
Pelo reflexo do espelho, pude vê-la corar, e então sorrir para ele. Eu suspirei e me sentei na ponta da cama de Dana.
— Eu acho que vou vomitar arco-íris — Murmurou minha irmã com uma cara de enjoo, e sorri de lado totalmente em acordo.
— Harlow, é bom que tenha chegado. Será que pode me ajudar com o banho de Dana? Eu estava preparando isso agora — Perguntou Car se aproximando da cama com Jad novamente, eu assenti, mas logo Dan resmungou.
— Eu não preciso de ajuda. Posso tomar banho sozinha.
— Você passou a noite tremendo e ainda tem febre — Jared censurou com uma careta — Não vai parar de tremer enquanto ela não abaixar, o que significa que você corre risco de tonturas durante o banho. Acha mesmo que vou deixá-la sozinha?
— Claro que não doutor — murmurou minha irmã e virou os olhos desgostosos — Mas garanto que posso me virar sozinha.
— Devidamente anotado. — Confirmou Jad, e foi até sua famosa maleta — Damien foi comprar seus remédios, quando ele voltar você já deve estar pronta. Car, poderia por favor, levá-la para o banheiro e tratar disso. Harlow, você ajuda no que precisar e separa umas roupas para ela que sejam abertas... talvez aquele pijama que o pai deu.
Dana engasgou.
— Eu odeio aquele pijama! — Jad sorriu, mas não a olhou.
— Faça isso. Estarei lá em baixo preparando a sopa para ela. — Assenti, e quando ele se virou e saiu do quarto, Dana passou a resmungar maldições a seu favor.
— Vamos acabar com isso resmungona — falei, e afastei os cobertores dela enquanto Car ajudava ela levantar. Nós caminhamos pelo corredor com ela bem lentamente até chegar ao banheiro, onde a colocamos sentada no vaso e passamos a despi-la.
— Nunca na vida ficarei tão intima de vocês novamente — Ela reclamou, e eu e Caroline rimos alto.
— Então não fique doente novamente, querida — Falou Car e puxou sua camiseta para cima da cabeça. — Não se preocupe, não existe nada que você tem que eu não tenha.
Dan sorriu de lado e nos olhou — Mas eu tenho mais peito que vocês duas juntas.
Novamente, nós rimos, mas não deixamos de notar como ela realmente tinha mais peitos que nós duas juntas.
— Poís é, você é tão sortuda — Zombei e ela assentiu, olhando seus seios e depois a nós.
— Eu sou perfeita. — Disse orgulhosa, e eu engasguei com o riso.
Caroline balançou a cabeça.
— Acho que a febre está afetando sua cabeça Dan. — falei, minha irmã riu.
— Estou apenas sendo sincera. — disse e suspirou — Eu sou bonita.
— Ah, claro. É magnifica Dana — Car falou, e a pegou com cuidado, querendo que ela se levantasse — Agora vamos lavar esse corpo magnifico. Harlow, me ajude aqui.
Com muito trabalho, nós duas colocamos minha irmã risonha e doente na cadeira, depois ligamos o chuveiro em uma temperatura não muito quente. Nós esfregamos ela cuidadosamente e em seguida eu lavei seu cabelo, lembrando do dia do meu aniversário, quando ela e Jimmy trabalharam em me dar banho e me vestir como se fosse uma bonequinha frágil. Percebi que o papel agora estava invertido, e dessa vez ela era boneca frágil.
Depois do banho, deixei que Car a secasse enquanto separava sua roupa, pegando justamente o pijama que Jared sugeriu e que Dana odiava. Quando voltamos ao quarto ela estava devidamente vestida e já tentava fechar os olhos querendo dormir, mas nós não permitimos, e eu tive de ficar conversando com ela enquanto Car penteava seus cabelos. Foi enquanto fazíamos isso, que Damien entrou no quarto.
— Esse sim é um pijama legal — Ele sorria para Dana com a doçura que ainda não tinha lançado para mim, mas deixei passar quando Dan suspirou e olhou para a camiseta do pijama, olhando para a cara do bob espoja com rancor.
Seu lábio tremeu como se ela fosse chorar.
— Eu nem mesmo fico sexy com essa roupa — choramingou. Eu ri. Sabia que o minha irmã estava absurdamente sensível hoje, por isso acariciei suas mãos quando lágrimas salpicaram suas bochechas.
— Hey, pare com isso. Você está loucamente sexy com esse pijama — garanti, ela balançou a cabeça negativamente, sabendo que era mentira, pois agora ela estava tudo, menos sexy. Car tinha feito uma trança em seu cabelo e seus olhos molhados a deixavam mais parecendo uma garotinha assustada que uma mulher adulta.
— Essas lágrimas não combinam com você — Eu me assustei quando Damien se abaixou ao meu lado e sorriu para Dan, que fungava e esfregava os olhos. Ela olhou para ele, piscando muito.
— Eu não gosto de chorar... Eu...não sei porque estou chorando. — Gemeu ela e o choro de criança parecia tão descontrolado, que me preocupei, porém Damien parecia profundamente admirado, ele olhava para ela com carinho quando sorriu e sua mão lhe secou uma lágrima.
— Talvez seja, porque você passou por muito nervosismo, e um deles foi sua irmã ter ido embora... Talvez a presença dela esteja lhe deixando aliviada, e por estar doente, não pode controlar seus sentimentos.
Eu virei para Dana e seus olhos arregalados denunciaram que Damien estava absolutamente certo, meu coração torceu, e eu suspirei.
