Rota Zero
29 Resoluções e Despedidas
Notas iniciais
Haila
RESOLUÇÕES E DESPEDIDAS
Acordei assusta e suada de repente. Minhas cobertas estavam no chão e o lençol havia se soltado do colchão. Mais uma vez essa semana estava tendo um pesadelo com Simi e a mulher que havia levado o tiro. As imagens ainda vagavam pela minha mente me atormentando a cada noite.
Fui até o banheiro e lavei o rosto. A pessoa no espelho ainda parecia estranha pra mim. O que eu tinha feito com meu cabelo, hein?
Talvez dormir em um quarto diferente de December ainda piorasse toda a estranheza desta última semana. Desde que sai de casa sempre dormi onde dava, como na floresta ou em hotéis baratos. O Centro Pokémon não era ruim. Abrigava a todos que necessitavam por um determinado período. Esse quarto de hotel, no entanto, era enorme para os padrões aos quais fui submetida.
Depois de trocar as ataduras que envolviam os ralados nos meus braços, agora praticamente curados, pensei em chamar Deedee para um passeio noturno. Era tarde, já passava da meia noite, mas o sono não vinha até mim.
Bati na porta do garoto algumas vezes e depois de não obter resposta alguma deixei-o quieto. O dia havia sido muito exaustivo para todos nós. Eu já tinha arrastado Deedee para a reunião, o que era extremamente perigoso e agora esperava por algum sermão de Skyla. Eu podia deixá-lo quieto pelo menos uma noite.
Tomei o elevador até o térreo e assim que cheguei à calçada libertei Leaf. Ela balançou a cabeça tentando se livrar do sono e me encarou assustada. Aparentemente a morte de Simi não havia deixado marcas somente em mim.
Lembrei-me dos Pokémon assistindo aquela cena assustadora e olhei para o céu. Peach era uma Pokémon forte, Couve-flor nem tanto. Talvez nem tenha conseguido entender o que aconteceu naquela noite. Já os outros dois, aqueles que resgatei do Centro Pokémon, pareceram atormentados com o que viram nos dias que se seguiram, até que por fim devolvi-os ao enfermeiro de cabelos verdes no Centro Pokémon improvisado.
As ruas à noite estavam estranhamente quietas. Nimbasa era uma cidade cheia de vida quando chegamos lá. Agora estava aos pedaços, quase sem visitante. Em determinado momento, enquanto ia em direção a lugar nenhum me deparei com um casal que andava de mãos dadas.
Eles andavam a passos rápidos, porém sempre com os corpos colados. Ombro a ombro. Parecia algo mecânico. A garota sorriu depois de ele sussurrar em seu ouvido e ele beijou sua testa em respostas. Só então desviei o olhar, constrangida por estar encarando os dois.
Alguns segundos se passaram sem que eu prestasse atenção no caminho a minha frente por causa do casal, tempo o bastante para que uma figura alta vestida com um longo vestido preto surgisse na esquina mais a frente.
Os grandes cabelos crespos e de cor peculiar confirmaram sua identidade poucos segundo depois do meu susto inicial. O que Lenora estaria fazendo na rua uma hora destas? Ainda vestida com algo daquele tipo. Será que Deidran havia aparecido na cidade e eles tinham um encontro marcado às escuras?
Não resisti à súbita curiosidade e atinei a correr atrás da mulher, me concentrando em parecer invisível. Leaf entendeu aquilo como uma brincadeira e logo estava sendo sorrateira como um felino, dando pequenas corridas e se escondendo atrás de carros, paredes e até mesmo entulho.
Nimbasa não era tão alta como Castelia, as cidades eram grandes de formas diferentes. Castelia era para cima, com seus gigantescos arranha-céus, já Nimbasa era extensa. Seus moradores não se preocupavam com o clima e expandiram a cidade por quilômetros quadrados.
Não sei quanto andei e a essas alturas o sono o e cansaço já batia. Me repreendi da ideia idiota de seguir Lenora e resolvi finalmente dar fim aquilo. Estávamos subindo uma ladeira íngreme quando gritei – ei, Lenora. – A mulher olhou para trás arredia e me encarou suspirando em seguida.
Quando me aproximei, correndo não muito rápido ela colocou as mãos na cintura – querida, o que houve com seu cabelo?
Peguei uma mexa como Deedee teria feito e franzi o cenho. – Eu precisava mudar – respondi simplesmente.
Ela passou a mãos na minha cabeça, descendo devagar até meu rosto – você está linda. – O tom de sua voz era tranquilo e terno. Como alguém poderia não gostar de Lenora? – Mas, por favor, não me siga mais. – Meus olhos se arregalaram com o comentário – achou que eu não tivesse percebido quando seu Pokémon derrubou aquele vaso de plantas?
