Rota Zero
4 Queda Literal
Notas iniciais
Haila
QUEDA LITERAL
Segui frenética pelo rote um. Assim que vi o rio soube que já havia conseguido percorrer uma larga distancia e aquilo aumentou o aperto que eu já sentia. A floresta estava calma, vez ou outra se podia ouvir algum barulho.
Minha cabeça estava confusa e meio cheia de duvidas. Admito que estava com sono e minhas pernas estavam começando a doer. Eu estava andando com passadas largas e cobrindo a maior distancia que podia, o mais rápido possível.
Tive a impressão varias vezes de estar sendo seguida e constantemente eu olhava para trás. E verdade seja dita, tinha uma parte dentro de mim que queria ser encontrada. Uma parte que queria manter a vidinha pacata em Nuvema cuidando dos Eevees, vendo Corin crescer e estar com meus pais.
Meu pai era durão, meio seco, mas era o ocupado que eu tinha.
Pensar nas coisas que eu estava deixando para trás só piorava a situação. Será que Jaden havia sentido a mesma coisa quando partiu? Será que ele sentiu as mesmas duvidas, as mesmas dores? Eu gostaria tanto que ele estivesse comigo.
Não sei quanto andei, nem mesmo me lembro de quando cai no sono. Acordei com Leaf se esfregando em mim, fazendo barulhos estranhos já comuns. Lembro-me de ultrapassar Accumula Town quando o dia estava quase nascendo, agora pela posição do sol percebia que deveria ser por volta de meio dia.
Eu estava na floresta, sentada com as costas apoiadas em uma arvore de troncos retorcidos. Minha barriga roncou quando fiz o primeiro movimento, alertando-me que eu não iria muito longe se não pensasse em como comer.
Eu adorava o cheiro que dominava o ar, grama, terra e liberdade. Aquela foi à primeira noite da minha vida sozinha fora de casa. Havíamos ido uma vez a Castelia City quando eu tinha cerca de cinco, seis anos de idade, e fiquei no apartamento de uma amiga de minha mãe por um dia com ela, mas fora isso, nunca sem mais pais.
Pensei em continuar ali mais um pouco curtindo a cena da luz se esgueirando entre as copas das arvores altas da floresta, mas uma voz me fez saltar de súbito – Ratata use Hyper Fang naquele galho.
Leaf arqueou as costas e ergueu o rabo, meu virei devagar procurando de onde vinha à voz e vi o enorme Pokémon já conhecido da região, Amoonguss. Um Pokémon tipo Grass/Poison.
O pequeno Ratata saltou sobre Amoonguss o usando como base para um impulso. Logo o Pokémon roxo cravou os dentes no galho da arvore que estava sobre Amoonguss o fazendo cair sobre o Pokémon – fique calmo – disse o garoto que usava uniforme vermelho.
— Um Ranger, – sussurrei um pouco admirada. Não com o fato de estar vendo um Ranger, mas sim com a aparência jovem e atrativa do garoto de cabelos pretos.
Ele se agachou perto do Pokémon preso sobe o galho e pareceu estar fazendo força com algo. Levantei-me devagar e caminhei quase que na ponta dos pés até estar próxima o bastante para ver que o garoto estava com um pote na mão.
Era uma pasta verde de cheiro ruim. O garoto a aplicava sobre uma pequena ferina na parte inferior do Amoonguss que parecia agora estar mais calmo.
Levei um susto quando Leaf se enfiou entre o garoto e o Amoonguss e começou a se esfregar nele. O garoto pareceu assustado também, murmurou alguma coisa e começou a acariciar as costas de Leaf que começou novamente com seus sons enigmáticos.
— Vem aqui, – gritei entre meios dentes torcendo para que Leaf que me olhava saísse de fininho sem que o Ranger percebesse, mas minha sorte parecia ter mudado. O Ranger me encarou e foi nítida a surpresa nos olhos dele.
Ele se levantou em um salto e disse – ei, esse Leafeon é seu?
Devo ter corado, porque ele me olhou esquisito. Corri passando por ele e agarrei Leaf com os braços, – essa intrometida é minha, me desculpe – comecei a dizer. Mas como disse, a sorte estava começando a mudar.
O Amoonguss acabou se assustando comigo e se moveu bruscamente fazendo o galho que o prendia no chão voar. Cai sentada no chão com Leaf no colo enquanto o Pokémon se erguia na minha frente.
O Pokémon fez seu som típico e já ia avançar em minha direção, mas o pequeno Ratata saltou sem rosto, o empurrando para trás numa investida poderosa.
O Ranger surgiu atrás de mim em segundos, enquanto o Amoonguss sumia entre as folhagens, – você esta bem? – O garoto perguntou.
— Estou, foi minha culpa, desculpa – respondi sem graça fugindo do olhar dele.
Ouvi uma risada baixa então senti a mão dele agarrar a minha. A segurei forte e ele me ajudou a levantar, – não se preocupe. Sou Tom e você é? – Ele me perguntou como se estivesse forçando a se lembrar.
— Haila, – respondi ainda segurando a mão dele, – Haila – repeti sem graça. Eu não estava entendendo porque estava assim. Só sei que estava. E então fiquei irritada porque estava envergonhada.
Peguei a Pokeball de Leaf e acertei na cabeça dela. A Pokémon fez um barulho mostrando que não havia gostado enquanto sumiu no feixe de luz vermelho, – Milktang – murmurei nervosa.
Tom se abaixou e acariciou o Ratata que fechou os olhos demonstrando que estava gostando, – obrigado amigão, – ele murmurou.
Voltei para arvore onde tinha dormido e peguei a bolsa onde eu havia colocado minhas coisas. Espreguicei-me sob um raio de luz e comecei a caminhar ignorando todos os fatos do começo do eu dia.
