Rota Zero

95 Um mês depois - Parte 3


Notas iniciais
Finais... Na minha opinião são a parte mais difícil de toda obra. Sabe, depois que acabou toda a ação, todo o drama, quando tudo esta realmente resolvido... Esse é o ultimo capitulo de R0. Espero que gostem!

Haila

Um mês depois — Parte 3

Eu tinha perdido a noção do tempo depois que chegamos em Nimbasa. Aquele clima mórbido e pesado ainda pairava pelas ruas da cidade, mesmo com toda a coisa do Contest. Muita coisa tinha acontecido nesse último ano e Nimbasa tinha sido o pontapé Inicial de tudo. As pessoas tinham razão de estarem assim.

E olhando para trás, agora, eu não conseguia conceber a ideia de como eu tinha me envolvido em tudo aquilo e sobrevivido. Como os acontecimentos em que nos envolvemos pareciam irreais. Mas simplesmente, não eram.

Porém, vivendo naquela casa cheia de gente, cercada pela maioria das pessoas que eu gostava no mundo, criara um contraste estranho. Aqueles foram os melhores dias da minha vida até então.

E mesmo com todo o fardo que eu teria que carregar no dia seguinte, eu me sentia confiante e que poderia lidar com aquilo.

Meus pais chegaram a Nimbasa no dia anterior ao julgamento de Jaden. Notícia que recebi graças a professora Juniper. A cientista tinha deixado suas responsabilidades no laboratório para ajudar no Hospital Pokémon Tajiri Satoshi, um dos maiores da região, no tratamento de vários Pokémon feridos durante o ataque da Team Plasma.

Eu tinha todo um plano em mente sobre como reagiria quando visse as pessoas que me criaram. Tinha ensaiado vários discursos e planejado várias possíveis reviravoltas para a conversa. Mas nunca me passou pela cabeça que eu teria que saber lidar com Corin querendo vê-los. Quando, por mim, passaríamos longe daqueles dois. Mas eu não tinha esse direito. Aquela seria uma escolha dele afinal, voltar para casa dos nossos pais ou vir comigo, seja lá onde isso me levasse.

Só a ideia me causava uma crise de ansiedade. Eu tinha tanta certeza de que aquela casa não faria bem a ele, mas como eu poderia criar alguém se eu mesma ainda não sabia quem eu era?

Se não fosse por Lila, provavelmente eu não teria conseguido pregar o olho a noite, mas o falatório entediante com Clarice sobre a possibilidade de ter filhotes dos seus Pokémon me fez apagar. E de repente, como se eu tivesse acabado de ir para o doce colchão no chão, eu acordei.

Nem todos estavam presentes para o café da manhã, o que não era surpresa, mas eu senti falta de alguns como Kara, Cilan e Tom. Já que Cheren, Skyla e Elesa não estarem presentes ao mesmo tempo já era esperado. Porém, nenhum deles tentando evitar que destruíssemos a casa atraiu olhares estranhos para a mesa.

— Já estamos atrasados? – Dee perguntou olhando para o relógio de novo.

— Muito longe disso, imagino. Tem aquela história toda idiota de promotores, mas temos horas até os julgamentos começarem. E o de Guerra não será o primeiro.

— Você vai mesmo depor? – Lila me perguntou parecendo um pouco angustiada.

Dei de ombros, encarando os ovos mexidos no meu prato. Eu estava com fome, mas sem vontade de comer – não vejo porque não. Se eu puder garantir que aquele filho da mãe fique na cadeia pelo resto da vida, eu o farei.

O farfalhar dos talheres no prato de Corin chamaram minha atenção, mais alto do que a um instante atrás, fazendo um nó surgir na minha garganta. Eu me sentia pisando em gelo fino. Sabendo que precisava atravessar, mas com medo de cada passo. E eu odiava não ter o controle.

Uma hora depois eu estava de banho tomado, com roupas mais sérias, emprestadas de Kara, que eram folgadas demais, mas cumpriam o papel. Acabar com meu amor próprio.

Corin desceu logo depois, usando roupas que custaram meus últimos tostões e os de Dee, apesar dele não querer admitir que eu tinha gastado tudo para me fazer sentir melhor. Até mesmo o incendiário estava com o cabelo arrumado, algo que nesses últimos meses tinha se mostrado uma tarefa impossível.

Skyla já nos esperava na entrada principal do tribunal, quando descemos do carro alugado por Elesa. Havia muita gente na porta. Curiosos, manifestantes e rios de jornalistas. Flashes começaram a disparar assim que descemos do carro, do outro lado da barreira policial, aos pés da escada de mármore.

E como esses flashes, os momentos passaram rápido, até que nos acomodamos nas cadeiras na sala onde as testemunhas aguardavam seu momento de depor.

Não tivemos ânimo para muito papo furado. Não podia ter certeza pelos outros, mas sabíamos que teríamos que reviver em detalhes momentos que estávamos tentando esquecer, por uma última vez.

Pareceu se passar muito tempo, e provavelmente se passou, porque Corin que estava ali conosco, começou a tirar os livros da estante e criar pequenas construções com eles, l entediado. Foi quando a porta se abriu e o advogado de acusação chamou Lila como primeira testemunha.

Agora tropeçou na mesa na hora de sair da sala e nos lançou um olhar duvidoso antes desaparecer pela porta de madeira maciça.

— Ela me contou o que Jaden fez a ela – Corin soltou, chamando nossa atenção. – Bem, não que ela soubesse que eu estava ouvindo. Ela falava com Clarice e eu acabei escutando.

Eu abri a boca, pronta para dizer algo, mas eu não consegui falar. Eu não queria moldar a visão de Corin. Ele precisava chegar às próprias conclusões e eu não estava preparada para ser imparcial.

— É errado eu ainda amá-lo?

— Nenhum pouco, – Dee respondeu por mim, e mais uma vez eu me senti grata por ele estar sempre ali comigo, – as pessoas não são só boas, nem só ruins. E por mais que o mundo inteiro as veja como monstros, por mais que saibamos que elas não são o que no fundo esperávamos delas, jamais conseguiremos esquecer os momentos bons que tivemos ao seu lado.

Corin balançou a cabeça positivamente e voltou-se novamente para os livros. Quanto a Dee, ele encarou a janela e havia um brilho úmido em seu olhar.

Já eu, mergulhei dentro de mim novamente. As palavras de Deedee acabaram trazendo à tona memórias que eu estava lutando para enterrar. Não de batalhas de vida ou morte, tiros, Pokémon e chamas. Mas de uma época em que Jaden era meu melhor amigo. Onde íamos para a escola juntos, brincávamos juntos e dividimos nossos maiores segredos. Época em que ele era meu ideal, meu ídolo, o que eu almejo me tornar todos os dias.

O irmão que me salvou se brigas, que me defende do meu pai, que passou noites acordado me ajudando a entender as matérias escolares e que mesmo depois de brigas, onde eu estava errada, sempre dava um jeito de roubar algo da cozinha e levar até mim como um pedido de pazes.

