Rua Lillgston
8 Como matar Kaitellyn Muller
Notas iniciais
Havia no mínimo umas mil pessoas naquela festa. Qualquer um podia me encontrar ali. Carlos Lenister podia me encontrar ali, O garoto Nerd do Segundo ano também. Até mesmo o tio da limpeza.
Mas é lógico que a vida não iria jogar nunca a meu favor. E de todos, de toda aquela gente, tinha que ser logo ele.
Eu já estava acostumada a passar por humilhações. Como uma vez que minha tia entrou dentro do banheiro para brigar comigo e escancarou a porta, fazendo todos os familiares da festa de ação de graças me olharem sentada no troninho da privada. Foi traumatizante.
Mas a partir do momento que ouvi a voz do garoto, tive certeza que aquela sim seria a experiência mais traumatizante de todas.
Scott me encarava com a testa franzida, a alguns metros de distância. Parecia não acreditar no que via, e aquilo piorou tudo.
Agarrei o pano mais forte contra meu corpo, " agradecendo" por ao menos estar vestindo uma Langerie. Me encolhi mais atrás do vaso, vendo — o se aproximar. Quando vi que ele estava em uma proximidade arriscada, praticamente gritei:
— Não se aproxime mais! — adverti. — Acho que é melhor ficar aí.....
Já era tarde. — Na verdade, já era tarde deis de que ele me viu naquele estado- Os olhos dele me varreram, como se quisesse comprovar se seu argumento era mesmo verdade. Dei graças a Deus por ter um pano — por mais que quase inútil e resgato — cobrindo pelo menos uma pequena parte de tudo o que apenas meu ex namorado já tinha visto.
— É. Você está pelada. — disse, mais para si mesmo que pra mim. Não pude deixar de pensar no que estava se passando na cabeça dele. O que será que ele estava pensando de mim agora?
— Pelo menos eu estou de Langerie! — tentei argumentar, mesmo sabendo que era praticamente inútil.
— Não faz muita diferença. — respondeu, e quase ajoelhei no chão de alívio ao sentir uma pontada de humor.
Tirou a camiseta de gatinho comendo pizza de cérebro e jogou pra mim.
— Obrigada. — Pensei em um jeito de pedir para que ele se virasse sem parecer rude. Abri os lábios, mas antes que dissesse ele já estava se virando:
— Tem sorte de eu ser um completo cavalheiro, Lady Batata. — Fiquei em dúvida entre agradecer ou xinga — lo.
Larguei o pano no chão, pondo a camisa depressa. Assim que terminei, disse:
— Agora eu tenho dois apelidos?
Balançou o corpo pra frente e pra trás, com as mãos juntas nas costas, como uma criança.
— Huhm.....- Respondeu. — Já posso virar?
Assenti. Quando vi que meu ato não teve repertório, lembrei que ele não estava olhando.
— Pode- Respondi.
Assim que se virou, senti seus olhos em mim mais uma vez.
— Mesmo que essa blusa esteja parecendo mais um vestido, ainda assim você precisa de calças.
Isso eu já sabia. Quis gritar um: " Me conta uma novidade! " mas desisti, afinal ele estava me ajudando. Se o tratasse mal poderia simplismente me largar ali e ir embora. Com a blusa.
— Isso eu já sei. — sacudi os braços em uma mímica louca — Mas adivinha? Eu não tenho.
— Percebi. — Olhou para os lados, como se procura-se algo.
— O que está fazendo?
— Procurando algum conhecido para ir buscar meu carro e trazer até a parte dos fundos da escola. Não vão ser nada legais os comentários que vão fazer se te virem assim....- apontou.
Isso eu também já sabia. E então algo me veio a mente: Por que ele iria pegar o carro?
—Você pretende me levar embora? — questionei, arrancando o esmalte azul da minha mão esquerda com o polegar da direita.
— Huhm. ...- Parecia distraído. Desviou os olhos do além e me encarou: — Por que? Pretendia ficar aqui?
Sacudi a cabeça. — Não.
E mais nada foi dito.
Enquanto Scott continuava a procurar alguém qualificando para o seu possível " Plano", eu me mantive escondida. Sequei um pouco meu cabelo com o trapo velho que Kaitellyn me deu, e comecei a pensar que talvez não estivesse tão bêbada. Não fiz nada de imprudente. Ainda assim, continuava mole, risonha e sentia como se eu estivesse mesmo bêbada. Enquanto eu contava, concentrada, a quantidade de pintinhas da minha coxa esquerda, Scott me chamou:
— Ei, Lia! Vem cá. — Chamou.
Levantei de trás do vaso, indo na sua direção, cambaleando. Murmurei um " Hm" interrogativo, enquanto via quem eu imaginei ser Greg brotar na minha frente.
— Vamos fazer as....- Scott começou, mas eu o interrompi.
— Onde estão as meninas? — Perguntei a Greg, me referindo a Marina e Brenda.
— Foram no banheiro. Mari vomitou bem na boca do Josh, um garoto do terceiro ano que ela estava ficando. — Respondeu, e dei graças a Deus por ele não ter questionado a minha falta de vestimenta.
