Rouge
1 Rouge
Rouge
Quando a criatura horrenda se pôs de pé a frente de Rouge ela soltou um suspiro de apreensão. Horrenda e atraente. A criatura? Um grande lobo homem, pelos negros e olhos cinzentos, fitava Rouge com ânsia, e ela sabia disso. Ela mesma, Rouge, sentia uma atração mortal por aquele ser terrível. Em poucos instantes ela e a criatura poderiam cruzar um caminho sem volta. Se Rouge atravessasse, com certeza morreria.
Mas essa história não começa aqui, começa horas antes, pela manhã. Rouge, filha única da dona da vinha mais famosa da região, acordou com uma surpresa em sua cama. Sangue. Não havia muito, na verdade, contudo, o susto fez ela pensar que estava morrendo de hemorragia. O lençol branco ficou com uma mancha circular, bem no meio da cama, mas não era tão grande quanto Rouge via com seus olhos assustados. Suas pernas também estavam com restos daquele líquido viscoso, e ainda sentia o calor deste. Não estava seco, então não havia muito tempo que ela havia menstruado pela primeira vez. Ela gritou pela mãe, que ao entrar no quarto, um tanto desesperada, viu na cena apenas motivo de alegria e orgulho.
Já é uma mulher; disse a mãe de Rouge ao abraçá-la na cama mesmo.Rouge não entendeu o que a mãe quis dizer com aquilo, só queria se levantar e se limpar logo daquele líquido vermelho e pegajoso. Levantou-se da cama com uma cara de nojo, e percebeu que seu vestido, também branco, tinha uma mancha similar ao lençol. Sua mãe cantarolava uma música secreta num idioma antigo, algo que só as mulheres sabiam cantar, uma música sobre a vida, o amor e a morte. Gostaria de compartilhar sua letra, mas não posso, é uma música secreta. Rouge foi se banhar, só queria se livrar logo daquele incômodo e esquecer do que aconteceu. Começou a ruborizar quando se lembrou que acordou pensando que iria morrer, mas talvez ela não estivesse tão errada assim.
Rouge, preciso que você leve esta cesta de framboesas para mater. Sério maman? Logo hoje…? Respondeu Rouge um pouco emburrada. O acontecimento pela manhã a havia deixado de mal humor.Indiferente ao humor da filha, a mãe de Rouge apenas entregou a cesta de frutas e a olhou nos olhos. Uma conversa através do olhar; As mulheres dessa família tinham esse poder sobrenatural de saber o que uma ou outra pensava, uma comunicação quase telepática. Digo quase pois ainda era necessário o olhar. Quando queriam falar coisas sérias que não podiam ser ouvidas, ou apenas fofocar, elas utilizavam o olhar. Rouge chegou tentar utilizar essa comunicação com outras pessoas, homens ou mulheres, mas não funcionava. Apenas entre as mulheres da família Rouge, apenas, era o que sua avó sempre repetia quando a neta lhe visitava. Rouge assentiu, pegou a cesta, vestiu seu capuz e pôs se na estrada.
No caminho, Rouge percebeu que recebia olhares que nunca havia recebido. Algo estava diferente hoje, mas ela não sabia o que. Lembrou-se do que sua mãe lhe disse no quarto. “Já sou uma mulher?, o que isso quer dizer, antes eu não era?” foi o que pensara. Será que todos aqueles olhos presos aos seus passos tinham algo a ver com o que a mãe dissera? Talvez. Não quis pensar muito nisso e continuou seu caminho.
Atravessou a longa campina que separa sua casa da casa da avó e chegou no bosque. A casa da sua avó ficava numa clareira dentro do bosque, mas havia dois caminhos para lá. O caminho pela margem de um riacho era mais longo e sem graça. O caminho pelas árvores era mais rápido e passava na frente da casa de um velho amigo. Lembrou-se do que a mãe dissera com os olhos urgentes e pensou “melhor ir pelo caminho mais rápido, assim posso entregar logo as frutas de mater e voltar para casa”. Pensou e se convenceu que era exatamente por isso que queria ir pelo caminho mais curto.
