Ruínas da Guerra
6 Jardim Oculto
Sanvitale ainda não era visto no horizonte, significando que ainda demoraria a chegar ao castelo real. Dante ficou responsável pela retaguarda como havia ordenado, mas o tédio e a solidão tomou conta dele, então, foi para o lado da carruagem cobrindo agora a dianteira e um dos lados.
Pedragon estava conversando com a fada enquanto andava e a carruagem seguia os seus passos. Ele não precisava nem olhar para cima para conversar com a fada, bastava olhar por lado e ele estava olhando diretamente para fada. Ambos conversavam algo sobre ela salvar a vida dele, Dante não prestou atenção na coversa, para ele pouco importava o que os dois estavam dialogando.
—Você está machucado. – disse Luna olhando para ele pela janela da carruagem sem vidro, enquanto retirava a cortina da frente.
—Isso é bom. – retrucou Dante. – Me faz sentir vivo, se não fosse pela dor não teria como saber se eu estaria vivo, não é mesmo?
—Nossa. – disse Luna. – Você parece seu pai falando.
A facada no coração de Dante foi enorme ao ouvir tais palavras. Dante queria ser um leão alado, o protetor do rei, e faltava pouco para isso a única pedra no seu caminho era o leão alado que estava no castelo ao lado do rei. O atual leão alado era seu pai, e para que Dante pudesse assumir tão cargo precisava deixar de ser um leão dourado através de missões e batalhas feitas em nome do rei, só então o rei talvez pudesse da-lo tão cargo para ele.
Esse era o sonho de Dante desde que ele se conhecia por gente, ser um leão alado ao lado do seu pai, mas isso não era possível já que só existe um leão alado e para isso seu pai precisa se aposentar ou morrer, e isso vinha atormentando os pensamentos dele, fazendo-lhe perguntar se era isso mesmo que pretendia seguir.
—Você não sabe o que está falando. – disse Dante.
—Claro que eu sei, eu já conversei muitas vezes com o seu pai.
—Não, não sabe. – afirmou Dante. – Pessoas acham que nos somos iguais, mas eu vou mandar a real Luna, nós não somos.
—Princesa. Para você é princesa, não Luna. – Luna olhou para ele com raiva.
—Ainda está brava pelo que aconteceu?- perguntou Dante já sabendo a resposta.
—O que você acha? – perguntou ela.
—Acho que você tem um belo motivo para estar assim, mas eu também tenho um belo motivo para fazer o que eu fiz.
Ela então fechou a cortina e ficou um bom tempo sem falar mais nada. Até que a cortina foi aberta novamente.
—Você precisa cuidar desse braço. – disse ela. – Pode ser algo sério.
—Eu consigo chegar até o castelo sem morrer princesa. – disse Dante com um sorriso no rosto, seus pensamentos estavam certos, ela ainda se preocupa com ele depois de todos esses anos. – Não precisa se preocupar comigo ainda vou ficar falando muito.
—Brielly pare a carruagem! – disse Luna em voz alta.
A carruagem foi parando lentamente e Dante foi obrigado a puxar as rédeas do cavalo e parar juntamente com a caruagem.
—O que foi? – perguntou Brielly curiosa. – São esquilos gigantes?
—O que deram para essa garota quando era pequena? – disse Dante para ninguém em específico.
—Não Brielly, não são esquilos. – então Luna abriu a porta da carruagem olhando para Dante – Sou a princesa de Sanvitale, filha do rei Liamlett e ordeno que você, nobre cavaleiro, entre na carruagem.
Os cabelos brancos como a neve dela voava com o vento vindo da floresta juntamente com o colar que ela possuía no pescoço, que brilhava em azul vibrante, ela estava olhando com os olhos diretamente para Dante.
—Se você não entrar nessa carruagem, farei questão de tirar todos os seus títulos de cavaleiro que possui até hoje. – ela falou em um tom de voz sério. – E você nunca mais vai ser um leão alado como tanto desejara.