O sorriso fácil, a expressão doce e o tom de voz gentil tinham desaparecido. Em algum momento em que eu não notei. Sua melhor amiga. Ele começara a acreditar que podia entender os Pokémon e esse segredo o enlouqueceu. Todo o seu futuro foi moldado por algo que estava nele, e ele não compreendia. E eu não estava lá para apoiá-lo como tantas vezes ele fez por mim.

Os irmãos mais novos sempre têm, no fundo da mente, a ideia de que o irmão mais velho sempre estará lá para salvá-los. Mas em algum momento do crescimento, de começar a se entender como gente, se tornar adulto, isso muda. E eu não estava preparada para perceber. Me dei conta de que meus próprios olhos estavam marejados. Passei as costas da mão depressa e me forcei a respirar profundamente, me recompondo.

Agora eu tinha a percepção de que um dia eu estaria pronta para perdoar Guerra. Porque assim como Corin, por mais que eu odiasse admitir, eu ainda o amava. Mas o amor é como uma planta. Ela precisa de luz, água, um bom solo e cuidado para florescer. Se não ela perderá a cor, a força, até morrer. E por mais que o medo crie muros enormes dentro de nós mesmos, temos que ser fortes o suficiente para não ceder à raiva. Mesmo que eu não seja um bom exemplo disso.

Uma lição que eu aprendi a duras penas.

=8=

Enquanto eu caminhava até o local do julgamento minha mente estava entorpecida. Meu corpo parecia se mover sozinho, em um efeito de câmera lenta. As vozes pareciam mais baixas, as pessoas nos corredores pareciam embasadas, até mesmo a Luz Sol invadindo o corredor parecia mais opaca.

O oficial de justiça abriu a porta da sala dando vista a lateral da mesa do juiz. Ele entendeu o braço me indicando o caminho até a bancada onde eu ficaria. Não havia ansiedade, só um sentimento de finalização. Como se a hora de ir embora estivesse próxima.

Assim que me sentei, meus olhos inevitavelmente correram pelas pessoas à minha frente. Por quase meio minuto minha atenção foi atraída para Kara, Clarice, Cilan e Tom, que estavam sentados ao lado dos líderes e ginásio.

Mais ao fundo, como eu já esperava estavam sentados o homem e a mulher que me criaram vestidos com roupas de ir à igreja. O olhar no rosto da minha mãe era muito familiar. Olhos marejados e inchados de quem chorou a noite inteira no silêncio do seu travesseiro. No rosto daquele homem não se via nada, além de uma máscara de autoconfiança. O mesmo olhar duro e pose de superioridade, como se o fato de ter que estar ali fosse repulsivo.

Até que por fim, meu olhar se encontrou com o de Guerra.

Seu rosto ainda estava inchado e com hematomas. Um círculo roxo contornava seu olho direito, enquanto pequenos cortes se espalhavam pelas suas bochechas e lábios. Seu cabelo sempre arrumado agora estava sujo e oleoso ao ponto de parecer molhado.

Suas mãos algemadas sobre a mesa se fecharam quando ele me viu, fazendo com que o barulho de metal pudesse ser ouvido no silêncio da audiência. Mas sua expressão não mudou. Havia algo ali que eu não era capaz de ler.

Tédio, dúvida? Talvez tristeza. Ou era só minha imaginação tentando encontrar qualquer pedaço de remorso. Qualquer coisa que lembrasse o velho Jaden, o qual eu me espelhei toda a infância. A primeira pessoa que me apoiara, que me defendera e apanhara por mim.

Como ele podia ter chegado aquele ponto? O que eu tinha deixado escapar para permitir que ele se sentisse tão sozinho e cheio de raiva?

— Você está pronta, senhorita Gray? – Perguntou o advogado de acusação se levantando.

— Estou sim, – menti. Como eu poderia estar?

Enquanto meus lábios se moviam, respondendo o mais detalhadamente possível as perguntas do advogado, revivendo os momentos mais dolorosos pelos quais passei, era como se meu coração começasse a ser apertado no meu peito.

Todas as vezes que eu contava aquela história, mesmo que já houvesse ensaiado aquelas perguntas com o advogado uma dezena de vezes, eu me dava conta de algo novo. De como eu fui manipulada no início, de quantas armas eu tinha segurado, de que mais uma pessoa que eu ainda não tinha calculado havia morrido, de que eu tinha machucado seriamente outra pessoa ou outro Pokémon. E todas as vezes eu precisava de um minuto para respirar e repetir o mantra de que não era minha culpa. Que eu precisava fazer aquilo para sobreviver. Que pessoas muito mais preparadas do que eu tinha tentando ajudar e falhado.

Mas alguém não tinha contado isso para minha consciência. Ninguém podia entrar nos meus sonhos a noite é impedir que eu revivesse todo o sangue, dor e medo. Ninguém conseguia me fazer sentir segura andando pela rua, ou dentro de multidões. Ninguém conseguia fazer com que a impressão de que eu continuava sendo um alvo sumisse.

As cicatrizes na minha pele e dos meus Pokémon nunca desapareciam, assim como Lead nunca mais teria dois olhos. Quem devolveria o braço de Dan? Quem faria Dês voltar ao normal, se ele tivesse sorte, e um dia acordasse do coma?

A guerra havia acabado, mas as consequências reverberariam para sempre.

=8=

— Ele vai passar o resto da vida na cadeia. Disso não tenho dúvida – Kara afirmou, olhando curiosa para Guerra que agora era levado de volta à prisão. – Uma pena, porque ele era muito bonitinho antes da loira aguada acabar com aquele rostinho.

O primeiro dia de julgamento havia acabado e agora, nós que depomos estávamos livres do fardo. O advogado de defesa estava apenas tentando diminuir a pena e conseguir que a cumprisse em um hospital psiquiátrico.

— Ele vai acabar sendo responsabilizado por tudo. Jaden é o Team Plasma de maior patente vivo – Cilan completou.

Estavam quase todos no saguão de entrada do tribunal de justiça, esperando que o transporte chegasse. Lila estava distraindo Corin e Dania que tinha ido nos encontrar. Os líderes de ginásio ainda iriam depor.

Eu estava completamente distraída, ainda imersa nos acontecidos recentes e tentando imaginar no que tudo isso se tornaria, quando percebi a expressão de Dee que estava na minha frente, de encher de pavor. Ele olhava de olhos arregalados para mim.

Antes que eu pudesse abrir a boca para perguntar-lhe o que estava acontecendo vi o vulto alto de cabelos louros parar do meu lado, ao mesmo tempo em que Jaden desaparecia pelo batente da porta.

— Parece que você finalmente conseguiu – a voz grave e firme do pai me surpreendeu, mas apenas por um instante. Travei a expressão no meu rosto, escondendo toda a surpresa e ansiedade, e continuei olhando para frente.

O grupo de pessoas à minha frente demorou um segundo a mais para perceber o clima e Dee, como se me perguntando se eu precisava de ajuda, agarrou Kara e Clarice pelos braços e as chamou junto aos garotos para ir até a máquina de refrigerante.

Minha mãe estava ali também, mas ficou a um passo de nós, como se não ousasse ficar ao daquele homem.