– Sinto muito – respondi sem graça. Leaf havia feito aquilo no inicio do trajeto, isso significava que ela sabia o tempo todo. – Achei que encontraria o Dr. Deidran e gostaria de vê-lo.
A expressão de Lenora pareceu vazia, me avaliando talvez para descobrir uma possível mentira – não minha querida, infelizmente a verdade é um pouco mais dura. Estou indo me despedir de uma velha amiga. – Pensei em questionar o horário, no entanto eu já estava em uma situação constrangedora o suficiente. – Já que veio até aqui me acompanhe, por favor.
Assenti com a cabeça e sorri. Caminhamos por mais alguns minutos e no caminho Lenora me perguntou como estava à jornada e eu lhe contei sobre Deedee, sobre a perda para Burgh, a travessia sinuosa pelo deserto, a vitória contra Elesa e finalmente quando comecei a contar-lhe como Simi havia morrido estávamos entrando em um cemitério.
Para meu azar apenas percebi quando estávamos passando por entre os túmulos de cimento. E só então a ficha caiu, se despedir tinha um significado mais sombrio.
Havia um pequeno grupo de pessoas de pé, ao lado de um caixão de madeira escura. Todos pareciam arrasados, suas expressões estavam péssimas e seus rostos molhados. Um homem mais velho, com cabelos da cor dos de Lenora, porem um pouco já grisalhos correu até ela quando a viu e a abraçou.
– Eu tinha esperança – ele disse em meio a lagrimas. – Ela ainda estava desaparecida.
– Eu sei – ela disse o abraçando com nítida força. Me senti mais constrangida ainda. Estava usando uma calça jeans surrada e uma camisa verde clara de alças. Algo bem desleixado, principalmente para um enterro.
Duas mulheres também mais velhas vieram até o homem e depois de dar tapinhas em suas costas com delicadeza, o encaminharam de volta para próximo do caixão. – Sinto muito – sussurrei a Lenora enquanto caminhávamos para o restante do grupo.
– Eu também sinto – ela respondeu sem me olhar. Encarava as flores deixadas em cima da armação de madeira. Me ative a ficar calada enquanto via Lenora cumprimentar as pessoas ali. Me senti culpada e estranhamente deprimida enquanto aqueles parentes se despiam de um ente amado.
Uma senhora mais velha, já com o rosto todo enrugado parou do meu lado em dado momento e depois de fungar algumas vezes, inclinou o corpo para o lado e sussurrou – horário estranho para um enterro não?
Eu tinha me perguntado aquilo desde tinha chegado ali. Amaldiçoado algumas vezes a vergonha e a ideia de Psyduck, mas agora era tarde. – Realmente – sussurrei de volta.
– Você é amiga de Lenora?
– A conheci em Nacrene City – e a velhinha balançou a cabeça positivamente, voltando a se aquietar ao meu lado. Olhei para Lenora mais uma vez e ela ainda estava abraçando outra pessoa e dizendo coisas legais para ela. Então me inclinei para a velhinha e perguntei – e porque mesmo estamos nos despedindo a essa hora do...
– Da neta Beff – ela completou. – Eles só conseguiram achar seu corpo esta tarde debaixo dos escombros daquele café. Infelizmente não havia como esperar – e a velhinha voltou a fungar.
Me senti tentando a abraçá-la, mas eu não saberia o que dizer. A Team Plasma havia levado mais que meu Pokémon. Tinha levado amigos e familiares, destruído vidas. – Tia Baba – alguém falou e de repente surgiu ao meu lado abraçando a pobre velhinha – está tudo bem – a mulher disse – ela está em paz.
Me senti sem lugar naquele momento, como se fosse apenas uma espectadora novamente, assistindo aqueles monstros ceifarem mais uma vida. As imagens do pobre Emolga balançando a treinadora a puxando para si, tentando levanta-la, voltaram por um instante me fazendo dar dois passos para trás.
Angustia tomou conta de mim por alguns momentos e eu quis sair correndo dali, porem Lenora surgiu de volta nesse momento. A mulher colocou a mão sobre meu ombro e me puxou para si. Senti as lágrimas queimarem de novo e algo dentro de mim acendeu me enchendo de raiva de mim mesma por ser tão fraca. – Eu preciso ficar apenas alguns momentos.
– Fique o tempo que quiser – respondi desconcertada. – Você ainda nem se despediu de sua amiga.
– Ela não esta mais aqui, apenas o corpo – a olhei curiosa, nunca havia ouvido ninguém falar aquilo. Então ela me encarou de volta, com uma tênue tristeza em seus olhos – os enterros são para os vivos Haila, os mortos já se foram.
=8=
À volta pra casa foi mais rápido do que esperei. Lenora parecia exausta também, havia marcas de cansaço em seus olhos o que tornava mais nítido seu cansaço não apenas físico como mental. Me lembrei da reunião e de como ela se posicionara na frente dos outros tornando suas cogitações o próximo passo e inevitavelmente do que Roxie havia dito; “Lenora tem seus próprios suspeitos.”