— Caramba Dana. — Resmunguei, e subi na cama para puxá-la para um abraço. Foi ai que o choro da minha irmãzinha desandou de vez, tudo que sobrou foi soluços e mais soluços. Car e Damien se afastaram, deixando que eu tentasse acalmá-la. Quando Jared entrou no quanto com a sopa, quase a derrubou no chão ao ver o estado da irmã, mas Car explicou o motivo do choro e ele se acalmou, sentando-se na cama conosco para alisar o cabelo de Dana enquanto essa choramingava meu colo. Eu me senti culpada por ter feito isso com ela, mas não permitir que essa culpa tomasse meu corpo, precisava cuidar da minha irmã e não podia simplesmente focar em minha própria dor.
Quando o choro finalmente cessou, estávamos sozinhos no quarto, Damie e Caroline tinham nos dado privacidade. Jad fez Dana comer a sopa que depois de horas estava um pouco fria, e em seguida ela tomou os remédios que Damien comprou. Aos poucos, ela foi se entregando ao sono, e eu fiquei grata que ela finalmente pudesse descansar.
— Acho que agora temos que conversar — Jared falou depois de um tempo. No despertador de Dan marcavá-se duas da tarde, e eu não estava nenhum pouco a fim de ter que conversar.
— Não precisamos conversar sobre nada Jad — falei enquanto acariciava o rosto adormecido de Dana.
— Harlow, querida... Amélia quer que você vá morar com ela até o dia da audiência — Seu rosto contorceu com lamento — E eu não posso impedi-la quando o juiz já decidiu a que vai ser assim. Eu sinto muito.
Fiz careta e erguendo o rosto, suspirei, olhando-o nos olhos.
— Não vou a lugar algum Jared. — falei o mais séria possível. — Pelo menos não enquanto Dana não estiver bem. Ela não pode me obrigar.
— Mas...
— Não se preocupe irmão — Sorri e segurei apertada sua mão — Eu vou cuidar disso. Garanto-lhe.
~*~
Eu fiquei com meus irmãos por mais algumas horas antes de ir para meu quarto começar a me preparar para o inevitável. Tinha que ver Amélia. Mas infelizmente houve um equivoco.
— Olá namorada — Damien estava esparramado em minha cama quando entrei. Todo meu corpo gelou e eu paralisei, olhando ele sem saber ao menos o que dizer — Ok. Acho que não sou muito bem vindo, certo? — Ele ergueu uma sobrancelha.
Com a garganta raspando, me aproximei da cama lentamente.
— Não é verdade — comecei um tanto mortificada. — Damien, eu sei que nós temos que conversar, mas...
— Nós temos mesmo? — Ele se sentou na beirada da cama e juntou as mãos enquanto me olhava seriamente — Será que eu não posso tirar conclusões sobre o que andam comentando sobre mim em praticamente todas as redes sociais, Harlow?
Enjoos reviraram meu estômago enquanto o olhava, e percebi que estava em eterno pânico e morrendo de medo que ele fosse se afastar de mim depois da merda que estava fazendo-o passar. Todo meu corpo passou a tremer e minhas palavras saiam rápidas.
— Eu sei que está chateado... Tem suas razões — minha desolação nada se comparava com a dele.
Damien mal me olhava, tinha a vista presa nos pés.
— Chateado — Sua voz parecia morta quando ele voltou a falar — Não tenho muito direito de estar assim quando sempre soube o que iria acontecer se continuasse com você — Não sabia o que aquilo significa, mas de alguma forma, eu senti as palavras diretas no coração e quase sufoquei, olhando-o suplicando quando esse se levantou para caminhar até a porta.
— Não, espera! — Agarrei e me coloquei no seu caminho — Temos que esclarecer tudo, mas agora eu tenho que falar com Amélia e... Você não pode simplesmente sair pensando que fiz tudo de propósito, eu não fiz! Eu nunca quis te magoar Damie, precisa me deixar explicar primeiro e vai entender. — Eu estava desesperada, só a ideia de deixa-lo partir pensando atrocidades sobre mim, não podia permitir que me deixasse por mais egoísta que fosse.
Damie franziu o cenho, ainda fugindo do meu olhar.
— Você está abatida e com problemas, entendo que não é hora para explicações. Agora não é o melhor momento para termos essa conversa, portanto falamos em outra ocasião — Mais uma vez, ele tentou me circular, mas eu segurei seus braços, sentindo o pavor na beirada.
— Damien, por favor...
— Depois Harlow... Depois — E ele abaixou minhas mãos, e saiu em um silêncio aterrador. Respirando com dificuldade, me virei para porta, não acreditando que ele estava mesmo se afastando, assim, sem mais nem menos sem que eu pudesse ter explicado porra nenhuma. Uma dor excruciante me dominou e sem que eu percebesse, eu já estava correndo pelo corredor atrás dele e descendo as escadas, meu peito dando lufadas aceleradas e o coração indo além dos batimentos.
Amedrontada, eu gritei por ele. Jared saiu da cozinha com os olhos arregalados e Caroline estava logo atrás
— Hey, o que é isso?
— Onde ele está? — questionei depressa — Damien, para onde ele foi?
Ele franziu a testa e Car apenas observou ao falar.
— Ele acabou de sair com meu carro, aconteceu alguma... — Mas não ouvi o restante de sua pergunta, pois estava me apressando até a varanda.
Com certeza não podia descrever o que senti ao perceber que ele já tinha partido, ido para qualquer lugar longe de mim. Chorei em silêncio, escorregando pela parede da varanda até estar sentada no chão, olhando para o nada em minha frente, eu ofegava com falta de ar, mas não me importava menos... Damien tinha ido embora. E eu era a culpada. Eu.
— Harlow, venha querida — Jared apareceu na porta, se abaixando ao meu lado, sua face ficou preocupada ao constatar que estava chorando e tendo uma crise de asma. — Car, pegue a bombinha dela em minha maleta, vá rápido.