— Você sempre teve inveja do seu irmão e agora você destruiu a vida dele – Odilon continuou. – Você sempre foi uma decepção, mas você conseguiu superar minhas expectativas e levar isso para o próximo nível.

Voltei minha atenção completamente a ele, me colocando exatamente a sua frente. Eu quase não batia em seus ombros. – É claro, aposto que é realmente mais fácil culpar a filha rebelde do que a sua péssima criação.

Pude ver seu olhar se endurecer. Aquela era a primeira vez que eu falava algo assim para ele – isso não tem a ver com o modo com que vocês foram criados. Vemos isso nas ninhadas de Eevee, se algum deles nasce errado ele precisa ser tirado de perto dos outros. Uma fêmea fraca só pode gerar outro filhote fraco. Burrice é gastar energia tentando transformar uma aberração em algo útil.

Olhei para além dele um momento e pude ver minha mãe tentando se manter no lugar. Lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto. E aquela blusa de manga cumprida em um dos poucos dias quentes do início do inverno do podiam indicar hematomas.

— Se continuar fingindo que não há nada de errado com você te faz se sentir melhor, pai – disse a última palavra com um tom irônico, dando uma ênfase quase teatral a ela – não serei eu quem gastará meu tempo tentando te tirar dessa ilusão.

— Como se sua opinião tivesse qualquer valor. – Ele fitou meu cabelo curto, as cicatrizes expostas e completou – você deveria se tratar.

Dei um sorriso largo, – parece que sim. Alguns jornais andam dizendo que sou perturbada.

— Já não basta ter jogado o nome da nossa família na lama, você ainda acha graça? – Perguntou parecendo legitimamente indignado.

— O seu filho perfeito está sendo julgado por ter tirado a vida de uma centena de pessoas e tudo que você consegue pensar é no nome da família? Você não percebe o quanto você fodeu com todos nós? Você é tóxico e isso contagia a todos perto de você. Se somos defeituosos isso é culpa sua – explodi erguendo o timbre da minha voz, atraindo sem me importar todos os olhares à nossa volta, – você tornou nossa vida um inferno. Você transformou o que deveria ser um lar em algo dominado por medo e violência. Você é tão ruim quanto a Team Plasma.

Ele bufou, amaldiçoado minhas palavras sem emitir nenhum som, olhando em volta envergonhado – você não vai falar comigo desse jeito.

— Eu vou falar com você do jeito que você merece. Você não é nada. Só um homenzinho frustrado e sem amor que vai morrer sozinho e quando isso acontecer, nenhuma lágrima será derramada, a não ser por alívio.

— Você não é minha filha.

— Ah, mas eu sou e você vai ter que lidar com isso pelo resto da sua vida medíocre.

As pessoas tinham parado no corredor para olhar a situação e meu pai que sempre viveu de aparência entrou em pânico. Foi só então que notei que dentre todas as pessoas nos olhando, Corin estava parado nos olhando assustado.

O problema foi que meu pai também notou e começou a andar em sua direção, – vamos embora daqui, – disse para Corin, enquanto minha mãe disparava atrás dele.

Tive que praticamente correr para alcançar meu pai, – ele não vai com você, – afirmei tentando acompanhar seu passo.

Ele deu uma risada curta, quase nervosa – você não me dá ordens.

Senti o sangue ferver em minhas veias e de uma hora para outra, o tamanho daquele homem não era relevante. Agarrei-o pelo punho e o segurei com força, fazendo o corpo dele se virar ainda preso ao meu aperto – você não vai levá-lo, – disse firme, furiosa e pausadamente para que não houvesse dúvida.

Odilon puxou seu braço com violência e o seu tom de voz perdeu a compostura, – nunca mais me toca desse jeito garota.

— Ou o que?

Seu cabelo perfeitamente arrumado tinha saído do lugar, seu corpo estava vermelho e era quase como se eu pudesse sentir o ódio à flor da pele que emanava dele. Tão grande que ele quase não se conteve, erguendo o punho altura do queixo de forma ameaçadora, pronto para me bater com as costas da mão.

Ouvi Dee dizendo alguma coisa, mas sua voz saiu abafada pelos murmúrios da pequena multidão agora a nossa volta.

Ele olhou em volta surpreso e acuado como o covarde que ele era e depois para mim, abaixando o braço devagar, como se aquele ato os machucados.

— Você vai sair daqui sem Corin e eu nunca mais vou te ver ou ouvir falar de você. Ou você e toda Unova vão acordar com a comovente história familiar da heroína que cresceu em um lar com um pai machista, bully e agressivo. A pobre garota que fugiu de casa porque estava cansada de ouvir a mãe apanhar e com medo de ser a próxima vítima.

— Você não faria isso – ele cuspiu as palavras como se fossem veneno.

Tudo que pude fazer foi sorrir – sou sua filha. Você vai arriscar?

Ele seu mais uma olhada em volta e bufou uma última vez antes de me dar as costas e caminhar a passos largos em direção a porta.

Minha mãe ficou parada por um instante o vendo sair e depois me encarou. Seus olhos estavam pesados como raramente vi. Havia dor, tristeza, vergonha e algo novo, como se parte dela estivesse quebrado.

— Você sabe que só precisar dizer e eu posso te tirar disso, não é?

Lágrimas escorreram de repente dos seus olhos e cessaram tão de repente quanto – se eu o deixar ele vai morrer.

— De que mãe? Ele está doente?

— Não, ele não consegue viver sem mim. Ele precisa de mim – respondeu com um sorriso fraco, mas notei que verdadeiro. Ela realmente acreditava naquilo. – Você não entenderia, meu bem!

Fiquei imóvel enquanto ela veio até mim, me abraçou, beijou meu rosto e disse que me amava. Não havia nada que eu pudesse fazer. Eu não podia salvar a todos. Por mais que doesse ver minha mãe indo até Corin e em seguida embora.

Ainda parada ali, sozinha, finalmente soltei a respiração que não tinha ideia de estar segurando. Comecei a respirar profundamente até finalmente estar chorando e ao mesmo tempo dando risadas.

Dee surgiu me abraçando em algum momento e eu não lutei, apenas o abracei e deixei que tudo viesse à tona.

O sentimento de impotência, de perda, de abandono. Toda a tristeza por ter tido aquela criação, enquanto invejava desesperadamente os meus colegas de escola. Por todas as brigas que escutei em casa e os gritos de clemência de minha mãe enquanto apanhava. Por toda a raiva e alívio por saber que eu nunca mais precisaria voltar para aquela casa.

E então Corin também estava ali me abraçando e em seguida Lila. Ao me redor estavam Cilan, Tom, Clarice, Dania e Kara. Pessoas que eu aprendi a gostar de graça ou com alguma relutância, mas que estariam ali, mesmo que não estivéssemos mais perto.

Porque agora eu não estava mais sozinha. Não só porque aquelas pessoas gostavam de mim. Mas porque eu tinha aprendido o que era gostar de alguém e me doar por elas, para elas. Não importava se eu era a garota de uma cidadezinha, se eu era estranha, errada, eu tinha conquistado aquelas amizades. E meu pai estava errado.