Ela caminhava entre o bosque, e sem perceber estava cantarolando a mesma canção que a mãe cantava ainda hoje pela manhã. Seu caminhar era gracioso e juvenil, seguindo o ritmo da música, um passo, outro passo, um pulinho, começava novamente. Começou perceber a natureza ao seu redor, as árvores espalhadas, o barulho dos animais, as flores que cresciam na relva rasteira. Passou por uma macieira e viu uma maçã vermelhinha, quis pegar, mas tinha pressa, devia ir na casa da avó e voltar antes de anoitecer, não foi por esse motivo que pegou o caminho curto? Enquanto estava extasiada em sua própria fantasia, não tinha como perceber que logo a frente estava a criatura, faminta, olhando para Rouge sem piscar. Foi quando Rouge se deu conta que tinha companhia que a criatura se pôs de pé e a menina suspirou.
Lupus, é você? disse a garota, Em sua voz transparecia um pouco medo e excitação.Fazia tempo que não passava por ali, talvez não fosse mais seu amigo que morasse naquele casebre de madeira, e talvez fosse, mas ele não se lembrasse de nada. Afinal, ambos haviam crescido e estavam diferentes. A fera deu o primeiro passo, sem nada dizer e Rouge congelou. Sentiu um arrepio em todo corpo, e um calor que subia das pernas e parava no ventre. No segundo passo da fera Rouge disse:
Se for você Lupus, isso não tem a menor graça.Quando a fera chegou na frente de Rouge, ela conseguiu sentir na sua face o hálito quente que vinha da bocarra. Pensou em fugir, mas o orgulho não deixava, ou outra coisa que ela não queria admitir, nem pensar. A fera se agachou e parou a cabeça bem na altura dos seios de Rouge. Abriu um sorriso bizarro e pôs se a rir.
Sério, você tinha que vê sua cara, “É você Lupus?” falou a criatura enquanto aumentava ainda mais o volume de seu riso.Lupus sentou no chão e continuou a rir. Rouge, envergonhada ruborizou completamente até ficar da cor de um pimentão. Ela reclamou, falou que aquilo era uma brincadeira perigosa. E se ela tivesse um ataque do coração? Fazia muito tempo que não se viam, poderia ser qualquer outro cara. Essas coisas são perigosas, não se brinca assim com moças. Mas o alívio logo tomou conta da garota, e o prazer de reencontrar um amigo de infância fez ela esquecer rapidamente dessa brincadeira de mal gosto. Em poucos minutos ela já estava ali, sentada no chão conversando com Lupus. Logo ela se esqueceu de outras coisas, como as frutas da avó, a urgência no olhar de sua mãe, as horas…
Eles conversaram sobre tudo. O tempo da separação, as brincadeiras enquanto criança, as novas amizades construídas, as antigas amizades enterradas. Conversaram também como seus corpos mudaram, como estavam diferentes. Rouge confessou que no fundo já sabia que era Lupus, mas mesmo assim teve medo de ser outro lobo homem. Lupus pediu desculpas sobre a brincadeira, disse que quando viu a garota primeiro ficou sem reação, o resto foi pura encenação para esconder a surpresa. Ele não queria assustá-la, quer dizer, não muito. Riram um pouco, e Rouge deu um cascudo nele. Rouge gostava de Lupus. Dos lobos, o único que nunca a tratou diferente por ser menina era ele. Mesmo após sua transformação em um lobo completo, Lupus permaneceu um bom amigo. As lembranças de alguns anos atrás pipocaram em sua mente. Lembrou-se de quando eles brincavam no bosque de casamento; ela disse que queria ser o noivo de Lupus, e o lobo um pouco confuso disse “Como assim noivo, você não quis dizer noiva?” e ela respondeu “Sim noivo, porque eu quero que você faça comidinhas gostosas pra mim”. Essa lembrança fez com que Rouge lembrasse de algo mais recente, do olhar de urgência da mãe. Eles estavam deitados na relva, olhando o céu, Rouge com a cabeça por cima do braço peludo de Lupus. Quando ela se levantou em súbito, o lobo tomou um pequeno susto.