Correndo, Caroline adentrou a casa e sumiu. Eu senti quando Jad passou os braços por trás das minhas costas e pernas, pegando-me no colo para que pudesse me levar para dentro. Eu tossi sem ar quando fui posta no sofá. Não precisou nem de meia hora e Car já estava de volta com minha bombinha, essa Jared me deu e apertou enquanto aspirava.
Quando a pressão em meu peito aliviou, um soluço escapou, depois outro e outro, até que Jared estava me puxando para seu colo e me apertando.
— Tudo bem querida, estou aqui. — Ele beijou minha cabeça, balançando-me para trás e para frente, como se fosse um bebê.
— E-ele... não vai me perdoar — choraminguei em seu peito — Ele não vai.
— Seja lá o que tenha feito, Damien te adora Harlow — Ele falou e suspirou quando funguei — Vai dar tudo certo meu anjo. Não fique assim, sabe que não suporto vê-la chorando.
— Ele me o-deia — murmurei desolada — Ele foi embora e nem me deixou explicar nada... Eu não quero que ele me odeie.
Uma mão em minha cabeça me fez erguer os olhos, e quando encontrei o rosto de Car, ela estava dando-me um sorriso.
— Dê um tempo para ele. Quando Dan está chateado, ele gosta de estar sozinho ou ir para um mar... Aqui não tem necessariamente isso, então ele precisa apenas pensar em um lugar distante de problemas.
— Eu sou o problema dele — constatei. Car negou, olhando-me com serenidade.
— Não... você não é... Acredite que meu irmão está apenas um pouco perdido. Ele vai voltar e vocês vão conversar. Ele te ama Harlow, fique calma.
Eu tentei deixar que as palavras de Caroline me acalmassem, mas não fizeram nenhum efeito, ainda tinha medo que ele não me perdoasse. Porém mesmo que minha cabeça estivesse em outro lugar, me obriguei a sair do enlaço de Jared e subir para me trocar, pois afinal de contas, ainda tinha que tratar de conversar com Amélia.
Respirando fundo, cheguei ao meu quarto totalmente exausta, olhando em volta com tristeza. Caminhei até minha escrivaninha e retirei por porta-retratos dos meus pais de lá, suspirando quando olhei para seus rostos.
— Será que não podem me dar uma luz? — indaguei com frustração.
Pouco tempo depois, uma bolota de pelo começou a se agitar em meus pés, quando olhei para baixo, dei um sorriso para Slash, recordando-me ainda mais de Damien.
— Acha que ele vai me perdoar? — Perguntei a ele e o peguei para acaricia-lo. Sorri quando fui afetuosamente lambida. — Eu espero que sim... Estamos falando do seu pai certo? — O pug latiu, como se concordasse com o fato de o louro surfista fosse seu mais novo pai, e eu ri, satisfeita que alguém pudesse ter me feito esquecer por um instante, que estava completamente ferrada.
— Agora preciso encarar isso Slash... Infelizmente. — resmunguei, e lamentando o coloquei na cama para procurar uma roupa.
No banheiro eu franzi a testa ao começar me despir. Ainda usava a jaqueta de Jimmy e seu perfume era tão e reconfortante, que estava começando a ficar relutante sobre devolver.
— Não seja idiota — censurei, e retirei a jaqueta e toda a roupa que usava desde ontem.
Tomei um banho rápido e sem relação, ao sair vesti-me com um jeans e uma blusinha de manga. Pela sei lá que vez, eu olhei para a jaqueta escura de Jimmy, me perguntando o que faria com ela. Mordendo o lábio, peguei-a em mãos e levei ao nariz, fechando os olhos ao sentir seu perfume.
Deus querido. Eu estava me perdendo aos poucos por causa dele.
Dois dias. Eu tinha apenas dois dias para me decidir sobre o que fazer com ele, e o primeiro já estava passando e eu não fazia nem ideia de como agir. Era como se uma pessoa lhe jogasse uma bomba e lhe pedisse para cortar o fio certo quando nunca fez isso na vida. Estava entre a cruz e precipício, e isso me fazia ficar frustrada.
Desistindo de recusar o conforto que era usar a jaqueta, deixei os ombros caírem e enfiei meus braços nas mangas, odiando-me por ser fraca ao ponto de não resistir o perfume daquele loiro sedutor.
Pronta, desci as escadas depois de ter pegado minha mochila e também depois de ter dado uma espiada em Dana. Ela continuava dormindo em baixo de sua montanha de cobertores, fiquei aliviada, pois não queria que ela acordasse para saber que estava na minha tia, teria pouquíssimo tempo para resolver isso e então voltar.
— Já vai? — Jad perguntou quando apareci na sala. Ele estava sentando em sua poltrona reconstruída e tinha várias pastas e planilhas na mesa.
— Sim. Onde está Car?
— Foi encontrar Damien — disse, e eu no mesmo instante lhe olhei, ele sorriu — Ele ligou e avisou onde estava. Não se preocupe, tudo vai se acertar em entre vocês.
— Eu espero que sim — respondi quando me aproximei tomando um dos raios-x que tinha em meio à bagunça e pisquei em confusão. Jared já tinha me explicado a forma certa de ver um raio-x daquele, e pelo que olhava ali, era de alguém que tinha um serio problema no pulmão. — Isso é...
— Câncer. Isso mesmo — Ele respirou fundo, olhando para os papeis — Meu mais novo paciente está com câncer de pulmão e tem passado por várias recaídas... Tenho tentado estabilizá-lo, mas parece que vou ter que recorrer à cirurgia... O prognostico dele é bem ruim.
— E por que você parece tão hesitante quanto à cirurgia? Acha que ele pode não aguentar? — perguntei, ele fez careta, olhando para o raio-x em minha mão.
— Na verdade não é sobre ele... É sobre mim. Eu tenho estado muito emocional e um tanto desatento em minhas cirurgias, provavelmente por causa de tudo que está acontecendo conosco — Sua expressão foi de frustração e medo — Tenho sorte de nada de mal ter ocorrido até agora, mas temo fazer algo errado e acabar... — Balançou a cabeça.
