Rubro
1 Meu começo.
Todos nós somos órfãos de sentimentos humanos na fria Londres. Estou caminhando pelas úmidas ruas de Whitechapel, o único som que não seja os urros de dor dos poucos sobreviventes era o som dos meus saltos trotando nos paralelepípedos das ruas escorregadias. Eu não era uma pessoa diferente da que sou hoje antes de todos os seres humanos virarem terríveis canibais e comerem uns aos outros. Eu estava com sede, fome e totalmente cansada por carregar aquela pesada serra elétrica e ter de usa-la tantas vezes ao dia.
Órfã não só de sentimento, também tive que matar meus próprios pais, sedentos de mim e fedendo a carne podre. Não houve escolha. Fiz o que tinha de ser feito, sem hesitar.
Mato a todos que cruzarem meu caminho com suas bocas sujas de sangue e que andam arrastando seus membros. Seres sem cérebro, totalmente canibais e que varreram a população do mundo em menos de dois anos.
Talvez, eu seja a única sobrevivente do apocalipse zumbi. E se eu não for quem sabe alguém... Algum dia terá que vir até aqui. Enquanto isso, eu sobrevivo com minha faca, minha arma calibre 12 e minha serra elétrica.
Chamo-me Emily Louise, sobrevivente mais improvável do apocalipse zumbi. Como sobrevivi? Simples. Horas de jogos, de treino de armas e pesquisando formas prováveis de sobrevivência. Sem relacionamentos afetivos com absolutamente ninguém, sem conversas, totalmente antissocial. Constantemente drogada e nunca me faltou um cigarro.
Suspiro e continuo percorrendo o caminho que me levará a meu carro, onde tenho munição e gasolina para minha serra. E, quem diabos usa uma serra elétrica no apocalipse zumbi? Eu. Eu uso. Claro, é uma arma de contato muito próximo e lento, é pesada e falha diversas vezes. Mas, é uma homenagem a um amor antigo. Então, eu disse que não tive relacionamentos, mas amar...
Chegando no meu carro, um Impala 67 em ótimas condições, jogo minha serra no banco de carona e sento-me. Verifico o banco de trás, era uma das minhas regras. Afinal, nunca se sabe o que você pode encontrar lá. Ligo o carro e vou procurar um supermercado, onde eu possa encontrar comida, água e curativos para um machucado que possa ocorrer. Dirigi pouco e encontrei um mercado grande. Tirei minha serra do carro e adentrei o local. Primeiramente, fiz um barulho enorme ao liga-la e atraí alguns zumbis, mas os matei facilmente. Desliguei a serra ao notar que o lugar estava totalmente limpo de qualquer canibal psicótico. Olhei minhas unhas da cor que tanto amava...Ah, o vermelho. Minhas roupas, meu cabelo era quase vermelho e eu amava essa cor de toda o meu coração.
Caminhei até algumas prateleiras e recolhi coisas que eram necessárias, passei no caixa e peguei alguns maços de cigarro. Ótimo, agora eu tinha tudo o que eu precisava. Depois, levei todas as coisas num carrinho até o carro e joguei na mala. Fechei-a e ouvi um som. Era como se tivesse alguém dentro da mala.
Abri a mala novamente e não havia nada. Talvez seja apenas o meu subconsciente solitário querendo algum motivo pra iniciar a conversa com alguém, ou uma conversa comigo mesma...
Entrei no carro e dei partida, mas ouvi ele sendo arranhado por algo pontiagudo e afiado na lateral.
-Mas que porra foi essa? –berrei pegando a serra e saindo do carro.
A liguei sem hesitar e vi um ser vestido com um sobretudo negro e cabelos longos. Tinha contornos femininos e era totalmente nanica. Ok, não era tão pequena, mas se fosse homem ele seria muito baixo.
-Quem é você? –berrei batendo e correndo até ele com a serra ligada, pronta para abate-lo.
Ele se defendeu, com uma foice que era o triplo de seu tamanho nanico. Então, ele olhou diretamente para mim, que estava ofegante pelo impacto que as duas armas causaram, seus olhos eram dourados...Eram mel. Ele era, na verdade, ela.
-Pelo visto, você não é uma zumbi. –falei. –Quem é você e porquê você arranhou o meu carro, merda?
-Eu sou Carolyn Scott. –ela sorriu. –Foi mal pelo carro.
-Não foi mal, foi péssimo. –disse desligando a serra. –Agora eu vou ter que consertar a pintura sozinha!
-Se você me levar junto contigo eu te ajudo. –ela disse se apoiando em sua foice. –Sabe, você é a única sobrevivente a quilômetros.
-Nunca vi outra sobrevivente. –disse desconfiada. –Mostre sua gengiva.
Ela me olhou, revirou os olhos e mostrou a gengiva. Nada de tons escuros, ela era totalmente humana.