— Okay, isso foi muito nojento. — Scott fez uma careta — Vamos lá, o Plano é o seguinte: — Continuou: — Greg, você pega o ca....
Greg o interrompeu com um grito de completo pânico. Scott e eu trocamos olhares confusos, enquanto ele corria de um lado pro outro, atraindo olhares. Aquilo não era bom.
Olhei ao redor, vendo uma borboleta azul. Segurei o riso. Ele estava esperneando por causa de uma borboleta. E a coitada só voava livre, plena e calmamemte ao seu redor.
Scott revirou os olhos e sibilou um " Porra" , enquanto eu me espreitava de volta para o meu esconderijo.
— Aquieta o faxo, ela já foi embora! — O puxou pelo braço, fazendo-o se sentar no chão. Voltei para perto deles, me agachando — O plano é o segu......
— Eu tenho Borboletofobia...- Greg disse, encarando o ar. Vi Scott fechar a cara e soltar um grunhido, enfiando a cabeça entre as mãos. Era a terceira vez que ele tentava falar. Levantou a cabeça, olhando para o amigo com um olhar reprovador. Greg murmurou um " Desculpa".
— É Metofobia que se diz, idiota. — O moreno não tão moreno assim — Afinal os cabelos dele eram mais Mel do que castanhos — falou. O outro garoto fez um gesto feio com os dedos em resposta. Ignorando, Scott me olhou, voltando a explicar: — Grag vai pegar o carro, leva-lo até a parte de trás do estacionamento da escola e esperar la. Você vai seguir pelo caminho de abustos e eu distrair os Nerds que estam lá na frente, certo? — perguntou.
Greg e eu murmuramos um " Certo", e partimos pra ação.
Aquilo era, no mínimo, estranho. Muito estranho.
Greg seguiu para o estacionamento, Scott foi na direção dos Nerds e eu fui me arrastando pelos arbustos, morrendo de medo de encontrar com um sapo. Odeio sapos.
Mesmo a certa distância, ouvi quando Scott gritou: — Ei, pessoal! As meninas do terceiro ano estão semi nuas no pátio!
Eu ri. Aquilo foi suficiente para que segundos depois um bando de Nerds estivesse se estapeando para ver quem chegava primeiro ao pátio. Um deles gritou: " Quem chegar por último é a mulher do padre! "
Quando cheguei, não havia ninguém no estacionamento. Descobri qual era o carro de Scott por três motivos:
— O carro dele era o único que estava parado quase na saída do estacionamento.
— Scott colocou a cabeça para fora e gritou: Eu sei que é dificil porque você é feita de batata, batatinhas! Mas pode ir mais rápido?
— Greg cantava " Bod Say" da Demi Lovato, a plenos pulmões.
Comecei a suspeitar que talvez ele fosse gay.
Entrei no carro, me sentando no banco de trás. Scott pulou para o volante e Greg saiu do carro:
— Boa noite! — Bateu no vibro do carro- Toma bastante sorvete, é bom pra ressaca!
Durante o caminho, o silêncio reinou. A única coisa que se ouvia era o barulho das nossas respirações e uma música qualquer que tocava no rádio. Estava tonta e com sono. O silêncio continuou por boa parte do caminho, até que eu o quebrei quando" Piloto Automático" do Supercombo começou a tocar. Primeiro, comecei a balançar meu corpo num vai e vem estranho, parecendo uma minhoca louca. E não estava combinando muito com o ritmo. Depois, fiz uns sons estranhos com a boca, de acordo com o ritmo da música. Senti os olhos de Scott sobre mim, e os meus se fecharam. Encostei a cabeça no banco. Quando a música começou, eu estava praticamente gritando. Scott caiu na gargalhada, e eu não liguei. Estava bêbada demais pra pensar, porque com certeza não faria aquilo sóbria. Quer dizer, não com ele no carro. Eu acho.
Minutos depois, Scott também gritava e fazia uma dancinha engraçada com os ombros. Era engraçado o fato de que mal o conhecia, mas estava agindo como se fossemos amigos de infância. Talvez fosse efeito do álcool. Ou não.
Quando o carro virou a rua, chegando ao meu apartamento, senti uma pontada de tristeza que não sei de onde veio. Abri a porta, e quando meus pés bambos tocaram o asfalto, disse:
— Obrigada pela ajuda, Rock Star. — lancei um pequeno sorriso.
Ele sorriu de volta, e antes que pisasse no acelerador, saindo do meu campo de visão, falou:
— Sempre que precisar! — Nos encaramos por alguns segundos, antes dele continuar: — Ah, vou dizer antes que eu me esqueça: Você fica mais linda ainda bagunçada.
Dei graças a deus por ele ter sumido de vista antes que visse meu rosto completamente corado.
Subi, arrastando- me até o apartamento. Quando cheguei Lá, Toff estava no lugar de sempre: Em cima da fruteira.
Me joguei na cama, nem me dando ao trabalho de tirar a blusa de Scott.