Em determinada parte do percurso, enquanto passávamos próximas a ruinas do Centro Pokémon, Lenora parou, se espreguiçou estendendo os braços para o alto e fez uma careta – não sou mais tão jovem. Definitivamente não fui projeta para caminhadas.
Acabei sorrindo, a primeira vez desde aquilo com Simi acontecera. – Quisera eu poder ser tão imponente e forte como você no futuro – comentei a vendo ajeitar as roupas.
Ela deu um sorriso engraçada, cheio de orgulho – sabe querida, você precisa resolver o problema com seus pais. – Senti uma pontada no estomago na mesma hora. Tentei abri a boca para perguntar como ela sabia, mas ela passou por cima de mim. – Seu rosto esta em toda Nacrene e seus pais estão desesperados. Não me importa o motivo que a levou a fugir, mas acho que eles estão longe de mais para te impedir de qualquer forma agora.
– Lenora, eu...
– Você é uma garota incrível e fez coisas incríveis. Não importa o que eles digam, acho que você já tem seu caminho. – Ela disse voltando a andar em passos ritmados.
Ela me deixou na porta do hotel. Despedimos-nos com um abraço apertado e então finalmente me encaminhei para o quarto. Quando o elevador me deixou no andar ainda tive outra surpresa, de relance pude ver a porta de Deedee sendo fechada e Cheren, o líder do atual ginásio tipo Normal voltando pelo corredor. Afinal, ele não estava em seu quarto?
Passei em silêncio pelo líder que conhecia apenas de vista e ao passar pela porta do quarto do garoto vi o brilho da luz acessa desaparecendo por debaixo da porta. Pensei em bater, mas Cheren agora esperava o elevador que subira até o decimo quinto andar.
Tirei Leaf da Pokéball assim que entrei no meu quarto e a arrastei para o banho comigo. O susto que Lenora havia me dado ainda não passara e as palavras dela rodeavam minha cabeça. Quando por fim me deitei, após escovar o pelo da Pokémon lanosa havia um tênue brilho na janela.
A noite estava terminando e eu finalmente sendo guiada pelos embalos do sono.
=8=
Eu estava sendo perseguida. O enorme Pokémon de pedra vinha atrás de mim, com sua voz grossa como o trovão. A noite não passava de vultos amorfos e o meu coração batia a mil. A Team Plasma havia voltado, eu precisa me esconder.
Onde estava Deedee? Ouvi sua voz e me virei. Eu estava me escondendo novamente, agarrada a parede do prédio e Dee estava na mira do soldado. A arma estava apontada para seu peito e Simi estava em sua frente, de braços abertos.
Sai correndo, eu precisava alcança-los. Precisava impedir. Mas o caminho parecia se distorcer na minha frente, se alongar ao passo em que eu acelerava a corrida. – Deedee – gritei de todo o pulmão – Simi.
Ao ouvir o som do tiro acordei. Me sentei depressa, agarrando os lençol com força. Havia sido apenas mais um pesadelo. Leaf estava me acariciando como podia, se esfregando agora em minha costas de modo felino.
Tentei buscar o ar que parecia de repente faltar e comecei a chorar de raiva. Alguém bateu na porta com força me fazendo pular na cama. – Haila... Haila, está tudo bem? – Me levantei e arrumei o pijama no corpo. Depois caminhei meio desorientada até a porta. Deedee estava descabelado com uma expressão assustada no rosto e algumas outras pessoas também haviam saído de seus quartos para olhar. – Você está bem? – Ele quis saber.
– Estou ótima – respondi e senti minha garganta arranhar. Na mesma hora me lembrei do deserto e levei à mão a cabeça. Eu não podia ficar doente agora.
– Bom, não parecia, você estava gritando – ele respondeu dando de ombros. As lembranças do sonho a essas alturas já se tornavam nebulosas, eu conseguia me lembrar da sensação de ser perseguida, mas não conseguia lembrar-me do por que.
– Tive um pesadelo... Só isso.
Ele me avaliou com o olhar e depois encarou o fundo do meu quarto, provavelmente encontrando Leaf em cima da cama. – Você esta horrível – arriscou cutucando meu braço – você não dormiu?
– Aparentemente você não foi a única – acrescentei empurrando ele para trás, batendo a porta na sua cara em seguida. Não que eu não quisesse falar com Deedee ou estivesse irritada com ele. Eu só precisava ficar sozinha.
Passei algum tempo sentada na cama de pijamas apenas acariciando Leaf. Tentei não pensar no que aconteceu nos últimos dias, no entanto as lembranças eram fortes de mais. A morte daquela mulher a sangue frio e a de Simi me davam calafrios.