=8=

Os dias estavam correndo depressa, mais do que eu gostaria. Leaf finalmente tinha saído do Centro Pokémon, ainda com uma faixa cobrindo o abdômen. A cavidade onde um dia havia um olho, agora costurada trazendo a impressão de que ela estaria para sempre com aquele olho fechado.

Ling, Couve-flor, Serpio e até mesmo Lombre, o novo Pokémon que eu acabei adotando, a receberam com animação. Eu o encontrei no Centro Pokémon no dia em que fui pegar Leaf. Eu o vi sentado em um dos sofás, encarando a entrada e quando questionei o enfermeiro, ele me contou que ele havia sido levado ali durante os ataques, banhado em sangue que não pertencia a ele, com ferimentos nos braços e pernas. O registro dizia que seu treinador estava morto e assim como mais meia dúzia de Pokémon, eles não sabiam para onde mandá-los.

E agora que a Professora Juniper havia devolvido Serpio. Meu time estava completo de novo. Bem a tempo da batalha de Cheren. O que não aguardei com animação. Eu conhecia a maioria dos Pokémon de Cheren e eu não tinha nada no meu arsenal que me trouxesse qualquer vantagem contra o líder.

Até mesmo Dan, que agora assumira o ginásio tipo ground de Driftveil City, riu na minha cara quando apareceu na cidade para a nomeação dos novos líderes. Todos sabiam que eu batalharia contra o líder e metade veio me dar uma dica ou me dizer qualquer palavra de apoio. Até mesmo Skyla tentara me tranquilizar dizendo que eu sempre poderia contar com ela para treinamentos. O que eu bem sabia que não era verdade. Meus quinze minutos de fama passariam depressa e adeus convite. Não havia tempo para treino, era fazer ou fazer.

O lugar escolhido por Cheren foi o estádio onde as pessoas tinham se refugiado durante o primeiro ataque a cidade. O lugar havia sido cedido de bom grado ao líder que o abriu exclusivamente para nós, proibindo com apenas uma frase, que todos os outros nos seguissem em até lá.

— Isso é algo entre mim e Haila.

Nos posicionamos no meio do campo e nos encaramos. Durante todo o ano Cheren e eu nos esbarramos dezenas de vezes. Lutamos lado a lado e ele até mesmo havia tentado me salvar de ser sequestrada na ocasião em que Dês se machucou, mas nunca trocamos mais que meia dúzia de palavras.

— Acho que você vai concordar que depois de todo o ocorrido o ideal seria uma batalha dois a dois. Certo? O primeiro que derrubar os dois Pokémon do outro vence a batalha.

Balancei a cabeça confirmando que concordava, – qual é o desafio do seu ginásio? Quero dizer… – olhei em volta e não era nem um ginásio – você entendeu.

— Parte dele é você conseguir descobrir. – Não imaginei que seria diferente. – Podemos começar?

Ele perguntou, mas apenas por cortesia. Não havia sacado uma Pokéball e um Stoutland enorme surgiu no meio do caminho entre nós rondando alto.

Analisei minhas chances, Couve-flor era pequeno demais e qualquer Giga Impacto o deixaria fora de combate. Leaf não seria uma opção tão cedo. Eu não tive tempo de ver as habilidades de Lombre e Serpio apesar de ser meu peso pesado, não sabia jogar pelas regras. Só me restava uma opção.

Ling que estava mudando a pelagem, criando uma juba de pelos brancos em volta do pescoço e tinha perdido quase todas as folhas do chifre, surgiu graciosamente bem próxima a mim.

A Pokémon me deu uma olhadela e se voltou para o adversário a sua frente.

— Stoutland, Hyper Beam, seguido de bite, evasiva e flamethrower

Antes que eu pudesse abrir a boca para dar algum comando o Pokémon canino já havia lançado o raio de energia Branco em nossa direção. A violência e temperatura do ataque fizeram com que o chão com que ele entrasse em contato explodisse em chamas, que levantaram poeira e fumaça no ar.

Por reflexo cobri meu rosto com as mãos, me obrigando a ficar de olhos aberto, para tentar enxergar além da cortina de detritos que tinham sido lançados no ar. A onda de choque do ataque tinha feito meu corpo tremer e por um momento minha mente ficou bagunçada.

No segundo seguinte o Pokémon já atravessava a poeira, surgindo com os dentes à mostra para cima de Ling. E mais por reflexo do que por minha capacidade de comandar a Pokémon usou as patas de trás acertando um Stomp no queixo do adversário que tombara para o lado, antes de saltar de novo para a fumaça.

— Razor Leaf – pedi com urgência e Ling reagiu na hora, arremessando folhas cortantes na direção onde o Stoutland havia sumido.

Eu não podia ver Cheren, mas sabia o que vinha depois. Quando eu vi a sombra corpulenta, de pelos negros e castanhos surgindo atrás de Ling já era tarde demais. As chamas surgiram de repente envolvendo a Pokémon que gritou de dor e pavor. Ling sucumbiu sob suas patas dianteiras, ficando como se em posição de reverência diante do Pokémon a sua frente. Ela bufava e seu pelo estava chamuscado.

A nuvem estava começando a se dissipar e Cheren estava parado pouco mais a frente, me encarando com os braços cruzados. Ele tinha dado cinco comandos seguidos que seu Pokémon executar com maestria. – Como você previu meus movimentos? Como você sabia que isso daria certo?

Ele acertou os óculos no rosto antes de responder – eu quase não a vi em batalhas, mas convivemos o suficiente para que eu pudesse analisar a sua personalidade impulsiva e despreparada.

Cerrei meus punhos na lateral do meu corpo instintivamente. – E mesmo despreparada olha só o que eu consegui fazer, – respondi de forma firme.

— Vocês tiveram sorte. Muita gente morreu por menos. Você não colocou só a si mesma em perigo como as pessoas a sua volta.

Ao dizer isso, pude ver um brilho em seu olhar. Algo que eu conhecia muito bem. Desejo. Fúria. Força.

— Você precisa relaxar se pretendo seguir em frente com isso.

— Agradeço pelo conselho, mas tenho meu próprio jeito de levar as coisas… – respondeu parecendo levemente constrangido com o meu comentário. – Stoutland, termine isso com Giga Impact.

— Ling, Mega Horny!

O Pokémon corpulento já estava no ar durante o comando e por mais que tentasse ele não poderia mais desviar o percurso. Os chifres em forma de galhos em sua cabeça se iluminaram enquanto a Pokémon se levantava com confiança. A pancada do ataque na lateral do leito do adversário o fez ganir e cair de lado no chão gramado.

Vi Cheren hesitando e não pude conter o sorriso, – talvez você devesse reconsiderar. Eu o conheço muito melhor.

O líder apertou os olhos me fitando e comandou, agora usando um tom de voz mais alto, – Roar seguido de investida.