Ele ficou olhando para os olhos azuis dela pensando se realmente deveria fazer as ordens dela. Dante sabia que o que ela falara era sério e ela era capaz de fazer o que acabara de dizer, ele não teve escolha a não ser fazer o que lhe foi mandado.
Pedragon estava agora na frente da carruagem olhando para a princesa.
—Algum problema vossa majestade? – perguntou Pedragon.
—Existe algum problema Dante? – perguntou ela olhando novamente para Dante.
—Não vossa majestade, não há nenhum problema. – ele então desceu do cavalo e prendeu as rédeas na parte detrás da carruagem. – Cuide da dianteira e da retaguarda grandão, a princesa solicitar a minha presença.
Então ele entrou na carruagem e fechou a porta atrás dele, retirou a sua espada com bainha e tudo, colocou do outro lado do encosto e se sentou no lado oposto, Luna estava do lado esquerdo dele olhando atentamente para ele e então ficou fitando a ferida no braço sem fazer nenhum movimento.
—Sabe... – começou Dante. -... Se quisesse que eu entrasse para bater um papo era só ter pedido, eu entraria sem toda essa humilhação.
—Cala a boca! – disse ela ainda fitando a ferida.
Ela então ergueu a sua mão direita e um brilho azul começou a circular a sua mão. Dante então sentiu um formigamento onde a sua ferida estava. O ferimento no braço de Dante foi se fechando e ele ficou olhando atentamente para aquilo. Então o formigamento cessou e o azul da mão de Luna despareceu do mesmo modo que surgiu.
—V-você... a-aprendeu magia? – perguntou Dante incrédulo.
—Sim. – respondeu a princesa como se fosse algo normal. – Muita coisa mudou desde que nos vimos pela última vez.
—“Muita coisa”? – perguntou Dante rindo. – Tudo mudou! D-desde quando você... Você...
—Aprendi magia?
—Sim. – disse Dante ainda sem acreditar. – Desde quando?
Ela olhou nos olhos dele, suspirou e disse:
—No dia do meu sétimo aniversário, um ano após você sumir, a minha mãe fez uma festa no salão do castelo. Ela chamou grandes nobres da cidade e todos comemoraram juntos a minha festa. – ela então parou, suspirou e prosseguiu. – Eu estava brincando com as outras crianças da festa quando uma delas me disse que você havia retornado e estava esperando no jardim. Eu então corri para lá, mas ao chegar lá você não estava. As crianças começaram a zombavam de mim, dizendo que você havia morrido por minha causa, por que de acordo com elas, meu pai não aceitava a nossa amizade.
—Isso não é verdade. – afirmou Dante.
—Eu sei. – disse Luna. – Eu fui tola em acreditar neles e então corri pelo jardim querendo fugir daquele lugar e pisei em uma tábua de madeira que estava frágil e cai em um grande poço.
—Você morreu? – disse Dante sorrindo e então viu o rosto sério da princesa e o sorriso sumiu. – Desculpa, prossiga.
—Eu fiquei lá por horas gritando por ajuda. – contou ela. – Meu joelho estava machucado e eu havia fraturado o osso do meu braço, até que de algum modo, senti algo dentro de mim e a magia se manifestou. Eu consegui me curar mais ainda fiquei no poço gritando, até que Brielly ouviu os meus gritos e foi procurar ajuda, foi nesse dia que eu a conheci, desde então ela está comigo.
—E o que a sua mãe falou? – perguntou Dante.
—Ela disse para o meu pai que seria melhor ser eu aprendesse a arte da magia, ela mesmo me ensinou tudo o que ela sabe.
—Nossa... Bela história!
—Foi nesse dia que seu pai me falou que você havia sido levado para se tornar um guerreiro. Se não fosse por ele eu ainda estaria indo para aquele maldito jardim, a sua procura.
Um ano antes de Dante nascer o seu pai havia sido escolhido para se tornar o leão alado e isso fez com que Dante fosse algum dia para o castelo real já que a sua mãe havia morrido quando ele nascera e seu pai não poderia deixar ele com outras pessoas, já que ele era cauteloso.
