Rua Lillgston
3 Gato na caixa d'agua
Notas iniciais
"E eu sei que você vai sorrir, mesmo quando o mundo disser que não" — Scott.
Eram cinco horas da manhã e eu me limitei a sentar no sofá da sala e encarar o relógio pendurado na parede. Os braços sobre os joelhos, enquanto uma leve chuva caia lá fora.
Ainda me perguntava como era possível que, qualquer ser humano, conseguisse esquecer a volta às aulas da própria faculdade! Como? Não dava pra entender!
Só fui me lembrar dessa "maravilha" as quatro horas da manhã e não consegui mais dormir.
Por isso, aqui estou eu: Com o nariz levemente entupido, uma calça jeans qualquer, regata preta e casaco de moletom azul. No momento ainda estou de meias com imagem de batata frita, mas já já vou por as botas.
Eu acordei de um jeito nada agradável. Como já disse, eram quatro e meia quando o carro do gás passou na rua com aquela música infernal. Mas o mais desagradável, foi que algum fulano abriu a janela de casa e gritou, a plenos pulmões:
— AIIII QUE MEEEEEEERDAAAA.......- Minha garganta doeu só de ouvir — CALA BOOOOCAAAAAAAAAAAAA!!!!!
Não sabia se ria ou se chorava.
Os gritos pararam quando o carro foi embora. Mas um tempo depois, fez questão de voltar. Acho que não gostou da berração. O que não adiantou, já que o ser inconveniente continuou os gritos mais alto ainda.
Depois disso não preguei os olhos.
Não pela gritaria que pouco tempo depois acabou, mas sim porque me lembrei que as sete horas tinha que estar na faculdade. Bateu uma vontade enorme de chorar só de pensar que o inferno estava voltando.
Eu fazia fotografia. Era maravilhoso prender uma memória numa foto, porque o tempo iria parar ali. Esse também era um dos mil motivos para eu ser apaixonada por desenhos, quadros e arte no geral. Mas não tinha o dom de desenhar, infelizmente.
Mesmo com os olhos presos ao relogio, minha cabeça estava em outro lugar e só percebi isso quando vi que já eram seis e dez. Meu horário era as sete.
Pulei do sofá, agarrando minhas botas, a bolsa e saindo aos tropeços do apartamento.
Não dava pra acreditar que eu iria chegar atrasada!
Quando coloquei o pé no primeiro degrau da escada, ouvi gritos vindos do apartamento pouco a frente do meu. Uma mulher saiu de lá com roupão azul e bobs no cabelo. O marido veio logo atrás e o escândalo continuou.
— Eu avisei, José! — Ela gesticulava, furiosa. — Avisei você que tinha que chamar um encanador! Você lá sabe consertar encanamento, homem?
Enquanto a mulher parecia querer enfiar a cabeça do marido na privada, ele simplismente estava ocupado demais coçando os olhos e as.....partes íntimas, enquanto bocejava. O que não achei nada educado, por sinal.
— Para de ser chata! — reclamou.
Ela continuou:
— Conseguiu quebrar o cano que passa pelo prédio todo! Só falta alagar tudo! PELO AMOR, VIU?
Arregalei os olhos. Virei a cabeça para a porta do meu apartamento, vendo a água escorrer pela porta. O desespero bateu, mas achei melhor resolver aquilo depois, afinal, tinha coisas mais importantes pra fazer como ir à faculdade. Enfiei as botas dentro da bolsa, colocaria quando chegasse a portaria.
Assim que comecei a andar, a mulher pregou os olhos em mim e me agarrou pelos ombros.
— Aposto que ela sabe mais que você, anta! — mostrou a língua pra ele. Que adulta, não? — Vem comigo, garota. — e me arrastou pelas escadas até o terraço.
A chuva ainda estava fraca, mas fria.
Ela continuou me arrastando até uma casinha de manutenção e pediu:
— Por favor querida, veja se consegue consertar isso, tá bem? Já já eu chamo o encanador.
E antes que pudesse continuar o seu marido a chamou lá de baixo.
— Já vai!!!! — saiu aos berros. Por um momento tive medo que aqueles dois se matassem.
Eu lá tenho cara de encanadora?
Levantei rápido. Estava pronta para fugir dali, quando ouvi um miado. Olhei ao redor, percebendo que vinha da caixa de água.