Deus! Como posso ter esquecido. Tenho que entregar isto a minha Mater.Já de pé, Rouge passou a bater em suas roupas para tirar as graminhas que ficaram presas por lá. Lupus pôs se em quatro patas e se sacudiu como um cão. Depois ficou de pé. Suspirou. Rouge ajeitou seu capuz e pegou a cesta do chão. Antes verificou se algum bichinho entrou na cesta, talvez um inseto procurando alimento. Tudo em ordem. Lupus parecia estar procurando algo. Olhava para um lado, para outro, parecia nervoso, algo lhe incomodava. Rouge olhou para ele e se despediu.
Tenho que ir, foi bom te ver. A gente se fala depois.Rouge pôs se a caminhar. Lupus respirou fundo como se quisesse encontrar coragem para algo. Talvez um convite? algo assim. Vendo que a garota já ia se distanciando teve um súbito momento de coragem e falou.
Você pode passar a noite na minha casa hoje. O caminho de volta é longo e já está anoitecendo, não seria melhor você dormir por aqui?Rouge olhou para trás atônita com a proposta. Porque dormir na casa de Lupus parecia algo tão bom e ao mesmo tempo...errado? Ela não sabia explicar. Lupus não estava completamente errado em assumir que ela deveria dormir por aqui mesmo, mas ela podia dormir na casa da avó, e não na casa dele. Então por qual motivo ele fez tal proposta?
Não sei Lupus, não quero abusar da sua boa vontade. Eu posso dormir na casa de minha Mater.Lupus soltou um “a” decepcionado. Parecia estar envergonhado. Alguns segundos de silêncio que levaram uma eternidade para acabar. Os dois esboçaram que iriam falar ao mesmo tempo e se interromperam. Falaram juntos “pode dizer” e depois “você primeiro” e logo depois “não foi nada”. A tensão entre os dois diminuiu e passaram a rir do ridículo que estavam passando. Para quê toda essa apreensão, nós nos conhecemos a anos, não é mesmo? Foi o que ambos pensaram, cada um à sua maneira. Sorriram um para o outro.
Hoje não Lupus, mas com toda certeza nas férias eu durmo aqui contigo, vai ser divertido. Certo. Até depois Rouge. Até.Se separaram, Lupus foi em direção sua casa, Rouge em direção a casa da avó. De quando em quando eles se olhavam de longe. Olhares famintos, olhares de desejo, olhares de amor, olhares de morte. Naquele mesmo dia Rouge descobriu, através da avó, o que lhe aguardava na casa de Lupus. Descobriu que morreria se aceitasse aquele convite. E descobriu outra coisa, que era inevitável. Sua avó lhe contou a história, a mesma história que fazia parte da canção secreta. Todas as mulheres um dia tem que passar pela morte da garota. “Eu morri, tua maman morreu e tu também passaras por isso”. Após isto, Mater buscou uma garrafa de vidro que estava cheia de um líquido vermelho; vinho de framboesa.
Este vinho está aqui te esperando desde o dia que tua Maman tornou-se uma de nós Rouge. Hoje é a tua vez de beber. Beba.Rouge bebeu uma taça cheia, ficou um pouco zonza. A avó lhe deu a garrafa de vinho, depois pegou a cesta cheia de framboesas bem madurinhas e conduziu a neta para um quarto secreto da casa. Pegou as framboesas e despejou numa bacia, que já tinha algumas framboesas por ali. Mesmo um pouco tonta, Rouge entendeu o que tinha que fazer quando Mater olhou em seus olhos. Trabalho feito, foi descansar, a mando da própria avó.
A luz da lua iluminava o quarto e dava um ar de mistério. Rouge despiu-se e deitou na cama coberta com lençóis de cetim vermelho. Nem se deu o trabalho de desarrumar a cama, deitou por cima mesmo. Confusa e anestesiada pelo vinho, lembrou-se do seu dia; Do começo sangrento, dos olhares grudados em seu caminho, do corpo grande e forte de Lupus. Foi nesse momento que ela, meio que instintivamente, buscou sua intimidade que estava quente e úmida. O luar prateado agora refletia na pele despida de Rouge, iluminando seu corpo de mulher. Balbuciou uma o outra coisa ininteligível. Entre um gemido e outro soltou um “nas férias…”
Fale com o autor