Eu não conseguia entender como a Team Plasma podia ser tão má, como poderiam simplesmente tirar uma vida como se não fosse nada.
Tentei imaginar o terror pelo qual Unova passou quando, anos atrás a Team Plasma estava com força total. Quando o atual campeão, Hilbert, finalmente conseguiu um acordo com N para parar aquele horror. Os pensamentos me atormentaram de tal forma que a ansiedade me fez levantar.
Sequer tirei o pijama, quando percebi estava entrando no quarto de Dee. Meu coração deu um pulo a princípio, o garoto estava sentado no chão, apenas de cueca, puxando algumas mechas do seu cabelo com a cabeça baixa. Provavelmente tentando arrumar aquele ninho de Patrat.
Quando ele me viu seus olhos se arregalaram e como um Purllion arredio ele saltou pra cima da cama e se envolveu no cobertor. – O que está fazendo aqui? – Perguntou assustado.
Virei o rosto um pouco tarde, já tinha mesmo visto todo o corpo esguio do menino – eu só... – estava constrangida de mais pra dizer qualquer coisa. Mesmo tendo dormido no mesmo quarto que o Deedee por diversas vezes, aquilo era completamente novo. – Queria conversar – andei rápido até a porta e antes de sair gritei – quando estiver descente me chame, incendiário.
Ouvi ele gritar alguma discordância, mas agora tinha novas cenas perturbadoras para me atormentar. Ele apareceu no meu quarto momentos depois usando sua surrada blusa roxa. Seu cabelo estava inegavelmente mais arrumado, pelo menos isso. – Dá pra parar de me chamar de incendiário? –Perguntou assim que abri a porta.
– Quero ligar pros meus pais – mudei de assunto. O garoto arfou enquanto eu caminhava de volta pra minha cama, onde Leaf tirava um cochilo com a cabeça enfiada entre as patas.
Ele caminhou devagar até o meio do quarto e encarou Leaf antes de se encaminhar pra poltrona xadrez-vermelho perto da janela. – Quer usar meu Xtransceiver?
Balancei a cabeça positivamente e passei a mão no cabelo, até chegar onde faltava. – Não sei o que dizer, Deedee.
– Por que você quer ligar? – Ele me perguntou puxando as pernas para cima da poltrona.
– Saudade... Peso na consciência – respondi sem saber ao certo. Eu tinha passado todos esses meses tentando não pensar neles e agora... Esquecer é sempre mais fácil do que aprender a lidar.
– É só dizer isso então, eles devem estar com saudade também – Deedee acrescentou se puxando mais pra cima. – Se seu rosto estava sendo colocado num poste em Castelia, pelo menos preocupados eles estão. – Ele suspirou irritado e franziu o cenho, depois se levantou e encarou a poltrona com um olhar repreensor, como se quisesse arrancar um pedaço dela com as unhas. Em seguida desabotoou o aparelho do pulso e veio de mão estendida ate mim – eu fico aqui com você se quiser.
Peguei o Xtransceiver meio relutante. Depois de tanto tempo me esquivando de algo, chegava a ser estranho estar mesmo cogitando a possibilidade de realmente fazer aquilo. Não parecia certo, tal qual o frio na minha barriga.
Todavia eu já tinha perdido muito e talvez estivesse na hora de recuperar algumas das coisas perdidas. Peguei o aparelho e digitei os números tão comuns. Agradeci mentalmente por meu pai não gostar de tecnologia. Usar aquele aparelho antigo onde eles apenas ouviriam minha voz era de muitas formas, tranquilizador.
Ao tocar da quarta vez ouvi o chiado do aparelho sendo retirado do gancho. Senti uma corrente de energia passar pelo meu corpo e inconscientemente segurei o folego. Um instante depois ouvi a voz da minha mãe. – Alô... – me enchi de nostalgia e não consegui responder a principio, minha voz simplesmente não saiu. – Alô... – Ela repetiu, desta vez com o tom preocupado.
– Mãe – respondi e uma explosão aconteceu do outro lado do telefone. Minha mãe gritou na mesma hora meu nome e começou a repeti-lo com a voz carregada de desespero – calma mãe. Eu tô bem, calma – repeti assustada com a reação.
– Haila, pelo amor de Arceus, minha filha. Onde você está? – Ela perguntou com a voz abafada. – por que fez isso com a gente? Minha filha, seu lugar era aqui comigo...
– Não mãe – respondi mais alto que pretendia e senti o olhar assustado de Deedee. Senti que ele queria me dizer algo, mas ele não disse apenas me olhou. – Meu lugar é onde estou, se você tivesse percebido isso eu não teria tido que fugir.
– Haila, não diga isso. Você não estava preparada...
– Não, acho que você e papai não estavam – respondi ansiando desligar o aparelho. Então ouvi ruídos e ela suspirou.
