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14 Buscando sanidade
Notas iniciais
Quando acordei, sentia como se tivesse corrido uma maratona sem preparação física nenhuma, ou como se eu tivesse deixado elefantes passarem por cima de mim, várias e várias vezes.
Tudo doía.
Antes mesmo de abrir os olhos eu tentei me concentrar no maior ponto de dor que eu tinha, e eu realmente não conseguia decidir quem estava ganhando. Meu corpo todo parecia latejar, seguindo as batidas do meu coração. Eu senti a minha pulsação na cabeça, como uma forte enxaqueca, um pouco de pressão no abdômen e os meus pés pareciam arder, como se eu tivesse queimado eles.
Tentei abrir lentamente os olhos sentindo as pestanas grudarem um pouco umas nas outras, me indicando que eu deveria já estar dormindo há algum tempo, e o meu primeiro movimento foi levantar a mão a boca, sentindo baba seca ao redor do lábio.
Eca. Eu deveria estar um lixo.
Eu com certeza me sentia como um.
Olhei ao redor para saber onde estava, já que sentia meu cobertor por cima das minhas pernas. É, eu pelo menos estava no meu quarto.
Não tive tempo nem de sentar quando a porta do meu quarto se abriu e minha mãe entrou carregando uma xícara de chá.
Duvidava que fosse pra mim já que eu odiava chá, e eu esperava que ela soubesse desse fato.
Mas, também não adiantou muito, pois quando ela me viu, a pequena xícara branca de porcelana foi parar no chão, em vários caquinhos e uma pequena poça. Ela ficou alguns segundos parada me olhando antes de sair correndo pela porta deixando ela aberta.
Ela tinha, realmente, saído correndo de perto de mim?
Eu tinha que rever os conceitos maternais dela o quanto antes.
Ouvi-a gritar pela porta aberta:
— Ela acordou!
E em mais poucos segundos meu quarto tinha sido invadido pelos meus pais, meu irmão e Martha.
Jonathan se jogou em cima da minha cama, abraçando meu quadril por cima do cobertor, e, por mais que doesse um pouco aquela pressão, não tive coragem suficiente para pedir que se afastasse. Meu pai ficou em pé ao meu lado enquanto minha sentou-se na beirada da cama, em seguida procurando pela minha mão para segurá-la.
— Você está bem? – ela perguntou com os olhos ficando marejados
Eu realmente não queria que ela chorasse. Ela não costumava chorar por nada. Não tive coragem de tentar falar alguma coisa, com medo de como minha voz sairia, então apenas me limitei a concordar com a cabeça.
Ela pareceu aliviada, e a força que ela usava para apertar minha mão diminuiu um pouco. Ela sorriu.
— Você ficou dois dias desacordada. – meu pai comentou e percebi que ele tentava não olhar para mim
Tentei pensar no que ele havia falado. Espera. Dois dias? Porque eu estava a dois dias desacordada? Eu não lembrava de ter desmaiado, nem nada. Na verdade, eu lembrava perfeitamente de estar parada no meio do salão de baile, procurando por Martha, que nesse momento afofava o travesseiro que estava embaixo da minha cabeça.
Queria perguntar o que havia acontecido, mas não soube como fazer isso. Terminei apenas olhando com uma cara confusa para minha mãe, que brincava de passar a unhas pelos meus dedos pra cima e pra baixo.
Ela parou os olhos nos meus e me deu um sorriso triste.
— Querida, você sofreu um acidente...
Meu pai colocou a mão em seu ombro enquanto minha mãe soltava minha mão.
— Não é o melhor momento para fazer isso. – meu pai disse agora olhando para mim – Vamos deixar você descansar.
Eu não queria descansar. Queria me levantar, exigir explicações, mas eu estava tão cansada, tão dolorida. Nem concordei, apenas fechei os olhos quando vi minha mãe se levantar e ir em direção a porta.
Não sei dizer quanto tempo dormi, mas quando voltei a acordar minha perna estava apoiada em cima de uma almofada e havia um copo de água ao meu lado, como se soubessem que eu estava morrendo de sede.
Pode me chamar de tapada, mas eu tentei me sentar no minuto em que vi o copo de água, e logo percebi que eu não devia ter me movido pois todos ou meus músculos doeram, me fazendo soltar um gemido alto de reclamação.
Claro que eu achei estar sozinha, até um movimento a minha esquerda chamar minha atenção.
Justin estava jogado em uma das poltronas, com uma perna apoiada no braço da cadeira e a cabeça caída pra baixo. Ele estava tão próximo da minha cama que eu conseguia ouvir a respiração dele, conseguia ver seus cílios tremerem e como a mão dele, que estava apoiada na cama, bem ao lado da minha, se fechava levemente com pequenos espasmos, como se estivesse sonhando.
Fiquei alguns segundos apenas parada observando ele, com a cabeça virada para o lado, apoiada no meu travesseiro. Pensei em como ele acordaria com dor no pescoço, ou com a perna dormente, e fiquei com um pouco de pena dele, até lembrar que, bom, eu estava um pouco pior no momento.