O Pokémon ainda se levantando latiu com tanta força que meus ouvidos doeram. Ling recuou e como se eu tivesse comandado ela desapareceu na Pokéball em meu bolso, envolta pela típica luz avermelhada. Ao mesmo tempo que uma Pokéball se abriu e Lombre surgiu no meio do campo, dando saltos de alegria.

— Mas como?

Mal formei as palavras e Stoutland já estava em cima de Lombre. A trombada foi tão forte que o Pokémon foi arremessado para trás, rolando pelo gramado até parar mais a frente, deitado de bruços, imóvel.

— Droga, – foi tudo que consegui dizer.

— Melhor trazê-lo de volta. Agora você só tem seu Sawsbuck.

Eu não me lembrava dessa técnica e mesmo que estivesse preparada não haveria nada que eu pudesse fazer para me prevenir. Lombre não tinha treinamento, mas se Leaf tivesse ido ao campo teria sido pior. Peguei a Pokéball e já estava pronta para trazer o Pokémon de volta, quando um som estranho nos chamou atenção.

Lombre estava se levantando, aparentemente bem, emitindo um som que lembrava muito uma gargalhada. Ele passou as patas pelos braços, retirando o excesso de grama que tinha grudado quando ele foi arremessado e saiu correndo na direção de Stoutland.

— Use Thunder Wave, – Cheren comandou e seu Pokémon reagiu na hora, criando uma onda elétrica que correu em todas as direções.

Lombre ainda emitindo aquele som, saltou e enviou uma rajada de água na cara do canino que ainda estava com os pelo ouriçados pela corrente elétrica que emitirá. Stoutland recuou mais pelo susto do que pelo impacto do ataque e nesse vacilo Lombre já estava sobre ele. Acertou dois tapas em Stoutland que chegaram a ecoar pelo estádio vazio. O Pokémon ganiu de dor e instintivamente se abaixou, tentando se proteger, mas Lombre não estava parando.

O Pokémon começou a emendar um ataque seguido de outro, estapeando e chutando até que Cheren gritou para Stoutland usar Take Down. Seu parceiro rosnou ainda no chão e se lançou para cima de Lombre que saltou para trás bem a tempo de desviar do ataque.

— Lombre, você está bem? – Perguntei surpresa com seu comportamento. Ele olhou para trás e diferente do que imaginei, não havia fúria em seu olhar. Ele parecia doce e calmo. Um pouco ofegante, claro, mas algo natural. Deduzi que ele provavelmente gostava de batalhar e tinha noção de que eu ainda não o conhecia para comandá-lo, mas de algum jeito eu precisaria.

— Você não deu nenhum comando. Esse Pokémon não está pronto para essa batalha, – Cheren sugeriu me olhando com firmeza, como sempre fazia.

— Tem algum motivo para você ser tão duro comigo, ou é só ciúme?

Sua expressão se endureceu, mas antes disso ele deixou escapar a surpresa pelo meu comentário, – eu não sei do que você está falando.

— Vamos mesmo fingir que isso não tem nada a ver com Deedee?

— Minha vida pessoal não te diz respeito.

— Quando se trata do incendiário sim.

— Stoutland, Shadow Ball, investida, Protect e Thunderbolt.

— Droga – sussurrei.

A esfera negra já ia em direção ao meu Pokémon que saltou para o lado com uma facilidade impressionante. Tudo pareceu que ia correr bem por um momento, mas no seguinte Stoutland já estava em cima de Lombre. Ainda no ar, o Pokémon Planta/aquático usou as patas dianteiras, usando o próprio adversário como trampolim para desviar do ataque.

— Fury Swipes, – gritei, chutando que esse fosse o ataque ele usara antes.

Assim que ele tocou o chão se lançou para cima do canino que passara por ele, pronto para atacar. Mas o primeiro movimento já revelou a barreira de luz, fazendo meu Pokémon trombar contra ela com violência. O momento de surpresa foi o suficiente para os pelos do Pokémon adversário de ouriçarem de novo e uma corrente elétrica acertar Lombre.

O Pokémon gritou fazendo meu coração apertar. Eu tinha feito exatamente o que Cheren planejada. Caído em sua armadilha. Aquela quantidade de comandos me deixava confusa e eu não conseguia calcular como responder. – Esse é o desafio do seu ginásio – verbalizei, vendo Lombre se erguendo meio torto. Ele estava machucado e claramente meio tonto.

— Muito perspicaz da sua parte, – disse sem qualquer flor rio na voz, – mas perceber qual é o desafio é conseguir resolvê-lo são coisas distintas. Vamos ver como você se sai.

Líderes de ginásio. Todas as situações de batalha que eu vivi durante a guerra me deram a impressão de que talvez eu não estivesse tão distante deles no final. Mas batalhar com Cheren me fazia lembrar que apesar de eu ter enfrentado quase todos, o único que eu havia conseguido derrotar fora Elesa, porque provavelmente ela pegou leve, usando Pokémon no primeiro estágio.

Burgh me derrotara apenas com um Pokémon. Clay perdeu a cabeça, mas seu Pokémon era tão poderoso que colocou a mina abaixo. Skyla tinha escolhido não lutar e ainda sim Leaf teve que usar tudo que tinha para derrubar um Pokémon em defesa. Marlon tinha me vencido mesmo usando Pokémon em desvantagem.

E quanto a Cheren, o prodígio que salvara Unova pela terceira vez. Ele esteve nas primeiras duas vezes que a Team Plasma tentou subir ao poder e batalhou ao lado dos melhores treinadores da região. Participou da liga Pokémon seis anos antes, ao lado de Hilbert, ficando em ótima posição. Um dos líderes mais jovens da região.

— Você provavelmente o líder mais forte.

Vi um faiscar de curiosidade em seu olhar, – você provavelmente é umas das treinadoras com mais potencial da geração.

Aquilo tinha me pegado com surpresa, – eu sou só uma garota impulsiva, cabeça dura e com sorte para Pokémon. Kara é muito mais forte que eu.

— Você é uma garota cabeça dura e impulsiva e isso coloca as pessoas que se importam com você em risco, – as palavras, apesar de verdadeiras, vieram como um soco. Eu tinha perdido as contas de quantas vezes coloquei Deedee em situações perigosas. – Mas sobreviver a elas não foi sorte. Você tem um vínculo muito forte com seus Pokémon. A sua força e engenhosidade durante situações impossíveis, o respeito que você mostra por eles conquistou sua confiança e a minha.

Ele me fitava sério. Não havia deboche na voz. – Você não é tão ruim assim.

Cheren torceu o nariz, – se você quer ter alguma chance precisa ter mais atenção ao modo que eu comando. – Essa era a parte óbvia. Todas as vezes ele parecia prever o que eu iria fazer e isso me derrubada.

Então algo faiscou na minha mente. Ele não dissera “ao que eu comando”, mas sim “ao modo que eu comando”. – Você não está prevendo meus movimentos. Você os está forçando a acontecer. Seus primeiros ataques obrigam o adversário a abrir a defesa, criando brechas intencionais. Essa batalha está sob seu controle desde o começo.

Cheren sorriu. – Finalmente você se deu conta. – O bastardo era um gênio.

