Rua dos sapos
1 Céu vermelho
Quando Nataniel chegou em casa, o céu já estava vermelho. Antes de entrar, espiou por cima do muro procurando sua mãe — coisa fácil, o muro era menor que ele. Não achou. Sorriu, passou pelo portão de frente e deu a volta na casa. Suspirou. O vermelhão da lavanderia estava fresquinho, diferente da rua. Largou a bolsa em cima do tanque de cimento e se espremeu no espaço que tinha entre garrafas vazias, jornais amassados e comida podre. Era quase a hora. Quando o sol estava assim, quase escondido, e o quintal de terra dos fundos parecia terminar num precipício, era quando Nataniel começava a contar até dez, quantas vezes precisasse. Era uma lei que ele tinha que seguir.
Dessa vez, logo quando ia começar a contar, uma coisa verde pulou num punhado de pedras na borda do barranco. Um sapo. Um, dois, três, os sapos vinham um depois do outro, pulando e fazendo barulho. Era que nem música. Nataniel balançava a cabeça e batia os pés acompanhando o ritmo.Nataniel adorava os sapos. Os sapos não o ofendiam, não gritavam, não o chamavam de burro, não corriam quando ele chegava perto. Ficavam lá, fazendo coisas de sapo, cantando a noite toda e fugindo de gente má. Tinha muita gente má que perseguia e machucava os sapos. Nataniel não entendia o porquê. Só sabia que os sapos eram rejeitados como ele. Era isso: Nataniel era um sapo!Nataniel ficou quente. Ele sabia que não era um sapo, claro que sabia. Que menino burro! Dizendo que era um sapo! Nataniel se sentia como os sapos, mas um menino e um sapo eram coisas muito diferentes. Se chamar de sapo! Ele abraçou suas pernas, encolhido no lixo, tentando esconder o rosto quente nos joelhos. Olhou de novo para o quintal, o céu ainda estava vermelho. Dona Raimunda da rua de cima tinha dito que o amor era vermelho, que nem aquele céu. O rosto da dona Raimunda era cheio de cicatrizes e os olhos quase pulavam para fora. Diziam que era uma bruxa. Nataniel achava que ela era muito esperta e sempre ensinava muitas coisas, como esconder os sapatos estragados nos montes de lixo para sua mãe não achar “Porque no meio do lixão não se acha nada!”, dona Raimunda dizia. Ou então a sempre olhar se a porta da frente ou alguma janela estava aberta antes de entrar em casa para não correr o risco de encontrar sua mãe ou qualquer homem que estivesse com ela.Gostava de dona Raimunda. Por isso achava que o amor era vermelho que nem o céu, porque dona Raimunda da rua de baixo não ia mentir. Ela era legal, sempre entregando bolinhos de polvilho quando o via passar e dando seus conselhos, mesmo que às vezes ela perdesse a paciência e gritasse com ele. Que culpa a velha tinha se Nataniel era tão burro de não conseguir entender as coisas direito? Dona Raimunda não era um sapo para suportar tudo em silêncio. Se dona Raimunda disse que o amor era vermelho, então era. Pensando bem, os sapos estavam meio vermelhos mesmo...Nataniel abriu muito os olhos. Era isso? Nataniel amava os sapos? Ele não queria que as pessoas os chutassem e chorava quando um deles aparecia machucado ou morto. Se lembrava de como dona Eulália da casa da frente gritava todas as vezes que ele tentava pegar um sapo, ou quando ele falava para os sapos fugirem porque Jorge estava chegando para atirar pedras neles — os sapos pulavam para longe, como se pudessem entendê-lo.Nataniel entendia os sapos, e os sapos o entendiam também. Só que ele não queria ser um sapo. Ele queria ser como a menina de cabelos ondulados que passava na sua rua todos os dias, que usava o uniforme daquela escola que diziam que Nataniel nunca ia conseguir estudar. Queria ser inteligente que nem ela. Ninguém fugia da menina quando ela passava.Mas Nataniel era como os sapos. Ninguém gostava dos sapos. Por isso Nataniel se levantou, andou pelo quintal de terra batida e desceu o barranco. Pelos sapos. As pedrinhas furavam seus pés descalços e a terra seca arranhava as solas cheias de calos. Os sapos iam e vinham. Nataniel sorriu para os sapos. Era como o amor. Agachou diante de um sapo. O céu já estava roxo, mas ele continuava amando os sapos. Ah. O amor não era vermelho então. Tudo roxo, seu coração quente. Um sapo pulou nele, Nataniel o segurou e o encarou. A pele era fria e grudenta. Ele riu. O sapo pulou de suas mãos. Nataniel perdeu o equilíbrio e caiu de bunda no chão. Seus dedos estavam grudentos, os olhos dos sapos brilhavam, seu coração batia muito rápido. Era amor? Ele se lembrou da menina de cabelos ondulados. O coração de Nataniel também batia assim quando ela passava. Amava a menina também? Ah. Mas ela não gostava dos sapos. Como? Ela tinha que gostar. Porque se ela não gostasse então Nataniel não ia poder mais ver os sapos. Ele amava os sapos. E amava a menina. O que ia fazer?Seu peito doeu. O que era? Ele tremia, a boca seca, era difícil de respirar. Não queria ter que escolher.Seus olhos arderam. Ele chorou. Ah! Sua mãe disse para não chorar, não foi? Meninas não gostam de meninos que choram. Mas doía. O que ele ia fazer com a dor? Não era amor? O amor machucava então? Ele não queria o amor! Doía! O sapo fugiu dele. Todos os sapos estavam lá, mas nenhum deles chegava perto! Os sapos não gostavam mais dele?Nataniel tentou engolir o choro. Doeu mais ainda. Abraçou suas pernas. Estava frio. O amor era frio. Solitário. A dor era roxa. Como o céu e o amor da menina.
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