-Vamos, entre. Está escurecendo. –falei sinalizando com a cabeça em direção do carro. –Quando o sol se põe, tudo em Whitechapel fica carnívoro.
-Ok. Mas...E a foice? –ela perguntou inclinando a cabeça para o lado.
Abri a janela do banco de trás do carro e ela colocou a foice deitada lá. Tudo ok. Ela abriu a porta do carona e me olhou. Ora, lá era o lugar da minha serra. O que ela queria? Não sou de ter convidados.
Coloquei a serra no banco de trás e ela se sentou.
-Não me disse como você se chama. –ela disse fechando a porta do carro.
Liguei o carro e passei a marcha.
-Emily Louise. –falei. –De onde você vem?
-Ah, sou do sul da Califórnia. –ela disse suspirando. –Órfã.
-Somos duas. –eu falei. –Está indo para o oeste?
-Estou. Dizem que lá tem uma área de sobreviventes. –ela comentou coçando a cabeça.
-É mentira. –falei irritada. –Não existem mais sobreviventes.
-Claro que existem, Emily. –ela ficou surpresa. –Dizem que eles se reúnem lá, e depois vão para as colinas. Não sei que lugar do Oeste, mas eles estarão lá!
-Eu não acredito. –falei firmemente.
-Se não acredita, porque está indo para o oeste? –ela perguntou.
-Porquê... –silenciei por alguns segundos. –Eu não posso desperdiçar nenhuma gota de esperança.
Ela desviou o olhar e mexeu em seus cabelos negros.
-Vamos juntas. –ela disse me olhando e sorrindo.
A encarei um pouco e sorri de volta.
Encontrei, na naquela garota nanica e que carregava uma foice assustadora, uma companhia. Era ela quem iria comigo até o oeste, onde agora eu acredito (por causa dela) que existem sobreviventes.
Três anos se passaram, e eu fiz lá meus vinte anos, e ela, os lindos vinte e um anos. Ela não cresceu nada, acho que na verdade, nada além do cabelo dela cresceu. Ela continuava baixinha, sem peitos e totalmente assustadora. Carolyn era a melhor pessoa que eu conheci desde o apocalipse que acabou com a moradia que chamávamos de Terra. E agora, ela se tornara a minha única família.
Era a data que tínhamos feito dois anos juntas, dentro daquele carro pelas estradas longas, no frio e no calor, tanto faz. Ela matava os zumbis com sua foice e eu com minha serra elétrica.
Era ótimo, e eu estava “feliz”. Então, achei que poderíamos fazer algo que gostássemos... Apreciar as pequenas coisas.
Fomos até um mercado abandonado, procurar os doces que tanto amávamos e cigarros para as duas.
Suspirei e saí do carro, batendo o salto na terra.
-Mercado no meio do nada. Quer entrar primeiro? –brinquei.
-Não, obrigada. –ela sorriu ironicamente.
-Ah, vamos, primeiro as damas... –disse pegando a serra e a ligando.
-Você também é mulher. –ela disse se posicionando com sua foice.
-No três. Um... Dois...
Entramos juntas no mercado, e o som da minha serra era um ótimo atrativo para zumbis. Todos vieram e aniquilamos eles rapidamente. Mas, Carolyn fraquejou pela primeira vez e caiu em cima de uma pilha de pratos e copos. Os cacos perfuraram sua perna em uma veia essencial.
-Ah, ótimo, sua animal. –berrei enquanto ela segurava para não gritar de dor.
Ela se apoiou em meus ombros e eu a ajudei a andar até o carro. A sentei no banco do carona e joguei sua foice e minha serra no banco de trás. Abri o porta-malas e peguei os primeiros socorros. Fiz um torniquete em sua perna e revirei os olhos.
-Isso não vai segurar por muito tempo, você sabe. –falei dando a volta e entrando no carro.
-Eu sei. O que vamos fazer? –ela pareceu perdida.
-Está sangrando muito. Não pode infeccionar. –falei revirando os olhos novamente. –Temos que ir em um hospital mais próximo, Carolyn.
-Ok. –ela fechou os olhos, pois era noite e ela estava cansada.
Passei a noite dirigindo, quase não aguentava manter os olhos abertos. Finalmente, um hospital.
Parei o carro e acordei Carolyn. Disse a ela que voltava em dois minutos, e ela sinalizou positivamente com a cabeça,sonolenta.
Saí do carro com minha serra e entrei no hospital. Lá, havia sim, vários zumbis e eu os matei.
-DEATH! Zumbis aniquilados... –pausei. -Agora, pegar os remédios para aquela viada.
Então, ouvi um barulho. Lentamente, retirei minha arma das costas, afinal, não pode ser um zumbi... Engatilhei a arma e a apontei para o canto escuro.
-Se fosse um zumbi, não se esconderia... Quem está aí? –berrei.
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