Abracei o travesseiro, cheirando a blusa e sentido cheiro de perfume masculino e sabonete.
Estava tão confusa que até pensar era difícil, mas uma coisa era certa, e eu a repeti comigo mesma:
— Eu vou matar Kaitellyn Muller.
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Abri as portas da faculdade da forma mais brusca que consegui, me controlando para não socar a cara de qualquer um que eu visse pela frente.
Meus olhos ardiam, minha cabeça doia e eu queria esmurrar até mesmo quem respirasse do meu lado. Ódio emanava de mim. E eu tinha certeza em quem iria descontar tudo aquilo.
Avistei o amaranhado de cabelos ruivos artificiais de longe. Meus olhos brilharam em raiva e eu dei passos rápidos e duros no chão, atraindo olhares. Parei a metros de distância, respirei fundo, e gritei para todos ouvirem:
— Ei, Kaitellyn Mula!
A garota se virou para mim, confusa. Quando um sorriso sacana surgiu em seus lábios, eu quis ralar sua cara no asfalto. Ela começou a falar algo, mas eu a interrompi com um sorriso psicopata e um grito estridente de ódio, que atraiu mais olhares.
E então eu fiz a coisa mais doida da minha vida: Corri na sua direção, com os olhos focados nos seus. Ela deu três passos pra trás, surpresa. Quando cheguei perto o suficiente, dei um mini salto, voando — literalmente — alguns sentimetros do chão.
Meu corpo se chocou com o dela e nós duas caímos no piso frio, comigo por cima.
Não sei o que aconteceu a seguir. Viramos um amaranhado de cabelo, tapas, gritos e xingamentos. Mas uma coisa era certa: eu estava descontando toda a minha raiva, e o máximo que consegui foram dois arranhões na bochecha direita e um na testa.
Uma multidão de pessoas estava ao nosso redor. Senti mãos me puxarem pra cima, e estava pronta para acertar um soco certeiro bem no meio do nariz de quem quer que fosse. Porém, quando virei, minha cabeça girou e senti que ia vomitar assim que vi quem estava parado na minha frente:
— D-dietor Bumer.......- gaguejei.
Ele me olhou com os olhos esbugalhados, dizendo simplismente:
— Para a diretoria. As duas. Agora.
Kaitellyn me olhou com um olhar assassino. Mostrei a língua.
Fomos para a direção. Me sentei nos banquinhos azuis que ficavam na frente da sala, enquanto Mula entrava primeiro.
Encarei a lata de lixo que estava na minha frente por alguns segundos, até que ouvi:
— Será que ela vai chorar? — Era a voz de Greg.
Olhei para o lado, surpresa. Só para encontrar uma Brenda, um Greg e um Scott de touca preta sentados ao meu lado. Como eles apareceram ali?
— O que estam fazendo? — perguntei.
Scott deu de ombros.
—Esperando para entrar na diretoria. — sorriu, tranquilo. Como se aquilo fosse algo normal. — Falando nisso, vimos você aos tapas com a ruivinha, mandou bem! Já fez MMA? — perguntou, com a testa franzida.
Ri, negando.
— O que vocês aprontaram? — ququestionei, me referindo ao fato deles estarem ali.
Scott deu de ombros, mais uma vez.
— Pulei o muro porque cheguei uma hora atrasado e eles não me deixaram entrar. Me desequilíbrei lá em cima, caindo no chão. Eles me viram e trouxeram pra cá. Fim.
Olhou para Greg, como se dissesse: "Sua vez". O garoto começou a falar:
— Cantei Firework da Katy Perry alto demais e arrastei uma garota para dançar comigo. A professora viu e me mandou pra cá. — deu de ombros.
Nós três nos viramos para Brenda, que sorriu:
—Estourei meu projeto de química na cara do meu parceiro de dupla. — Arregalamos os olhos, surpresos. Ela riu. -Brincadeira gente! Mas sim, eu estourei meu trabalho. Só que no professor....- fez uma careta.
— Não entendo por que eles agem como se essa faculdade fosse um colégio. — Greg falou, indignado.
—Nem eu. — falei.
— Nem eu. — disse Scott.
— Nem eu — Acompanhou Brenda.
Então Scott deu um pulo da cadeira, nos encarando como se fosse Albert Einstein encarnado. — Tive uma idéia!
— Percebemos...- Respondeu Brenda, roendo a unha do dedinho. Ele a ignorou.
— Nós podemos leva-lá a nossa Bat Caverna/ Esconderijo secreto!
Quis rir, porque ele pareceu uma criança de três anos. Greg e Brenda trocaram um olhar estranho e incompreensível.
—Será que ela está preparada para a prova? — Brenda encarou Scott. O garoto sorriu, brincalhão.
— Claro que sim! — Respondeu. Depois franziu a testa. — Eu acho.....
Os três trocaram olhares, me encarando ao mesmo tempo. Franzi a testa, confusa.
— O quê? — Olhei de volta.
Uma coisa era certa: Aquilo não seria tão bom quanto eu imaginava. Pelo menos não o começo de tudo.
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