– Haila – ela disse em um tom bem mais tranquilo. Exatamente o tom que ela usava para me explicar algo ou simplesmente para me corrigir. – Nós te amamos e se querer te proteger de mais foi um erro eu quero pagar por ele. – coloquei a mão no rosto e senti vontade de socar a cama, mas me contive por causa da presença de Dee que ouvia toda a discussão. – Onde você esta querida? Volte pra casa, eu juro te ouvir mais. Sinto tanto sua falta.
Senti um aperto no peito ao ouvir isso. A última vez que percebi tanta tristeza na voz da minha mãe tinha sido no enterro de vovô. Eu não queria isso, definitivamente não queria. – Eu não tenho muito tempo. Por favor, me entenda, eu não fiz isso pra magoar vocês, fiz porque eu precisava fazer – respondi sentindo um nó na garganta.
– Precisava nos abandonar? Roubar da própria família e coagir o irmão a fazer o mesmo? – Uma voz masculina cuspiu em um tom firme e cheio de raiva. Os olhos de Deedee se arregalaram tais quais os meus. Era meu pai e parecia furioso.
– Pai, eu... – comecei a dizer, porém ele não me deixou continuar.
– Não imaginamos que você iria tão longe. Você superou todas as nossas expectativas, agora é hora de voltar pra casa e acabar com isso. Seu lugar é aqui com sua mãe – ele terminou parecendo satisfeito.
Tudo o que eu havia feito minha vida inteira era ter escuto cada uma das ordens do tão poderoso senhor Gray, mas agora ele não podia fazer mais nada comigo. Ela não mandava mais em mim, e eu decidia quem eu queria ser – você e a mamãe nunca confiaram, nunca acreditaram que eu conseguiria fazer...
– Sua mãe? – Ele passou por cima de mim novamente e uma risada rouca reverberou do outro lado da linha fazendo meu coração gelar – ela foi à única que acreditou em você. Estou falando de Jaden. – Eu franzi o cenho e cheguei a abrir a boca para perguntar, mas não precisei, ele continuo falando. – Jaden saiu de casa carregando seis Pokéball vazias nas mãos e as entregou a você no píer. Logo em seguida nós fomos até lá, sua mãe e eu. Você acreditou mesmo, por um segundo que seja que eu não as vi no seu bolso?
Balancei a cabeça negativamente, tentando me lembrar da cena, da partida do meu irmão e corei. Tinha sido muita inocência minha. Olhei pra frente e me deparei com Deedee branco. Ele conhecia aquela historia, eu havia contado nos mínimos detalhes a ele assim que chegamos a Nimbasa. – Eu...
Apenas comecei, porém ele esperava esse momento, então continuou sua narrativa com a voz cheia de arrogância como sempre fazia – era tudo um jogo, Haila.
– Magnus – minha mãe o chamou com um tom preocupado.
– Calada – ele gritou em uma explosão de fúria. Deedee abriu a boca, olhando assustado para o aparelho em minhas mãos. Tive vontade de gritar de volta, mas ele não parou – eu achava que você só duraria quinze dias, mas Jaden acreditava um pouco mais. Dois meses. Foi por isso que não saímos atrás de você antes.
– Magnus, pare com isso – minha mãe gritou e desta vez o desespero em seu tom era quase palpável.
– Você tem um mês pra chegar em casa, se não voltar nesse prazo, não precisa mais voltar – ele cuspiu antes de desligar a ligação.
Meu coração batia tão forte que meu peito quase chegava a doer. Senti que ia chorar, as lagrimas lutavam desesperadamente pra se libertarem – Haila – Deedee me chamou, porém eu não me mexi. A voz dele pareceu distante, ou simplesmente minha mente estava longe de mais para conseguir reagir e responde-lo.
Lembrei-me de Jaden me puxando pelo braço e me levando até o parapeito. Lembrei-me de murmurando “segure isso” e colocando as Pokéball nas minhas mãos, como se aquilo fosse o maior segredo do mundo. Não podia ser ele não faria isso comigo.
“Não deixe que eles te prendam” ele disse. Só percebi que estava chorando quando a primeira gota percorreu minha bochecha velozmente.
Deedee estava sentado do meu lado agora e Leaf havia acordando também – tudo bem Haila, ele só estava nervoso – Deedee tentou me acalmar.
Balancei a cabeça negativamente me lembrando da minha infância, de como havia sido criada. Das lições de moral infinitas, das palmadas por qualquer tipo de desobediência. Aquele era Magnus Gray, e se eu não estivesse em casa dentro desse mês era dizer adeus de vez para minha antiga vida.
Cerrei os punhos e me levantei, ficando de cabeça baixa. Eu não queria que Deedee sentisse mais pena de mim do que já estava sentindo desde a morte de Simi. Mordi novamente o lábio e a dor me fez segurar. Ele se levantou também em seguida, colocou a mão sobre o meu ombro e tentou dizer alguma coisa, mas imagino que ele não soubesse o que quiser. Não havia o que dizer.