Saber disso só tornava as coisas mais difíceis. Era apenas uma confirmação do quão bom Cheren era e de como seria difícil vencê-lo. Mas eu estava lutando por algo importante demais. Muita coisa dependia do resultado daquela batalha. Eu não podia permitir que ele me vencesse e ele não iria.

Soltei a respiração que percebi estar prendendo novamente e fiquei os olhos do líder sob os óculos. – Se você estiver pronto, eu estou.

— Muito bem então. Stoutland, use Shadow Ball duas vezes, Thunder Wave e em seguida Thunder Fang.

O Pokémon ágil tão rápido seu treinador falava. As esferas negras de energia já vinham na direção de Lombre. Meu parceiro saltou para o lado duas vezes escapando por pouco do ataque que explodira no chão lançando uma nuvem de poeira e grama para o alto. E naquele minuto de cegueira eu sabia que ele viria com Thunder Wave. Eu não podia continuar permitindo que ele tivesse o controle. Eu precisava mudar isso.

— Lombre, suporte o ataque e use Water Sport.

A onda de choque veio como previsto acertando Lombre com violência suficiente para fazê-lo cambalear, mas não o suficiente para cair. Ainda lutando para se equilibrar o Pokémon abriu a boca a apontando para o céu e enviou cargas de água para todo lado de uma só vez. Antes do Pokémon Adversário surgir saltando por entre a poeira, todo o campo e inclusive ele já estava encharcado.

Cheren não teve chance de parar o ataque do Pokémon, já era tarde demais. Assim que a corrente elétrica surgiu entre seus dentes ela perdeu o controle, se espalhando por todo o pelo molhado, eletrocutando o Pokémon ainda no salto. Seu corpo ainda se convulsionando acertou o chão com um baque pesado e molhado em meio a um uivo esganiçado de dor

— Você é louca? – Cheren perguntou, perdendo um pouco da postura certinha, – você intencionalmente deixou seu Pokémon se machucar para poder me acertar? Lombre poderia ter se ferido seriamente.

E ele provavelmente estava machucado, eu podia ver que ele estava com dificuldade para se mover devido a eletricidade que ainda corria pelo seu corpo, enrijecendo seus músculos. Mas ele poderia ter se negado, nenhum dos meus Pokémon fazia nada por obrigação, – vamos até o limite.

Eu não sabia se Lombre conhecia aquele ataque, parte disso tinha sido sorte. O efeito sobre Stoutland tinha sido devastador. O Pokémon agora levantava com dificuldade, com os pelos em volta da boca chamuscados e do restante do corpo eriçados. Aquela era minha chance de partir para cima. – Lombre, Razor Leaf.

Olhei para Stoutland esperando o ataque, mas Lombre continuava imóvel, me encarando. – Parece que seu Pokémon não conhece esse ataque, – Cheren expôs o óbvio. – Stoutland, Shadow Ball.

O canino ainda nem tinha se levantado quando arremessou a esfera de energia em Lombre. Comandei a evasiva, mas o efeito do Thunder Wave ainda paralisava o Pokémon. O ataque o atingiu em cheio, causando uma pequena explosão que novamente arremessara Lombre, desta vez com muito mais força. O corpo do Pokémon rolou pela grama e por um segundo ou dois, alcançou formas que não deveria até parar com o Pokémon deitado de barriga para cima desacordado.

Comprimi os lábios, preocupada com Lombre e também frustrada. Decidi ir até o meio do campo de certificar de que estava tudo bem com ele antes de trazê-lo de volta a Pokéball e pude ver Cheren fazer o mesmo.

Apesar dos ferimentos leves e da perda de consciência ele parecia bem. Ele tinha resistido a três ataques diretos de um Pokémon daquele porte e sua resistência já tinha me orgulhoso. Quanto a Stoutland, me deparei com o Pokémon corpulento encostado em Cheren, ele parecia mal e ao tentar latir um pouco de sangue espirrou na camisa do líder. – Você fez muito bem, que tal descansar agora? – Stoutland rosnou em protesto, mas Cheren já estava o trazendo de volta.

— Ele está bem? – Perguntei genuinamente preocupada. Eu não tinha muita noção de quais eram meus limites agora. A guerra tinha me feito batalhar até cair. Não havia segunda chance, era sempre vencer ou vencer.

— Precisa de um Centro Pokémon, mas vai ficar – comentou tranquilamente, ajeitando os óculos no rosto, – usar o ataque contra ele mesmo foi uma ideia arriscada. Lombre podia ter se ferido ao ponto de não poder revidar.

— Ele queria batalhar.

— Você não sabe disso. Mal o capturou. Você tem que medir as consequências dos seus atos. Eles sempre reverberam sobre aqueles que ficam à sua volta.

Mais uma vez ele não estava falando sobre essa batalha, – eu não me arrependo de nada do que fiz. Muitas pessoas de machucaram. Pessoas que eu me importo, – Dês ainda não tinha acordado e não sabíamos se isso um dia aconteceria. – Se eu tiver o poder, eu mudaria isso, mas era uma guerra, havia muita coisa fora do nosso controle.

— Não esse tipo de coisa, Haila. Pensar, ponderar, planejar. Essas são nossas obrigações antes de agir. – O tom de voz de Cheren era firme e sob toda a postura, podia-se notar a inquietação, o nervosismo.

Não havia um dia em que eu não pensasse em Des. Em que eu não me culpasse por ele estar ali, naquele momento, por se envolver com a minha família. Ele era um ótimo treinador e uma pessoa melhor ainda. Conhecia sim os riscos, mas ninguém nunca está realmente pronto para pagar o preço das escolhas que toma.

— Se não tivéssemos feito o que fizemos, muito mais pessoas e Pokémon teriam morrido.

— Fins nunca justificam os meios. Havia outro jeito de fazer isso. Havia outro jeito – seu tom de voz estava cada vez mais alto, mais cheio de desespero.

Cheren havia perdido muito durante a guerra. Roxie era uma amiga muito próxima e apesar da traição que todos sentimos, o peso era muito maior para ele. Houve Lenora a qual ele assumiu a liderança do tipo. Burgh, Draiden e a Champion, Iris. Todos ligados a seu passado. Além de Pokémon perdidos para sempre. Eu conseguia entender o motivo de ele estar tão desesperado ao ponderar a possibilidade de perder mais, mas eu não podia engolir aquilo. Não podia me prender a esses pensamentos ou jamais conseguiria retomar minha vida, fosse lá o que ela se tornaria agora.

— Você ainda não consegue enxergar.

— Vejo mais claramente que você, – ele rebateu. Tinha certeza em cada sílaba. – Vamos acabar logo com isso.

Pegou a Pokéball e apontou para o campo. Um Patrat muito maior que o normal salvou para fora, mostrando os enormes olhos vermelhos como chamas me tirando com confiança.

Ao tocar a Pokéball de Ling senti medo, por mim e por ela. Era muita responsabilidade em cima dela. Eu jamais poderia colocar isso tudo nos ombros dela, – faremos isso juntas, você e eu. De o melhor de si e eu farei o mesmo – sussurrei para o objeto na minha mão, desejando que a Pokémon pudesse ouvir e entender.