Ele não tinha que terminar para que eu entendesse, portanto fui até ele e beijei sua testa, sorrindo em seguida.
— Não tem que se sentir assim. Você é bom no que faz e só o fato de admitir que não esta em condições de seguir em frente já lhe faz um cirurgião incrível — Ele deu um meio sorriso sem graça e eu me abaixei, colocando o raio-x de seu paciente em suas mãos— Eu sei que se sairá bem Jad, eu o conheço e sei que você nunca faria nada se soubesse que não é capaz. Porém esse não é o caso certo?
Ele me olhou profundamente, e então tocou meu rosto.
— O que eu vou fazer sem você se ela lhe levar? — questionou melancólico. Eu apertei os lábios.
— Não ficará sem mim... Prometo.
— Ah Harlow... eu queria tanto poder acreditar nisso. Não faz ideia. — lamentou, e eu pude sentir sua tristeza. Não querendo vê-lo daquela forma, tratei de abraça-lo e sai da casa com o coração apertado.
Tudo estava dando errado. Não era assim que eu pretendia seguir com minha vida, na verdade eu pensava que tudo se resolveria com uma boa conversa, mas pelo visto eu estava terrivelmente errada. E isso me perturbou durante toda a trajetória até o Hotel que Amélia estava hospedada, ao chegar ao no prédio, fui diretamente para o elevador, fechando os olhos enquanto esse subia, pois não queria sofrer um ataque com a fobia de estar em um lugar tão pequeno. Quando cheguei ao andar, sai praticamente correndo, mas ao dar de cara com a porta da minha tia, eu me refreei, pensando no que iria falar e como faria para fazê-lo sem magoá-la.
Engoli em seco, apoiando a testa contra a madeira fria e então respirando fundo. Estava na hora de encarar aquilo, não podia fugir de algo inevitável, por tanto ergui a mão e apertei a campainha. Não sei quanto tempo à porta demorou em ser aberta, pois estava ocupada demais tentando não ceder sobre as pernas, mas quando vi Amélia aparecer na entrada, tudo em mim enrijeceu e não tive mais medo. Olhar seus olhos inexpressíveis, o seu rosto lívido e bonito, fez-me pensar em Dana, que estava adoentada em cima de uma cama e precisando de mim, por mais que eu gostasse de Amélia, ela não estava em uma situação tão precária quanto a da minha irmã, portanto ergui a cabeça e apenas passei por minha tia, sentindo que ela me seguia com os olhos enquanto fechava a porta.
— Você demorou — Foi o que ela disse. Sua voz não detectava nenhuma magoa, mas havia algo... algo que me fez olhá-la.
Hoje ela trajava um vestido sem estampas na cor preta, sua cintura era revoltada por um cinto e tinha uma colar de brilhantes sobre o pescoço, tal esse provavelmente custava uma pequena fortuna. O cabelo estava preso em um coque apertado e permitia que seu rosto com maquiagem sombreada, se destacasse. Seus saltos batiam contra o piso enquanto ela lentamente caminhava até mim e então se sentava em seu sofá e acenava para que fizesse o mesmo no outro a sua frente.
Ainda olhando-a, me abaixei até estar confortável e pisquei, pensando em como começar essa conversa, mas não parecia haver modo mais fácil do que a forma direta, no entanto falei.
— Você está esperando alguém? — Apontei para a suas roupas elegantes.
Ela não desviou o olhar e deu um meio sorriso.
— Não se preocupe, estava de saída para um lugar, mas isso pode esperar. — garantiu, e cruzou as pernas de um modo tão educado, que me senti deslocada — Onde esteve a noite toda? Eu a esperei durante horas.
Abaixei o rosto ressentida. Mais uma vez, pensei em Dana, em como ela estava fragilizada e que se acordasse e não me encontrasse, provavelmente pioraria. Usando essa base, arranjei voz.
— Eu não posso ficar — Soltei.
Ela nada disse, portanto continuei.
— Não quero dizer que desejo menos estar ao seu lado, é só... Não posso deixar meus irmãos agora. Dana está doente e precisa de mim.
Amélia me estudou por uns instantes antes de falar.
— Tem certeza que não está usando esse fato para se manter afastada de mim? — indagou, e eu no mesmo instante arregalei os olhos horrorizados.
— O que? Não! Não é nada disso tia.
— Será mesmo Harlow? — Seu tom assumiu uma tristeza que só parecia conseguir demonstrar para mim. Se por falta de confiança nos outros ou por me amar mais eu não fazia ideia, mas ver que aquela mulher dura e diferente, só deixava as barreiras cair por mim, fazia-me amar ela mais um pouquinho. — Ainda quer vir morar comigo?
— Eu quero mas... — Respirei fundo e esfreguei o rosto — É difícil ver a tristeza nos olhos dos meus irmãos. É difícil ver minha irmã adoecer por minha causa... Estou tentando fazer algo para que todos saiam bem e ganhando, mas não está dando certo.
— Você deve parar de pensar no que os outros querem e prestar mais atenção no que você quer. — Ela se levantou e caminhou habilidosamente reta, até sua mesinha com copos de cristais, de onde tomou um e o encheu com burbom. — Apesar disso Harlow, não posso mais desistir disso — Ela olhava para o chão fixamente.
Eu franzi o cenho.
— O que quer dizer?
Observei atentamente quando sua expressão mudou para desolação, e então ela virou o rosto, encarando a grande janela que dava para uma varanda no lado esquerdo na sala.