Por que Jaden faria isso comigo? Porque ele seria tão sádico? Meu pai quando queria era um grande idiota, mas Jaden. Me lembrei da cara de choro de Corin quando o deixei voltando para o quarto. Da primeira noite dormindo na floresta. “Não deixe que eles prendam você” ele havia dito.
– Não vou – sussurrei – não vou – afirmei mais alto. Balancei a cabeça negativamente vezes seguidas, comprimindo os lábios com força. – Eu não volto praquela gente.
Dee me olhou boquiaberto – é sua família – disse com um tom triste.
– Eu sei o que eles são – respondi furiosa. “Poderia o quê?” Meu pai perguntou quando eu disse que queria sair em jornada “Ser uma treinadora? Sinto muito, você é fraca de mais pra isso” ele disse.
Um flash da morte de Simi passou pela minha cabeça como um relâmpago cortando a noite. Levei as mãos ao rosto enchi os pulmões de ar. A maior decisão que já tomei na vida foi simplesmente um joguinho da minha família? As lagrimas voltaram a correr e angustia tomou conta de mim.
Eu queria sair correndo, eu queria gritar, eu queria bater em alguém. Eu só queria acordar no Desert Resort e ouvir a voz de Tris me dizendo “os delírios da febre do deserto passaram, você esta bem”. Mas aquilo não ia acontecer.
– Haila, está tudo bem – Deedee sussurrou chegando mais perto de mim. Arceus, eu queria morrer.
Dei alguns passos para trás até esbarrar na cama e deixei meu corpo ceder. Fui para o chão, minhas pernas ficaram dobradas para o lado e minhas costas encostaram na parte inferior da cama. Então não pude mais conter. Chorei como se o mundo fosse acabar.
As lágrimas jorraram sem parar. Quentes e salgadas como o mar. Por que alguém faria isso? Não dava pra entender, não dava. Não dava pra aceitar que eu tinha sido manipulada. Leaf pulou da cama e depositou a cabeça sobre minhas pernas como ela costumava fazer quando eu chorava.
Deedee se abaixou em seguida, estendeu a mão e acariciou meu cabelo curto de forma gentil e talvez até mesmo materna. Então, como reflexo me joguei nos braços dele. O idiota perdeu o equilíbrio e acabou caindo sentado, comigo ainda em desespero em seus braços.
– Por quê? – Perguntei sentindo a angustia me consumir.
– Eu não sei – ele respondeu passando seus braços para as minhas costas sem realmente apertar.
– Eu não posso – soltei em meio as lagrimas, minha voz saiu esganiçada e fraca. – Não posso continuar. Eu não posso perder mais nada. Minha família, Simi. Não consigo.
– Você consegue – ele disse num tom tranquilo – você é a melhor treinadora que eu conheço.
Ao ouvir aquilo foi como se uma voz negasse na hora na minha cabeça, me trazendo de volta para a realidade. – Se eu fosse tão boa não teria deixado Simi morrer.
– Simi foi uma fatalidade – ele respondeu de forma calma.
Sei que ele só queria me tranquilizar, mas aquele comentário mexeu em algo dentro de mim, aquilo não era verdade – não, a Team plasma o tirou de mim. Eles o mataram.
– Haila, você sabe que não é bem assim. Eu sei que a Team Plasma fez coisas horríveis aquele dia, mas a morte do Simi não foi culpa de ninguém. Nem deles e nem sua.
Me afastei dele e olhei em seus olhos. Ele não podia estar falando sério. Ele não ia defender aqueles monstros. – Você estava na mesma cidade que eu durante o ataque? Eles tentaram matar Skyla e Elesa, Simi estava na linha de fogo. Você não pode estar dizendo isso.
– Haila, eu não estou defendendo ninguém. Eu só estou dizendo que jogar a culpa em alguém não vai trazer o Simi de volta.
As palavras de Deedee me fizeram arregalar os olhos – não vai, mas se não fosse por eles Simi ainda estaria vivo e não só ele. Ou você vai me dizer que os mortos e os feridos também foram apenas uma fatalidade – dei ênfase a ultima palavra – não seja estúpido.
– E se não fosse por eles, o que teria acontecido ao Audino da Clarice?
– Quantos morreram pra que o Audino da sua namoradinha ganhasse liberdade? Os fins não justificam os meios December. Há maneiras mais humanas para dar um jeito em pessoas como Clarice.
– Ela não... A questão não é essa. Talvez o método deles não seja realmente o melhor, mas é tão condenável alguém pensar no bem dos Pokémon? O problema não é só a Clarice, quantos outros treinadores devem ser como ela? Quantos outros Pokémon passam pelo mesmo caso do Audino. Acha mesmo que os Pokémon ficam felizes de serem tirados da vida selvagem? Talvez alguns, mas provavelmente não todos. Finalmente apareceu alguém que se importe com eles.