Ling estava melhor, o descanso na Pokeball tinha permitido que ela pudesse descansar um pouco, mas o estado do pelo dela evidenciava a batalha anterior. Ela me lançou um olhar firme e depois voltou-se para líder é Pokémon a sua frente.

Cheren olhou para mim uma última vez buscando permissão para começarmos e assim que assenti com um movimento de cabeça ele deu início, – Patrat, comece Double Team, depois Crush Claw e finalize com Flamethrower.

— Ling, resista com Horny leech.

Eu mal tinha terminado de dizer a frase e Patrat já tinha se multiplicado pelo campo, se movendo tão depressa que era impossível dizer qual deles era o verdadeiro. Em um instante eles já estavam partindo para cima de Ling, com as garras afiadas prontas para fatiá-la. Os chifres de Ling começaram a brilhar rápido o suficiente para se defender do primeiro, segundo e terceiro ataque. Um após o outro a multidão crescendo de Patrat partia para cima dela.

Ling saltava e se contorcia, conseguindo se esquivar e revidar de ataques vindo de todas as direções e a cada pancada ela estava mais rápida, mais ágil e parecia mais forte. Os Pokémon surgiam e desapareciam assim que Ling se defendia, vindo por cima, tentando atacar suas pernas, mirando no tórax, na cabeça. Movimentos tão rápidos que eu tinha dificuldade de acompanhar o ritmo da batalha. E tão logo começou, Ling acertou Patrat com força suficiente para mandá-lo para o alto com um grunhido de surpresa e dor, fazendo todo o resto desaparecer.

O adversário caiu no chão sobre as patas, ofegante demais para conseguir usar o lança chamas. O ataque tinha funcionado perfeitamente, sugando a energia do Pokémon a cada pancada dos dois. – Parece que o jogo virou. Ling parta para cima, Mega Horny.

— Com quem você acha que está batalhando? – Cheren gritou, – Revenge!

— Continue e use Double Kick – gritei enquanto Ling já partia para cima de Patrat que mostrava as presas, com os braços abertos.

— Close Combat – Cheren comando em um grito rouco.

Ling partiu para cima de Patrat com os chifres emitindo um brilho verde, galopando pesadamente a uma velocidade assustadora, levantando lama e grama onde seus cacos tocavam, enquanto o adversário a esperava. Em um único movimento o Patrat agarrou os chifres de Ling os segurando com força suficiente para fazer a Pokémon criar o corpo enquanto ele era empurrado para trás, arrancando grama e terra, até derrubar Ling e a si mesmo no processo. Os dois giraram pelo chão com violência, se levantando ainda em meio ao movimento se jogando um contra o outro, como se nada tivesse acontecido.

Os dois se chocaram em um ataque animalesco, garras, patadas, cabeçadas, tapas, chutes é coices. Os dois pareciam ter perdido o controle, saltando, esquivando e partindo para cima do outro com tanta precisão e força que o som de cada ataque certeiro, um baque surdo seguindo de um suspiro de dor, parecia vir de mim e Cheren. Ele insistia cada vez mais enquanto cada ataque nitidamente se tornava mais devagar e mais dolorido, Ling usava seus chifres e já era possível ver sangue surgindo pelo seu pelo, assim como Patrat que já jogava seu peso todo para a pata direita, sem condição de manter o peso nas duas pernas.

Até que os dois pararam, bufando com força, enquanto o peito subia e descia depressa, buscando ar que parecia não haver no mundo. Foi quando notei que Cheren e eu estávamos na mesma situação. O líder agora com uma mecha de cabelo caída na testa e a camisa antes perfeitamente alinhada, torta no corpo.

O Patrat veio de repente para cima de Ling, pronto para usar o Close Combat, mas Ling virou o corpo e sem a necessidade de nenhum comandou acertou-lhe um Jump Kick. Jogando as patas traseiras no peito do Pokémon que caiu desacordado a mais de um metro de distância. Ling fez um som em comemoração, mais um suspiro que um grito de vitória, desabando no chão em seguida.

Cheren olhou para seu Pokémon surpreso, eu podia ver em seu rosto que ele não esperava perder essa batalha, ainda mais desse jeito. – Você colocou seus Pokémon repetidas vezes em situações de perigo para garantir a vitória, – comentou, ajeitando a roupa no corpo.

— Algumas vezes não há outro jeito, você sabe que eu não venceria se não tivesse me arriscado nesse ataque, – respondi agora com mais tranquilidade, trazendo Ling de volta. – Você fez isso Cheren, mais fé uma vez, por causa de Deedee.

Os olhos de líder se encontraram com os meus e pude ver sua expressão mudar de negação, dúvida e aceitação. – Eu o mandei pra Anville, teria sido minha culpa se algo tivesse acontecido a ele. Como eu viveria sabendo que por minha causa ele se machucou?

— Como você acha que eu viveria? – Ele deu de ombros. Havia frustração na sua linguagem corporal. Inquietação. Estava claro que a última pessoa que ele esperava ter essa conversa era comigo.

— Eu posso ter passado um pouco do limite, me desculpe.

— Aparentemente sou conhecida por fazer isso. Não se preocupe, as pessoas superestimam autocontrole.

Ele deu uma risadinha sem graça, recolhendo seu Pokémon que já recobrara a consciência. – Eu não tenho nenhuma insígnia física aqui, mas farei o lançamento no sistema da Corporação Pokémon, com isso você estará apta a ir para Kanto, – me informou já dando início a caminhada de volta a entrada do estádio, deixando para trás o gramado em estado deplorável.

— Obrigada. E Cheren… – o líder parou e olhou para trás, sem muita paciência. – Você tem minha bênção, – informei com um sorrisinho no rosto.

Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, sua expressão não conseguia esconder seu pavor ao ouvir aquilo vindo de mim. – Vindo de você… – Deu um sorriso debochado antes de se virar e me deixar ali sozinha, encarando as milharas de cadeiras vazias na arquibancada.

Tudo que eu tinha passado desde sair de casa, todas as escolhas, boas ou ruins tinham como consequência aquele momento. E pela primeira vez desde o ataque em Nimbasa quando tudo mudou, eu me sentia esperançosa. Eu sabia quem eu queria ser e tinha conquistado meu direito de ir para onde eu iria.

Eu realmente estava feliz.

=8=

Lila chorava tanto que eu estava com medo de que ela desidratasse. Até mesmo os Psyduck e o Slowpoke estavam fungando.

Eu estava contente por nem todos terem vindo ao aeroporto. Despedidas eram estranhas, principalmente para mim que não tinha laços reais com ninguém antes de sair de casa. Era uma experiência nova e assustadora que eu ansiava desesperadamente pelo fim. Desde as despedidas mais secas, como a de Kara que não fizera questão de muito mais que um movimento de mãos. O de Clarice, que fora super sem graça. Ou ainda pior, a despedida de Tom, em que não sabíamos se apertávamos as mãos, nos abraçávamos ou só acenávamos.