"Sem sentir pena Bella, não guardamos nenhum tipo de sentimento por esse cara."
Fechei os olhos e suspirei. Eu não estava em um dos meus melhores dias mesmo.
Ouvi ele se mexer e fechei os olhos com mais força, tentando não pensar em nada relacionado a pessoa do meu lado, tentando realmente dormir, mesmo morrendo de sede. O que se tornou bem difícil quando ele segurou minha mãe a apertou, suspirando logo em seguida.
O que ele estava fazendo aqui mesmo?
Abri os olhos, desistindo de tentar e o vi me encarando de volta, um sorriso se abrindo no rosto e um aperto mais forte em minha mão.
— Oi. — ele murmurou baixinho com a voz rouca de sono
— Oi. — respondi tentando não sorrir de volta
— Como você está se sentindo?
Apoiei minha cabeça mais fundo no travesseiro.
— Acho que abatida é uma palavra que define bem. — respondi tentando não olhar pra ele — O que aconteceu?
Ele soltou minha mão e se levantou, pegando o copo de água e me oferecendo.
Assenti com a cabeça e ele me ajudou a sentar na cama.
— Ahn... — ele começou — Você foi achada na floresta.
— Na floresta? — perguntei
Eu lembrava vagamente de ter saído com Tramonto e de uma tempestade, mas quanto mais eu tentava pensar no assunto, mais detalhes pareciam faltar na minha mente.
— É. — ele respondeu me ajudando com a água — Você saiu pra cavalgar e uma tempestade se formou. Você foi achada basicamente em uma vala, e foi trazida pra cá o mais rápido possível.
Assoviei.
— Que loucura.
— Acho que loucura é uma palavra que define bem. — ele sorriu e não pude deixar de sorrir de volta
— Já posso levantar? — perguntei afastando as cobertas de cima de mim
Ele olhou para os lados como se procurasse alguém, e então voltou os olhos pra mim, concordando com a cabeça.
— Acho que pode. Vamos tentar. — ele disse e sem permissão alguma passou um braço pela minha cintura e me puxou para fora da cama, me dando o apoio para ficar de pé — Consegue caminhar? — perguntou abaixando a cabeça para me olhar
Senhor, tão perto...
— Posso tentar.
Dei um passo e senti uma dor excruciante na costela, me inclinei para frente para ver se a dor passava, mas só pareceu piorar.
— Tudo bem, tudo bem. — ele disse me sentando de volta na cama — Acho que foi rápido demais.
— Eu estou bem. — neguei com a cabeça — Vamos de novo.
Ele suspirou derrotado e me levantou novamente.
Fiquei estasiada de poder andar, por mais que doesse, e não perdi a oportunidade quando toquei a maçaneta da minha porta e abri,querendo ir em direção as escadas.
— Será que pode ir mais devagar? — Justin resmungou apoiando todo o meu peso em seu braço
Dei um meio sorriso pra ele.
— Não consegue acompanhar o meu passo, príncipe?
Ele riu.
— Acho que você que não consegue acompanhar o meu, princesa.
Ele me puxou para a sua frente e me levantou, fazendo meus pés ficarem em cima dos seus, e saiu caminhando por aí me arrastando, enquanto eu não conseguia para de rir.
— Eu consigo andar! — exclamei enquanto ríamos andando pelo corredor assim
— Sei que pode. — ele disse quando parávamos ao lado do corrimão da escada principal — Mas não seria tão legal se fizesse.
Ele apertou minha cintura e eu senti meu corpo ficando tenso.
Sentia a respiração dele em meu pescoço. As mãos passando da minha cintura para minha barriga, me pressionando cada vez para mais perto dele. Seu corpo tenso atrás do meu.
Eu estava em um estado de dormência ao mesmo tempo em que meu corpo estava totalmente consciente de cada movimento seu. Como a mão dele agora colocava meus cabelos para o lado. Como eu sentia sua boca encostando no meu pescoço, em de leve, como uma brisa no verão. E como, sem nem mesmo perceber, eu inclinava minha cabeça na direção da dele, meus lábios buscando os seus.
Eu deveria parar. Deveria me afastar dele, me trancar em meu quarto e fortificar as paredes que rodeiam meu coração. Deveria clarear a mente. Deveria parar de pensar nele. De qualquer forma.
Mas não pude deixar de sentir a eletricidade que passava pelo meu corpo. Que ansiava seu toque. Eu deveria estar mesmo ficando louca. Pois deixei ele se aproximar o suficiente para passar os lábios no canto de minha boca.
Até eu recobrar minha sanidade.
Me afastei dele e o observei. Observei suas mãos caírem ao lado do seu corpo enquanto ele também me observava.
Neguei com a cabeça passando ao seu lado para ir em direção ao meu quarto e lá me trancar.
Só até eu recuperar minha sanidade.
Só até eu fortificar as paredes que cercam meu coração.
E mesmo depois de trancada, debaixo das cobertas, pronta para entrar em estado vegetativo, me senti decepcionada por ele não ter me impedido de ir.
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