– Talvez então você ache melhor colocar o broche da Team Plasma e agir como eles, talvez você ache que o final que Joslyn e que Simi tiveram justificam os fins deles... – me levantei. Eu simplesmente não podia mais ficar próxima a ele. Meu tom de voz já estava alterado. Eu estava aos berros. – Eu não consigo acreditar que você esta dizendo isso Deedee. Parece que não passou por tudo isso. Parece que não enterrou Simi junto comigo. Como? Não tem logica.
– Eu que sou o estúpido? – Deedee se levantou também. – Conhecemos pessoas horríveis que nada tem a ver com a Team Plasma, não acha que está generalizando? Deve haver pessoas ruins dentro do grupo, certamente, mas esse tipo de gente existe em qualquer lugar. Assim como deve haver pessoas boas. Pessoas que realmente se importam, que realmente pensam nos Pokémon. Ilógico é condenar uma ideia só porque seus executores não sabem colocá-la em prática. Não sou a favor de matar pessoas por ai, mas se os Pokémon não estão felizes, não vejo porque alguém não pode intervir por eles. Ou você acha que vai acontecer algo com o Kean por ter abandonado o Abóbora? Por abandonar a Flygon quando tiver o Pokémon perfeito? Essas coisas acontecem e ninguém se importa – Ele estava chorando. – Ao menos, se a ideologia da Team Plasma fosse largamente divulgada, coisas assim não aconteceriam mais.
– Ótimo, já que você acha a ideologia deles tão certa vamos até Lenora, espero que você tenha a mesma cara de pau de dizer a ela que sua prima morreu porque ninguém tinha coragem de fazer nada pra ajudar os Pokémon – gritei sem pensar. Deedee estava mesmo convicto de que a Team Plasma tinha razão. Eu não conseguia acreditar. Passei a mão pelos cabelos e o encarei – Já que está tão seguro de suas verdades espero que esteja pronto pra entregar Chiclete, Bacon, Couve-flor e Peach... Você tem certeza de que eles estão felizes com você? Você mal os treina. O seu Pidove mal vê a luz do dia e Peach nunca ouviu uma palavra do que você disse. Você não é tão melhor que Clarice.
– Eu nunca disse que era. – E ele parecia sério, sério como nunca o vira antes. – Acha que não penso nisso todo dia desde o ataque? – Respirou fundo e continuou. – Eu posso ser negligente com alguns dos meus Pokémon, mas gosto de todos eles. E se pelo bem da felicidade deles, eles quiserem ser livres, eu vou libertar todos eles. Eu já tentei isso, mas o Cheren me impediu.
– Então que assim seja – gritei andando a passadas largas até a porta – se está pronto vá e viva suas escolhas, eu estou cansada de te carregar – terminei de dizer apontando pra porta. – Saia – gritei de todo pulmão e ele o fez.
Bati a porta assim que ele pisou no corredor. Meu coração estava batendo a mil. Serrei os punhos, furiosa e senti vontade de gritar. Por que Deedee tinha que ser tão estupido? Usei a porta como apoio e repeti a cena de momentos atrás. Me sentando no chão a usando como apoio.
Quando eu tinha voltado a chorar? As lagrimas escorriam pelo meu rosto furiosamente. Soquei o ar e arfei sentindo uma leve dor no braço. Então prendi a respiração e por um segundo pude jurar ouvir Deedee chorando no corredor, bem atrás de mim. A simples menção disso me fez sentir pior ainda.
Chorei como se não houvesse amanhã e em meio à vista turva por causa da lagrimas encontrei Leaf acuada, sentada na beirada da cama. Ela não precisava ter visto aquilo. E eu só queria ficar sozinha. Engatinhei até a cômoda e agarrei sua Pokéball. Ainda sentada no chão pressionei o objeto e o raio de luz vermelho foi em direção a Pokémon, porém, para minha surpresa, ela saltou para o lado se esquivando.
Depois veio até mim, andando com passos manhosos até deixar-se no meu colo e fazer seu típico barulho estranho. Aquele barulho era o único porto seguro que eu tinha agora. A única coisa verdadeira e imutável. E aquilo me fez chorar mais ainda.
=8=
Passei o dia quase todo sem comer nada. Me tranquei dentro do quarto e passei a maior parte do dia ali sentada. Quando a noite estava prestes a cair tomei um banho, arrumei meu cabelo e vesti algo qualquer. Com a Pokéball de Leaf no bolso subi até o décimo sexto andar onde Skyla estava hospedada.
Bati na porta e ao reverberar do primeiro som Skyla respondeu, avisando que já atenderia. Ela abriu a porta instantes depois. Franziu o cenho quando me viu e depois deu uma olhada no corredor – esperando alguém? – Perguntei olhando para o corredor também.