Isso fez com que Dante conhecesse a princesa Luna e de imediato os dois se tornaram melhores amigos na infância e de todos os dias eles se encontravam para brincar em um jardim por detrás do castelo. Eles batizaram aquele jardim de “Jardim Oculto” para que pudessem sempre brincar juntos sem ter nenhum adulto lhes julgando.
—Sobre aquele dia... – disse Dante. – Eu sinto muito...
—Não quero falar sobre isso. – disse Luna.
—Mas eu preciso...
Então como um chicote o rosto de Dante foi acertado com uma tapa. A bochecha dele começou a arder.
—Eu disse que não quero falar sobre isso! – disse ela.
—Naquele dia... – insistiu Dante. – Eu disse pra você que eu ira para casa buscar meu brinquedo, e fui, mas quando cheguei lá aquele velho rabugento estava lá. Eu não sabia que ele chegaria naquele dia...
—E você nem foi falar comigo.
—E-eu... Eu tentei. – contou ele. – Pulei da janela do meu quarto, mas aquele velho era mais rápido e disse que aquilo era coisa de criança e não de homem. Ele me levou a força enquanto meu pai concordava com tudo que ele falava e me via partir.
—Poderia ter dito para ele falar. – disse Luna. – Você sabe o que é ficar um ano inteiro indo todos os dias para aquele maldito jardim?
Os olhos da princesa estavam escorrendo lágrimas, mas a raiva nela reinava mais.
—Eu pedi! Eu juro pelos deuses que pedi! – disse Dante. — Mas ele disse que era melhor você não saber.
—Até que ele mesmo contou... – disse a princesa.
—Sim. – afirmou Dante.
—Me desculpa. – disse a princesa. – E-eu... Eu não sabia.
—Está tudo bem, não precisa se desculpar. Toma — falou Dante retirando um pano do bolso e entregando para ela. –Se limpa com isso.
O tempo passou e o mundo parecia ficar sem nenhum barulho de súbito, a carruagem balançava de um lado para o outro por causa das pedras irregulares na estrada, Dante não sabia se ficava ali com a princesa ou saia da carruagem, então ele ficou lá dentro esperando que a princesa ordenasse a sua saída, a tensão reinava.
A princesa estava em transe olhando atentamente para a cortina possuindo vários pensamentos. Luna estava segurando, com uma das mãos, o colar no pescoço que continuava a brilhar em azul.
—Belo colar. – disse Dante.
—O que? – perguntou ela saindo do transe. – Ah, isso aqui?
—Sim. – respondeu Dante enquanto ela colocava o colar para frente sem retirar do pescoço.
—Ganhei no dia do meu décimo oitavo aniversário. – disse ela olhando para o colar. – Todas as princesas já usaram isso.
—Vale alguma coisa? – perguntou Dante pensando que seria perigoso ter uma colar daquele no pescoço da princesa.
—Não que eu saiba. – respondeu ela. – Meu pai disse que era apenas para proteção.
—“Proteção”?
—Sim. – respondeu ela. — De acordo com ele, esse colar protege a princesa, não só a mim, mas protegeu a todas as que usaram antes de mim.
—Falando em proteção... – disse Dante. -... Para onde estava indo?
—Para o reino das fadas, pegar aquele vestido. – respondeu a princesa apontando para uma maleta encostada na parede da carruagem.
—Um vestido?
—Sim. –respondeu ela. – A mãe de Brielly me deu de presente.
—Ela ainda tem mãe? – pergunto Dante surpreso.
—E um pai também.
A princesa então olhou para a espada deitada na frente dela e perguntou:
—Onde conseguiu essa espada?
—Eu a roubei. – respondeu ele.
—De quem?
—Do meu pai. – ele fez uma pausa e prosseguiu. — Antes de partir com o velho, peguei essa espada e escondi entre as minhas coisas com raiva do meu pai. Ele a guardava dentro de casa, só eu sabia como rouba-la, de acordo com ele, essa espada era melhor ser guardada do que ser usada.
—Ela é diferente. – falou Luna fitando a espada. — Ela possui aço negro.