Subi as escadinhas e olhei lá pra dentro. Estava destampada. Foi quando percebi que devia estar perto demais. Ouvi um grito:
Sinceramente, estou cansada de gritos!
— Cuidado aí! — A voz era meiga.
Me virei a tempo de ver um bola de futebol cheia de estrelinhas amarelas atingir minha cabeça. Soltei um grito, sentindo meu corpo cair naquele monte de água.
Peguei ar, tirando os cabelos do rosto. Então vi a pequena bola de pelos cinza se esgueirando pelas bordas da caixa d ' água. Como tenho um coração de manteiga, agarrei o gatinho e sai da caixa.
Uma garota de uns onze anos me encarava de olhos arregalados.
— Desculpa. — sussurrou.
Eu só ri, mesmo com raiva.
— Tudo bem. — falei. — É melhor você entrar, a chuva está forte.
Ela essentiu e correu pra dentro.
Cobri o gato dentro da blusa. Corri para as escadas laterais do prédio, sentindo a chuva aumentar aos poucos.
Desci uma por uma, e era possível ver a janela das casas. Em uma delas, tive a visão nada legal de uma velhinha tomando banho com uma touca cor de rosa. Contive a careta.
Cheguei a janela do meu apartamento e a empurrei, colocando o gatinho pra dentro.
— Fica aí, eu já venho! — fechei a janela.
Terminei de descer as escadas. Dei um pequeno pulo, vendo a rua a frente.
Quando senti meus pés tocarem o asfalto, a chuva aumentou drasticamente. Fiquei mais encharcada ainda, se é que é possível.
Minhas roupas pintavam junto com o cabelo. Desci os olhos para as meias que ainda usava, grunindo.
Olhei o relógio, vendo que eram sete horas e treze minutos. A aula começava as sete e vinte. Eu tinha doze minutos. As botas ficavam pra depois.
Agarrei a bolsa com mais força, correndo em direção a faculdade. Era a oito quadras dali. Quando virei a última rua e avistei o enorme prédio, aumentei os passos.
Estava perto da entrada. Abaixei os olhos ainda correndo pra olhar a hora. Peguei as botas na bolsa, pondo a primeira e me aproximando aos pulos tentando colocar a outra.
Antes que conseguisse sequer por o pé lá dentro, uma moto preta praticamente brotou na minha frente. Levantei os olhos bem a tempo de sentir meu corpo se chocar com o rapaz e a moto.
O impulso foi tanto que o garoto, eu, a moto e a minha bota tombamos para o lado, se espatifando no asfalto molhado. Meu desespero voltou em dobro quando vi que cai por cima dele.
Levantei depressa pegando minha bolsa. Olhei ao redor, atrás da bota.
Então ele tirou o capacete. Meus olhos se arregalaram enquanto o ar faltava em meus pulmões.
Na minha frente estava ninguém mais, ninguém menos, que o garoto que vi naquela noite no Mystery ballosagna. Hoje ele se sustentava com uma touca do mesmo modelo que a outra, só que cinza. E ela estava ensopada. Assim como ele.
Não consegui falar. Será que ele me reconheceu?
Tomara que não, tomara que não, tomara que não......
Só percebi que sim, quando seus olhos varreram-me de cima a baixo e pararam em minhas meias que tinham mini batatas fritas. Abriu um sorrisinho divertido. Me olhou:
— Belas meias.
Forcei um sorriso e ergui as sombrancelhas, percebendo que ele estava tirando uma com a minha cara.
Antes que dissesse algo, ele pegou minha bota que estava quase na outra calçada e me deu.
Levantou a moto e foi em direção ao estacionamento. Deu três passos e então se virou:
— Até mais! A gente se vê, batatinhas. — deu uma piscadela e o sorriso pequeno que estava no canto dos seus lábios se transformou num enorme de dentes irritantemente certinhos e perfeitos. Duvido que já usou aparelho! Ao contrário de mim, que usei por três anos.
E aí ele se foi.
E eu fiquei ali, parada e corada.
Parecia que havia visto um unicórnio dançando Ballet.
Mas a única coisa que vi foi um garoto bonito de touca cinza e que parecia ser irritantemente divertido.
Bufei, colocando a bota e entrando na faculdade. Completamente encharcada.
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