A notícia de Des chegou enquanto eu me despedia de Skyla e Elesa na porta da mansão, com o táxi já na porta nos esperando. Ele tinha acordado, estava consciente e parecia não ter tido nenhuma sequela cerebral, mas ele não sentia as pernas. Provavelmente nunca mais voltaria a andar. Meu primeiro instinto era correr para o hospital. Eu queria abraçá-lo e pedir-lhe desculpas por tê-lo envolvido nisso tudo. Mas não havia mais tempo para isso. O dinheiro para o avião era emprestado, assim como para a matrícula de Corin num Colégio de Kanto próximo ao ginásio onde eu ficaria. Matrícula essa que se encerraria em dois dias.

Tomar a decisão de ir embora sem vê-lo ou a Dan, foi uma das mais difíceis que tive que tomar pós-guerra. Eu sentia uma estranha urgência em tudo que era relacionado às pessoas que eu conhecera pelas rotas de Unova.

Dania, Lila, Dee e Cillan vieram ao aeroporto. A garotinha negra não desgrudava de Corin nem por um momento, enquanto Dee e Cilan pareciam estranhamente calados. Claro, talvez meu humor não estivesse dos mais animados e isso tenha influenciado. O pior ainda estava por vir.

— Então… Cilan jogou as palavras quando a mulher sugerira novamente que o embarque estava quase finalizando. – Eu posso ir te visitar?

— Claro.

— E o que isso significa? Quero dizer… A gente.

Eu achei que teria dúvida do que responderia quando esse momento chegasse. Não houve. – Que somos amigos, até que eu volte.

Eu vi uma pontada de tristeza correr pelos seus olhos. – Amigos então.

Ele tinha ficado claramente sem jeito. Eu adorava aquele jeito bobo. Segurei-o pela camisa o puxando em minha direção e o beijei. Um beijo intenso, molhado e diria apaixonado. – Para a viagem – disse quando finalmente nos afastamos.

Um sorriso enorme se abriu no rosto do garoto de cabelos verdes. – Eu não diria nada melhor.

Fiz uma caretinha e balancei a cabeça negativamente, – você é o sidekick. As melhores sacadas ficam para mim. – Deu uma risada e me fitou uma última vez. Um olhar que fazia meu rosto aquecer.

Deedee estava sentado, olhando os aviões na pista perto enorme janela cristalina a nossa frente. – Acho que está na hora, – admiti.

Isso era mais difícil do que qualquer outra coisa que eu tivesse feito toda a minha jornada. Porque acima de tudo, eu não queria ter que me despedir do garoto.

— É uma longa viagem, né?

Olhei para o avião lá fora e ponderei. Eu não tinha a mínima ideia da distância, mas era o mais longe que eu teria ido em toda minha vida. – Nem tanto. Acho que podemos fazer isso dar certo, né?

— Bom, a gente pode se ligar, mas acho que você vai estar bem ocupada e tem o fuso horário também….

Fuso… A palavra ecoou pela minha cabeça. O sentimento de perda que eu estava tentando conter, evitando pensar em todas as realidades práticas da mudança estava ali, martelando minha cabeça, fazendo aquele sentimento opressivo voltar ao meu peito. – E você terá todo o treinamento e coisas de aprendiz. Além de um monte de contest para se preparar.

— Hm… Eu não estou tão certo que a Fantina não vá me chutar quando ver minhas habilidades de verdade, afinal quem fez todo trabalho pesado foi você.

— Trabalho pesado? Do que você está falando?

— Quem treinou meus Pokémon foi você.

Eu o fitei por um momento, sem acreditar que ele realmente podia pensar isso. – Só porque eu passei algum tempo treinando junto com seus Pokémon não quer dizer que seja responsável pelo que eles se tornaram. Eu posso ter os ajudado a ficar mais forte, mas sempre foi você quem soube usar isso. Nunca fui eu nos contest. Sempre foi você.

— Mas se você não estivesse lá, eu… – pausa dramática – nós vamos ficar bem né?

— Se você não atear fogo em nada e eu não criar um vínculo psicótico com alguma figura paterna acho que sim.

— Não posso garantir nada sobre o fogo. E eu acho que você já teve sua cota de figuras paternas.

Não consegui segurar o sorriso, – provavelmente. – Mas não consegui deixar de pensar que eu teria que me tornar uma para Corin. – Quando as férias chegarem, se houver… espero que haja… eu vou até você.

— Se a Erika não te chutar também. Afinal, você não é tão boazinha e obediente. Mas se ele te chutar você pode vir morar comigo em Sinnoh.

— Acho que posso dar conta de uma velha hippie, mas caso aconteça o esperado, eu adoraria morar com você. – Para ser sincera, parte de mim queria desistir de tudo e fazer isso. Mas eu precisava tentar, por mais que isso me deixava apavorada.

— Então, acho que é aqui que nos despedimos, por enquanto

E era isso. Não fazia tanto tempo desde que nos conhecemos. Mas aquele dia em Castelia parecia ter acontecido a anos atrás. – Se cuida incendiário. E vou estar no Xtransceiver sempre que você precisar de conselhos capilares.

— Acho que não só esses tipos de Conselhos que eu vou precisar.

— Eu vou continuar enchendo sua paciência mesmo à distância. E espero que você faça o mesmo – disse meio sem jeito.

— Claro, é acho que não vou ser o único, já que minha mãe pediu seu número.

— E você deu? – Perguntei nitidamente assustada. Mas antes que eu pudesse formular ideias de como evitar a mãe do garoto a voz ruidosa começou a ecoar pelo saguão. O embarque do meu voo estava prestes a finalizar.

Olhei em volta e me deparei com todos nos encarando. Era como se por um momento, todos eles tivessem desaparecido e eu finalmente tivesse sido tragada de volta para a realidade.

Meu coração estava batendo depressa e forte. Como se mais uma vez eu tivesse que entrar em uma base da Team Plasma. Mas não havia mais inimigos para derrotar, só a mim mesma e a pavorosa ideia de deixar todos as pessoas que eu me importava para trás.

Era o último grande passo. A última batalha a vencer. Eu os levaria comigo e eles estariam sempre comigo.

Me joguei sobre Deedee e quase o derrubei no processo, o abraçando com tanta força que eu tinha certeza que ele teve dificuldade para respirar. Mas passado o susto, ele retribuiu, me envolvendo nos braços uma última vez.

Eu sentia que estava prestes a chorar e não conseguia entender em que momento eu tinha me tornado essa droga de garota emotiva. Então, me afastei, usando toda a força de vontade que tinha. Peguei minha mala e coloquei a mão no ombro de Corin, – está pronto?

Ele fitou Dania, seus olhos estavam vermelhos enquanto a garota chorava em silêncio. – Estou.

Fomos então em direção à zona de embarque, deixando todos para trás, mas com a certeza de que esses vínculos não morreriam ali. E em algum momento, quando eu estivesse pronta, eu voltaria para eles. Esse era só o começo!

Notas finais
Eu não gosto de despedidas e Haila e Dee são pessoinhas pra mim. Espero que tenham gostado dessa jornada pelas rotas de Unova tanto quanto nós.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!