— Dana estava certa sobre o que disse — falou me surpreendendo, e então tomou um pouco de seu copo — Ela estava certa sobre eu não conseguir suportar minha solidão... Solidão que eu mesmo trouxe para minha vida. — Um sorriso cético cortou seus lábios finos e ela riu levemente, mas não achei que fosse de felicidade. — Eu os deixei por conta de assuntos do passado... É complicado explicar, mas de qualquer forma, nunca tentei me aproximar mesmo depois que minha mãe faleceu, eu deixei que ficasse no preto e branco e estou arcando com as consequências. Mas por mais que eu não queira magoar seus irmãos e principalmente você... Eu não consigo. Como todos acham, sou egoísta, e não quero perder a única pessoa que esteve ao meu lado por querer, e não por obrigação. Então me perdoe por dizer que não vou desistir de lhe ter, mesmo que me peça Harlow, não posso fazer isso.
Deixei que o peso daquelas palavras caísse sobre mim enquanto a olhava. Eu sabia que custava muito para ela deixar o orgulho de lado para confessar que se sentia sozinha, e sabia que ela estava arrependida por tudo que estava tendo de fazer com meus irmãos e principalmente comigo, porém, no entanto, em baixo dessa camada dura de tristeza, havia mais um olhar, e esse não carregava qualquer tipo de arrependimento ou hesitação, era um olhar que dava-me a certeza de que aquilo era mais que me ter por perto, transmitia segredos que eu não compreendia.
Respirando fundo, me levantei, apertando a alça da mochila na mão.
— Eu não quero que desista tia — confessei, mas acrescentei — No entanto só peço que jogue limpo. Meu irmão também tem seus direitos, e estarei os aceitando, assim como aceitarei os seus. Certo?
Ela bebeu o burbom e encarou-me, em seguida assentiu.
— Claro. — Ela abandonou o copo na mesinha e caminhou até mim — Devo encarar que irá ficar com seus irmãos agora. — concluiu ela.
Com certeza ela pôde ver como ter que escolher me fazia infeliz.
— Tente entender... Eles precisam de mim agora e Dana...
— Tudo bem — Ela me cortou e sorriu levemente ao tocar meu rosto — Vá ficar com seus irmãos. E desculpe se lhe causei transtornos por sequer ter sugerido trazê-la para morar comigo até o julgamento. Acho que em parte eu tenho culpa por sua irmã estar doente.
— Isso não é...
— É sim — Insistiu com firmeza e seu olhar ficou distante — Apenas espero que possa me redimir quando tudo isso acabar.
Quando isso acabar?
Quando o que acabar? Será que estava se referindo a tutela? Sim. Provavelmente.
— Venho aqui amanhã novamente. — falei e abracei sua cintura, sorrindo quando seus braços me circularam — Eu prometo.
— Eu estarei te esperando querida — garantiu ela, e eu me afastei, aliviada que ela tivesse entendido e não brigado comigo. Não saberia controlar mais uma confusão. — Volte para Dana agora, qualquer coisa me ligue.
— Pode deixar. — E me sentindo pelo menos um pouquinho mais leve, eu sai do apartamento dela, e caminhei para o elevador o mais rápido possível.
Precisava cuidar de uma mulher adoentada e extremamente chorosa agora.
Eu tive que sorrir para tal pensamento e então me apressar para fora do edifício. Assim que pisei na calçada, o sol das quatro me fez erguer a mão e proteger os olhos, e ao fazer isso, a primeira coisa que tomou minha atenção foi à tatuagem em meu pulso esquerdo. Damien sobrevoou sobre minha cabeça e suspirei, desviando o olhar para o céu quando a claridade solar abaixou.
Teria que falar com Damien em alguma hora, não podia fugir para sempre.
— Me digam o que fazer — murmurei ao céu, ou, mais precisamente, para as estrelas que agora estavam escondidas atrás das nuvens e esperando junto com a lua a noite emergir. — Me deem uma saída disso, por favor. — Como se elas quisessem me responder, uma ventania soprou meus cabelos para frente. O assobio alto dizia: Mova sua bunda e não seja medrosa!
Eu bufei, tirando-os do rosto e encarando as nuvens em movimento.
— Foi de grade ajuda — ironizei, e resmunguei maldições começando meu caminho para o metrô.
Quando finalmente cheguei em casa, eu estava me perguntando se Dan tinha acordado, minha esperança era que não, já que sabia muito bem como ela iria se desesperar caso eu não tivesse ao seu lado. Conhecia minha irmã, ela era durona e forte quando saudável, mas doente, bem... Ela ficava exatamente do jeito que a encontrei ao por o pé dentro de casa de novo.
Jared estava amparando ela e sussurrava coisas em seu ouvido, mas nada parecia cessar os soluços da pobre mulher, que se agarrava no irmão e manchava a sua camiseta.
— Dan, não precisa ficar assim, querida, eu já disse que ela vem para casa — Jared explicava, mas quem disse que aquela dramática acreditava? Ficava murmurando coisas como: Ela nos deixou Jad... Foi morar com aquela impostora. E quando não falava mal de Amélia, ela choramingava sobre sua roupa.
— Eu odeio essa calça... Jad, eu estou tão feia. — Jared riu, alisando sua cabeça afetuosamente.
— Está linda Dana.
— Estou parecendo um botijão de gás embrulhado... Olha como estou gorda. Ninguém gosta de gordura e estou cheia delas. — E levantou a camiseta para mostrar sua muito plana e corada barriga. — Veja, muita gordura.
Sorri, e virando os olhos entrei por completo na sala.
— Eu não vejo gordura ai mulher, apenas um abdome sexy de morrer — falei, e logo os olhos se arregalaram ao me ver. O dela de surpresa e o de Jared com alívio.
— Você voltou! — Ela gritou, e esquecendo completamente que estava doente, ela saltou do colo de Jared e me agarrou em um abraço.
— Dana, vá com calma! — Ladrou o irmão. Ela nem o olhou, apenas me abraçou, portanto tive que guia-la novamente para o sofá.