– Roxie, ela está atrasada. Disse que passaria aqui – contou estendendo o braço para que eu entrasse.
O quarto dela era exageradamente grande. Havia uma pequena sala de estar, decorada com móveis antigos bem na entrada e mais um pouco a frente era possível ver a cama e algo que parecia uma minicozinha. Fiquei imaginando o quanto ela estava pagando por aquilo tudo, mas não tive tempo de calcular, pois ela fez a pergunta óbvia – no que posso te ajudar, Haila?
– Eu gostaria de ir com você atrás da Team Plasma – respondi olhando pra ela séria.
Ela me analisou por um segundo, percorreu os olhos por todos os detalhes do meu rosto buscando algum indício de emoção, mas além de segurança tenho certeza que não deixei nada escapar – Haila, não sei se entende a gravidade da situação. Enfrentar a Team Plasma não é como enfrentar lideres de ginásio. Eles não se importam com regras ou sequer com a gravidade de seus atos. Eu sinto muito, mas...
– Eu salvei sua vida, acho que mereço a chance de fazer justiça – a interrompi aumentando sem querer meu tom de voz.
Ela se calou por um segundo, sua expressão se tornou rija e o brilho do seu olhar pareceu seu apagar por alguns instantes. – Eu também perdi um Pokémon aquela noite, o que você quer não é justiça, Haila. Olhe pra si mesma, o tamanho das olheiras em seu rosto. Esse caminho nunca te trará nada de bom.
Abaixei a cabeça tentando fugir do olhar da líder de ginásio – eu perdi tudo Skyla. Não me tire isso – respondi fitando o chão. Meus lábios estavam comprimidos e meus punhos serrados. Eu não ia chorar na frente dela.
O silêncio se fez por algum tempo até que Skyla finalmente fez um som agudo com os lábios que indicava desagrado. – Vá para o seu quarto e durma. Sairemos amanhã antes do almoço – ordenou em um tom firme.
=8=
Durante a noite voltei a ter pesadelos. Desta vez Deedee reinava em cada um deles. Em dois deles ele acabou morrendo e no outro ele estava com meu pai. Quando o dia finalmente estava amanhecendo decidi tomar um banho e desistir de dormir.
Meu corpo todo doía e eu finalmente pude abandonar as faixas que antes cobriam meus braços. Escovei o cabelo e conferi se tudo estava na minha bolsa mais de uma vez. Então quando finalmente o dia clareou, eu já estava descendo pra tomar café no restaurante do hotel.
As horas que se seguiram pareceram apenas um borrão, eu me sentia vazia e angustiada. Queria logo partir, deixar essa cidade para trás. Talvez eu nunca mais conseguisse voltar ali sem ser atormentada pelo que vi.
Skyla desceu um pouco mais tarde, conferiu comigo se estava tudo certo e se eu tinha certeza do que iria fazer e mais uma vez eu confirmei. Agora não era hora de dar para trás. Aquele era um passo necessário e apenas o primeiro deles.
Quando, por volta de dez e meia eu peguei minha bolsa e desci para o saguão. Skyla estava lá, fazendo o check-out. Minhas costas doíam um pouco e meus olhos ardiam por causa das poucas horas dormidas.
Assim que ela pagou nossos dias de estadia e garantiu mais alguns para Deedee ela veio até mim – vamos de carro até Driftveil City. Preciso conversar com Clay e talvez tentar convencê-lo a se juntar as buscas pelos objetivos.
Concordei com a cabeça e coloquei a bolsa no ombro. Deedee surgiu de repente, correndo pelo saguão. Seu cabelo voltara a ser o ninho de Patrat e suas roupas estavam meio amarrotadas. – Oi – me cumprimentou ofegante.
– Oi – respondi meio sem jeito.
– Roxie me disse que você esta indo com Skyla – afirmou olhando para a mulher logo atrás de mim.
– Eu preciso ir atrás da Team Plasma e realmente não posso pedir que você entenda – respondi tentando não olhar diretamente em seus olhos.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, até que Skyla o quebrou. – Precisamos ir – chamou colocando a mochila nas costas e indo em direção à saída. – Te encontro lá fora.
Me voltei para Deedee e me senti indescritivelmente estranha. Não havia muito o que dizer, tomaríamos rumos diferentes a partir de então. – Se cuida, incendiário – pedi estendendo a mão.
Ele a apertou de volta e então eu ergui o olhar. – Você também, orientadora – disse com a voz fraca.
Ficamos ali, de mãos dadas alguns segundos, sem dizer nada um pro outro. Então dei o primeiro passo para trás e depois mais outro, até que nossas mãos não pudessem mais se tocar. Respirei fundo e dei as costas a ele. Aquele era um adeus.
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