—É... – disse ele abrindo a cortina da carruagem para olhar se estavam chegando, mas só viu árvores. – Bem diferente...
Dante então olhou para espada e ela não estava mais lá. A princesa estava com ela, retirando-a da bainha.
—Não, não, não... – disse Dante retirando a espada das mãos da princesa e a colocando de volta na bainha.
—O que foi? – perguntou ela.
—Essa espada é diferente.
—Eu sei você acabou de dizer isso.
—Essa é a espada Desejo Mortal. – disse ele.
—Do que você está falando? – perguntou ela curiosa.
—Nunca ouviu a história da espada Desejo Mortal?
—Creio que não. – respondeu a princesa.
Dante colocou a espada na sua frente e então olhou novamente para a princesa e contou:
—Reza a lenda que uma grande estrela flamejante caiu do céu nas terras de Nomentum, então um elfo ferreiro, chamado Naslë, pegou a estrela e retirou o metal, levando-a para a sua pequena aldeia. – Dante respirou e continuou. – Lá ele chamou o seu melhor amigo, um elfo negro, e trabalhando juntos eles criaram uma espada diferente de todas as outras.
—Era de aço negro? – perguntou Luna.
—Não, de acordo com a lenda era de um aço comum. – ele então parou e prosseguiu. – Possuídos pela beleza da espada, os dois elfos discutiam sobre quem ficaria com a espada e chegaram à conclusão que seria melhor guarda-la e assim nenhum dos dois ganhava ou perdia.
Dante olhou nos olhos da princesa e ela estava prestando atenção em cada palavra que era dita.
—Então Naslë quebrou a sua palavra e foi em busca da espada. O seu melhor amigo o viu roubando a espada e o questionou sobre sua ação. – contou Dante. – Naslë não viu outra opção há não ser matar seu amigo para poder ficar com a espada. Ele então atravessou o peito do seu amigo e usou um encanto para que a alma do seu amigo ficasse aprisionada na espada, para assim, ficar com o aço negro e ainda mais poderoso. O irmão do elfo morto viu toda a cena e correu para vingar o irmão, mas Naslë fugiu com a espada. O irmão do elfo jurou vingança e disse que nunca iria parar até recuperar a alma do seu irmão.
Dante então retirou a espada da bainha, não toda, mas o suficiente para ver uma escritura élfica em vermelho brilhante no começo da lâmina e ficou olhando para ela.
—Ela recebeu esse nome por causa da alma presa a ela. — disse ele. – Ela faz com que o portador, assim que retirar da bainha, fique com sede de sangue, fazendo matar qualquer um, até seus amigos mais próximos.
Dante então colocou a espada novamente na bainha.
—E por que você não é afetado? – perguntou ela.
—Não sei. – respondeu ele. – Mas preciso guarda-la para que não caia nas mãos erradas.
—E o irmão do elfo que está aprisionado na espada? – perguntou ela. — Onde ele está?
—Se a lenda estiver certa, tudo isso aconteceu antes da Batalha do Triunfo do Norte. E seu irmão é o próprio Hector.
—Como tem certeza que essa espada afeta as outras pessoas?
-Por que uma criança de dez anos não mata seis homens experientes sem nunca tem tocado na espada.
Dante viu o horror nos olhos dela.
—Foi você? – perguntou ela.
—Não. – disse ele. – Foi um filho de fazendeiro. Eu e o velho estávamos sobre o teto de um fazendeiro, quando ele foi morto pelos homens e seu filho desesperado pegou a espada e os matou.
—Que horror... – disse ela com pavor no rosto.
—É por isso que ela precisa ficar comigo, é mais seguro para todo mundo assim.
A carruagem então balançou forte, as rodas e o trote dos cavalos mudaram de som. Agora estavam em uma ponte com pedras regulares no chão.
—Chegamos! – disse Brielly do lado de fora da carruagem.
—Finalmente. – disse Dante olhando pelas cortinas, a grande cidade de Sanvitale se erguia à frente e tudo aquilo havia acabado.
Fale com o autor