— Por que não está na cama? — questionei nervosa, ela virou os olhos enquanto secava as lágrimas do rosto.
— Vamos Harlow, não seja chata... Já basta um doutor insuportável dentro de casa. — Jared sorriu e se levantou.
— Se não fosse teimosa, eu não seria insuportável. — falou, e deu um beijo em sua testa — Vou preparar sua sopa e a medicação. Fique quietinha aqui.
— Eu não tenho escolha, certo? — perguntou, eu e Jad respondemos em uníssono.
— Não!
Ela fez careta e passou a resmungar coisas como nós eramos mandões e que estava maravilhosamente bem, porém eu tinha a tocado e sabia que ainda tinha febre. Aos poucos seus múrmuros viraram maldições, e então ela estava chorando novamente, e chorando sem saber por que.
Jared e eu suspiramos.
— Olha Dan, por que não assiste um pouco de TV? Veja um pouco de filme, assim pode se distrair um pouco — falei, e lhe entreguei o controle. Ela fungou e ligou a TV, isso sem nunca deixar de choramingar como uma garotinha de cinco anos.
Aos poucos, ela foi parando de chorar até estar apenas soluçando. Sorrindo, me levantei para seguir Jad até a cozinha, de onde vinha um cheiro maravilhoso de sopa de carne. Eu amava as sopas do meu irmão.
— E então, como foi? — Ele perguntou quando desligou o fogão. Eu me sentei na cadeira e retirei a mochila das costas.
— Eu disse que resolveria tudo... Vou ficar com vocês — falei, e observei ele colocar um prato a minha frente. Sorri agradecida. — Nós falamos e concordamos em deixar tudo como está. Ela se sentiu culpada por Dan estar doente.
O cenho dele franziu e ele serviu um pouco da sopa para mim e deu-me uma colher. Em seguida começou a preparar o de Dana.
— Ela não falou mais nada? Não quis te impedir e...
— Eu já disse que Amélia não é assim — O interrompi, e ele suspirou — Por que não pode acreditar em mim?
— Não é isso, eu acredito em você — Se apressou em dizer, — Mas acontece que Amélia só age assim com você, Harlow. Eu vejo que ela lhe ama, mas não parece compartilhar o mesmo afeto comigo ou com Dana... E eu com certeza não ligo de não ser importante para ela, eu apenas não gosto da forma como ela excluí Dana. Eu nunca vi Dan explodir com alguém como ela fez com Amélia, e isso me perturba. Me faz pensar que Dan se importa mais do que está demonstrando.
— Quem não iria, Jad? É nossa tia — falei com ressentimento, e molhei os lábios — Sei que Amélia parece não demonstrar, mas ela gosta de vocês. Se deixassem ela mostrar pelo menos um pouco...
— Não tente sugerir nossa aproximação, Harlow — Disse rancoroso — Acha que depois de tudo eu ainda vá conseguir fazer as pazes com ela? Amélia está destruindo a família que eu tentei construir e proteger.
— Mas Jad... nós nunca vamos viver em paz se não se acertarem. Não entende que se você não quiser, tudo isso que estou fazendo vai ser em vão? — Me frustrei, e quando ele não me olhou eu bufei exasperada — Será que dá para me olhar nos olhos?!
Ele o fez, mas parecia relutante. — Não posso fazer isso Harlow.
— Nem mesmo por mim? — indaguei incrédula — Eu só quero que todos fiquem bem. Por que você não sacrifica esse orgulho idiota só uma vez? Tente por mim e Dana... Ou isso não servirá de merda nenhuma.
Ele fez uma careta, como se tivesse travando uma batalha com seu próprio ego. Isso me irritou até as estribeiras. Eu estava me matando para tentar amenizar a confusão, mas ele não podia deixar de ser egoísta, e apenas tentar se dar bem com Amélia para que aquilo tudo funcionasse para todos. O que havia de errado com todos daquela família? Por que em nome de Deus as coisas simples parecem tão malditamente difíceis quando surgiam no meio da minha dramática e cansativa vida?
Eu poderia ser mais exagerada que isso?
— Ok — falei grossa e dispensando a sopa — Eu já entendi. — E pisando duro me retirei da cozinha, deixando-o para trás enquanto me gritava.
Meia hora depois bati a porta do meu quarto e me tranquei, bufando profundamente ao cair na cama e apenas fechar os olhos. Toda aquela merda estava tirando minha paciência. Não fazia ideia de onde arranjaria um pouco de paz. Talvez se eu me tornasse uma freira e resolvesse ir morar numa igreja, as coisas pudessem ser mais fáceis no quesito “Querer paz.”
Foi pensando nisso que tirei minha caixinha de música da bolsa e a coloquei para tocar em cima da escrivaninha, ao lado da foto dos meus pais. Quando voltei a me deitar, dessa vez de olhos abertos, eu não consegui segurar o sorriso pequeno que cortou meus lábios quando me dei conta que o pôster enorme de Jimmy e eu ainda estava colado ao teto.
Dois dias.
Novamente, as palavras doces de Jimmy fizeram-me estremecer enquanto encarava seu rosto sorridente na imagem. Apertando a unha entre os dentes e com a caixinha de música tocando, um novo tom se formando em minha mente até que não pude aguentar e me levantei. Puxei meu violino de d’baixo da cama juntamente a minha caderneta que tinha as músicas da banda.
Eu começara a compor antes de viajar, porém nunca estava satisfeita com o rumo que a melodia seguia, e agora eu sabia o por que de não apreciar nada que colocava no bendito papel. Estava faltando sentimentalismo, estava faltando uma emoção que eu não sabia explicar em notas ou expressá-las adequadamente, e a falta disso fez com que a melodia ficasse forçada e repetitiva, sempre ecoando na mesma linha e ultrapassando a lei do calmo e sereno que tinha tentado impor, contudo eu podia arrumar.