Não devo ter andado mais de dois metros e Tom surgiu correndo do meu lado – ei, – disse ele parecendo alegre, – pra onde você esta indo?
Eu ainda estava irritada e não sabia por que, então acabei sendo rude, – não é da sua conta.
Ele correu mais uma vez, passou na minha frente e começou a andar de costas me encarando, – se você não percebeu o uniforme, sou um Ranger. Tem havido ataques estranhos na floresta e você tem a obrigação de me reportar sua identidade.
Parei de andar um pouco assustada. Avaliei o olhar dele por alguns segundos e pude deduzir que a historia não passava de uma lorota.
Tom estava mesmo de uniforme. Ele deveria ter por volta de dezoito anos, mais ou menos. Era mais alto que eu e seu corpo parecia ser forte. Já ouvi dizer que as pessoas na academia são treinadas como lutadores.
Dei uma risada meio irônica e voltei a andar passando por ele, – você acha mesmo que eu cairia em uma dessas?
— Estou falando serio, – o ouvi gritar. Um instante depois, quando eu estava prestes a descer uma pequena ladeira coberta por folhas o Ratata surgiu mostrando suas presas. De impulso saquei minha Pokeball, mas antes que eu pudesse libertar Leaf Tom segurou meu braço.
Fiz um movimento brusco e me soltei. A Pokeball caiu no chão e Leaf apareceu meio confusa – o que esta fazendo? – Gritei nervosa, dando um passo para trás me afastando do garoto. Leaf sentiu a tensão no ar e saltou entre nós em uma posição de ataque bem familiar.
— Calma, – o Ranger me pediu dando um passo para frente com os braços erguidos. Leaf fez um movimento com o corpo se preparando para ataca-lo, mas o Ratata cretino surgiu magicamente, numa investida veloz que arremessou Leaf nas minhas pernas.
Como consequência perdi o equilíbrio e dei um passo para trás. Ouvi a voz de Tom enquanto sentia meu pé escorrer e meu corpo ir em direção ao vazio.
Ocorreram-me duas coisas enquanto eu caia. Primeiro, só se leva um segundo para o frio na barriga decorrente da sensação fatigante de queda te preencher. Segundo, gritar não é de longe uma coisa boa para se fazer nessa ocasião.
Meu corpo criou arcos que eu diria ser impossíveis até os mesmos serem feitos por mim. Comi folhas e acertei duas arvores até finalmente chegar ao chão e tudo ficar preto.
Não sei ao certo quanto tempo se passou até que acordei em um quarto, que logo conheci como padrão dos centros Pokémon. Minha barriga congelou. Meus pais já deveriam ter sido avisados a essa altura do campeonato.
Mas essa preocupação logo se esvaiu quando junto ao Ranger que me jogou da ladeira um policial entrou no quarto. Ele era alto e negro, tinha uma barba grande e cheia. E com certeza não parecia feliz.
Coloquei a mão na cabeça e percebi que havia um curativo na minha testa, senti uma leve pontada quando Tom começou a falar, – Elisa, esse é o policial Greg, ele gostaria de fazer umas perguntas a você caso já se sinta bem para fazê-lo.
Pensei em brigar porque ele não lembrava meu nome, mas comecei a sentir que havia sido atropelada por uma manada de Amoonguss, – há quanto tempo estou aqui? – Quis saber antes de qualquer coisa.
— Cerca de umas duas horas, você não se machucou muito na verdade, só um corte na... – Tom, ergueu a mão e tocou a própria testa indicando o machucado que eu já sabia que existia.
Me sentei na cama devagar e estendi o braço dando sinal de que eles poderiam se sentar nas duas poltronas ali despostas, – Elisa, descobrimos que você portava o Pokedex de outra pessoa, – disse ele pegando um papel do bolso e erguendo na altura dos próprios olhos, – Jaden, você o conhece? Por que tem o Pokedex dele?
– Ele me deu antes de seguir a jornada, – contei-lhes então a verdade, não havia motivo para mentir, mesmo que não estivesse pensando em revelar quem eu realmente era, – a professora Juniper lhe deu um Pokedex novo... Nationaldex na verdade.
O policial balançou a cabeça como que afirmando e prosseguiu, – por que desobedeceu a ordem de um Ranger de se portar a ele quando solicitada?
Franzi o cenho e alterei minha voz por impulso, – o que? – Meu humor passou de levemente “confusa e envergonhada”, para “vou te estrangular seu Ranger maldito, empurrador de garotas indefesas”. – Se não fosse por ele eu estaria bem, não me reportei a ele, – disse a ultima frase com um tom forte de sarcasmo, – porque imaginei que ele estivesse dando em cima de mim.
Ele gargalhou alto fazendo meu sangue ferver, – não me venha com essa. Você mandou seu Leafeon se esfregar em mim só pra ter uma desculpa pra vir falar comigo.
Me levantei da cama em um salto e soe tão reparei que meu cabelo estava solto e grandemente volumoso. Ergui meu dedo apontando para a cara dele e gritei, – então admite que estava dando em cima de mim?
— Sua louca, você queria, – ele esbravejou de volta.
O policial se levantou e balançou a cabeça negativamente, – aparentemente não tem nenhum caso policial aqui, resolvam seu namoro sozinhos, – pediu ele fazendo nos dois corarmos, antes de sair do quarto.
— Ele não é meu namorado, – informei a Greg que simplesmente moveu a mão, esnobando meu comentário. Assim que ele fechou a porta atrás dele eu gritei pra Tom, – onde esta Leaf?
Ele apontou para mesa onde minha bolsa estava e do lado dela havia uma Pokeball, – ali – ele respondeu com uma voz preguiçosa.
— E só pra constar, meu nome é Haila.
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