Sem hesitar, arranquei a folha com a música antiga e tomei meu violino nas mãos, testei as cordas e repassei novamente cada nota que antes eu não compreendia. O fato de antes eu não ter conseguido descrever, era por estar em uma faze que somente a tristeza estava em ar, tudo que eu queria mostra tratava-se de tormento, no entanto isso mudou. Conseguir passar em forma de notas todos os obstáculos que tinha tido que enfrentar, era como se estivesse amando o violino e encaixando os dedos nos lugares certos que apenas me faziam acordar. Acordar para a vida real. Não a outra vida, a vida pobre, sem amor, sentimento, carácter, entusiasmo, ou até mesmo sem paixão. Não. Mas esta vida, a vida que estou a viver, a que é simplesmente digna de escrever sobre. Vida essa que estava sempre, por mais que eu tente negar, entrelaçada com o brilho intenso dele.
Com aquele sorriso perigoso. Com aqueles cabelos dourados e suas mãos carinhosas com calos. E quando mais me dava conta disso, mas me impressionava com o tamanho da decisão. Não era algo que dava para se dizer ou confessar de repente, não, portanto, com o violino apoiado sobre o ombro, caminhei para a janela, juntando os dedos e deslizando, permitindo que eles dançassem sobre as cordas, tal como manteiga derretida na pele. Tal como uma pequena aranha, a brincar com as suas pernas. O arco nadando para cima e para baixo como uma grande canoa em um rio calmo e suave. E dele transmitia uma linda harmonia de acordo com o tempo passando, se intensificando até que tinha o caderno de música com três folhas completas e o céu cheio de estrelas.
E elas brilhavam para mim, como se dissessem. Sim! Sim! Toque mais. E eu não consegui conter a mão ou os dedos, apenas garantia seu pedido até que pude sentir as pontas dos dedos dormentes e cansados de fazerem pressão. Como se sentisse que estava pronta, no meio da escuridão da noite, a silhueta de alguém se aproximou da casa e parou em frente à calçada. Meu coração errou uma batida quando os olhos claros de Damien focaram-se em mim, chamando-me para fora.
Ele usava a mesma roupa que vestia hoje cedo, um jeans surrado e uma regata amarelada que combinava perfeitamente com seu cabelo arrepiado. Damien estava lindo como sempre, mas a falta de sorriso me fazia ficar mais agoniada do que o esperado. Odiava vê-la tão para baixo, odiava ver a forma hesitante que me olhava, odiava ter que machuca-lo mais do que já tinha feito. Mas se não o fizesse, algo pior poderia acontecer, e não estava cogitando torna-lo ainda mais triste.
Respirando fundo, pousei o violino e o arco na cama, em seguida tomei fôlego e voltei à janela. Está na hora de concertar as coisas. Pensei.
Tomando um fôlego grande, subi no batente da janela, pois não queria que Dana me visse saindo, e me preparando para queda, pulei para a grama sem sequer hesitar.
~*~
Eu nunca achei que algum dia eu estaria desconfortável perto de Damien. Nunca pensei que fosse olhar para ele e não saber o que falar. Mas bem... esse dia parecia ter chegado, pois minha garganta encontrava-se seca e sem vontade de funcionar. Depois que pulei a janela do meu quarto, nós não falamos nada, apenas olhamos um para outro até que eu mesma cansei e disse.
— Caminha comigo? — Ele me olhou, e eu fiquei com medo que se recusasse, no entanto ele apenas acenou e enfiou as mãos nos bolsos da calça, em seguida começou a andar.
Eu estava tão nervosa que segui ao seu lado sem saber por onde começar, e continuei dessa forma até que nos encontramos em uma praça vazia. A noite estava linda, mas aos poucos o silencio entre nós foi consumindo a beleza daquilo até que sentamos juntos em um dos vários bancos da praça.
Damien nem sequer me olhou de canto, e isso estava me perturbando mais que a maldita quietude. As horas foram passando lerdas, até que algo familiar para nós dois, começou a dar as caras. A quentura da luz do sol bateu contra nossos rostos e eu sorri um pouco, olhando para nossa tatuagem com carinho, e quase como se percebesse meu ato, ele cobriu seu próprio pulso, suspirando em seguida com força.
— Você vai terminar comigo não vai? — A pergunta repentina me fez arregalar os olhos e então corar.
Engasgada, tentei arranjar voz.
— Da-Damie... não é assim, eu só... — Sua risada irônica foi o que me calou e me fez abaixar a cabeça.
— Você demorou a noite inteira para começar a falar, e mesmo assim, eu que iniciei a coisa toda — Ele deu um sorrisinho cético e balançou a cabeça — Faça de uma vez Harlow, não fique prolongando isso.
Mais uma vez, fiquei sem palavras, e aos poucos não conseguia olhá-lo sem me sentir culpada.
— Me desculpe — Consegui sussurrar.
Eu não conseguia encontrar outra maneira de me expressar. Senti quando ele voltou-se para mim, mas não pude olhá-lo.
— Por que está se desculpando? — perguntou, e eu juro que quase limpei os ouvidos para ter certeza de que foi isso mesmo que ele tinha dito.
Franzindo o cenho com confusão, ergui o olhar para o dele e percebi que ele parecia mesmo muito confuso. O que me fez ficar confusa também.
— Ora... você ainda pergunta? — indaguei, e ele ergueu uma sobrancelha bem no alto — Você está magoado comigo. Por que fiz você se passar por... Bem, você sabe o que todos estão comentando...
— Que estou sendo chifrado? — Agora suas sobrancelhas pareciam estar querendo alcançar o topo do Empire State.
Eu senti todo meu corpo tremer.
— Damien me desculpa, eu nunca quis te magoar e... Eu tentei fazer Bryan apagar as fotos, mas ele não quis, então ninguém acreditou em mim quando disse que nada tinha acontecido entre o Jimmy e eu. Me perdoa, eu juro que tentei de tudo, mas eu não pude acalmar essa confusão toda que atraiu você mais ainda para dentro, e agora estamos aqui sem saber o que falar e eu não sei me expressar e...
— Harlow! — Dei um salto quando sua mão foi de encontro com minha boca, arregalei os olhos surpresa — Cala essa boca e me escuta.
Acho que minha expressão foi de extremo susto, pois ele balançou a cabeça como se estivesse indignado.
— Eu não estou chateado com você por causa disso — falou e me encarou com o que parecia ser nervosismo — Na moral Harlow, acha mesmo que eu não sei distingui uma mentira quando vejo uma? Esqueceu que eu estava junto quando Eloise disse que foi uma brincadeira que ela começou? Estava na cara que ia dar em merda, estávamos falando de dois garotos disputando uma garota, era óbvio que a partir daquele momento, muitas suposições iriam ser feitas.
— Eu não tinha pensado dessa forma. — Confessei um tanto chocada. Ele virou os olhos— Mas... se não está bravo por isso, então porque saiu da minha casa daquela forma?
A expressão dele mudou, e dessa vez eu pude ver tudo, a tristeza, a magoa, e isso sim me fez mais covarde que antes.
— Eu te esperei o dia inteiro para que pudéssemos conversar — falou, e isso acertou em cheio no peito — Quando olhei os comentários na internet, eu nunca duvidei da sua honestidade, pois sabia que era mentira e que assim que me visse, isso séria a primeira coisa que me explicaria... Mas quando você não voltou para casa, eu fiquei com medo.
— Eu não pude! — Me apressei em falar, um tom mais alto — Eu estava mal, eu juro... Não queria estar no meio da confusão de Jared e Amélia. Não tinha nada relacionado a você.
— Eu sei — assentiu, e esfregou a mão sobre o rosto — Mas o que me deixou chateado foi você não ter me procurado. Tem noção de como me preocupei? E quando soube por Jared que Jimmy tinha ido até você... — Ele bufou — Eu não me orgulho de dizer que fiquei enciumado e com muita raiva. Eu pensei que iria pelo menos me dizer que estava bem, mas não aconteceu, nem uma mensagem Harlow, o que me fez pensar que talvez você não precisasse de mim.
— Oh Damie — Me aproximei dele e enlacei nossos dedos, deitando a cabeça em seu ombro — Eu sempre vou precisar de você. Não pense que te amo menos só porque fiquei um tempo ao lado de Jimmy... Você faz parte da minha vida também. Sabe como eu enlouqueci depois que você foi embora de casa? Tinha certeza de que me odiava.
A cabeça dele pulou para o lado ele me olhava um tanto horrorizado agora.
— Odiar você? Harlow, como pôde pensar algo tão sem noção quanto isso? Desde que te conheci eu só tenho ganhado, encontrei uma amiga maravilhosa... — Meu coração aqueceu quando um sorriso apareceu em seus lábios e ele se inclinou — Também encontrei uma namorada esplendida. — E beijou suavemente minha boca, me fazendo sorrir — Não poderia odiar você caramelo, não poderia porque já te amo demais.
Uma lágrima traiçoeira abandonou meu olho e eu funguei.
— Eu não queria que as coisas terminassem assim... Não sabe como eu queria que você fosse o certo para mim Damie — falei, e ele sorriu mais, esfregando minha bochecha e secando-a suavemente.
— Mas eu não sou, certo? — Engoli em seco, abaixando os olhos, mas não por muito tempo, pois ele ergueu minha cabeça novamente — Eu conheço esse olhar... — Murmurou entretido — Parece que a garotinha apaixonada retornou. Não é verdade? — Envergonhada, senti meu rosto inteiro arder, e como se isso não fosse o suficiente, tudo retornou com as lágrimas, o descontrole, o desespero, as lembranças, e a paixão escondida.
— Eu estou perdida — Solucei ao chacoalhar a cabeça — Totalmente perdida Damien.
Ele suspirou, e devagar, me puxou para dentro de seus braços e me fez deitar cabeça em suas pernas. Ele ficou alisando meus cabelos, esperando que o choro cessasse e minha respiração acalmasse, e quando isso aconteceu, eu me sentia uma garota bagunçada e totalmente sem lágrimas, pois já tinha usado-às durante esses breves minutos.
Ao finalmente parar de soluçar, o sol já estava totalmente no topo do céu, e as pessoas estavam começando a passar por nós, saindo para trabalhar, fazer exercícios ou correr. E tudo aquilo era tão natural, que me transmitiu uma calmaria muito bem-vinda.
— O que vai fazer agora? — Damien perguntou depois desse tempo.
Eu soltei o ar.
— Eu não sei — Confessei — Isso tudo é tão... Intenso.
Damie deu um sorrisinho. — Você não viu nem metade do que é intensidade. Mas quero que saiba que vou sempre estar aqui, e espero que Jimmy fique ciente disso, pois não vou deixar ele maltratá-la novamente. Fui claro? — Aos poucos, conseguir deixar um sorriso aparecer e me virei em seu colo, olhando em seus olhos profundamente.
— Eu acabei de terminar com você e estou ouvindo você ameaçar Jimmy porque não quer me ver mal? — Sorri mais largo ainda — O que eu faria sem você Damien?
Ele alisou meus cabelos e beijou minha testa, sorrindo para mim com carinho.
— Sua vida seria dura e sem cor sem mim caramelo, é o que vivo lhe falando. — disse, e eu ri, olhando com tanto amor que eu pude ver a forma como ele brilhou ao perceber.
— Sim — Toquei sua mão — Séria totalmente sem cor.
~*~
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